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   > APENAS UMA LIÇÃO



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      CRôNICAS

APENAS UMA LIÇÃO

           Duas respeitáveis vizinhas e amigas decidiam tudo sobre os eventos do bairro da Boiadeira, naquela pequenina cidade interiorana. Com o progresso, eis os condomínios de luxo. No condomínio em que moravam, Dona Carmelis era a síndica por muito tempo e Dona Ivonez sua parceira de todas as labutas. Carmelis e Ivonez   conseguiam contar com muitos benefícios para todos os moradores.
           Eis que chega naquele condomínio uma moradora nova, Rynil. Carmelis sempre prestativa  se manifesta em apresentação, funcionamento e organização do condomínio deixando a nova moradora bem à vontade. Rynil, logo fica admirada com o poder de administração de Carmelis e como ela conseguia envolver a todos,  às vezes para angariar fundos convidava outros moradores do condomínio vizinho e era um evento bem lucrativo para o Solar dos Prazeres.
             Rynil após ambientada, começa a sentir inveja da amizade das vizinhas Carmelis e Ivonez e o poder de liderança de Carmelis.  Ela que nunca cultivara uma amiga tão fiel começa a pensar em como a amizade das duas poderia ser abalada.
           E logo  se vê fazendo cartas anônimas para os  esposos, moradores do condomínio,  insinuando que as duas vizinhas estavam envolvidas  num relacionamento homoerótico.   E isso foi como pólvora no condomínio.        Quem escreveu ninguém sabia... Mas a semente havia sido lançada. E onde   Carmelis passava as piadinhas aconteciam: _ “A sindicona” vem ai!  Quem diria, aquela carinha de santa! Qual o número do “sapato”?  O esposo de Carmelis agiu de forma surpreendente, amando-a  e confortando-a em todos os momentos.
       Já o Bem-te-vi, apelido do esposo de Dona Ivonez,  não teve a mesma reação,  para ele onde tem fumaça havia fogo. E  os quinze anos de amizade não foram suficientes  se desfizeram com um sopro anônimo.  E para surpresa de Carmelis, Ivonez tão amiga passa a evitá-la. Pois precisava preservar a reputação e o casamento. E em reunião secreta decidiram destitui-la do cargo de síndica, pois comprometia a reputação do lugar.
             O que mais machucou Carmelis foi perder a confiança e  amizade dos vizinhos. Ela não era lésbica, mas e se fosse? Teria que ser jogada numa fogueira?!!!  Como as pessoas eram preconceituosas e ingratas.   Decide morar no condomínio vizinho a convite para assumir o cargo de síndica na nova morada.   Rynil, na antiga morada  assumiu a liderança do  Solar dos Prazeres.
          Os moradores vizinhos ficaram cientes na primeira reunião sob a liderança da síndica Carmelis sobre o real motivo da sua troca de residência, pois ela fizera questão de avisar,  já prevendo novos ataques. Deram-lhe o maior apoio.   O antigo síndico brinca:
         _ Mesmo que você decida mudar a sua opção sexual, não temos nada com isso, portanto seja bem-vinda! Administre bem aqui porque sua vida pessoal não nos interessa! Mas não cante a minha mulher, certo?
     Provocando risos em todos os presentes, inclusive em Minut, esposo de Carmelis. E o condomínio administrado por Carmelis começa a prosperar enquanto o Solar dos Prazeres as dívidas  aumentam e os problemas crescem. Fato que deixou a inexperiente e invejosa Rynil desesperada. E logo se vê  ligando para Carmelis pedindo desculpas e assumindo a autoria das cartas anônimas, para pedi-la que volte para o antigo posto.
       Como Carmelis já havia desconfiado, aceita encontrar-se  no terraço, pois assim não seriam interrompidas,  pediu a presença dos seus dois grandes amigos: Ivonez e seu esposo Bem-te-vi.
        Rynil  não pensou duas vezes e convocou uma reunião no terraço do Solar dos Prazeres. Pois achava  que se os condôminos  fossem,  poderiam convencê-la a retornar... Pois todos queriam a volta da competência de Carmelis para que o prédio pudesse voltar a prosperar.
         Carmelis em companhia de Minut e Sacha, sua filhinha de 8 anos,  esperava encontrar apenas o casal de amigos que havia lhe virado às costas e  fica surpresa quando sobe com um travesseiro embaixo do braço e encontra aquele grupo que praticamente lhe enxotou do seu lar. Em silêncio, deixa Rynil conduzir:
         _Gente, eu convidei vocês aqui para publicamente pedir desculpas a Carmelis.  Ela sempre foi uma boa administradora, esposa,  amiga e eu, eu que cheguei por último fiquei com ciúme da competência dela e  inventei e enviei cartas anônimas, foi apenas uma brincadeira, não pensei em prejudicar ninguém... Agora peço que ela fique conosco! E vamos apagar esse assunto!
        As pessoas trocaram olhares envergonhadas, pois no fundo todos sabiam a origem do mal, tanto tempo conhecendo aquela moradora e serem levadas por  uma semente estragada... Mas nenhum presente dá o braço a torcer, afinal, foram eles que adubaram a semente.  Apenas um deles cobra de Carmelis uma resposta.
        E Carmelis pergunta:_ O que queres  de mim? Que eu diga que estão todos desculpados? Pois estão, não tenho mágoa nenhuma, sabe por quê? Rynil já disse o porquê  me atacou.  Ela não me conhece, não é minha amiga, não convivia comigo... Ela é mais uma pessoa invejosa que cruza o nosso caminho. E vocês? Por que me acusaram? Por que viraram às costas me conhecendo por tanto tempo? Ontem fui eu e amanhã será qualquer um de vocês, pois a pior doença que o ser humano pode contrair  é  aquela que destrói a alma.  A inveja destrói a alma com todos os sentimentos: o amor, o respeito, solidariedade, fraternidade, amizade... E vocês apoiaram um ato invejoso!
        Enquanto Carmelis dizia com as lágrimas descendo, todos os presentes passam a refletir constrangidos sobre as próprias atitudes. E ela finaliza:
       _  Eu convidei  meus dois amigos Ivonez e Bem-ti-vi, pois a eles eu  gostaria de ensinar apenas uma lição sobre o que fizeram comigo...Vocês, (olhando para  os presentes)  não são meus amigos, e não devo nenhuma satisfação da minha vida. Sabe por quê? Amigo é quem a gente cativa e é cativado,  amigos se respeitam.  Estão vendo esse travesseiro aqui? Veja o que é a maldade! E de uma sacola ela retira uma tesoura e rasga o travesseiro de penas no alto daquele terraço espalhando-as ao vento...
        Quando praticamos o mal ele se espalha como essas penas soltas ao vento... Quando você  Rynil,  conseguir resgatá-las todas e colocá-las de volta nesse mesmo travesseiro sem nenhuma marca você saberá o quão é insignificante  fazer o mal e pedir desculpas.
Abraçada com a família ela desaparece no elevador, diante de uma plateia  emocionada e atônita, coberta de penas...
Ao longe ainda ouve um canto destoado do  amigo Bem-ti-vi seguido de uma sonora gargalhada de Ivonez...
     _Vai, sindicona!
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Bahia/2013
 



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