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   > SERENA



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      CONTOS

SERENA

       Aquela mulher tinha uma coisa que não combinava.  Seu nome sugeria algo que ela não era.  Ela era uma mulher totalmente estabanada. Trocava nomes dos colegas, modelos de carros, endereços... Até as cores  poderiam  ser substituídas, afinal para Serena não valia a pena guardar na memória coisas sem grandes importâncias.  Onde ficariam as coisas valiosas que  deveriam ser preservadas?
       Aos trinta anos de idade  estava de bem com a vida. Solteira, independente financeiramente, férias sempre planejadas... Quando organizava ir para o Rio de Janeiro, às vésperas mudava de idéia e ia para Amazônia . Naquele ano não teria alteração de rota,  iria finalmente conhecer as  Cataratas do Iguaçu. E não é que uma semana antes Serena mudou todo o roteiro?
        Dessa vez conheceria o Poço Encantado e uma série de cachoeiras na Chapada Diamantina, na Bahia. Quem tentasse entender Serena, não conseguia. Pois nem ela mesma tinha uma explicação  para os seus atos desastrosos.  No escritório no qual  trabalhava ela conseguia saber onde guardava os documentos, bastava  um pouquinho de paciência...
­     _ Calma, chefe!  Levo agora para o senhor assinar... Estava aqui agora em cima da mesa, na pasta azul, já estou indo!
     E assim que desliga o interfone  corre para as  vinte e cinco pastas azuis a procura do tal documento importante. Isso após se lembrar que “esse”  foi colocado na pasta com etiqueta “urgente”. Boa lembrança!   Iria reduzir a procura pois apenas nove pastas tinham a mesma etiqueta... Essa era a Serena. Falar que aquela mulher vivia pagando mico, era pouco para o desequilíbrio que era a sua vida.  “Gorila” era  o nome correto para os “fora” dados.
      E quando entrou no carro errado e foi  dando bronca no “amigo” por ter chegado mais cedo? Já invadiu o banheiro masculino por displicência e vermelha balbucia um “ desculpa”. Serena  ao flagrar o “namorado” de costas sentando com uma garota no Shopping,  agarra-o por trás e tasca um beijo no pescoço... Diante de uma moça furiosa que berra:
     _ Amarildo, o que isso significa?! Quem é essa mulher?!
     _Desculpe-me! Pensei que era o meu... 
     Serena é um verdadeiro furação em forma de mulher. 
  Pensava que  jamais se casaria pois nenhum homem teria paciência com aquela “bomba relógio” ambulante. Viver com Serena era ter a certeza de que o tédio não existiria. Pois a jovem nem bem saía de uma encrenca, entrava em outra  pior. Muitos namorados depois de algum tempinho nem  o celular atendiam. E Serena continuava serena.
     Na semana de ir para Chapada Diamantina o atual namorado  a dispensou, dizendo que aquele programa não era para ele, pois o combinado era  o passeio nas Cataratas do Iguaçu .  A amizade continuava, mas “bye-bye.”
     Aquilo não incomodou Serena, assim teria uma cama gigantesca e um banheiro sem precisar dividi-los com ninguém. Claro, tinha o lado negativo, quem iria fazer um cafuné? Quem  esquentaria as suas noites? Logo nesta viagem que Serena havia resolvido engravidar ou tentar, pois aos trinta anos não queria deixar para depois .
     Serena não imaginava que a Chapada Diamantina tem as suas surpresas, além da beleza natural.   Na mesma noite em que se hospeda  num belo hotel, percebe que chama a atenção, afinal era a única mulher desacompanhada naquele local.  Escolhe um cantinho para apreciar o lugar e observar os freqüentadores. Um senhor chama-lhe a atenção. Mesmo acompanhado de  uma bela mulher  mais jovem, percebia que ele não estava nada contente com aquela viagem . Passa a imaginar qual a relação daquele casal,  o porquê do descontentamento...  E  ao perceber que era observado, o senhor retribui o olhar  com um sorriso displicente e convidativo,  constrangida ao ser notada, baixa as vistas e vasculha distraidamente a carteira...
     Serena se surpreende ao receber do garçom um bilhetinho com um número de telefone do quarto e a pergunta: “Não gosta de dinheiro?”  Aquilo a deixou  mais envergonhada. Estava sendo confundida com uma mulher de programa. Nunca fora tímida, mas aquela dedução do senhor lhe desconcertou.  Provavelmente era aquele seu jeito de mulher de bem com a vida, morena, alta, agradável, uma mulher feliz e  satisfeita com as conquistas. E isso lhe dava um ar de prazer, visto do outro lado como “ disponível”.
Naquele momento resolveu dar uma lição naquele senhor, provavelmente um estrangeiro, pelo  vermelhão da pele branca, devido a exposição solar. Guarda o endereço, sorri e concorda com um gesto. Em seguida vai para o próprio quarto. Ele que ficaria a noite toda a sua espera... Toma banho, sem se preocupar em se vestir deita na penumbra.,.  algumas taças de vinho,  uma sonolência o corpo não resiste, adormece.  Não percebe quando o senhor entrou em seu quarto, uma vez que ela não apareceu, mas concordou que ele a procurasse. O garçom era a testemunha daquele gesto e com uma boa gorjeta,  acesso livre.
Ele tentou lhe falar algo sobre o dinheiro, mas ela não deu nenhuma chance de prossegui-lo, entre os sonhos e realidade namoram a noite toda. Serena não se policia, entrega-se completamente.  O pai do seu filho tinha a cara daquele estrangeiro que ela deixara com cara de bobo à sua espera. Qual o nome daquele homem?  Incrível! O sonho que não terminava... Eles  não se falavam, sussurravam palavras desconexas. Incansáveis? Não! Satisfeitos permanecem agarrados...
     Serena acorda quase onze horas da manhã, surpresa pois não era de costume dormir tanto. Lençóis pelo chão,  almofadas espalhadas, sua cama numa total desordem. Volta a pensar no sonho que agitou a sua noite, dali em diante  diminuiria o vinho. De repente, algo lhe chama a atenção em cima da cômoda.
     Havia junto com o número que recebera do garçom, uma nota de cem reais  com um bilhetinho:
     “_ Gostei da recepção. Ah, esse dinheiro é seu ...Replay?!”
     Furiosa, Serena desperta de uma vez.  Não quer saber  o conteúdo do bilhete, toma um banho  rápido, pega o dinheiro e o bilhete e corre para o quarto anotado.  Com a certeza de que  ele estava a sua espera, ela  invade o local, sem bater na porta,  aos gritos:
     _ Quem o senhor pensa que é para me tratar desse jeito?
      O casal que estava namorando se assusta com a presença daquela mulher, olha para aquele furação sem nada entender...
     _ Oh, Desculpe! Desculpe! __ Mesmo envergonhada, reconhece a jovem que acompanhara o senhor na noite anterior,  e dispara:
     _ Enquanto você fica traindo seu marido com esse homem mais novo, ele dormiu comigo essa noite! Comigo, SERENA! Entendeu? E dê para ele esse dinheiro, mande ele comprar outra pois não estou à venda!
     E some, jogando em cima da cama uma nota amassada de cem reais, enquanto os jovens trocam olhares e caem na risada.
     _Agora entendi qual o furação  atingiu meu pai! É a mesma que te falei do restaurante que deixou cair cem reais da carteira ...
     _Ainda bem que ele só volta à noite... Essa  não é nada serena!
     Enquanto num apartamento bem próximo, encontrava-se uma mulher furiosa, arrumando as malas e saindo às pressas daquele hotel. Ao chegar na recepção ...
     _ Idiota! Além de estragar o meu passeio,  fez eu perder cem reais! Mas voltar para procurar, eu não volto!  Fecha a conta e  voa para Foz do Iguaçu, enquanto no chão jaz um bilhetinho amassado ...”que você deixou cair, ontem.”
 
 
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               Um final de semana sereno para todos meus leitores!


Disponível no  blog "toque poético: semeando a literatura das margens", dando os créditos ao site da Protexto, claro!



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