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   > Sarará (Maldade)



David Asimad
      CONTOS

Sarará (Maldade)

Ela subia a viela atulhada de bagulhos, jogando o bagaço pelo caminho onde passava. Descascava a laranja com a unha e limpava o caldo que escorria na barra da saia curta. Andava descalça, sem se importar com o lugar que pisava, mas ia rebolando, quase dançando, e por pouco despida de seus panos: a saia era mesmo do tamanho da vestidura de baixo, e a curtíssima blusa estava amarrada à altura do peito pelo nó grosseiro: singela vadia subindo o morro.
 
O sol das três maltratava ainda mais o cabelo de Sarará. Era alta e magrela, o cabelo ensebado fazia jus ao apelido, e a pele pálida estava escurecida pelo sol. Apesar do gingado dançante seus olhos estavam vermelhos, e o caldo da laranja esmagada entre os dedos molhava seu rosto quando ela enxugava as lágrimas. Pensava em Luma: a cadela dera à luz poucas horas antes. Luma quase morrera durante o parto, e a cadela comera os filhotes recém-nascidos.
 
Sarará acabara de verificar isso, e estava abalada. Tinha ficado estagnada, olhando para os restos mortais envoltos em poça de sangue e a cachorra mastigando a carne dos dois filhotes. Aí viera sua mãe, que prendera a canibal e jogara água no chão ensangüentado, depois brigara com a rapariga:
 
- Vai ficar aí parada feito estáuta? Porque não pega os osso e enterra logo?
 
Assim fizera Sarará, logo depois lavara a mão e pegara a laranja na bacia. Escolhera a menos podre, então saíra antes que a mãe começasse implicar com ela: os restos enterrados no fundo do quintal, a moça subindo os becos e os bagaços e sementes deixados pra trás.
 
Todo mundo a cumprimentava; ela acenava para o alto dos terraços: quem não conhecia Sarará?
 
Agora estava preocupada. Quando acordara pela manhã sabia o que teria que fazer de mais importante naquele dia, e só esperara a mãe ir para a casa da vizinha, antes do almoço, para tomar a atitude. O primo morava com a esposa no quarto de cima, e Sarará subiu a escada certa que a mulher não estaria lá: o primo estava sentado em cima da cama revirada, jogando videogame no volume alto. Ele não ficou surpreso de
vê-la, e sentou pro lado pra ela deitar e abrir as pernas.
 
- Acho que tô prenha. 
 
Ela não saíra do lugar, estava tensa. O primo ficou com o olho parado na cara dela, aquela expressão vagabunda na tez.
 
- E eu com isso?
 
- O filho é teu, cachorro!
 
Ele deixou o jogo de lado e se levantou, deu um passo adiante:
 
- Quem disse? Com quantos caras você sai por dia?
 
Sarará ficou irada, e avançou no cafajeste gritando e batendo, conseguiu agarrar seu pescoço, mas ela era menina mirrada, e ele conseguiu a segurar.
 
- Eu vou contar pra tua mulher, miserável!
 
Ela sentiu a mão pesada do primo entrar na sua cara e foi empurrada pra fora do quarto, se não tivesse se segurado teria caído do terraço:
 
- Conte se quiser morrer, vadia!
 
E a porta do quarto bateu na sua cara.
 
 
 
 
A cachorra comera os próprios filhotes: que desgraça. Sarará ficara olhando espantada, sem conseguir se mexer. Que aberração da natureza era a cadela?! Seria a criatura capaz de comer um bebê?
 
Aí apareceu a sua mãe e ela saiu.
 
 
 
 
Quando Sarará chegou ao alto do morro não chorava mais, apenas odiava. Sentia aquela vontade incisiva de mandar matar o primo. Sentimento de vingança. Não era seu primo: era um inseto nojento. Aproveitador. Queria falar com Manjado, o chefe do morro.
 
Perguntou por ele: indicaram-lhe um barracão e ela foi até lá, mas quando entrou Sarará hesitava, o chefe da quadrilha fumava com outros dois colegas. Encararam Sarará, e nesse momento ela se arrependeu de ter ido até ali. Manjado se colocou de pé junto com os outros e deu um passo à frente:
 
- Que você quer, menina?
 
Ela olhou para os outros; Manjado fez sinal pra que saíssem, e quando estavam a sós ele segurou a sua mão com um olhar malicioso:
 
- Veio me ver?
 
Sarará hesitava, não tinha mais certeza se queria fazer aquilo. Estivera nervosa, por isso tivera aqueles pensamentos sombrios, mas não imaginava como teria o rebento sozinha, e agora já estava na toca do lobo. Então era isso mesmo o que teria que fazer. Ela baixou a cabeça e semicerrou os olhos:
 
- É que eu tô prenha – Pensou na reação do primo e como o odiava nesse momento. O outro largou a sua mão e a encarou mais uma vez:
 
- O que você quer que eu faça?! Quem é o pai?
 
- Você.
 
Ela estava de cabeça baixa e olhos fechados, não sabia se tinha falado a coisa certa para o ficante. Sarará ficava com ele às sextas-feiras. Como o outro não dissesse nada ela levantou sua cabeça para encará-lo e mal pôde dizer “ai” quando sentiu a bofetada de sua mão grossa e caiu no chão de cimento.
 
- Não quero te ver aqui nunca mais, ouviu cadela?
 
Sarará foi arrastada pra fora pelos capangas do outro e jogada lá fora. Porque acreditara que com esse seria diferente? Era igual o primo: era homem e era cafajeste miserável. Não adiantava chorar, já estava com a coisa na barriga. Bem que poderia mesmo ser uma cadela: a sua comera os filhotes. Criaturas desprezíveis: a cachorra e os homens.  Desejava vingança. Retaliação.
 
Sarará descia o morro: os olhos vermelhos de ódio e lágrimas. Odiava todo mundo. Agora descia os mesmos becos apertados que subira pensando na estúpida barriga que teria dali a alguns meses. O que faria depois que aquilo nascesse? Talvez doasse para alguém.
 
Tinha uma escadaria estreita e enorme, mas Sarará não viu a barra de ferro do antigo corrimão atravessada no degrau, então, quando pisou, seu pé encontrou o empecilho e a prenha despencou escada abaixo, rolando, rolando e parou lá embaixo, com todos os ossos e carnes doendo.
 
Ela não conseguia se mexer e nem gritar. Tinha caído de barriga pra cima e olhava um pedaço do céu azul por entre a fresta de dois telhados que quase se encontravam. Gemia baixinho, mas seus grunhidos não iam além de seus ouvidos. Uma lágrima brotou e escorreu, a dor aumentava, aumentava, e Sarará pensou que ia morrer. Sentia a barriga latejando e algo escorrendo pelas suas pernas. Com muito esforço conseguiu se apoiar nos cotovelos e levantar a cabeça: estava sangrando. O bebê! Estava perdendo o bebê!
 
Sarará se deixou cair pra trás mais uma vez: maldição! Ou seria uma benção? Droga! Estava doendo muito, e ela fechou os olhos para morrer mais rápido.
 
Ouviu passos correndo, descendo a escada:
 
- Ei! Ei! Sarará, você ta bem?
 
Era a voz do Preto-grilo. Ela o sentiu a pegando pelos braços e batendo em seu rosto. Quando abriu os olhos, viu a cara do preto magrelo olhando assustado para seu corpo que sangrava:
 
- Que aconteceu, caiu da escada? Você ta sangrando!
 
Ela balançou a cabeça que sim, o corpo mole e a barriga queimando por dentro. Sarará começou chorar outra vez, apenas as lágrimas silenciosas escorrendo, ela conseguiu dizer baixinho para o Preto-grilo, a voz quase desaparecendo:
 
- Preto... Nosso filho... Seu filho...
 
Ele olhou o sangue que escorria e manchava a saia da moribunda, olhou a face branca de Sarará:
 
- Mas... Você... tava... grávida?...
 
Ela balançou a cabeça, e nesse movimento pendeu para trás e perdeu os sentidos. Pobre Sarará: agora havia uma alma no céu.
 
 
 
Já era tarde da noite quando ela descia as vielas apertadas para chegar em casa. Estava com outra roupa, pegada emprestada, mas sua barriga ainda doía um pouco. Preto-grilo a carregara para sua casa e ela estivera lá até a pouco, se recuperando. Tomara banho frio e comera qualquer coisa quando acordara, agora estava com uma roupa de Kamyla, irmã do preto. Quando chegou em casa Sarará estava cansada, por isso lavou os pés descalços e foi para o quarto, sua mãe já estava dormindo na cama ao lado, e não demorou pra ela também pegar no sono. Ventava frio, e Sarará sonhou que era um anjo. 
 
Mas o preto não se conformava, e no dia seguinte estava sentado no terraço roendo a unha e cortando com o canivete. Sonhara com o filho morto: esse era um desejo seu de muito tempo – ter um filho – e quando poderia tê-lo o destino lhe roubou. Mas a culpa não era do destino, era de Sarará: Porque a mal-amada não dissera antes que teria um filho seu?
 
Sabia que se tivesse um filho mudaria de vida, era a única esperança de sair daquela miséria. Já pensara em roubar, ou adotar um, mas daria encrenca, e não queria confusão com a polícia. Tudo precisava ser feito com cautela, e um filho seria ideal. Podia vender o menino e dizer que tinha morrido: preferia que fosse menino, achava que menina era mais difícil de achar comprador. Ou seria bobagem? Que importa: tudo
que queria era ficar rico, assim nunca mais teria que negociar aquele pó maldito. Mas agora a criança estava morta. Quem compraria uma criança morta? Não havia sequer corpo, apenas sangue.
 
Preto-grilo arquitetava um plano, seu olhar se estendia para o horizonte. Lá adiante, bem depois daqueles desastres de construções havia prédios riquíssimos, e um dia moraria num daqueles; jurava. Mas para conseguir tinha que se colocar em ação, precisava fazer negócios. Se levantou da cadeira e foi até o quarto, colocou uma camisa, calçou chinelo e jogou perfume atrás da orelha. Queria ficar rico; tinha que fazer um filho. Esperança. E ele foi consolar Sarará.


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