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   > Gradação da Abertura da Percepção da Verdade



Margarete Ribeiro Salomão
      PENSAMENTOS

Gradação da Abertura da Percepção da Verdade

Gradação da Abertura da Percepção da Verdade
         “A nossa abertura da percepção da verdade não é sempre progressiva. Há retrocessos. Estamos no mais baixo índice de abertura perceptiva da Verdadeira Realidade.”
          Nossa percepção da realidade sutil, não perecível, multidimensionalmente, abaixo das aparências físicas, acontecerá quando nos esvaziarmos de medos e desejos. Trata-se de um sistema que se “retroalimenta”. Pois ao atingi-la, a saciedade resultante de seu encontro em nós irá aplacar nosso anseio de preenchimento. Pela primeira vez, compreenderemos a plenitude que verdadeiramente somos: esvaziamento de medos e desejos. Ou seja, cada passo que damos em direção à verdade, sentimos como se ela nos puxasse com multiplicada força de atração.
         Todavia, nossos pedidos e súplicas traduzem nossa não compreensão da Verdadeira Realidade. Estamos numa fase de retrocesso de nossa abertura perceptiva da verdade. Regredimos em relação aos primórdios da humanidade, quando tínhamos de nós uma percepção tribal. O advento da agricultura permitiu repouso ao nosso nomadismo primitivo. Então começamos a dispor de segurança para nos afastar do grupo e começamos a nos conhecer como indivíduos separados do grupo. A tranquilidade nos permitiu contemplar a natureza e pudemos perceber sua tamanha engenhosidade.  Pela primeira vez, atribuímos tão grande inteligência à existência de um comando exterior, de fora, vindo do céu. E passamos a nos sentir frágeis e indefesos, por contarmos cada vez menos com a força da nossa união. Pois passamos a contar com possíveis privilégios individualistas, valendo-nos de bajulações e súplicas Àquele Comando Superior. Ainda hoje, encontramo-nos separados e cada vez mais solitários e soberbos, a contarmos com ações privilegiadoras, vindas do “longínquo e paradisíaco céu”. Ainda nos encontramos neste estágio retrógrado de percepção de Nossa Unificação. Ainda não podemos perceber a nossa interconexão com todos. Ainda nos sentimos separados, indefesos e carentes de proteção.
          A fase de autopercepção tribal da humanidade foi responsável pela nossa instalação planetária, como espécie dominante. Mas ainda não demos o segundo passo. Ao contrário, regredimos.  Passamos a agredir os membros da nossa própria espécie. Passamos a invejar a roça mais promissora. Passamos a matar os animais dos vizinhos por invadirem a nossa plantação. Ainda hoje, invejamos o artesão de maior criatividade. Continua sendo nosso objetivo a obtenção da proteção para as nossas questões individualistas e separatistas. Sobretudo ainda julgamos necessárias bajulações e súplicas por privilégios a um deus exterior, habitante das lonjuras siderais.
          A certeza de ser a Realidade Verdadeira, nos leva a nada temer ou desejar. Aceitamos tudo com resiliência: ficamos tranquilos diante das maiores adversidades.  Então nossos sentimentos, como aqueles de alegria ou como aqueles de tristeza, reassumirão a profundidade original, porque nos livraremos do entorpecimento imposto pelo desequilíbrio egocêntrico. Mas, ao mesmo tempo, os saberemos decorrentes da impressão de veracidade da nossa experiência de limitação na matéria.
         Fé é o sentimento resultante da nossa percepção da Realidade Verdadeira. Todavia, a nossa aceitação do agora, sem nenhuma escolha, decorrerá de nossa compreensão de que o descortinar do agora contenha a limitação contrastante e reveladora da Verdadeira Essência, a vida única. Desapegados de expectativas por resultados, perceberemos a Verdadeira Realidade -- aceitaremos o momento presente, sem o envolvimento de nenhuma escolha. 
          O despertar da inconsciência de nós mesmos não envolve nenhum fenômeno sensorial, o qual seria apenas uma projeção cerebral. O cérebro não toma parte no despertar para Nossa Verdade. Ele apenas compreende a complexidade que envolve nossa construção egocêntrica. É assim que nos libertaremos de desejos, de medos e de qualquer tentativa de deter o controle Daquilo-que-é. Mas nossa plena aceitação Daquilo-que-é, somente acontecerá quando compreendermos que todas as situações de vida sejam apenas diferentes meios contrastantes e reveladores da Plenitude Essencial. A Plenitude que verdadeiramente somos somente pode se desvelar para nós, bem ao fundo de todos os dramas da vida na matéria. Por ser plena, Ela não possui objetivo algum: nunca houve um objetivo a ser atingido.  Nossa consciência de não haver um objetivo a ser atingido nos libertará da idealização de nós mesmos! É assim que nos permitiremos simplesmente ser.
          Na Bíblia, está escrito em Gênesis, que após a criação do mundo, Deus olhou para ele e o achou bom. Ou seja, nunca houve um objetivo. Apenas é bom quando nos vemos em nossa unificação grandiosa, no meio de contraste, representado pela limitação da matéria. Mas isso somente acontece quando, por breves instantes, livramo-nos da pequenez resultante do julgamento separador do bem e do mal em nós e à nossa volta. Portanto, seremos plenos novamente, quando descobrirmos que nunca houve o êxito pessoal, ou a culpa individual, porque nunca agimos sozinhos: sofremos influências e geramos outras. Assim culminamos em erros ou em acertos. Ao chegarmos a esse entendimento, ficaremos novamente tão silenciosos quanto o fomos, no ventre materno. O conhecimento da verdade nos levará a abdicar do julgamento separador do bem e do mal: silêncio!
          O silêncio mental decorrente da nossa abdicação do julgamento separador do bem e do mal em nós e à nossa volta é o “nascer de novo”, referido por Jesus, em João (3:3): “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.”  Ou seja, conheceremos a plenitude que somos verdadeiramente e nos libertaremos de medos e de desejos, quando retornarmos à inocência não julgadora, anterior ao nosso nascimento. É esse o sentido da expressão bíblica “nascer de novo”. Pois nada temeremos ou desejaremos, quando nos livrarmos de expectativas. Então nossa calma se refletirá em nossa linguagem, a qual se tornará pausada de silêncios reveladores da Presença Verdadeira, em nós e à nossa volta.
          A nossa sistemática análise julgadora cerebral é separadora e nos prende ao passado, ao utilizar dados já consolidados, posteriores ao instante zero da respectiva ocorrência. Assim nos impede de presenciar a própria vida, que é o agora, e que também é Deus. A partir daqui, já podemos saber que tudo o que acontece à nossa volta é apenas reflexo dos equívocos e irrealidades criados pela nossa divagação, meramente maquinal e cerebral. Aquilo que é real existirá para sempre, porque não depende do tempo para existir. Quando nada do que vemos à nossa volta estiver mais aqui, restará o plácido, infinito e atemporal agora: o “Nada-cuja-capacidade-criativa-é-infinita”, no sentido de ser imaterial a nossa essência genuína. Ou seja, nós mesmos ainda estaremos aqui. 
          Ainda não podemos admitir que qualquer forma de privilégio, mesmo aquele solicitado a Deus, através de orações, em verdade, seja uma camuflagem para um tipo de prejuízo aos membros da nossa própria espécie. Como Deus poderia escolher beneficiar alguém em detrimento de outro, sendo o conceito de Deus justiça perfeita, onipresente, onipotente e onisciente? Ora, Deus não privilegiaria alguém, meramente porque essa pessoa se julgasse portadora de uma “fé” superior à dos demais. Na verdade, sabemos não se tratar de fé genuína, mas da pretensão egocêntrica de que pudéssemos ser portadores de um tipo de “dom de pedir” mais eficiente. Muitas pessoas foram induzidas a pensar que se tratasse de uma genuína fé, mas já podemos conceber tratar-se apenas da oscilação da “gangorra” egocêntrica. Quando então, em nossa passagem inevitável pelo ramo ascendente da dupla espiral do ego, sentimo-nos portadores da capacidade de conjurar poderes esotéricos.
          Ainda desconhecemos que nossas súplicas por proteção e por privilégios individualistas aumentem a separação em nós mesmos e entre nós e os demais mortais. Há 2.000 anos a humanidade condenou e crucificou Jesus de Nazaré. Desde então, já deveríamos saber que nossa impressão dos fatos é equivocada. Jesus volta ao mundo, a cada dia: Ele nasce em cada criança. Mas continuamos a crucificá-Lo em nossos iguais. Não existe um ser humano que não faça maledicência do próximo. Maldizemos inclusive o clima, embora não haja sequer um ser humano a presumir que o clima não seja da autoria de Deus. Somente no último século, o ser humano matou mais de cem milhões de pessoas, em guerras, atentados terroristas e assassinatos. Tamanha destrutividade ainda é acrescentada por outros inúmeros atos violentos, como assaltos, torturas, calúnias, enganações, perseguições, e muitas outras atrocidades cometidas pelo homem contra os seus semelhantes e contra os animais, culminando na cruel destruição deste planeta.
          A minoria situada na cúpula do domínio planetário detém o conhecimento do nosso segredo: o medo de estar em risco de aniquilação, impresso em nosso Sistema Operacional de Separação e de Autonomia, ou ego.  Isso lhe garante a estratégia infalível, com a qual tem se mantido no domínio da imensidão populacional de todo um planeta, por todas as eras. Aqui, percebemos onde se encaixa o papel das inúmeras religiões distribuídas por toda a superfície terrestre, as quais são isentas de taxação tributária pelos governos. São inúmeras as religiões, mas todas contribuem para o mesmo objetivo de garantir a alta lucratividade do Sistema que se mantém na Dominância Planetária. São inúmeras para dar a falsa impressão de liberdade e de livre arbítrio, enquanto mantêm a imensa força da maioria populacional dividida, enfraquecida e submissa, a sustentarem uma minoria corrupta e gananciosa. 
        A humanidade ainda se encontra no estágio estreito de percepção da verdade. Pois jamais encontraremos fora, aquilo que se encontre somente dentro de nós mesmos. Ainda acreditamos num deus exterior, concessor de privilégios, solucionador de questões de origem egocêntrica, separador e contrário à Verdadeira Existência Una e Indivisível. Nossa crença infantil num deus egocêntrico decorre da impressão humana de separação e de autonomia. Infelizmente, essa é a crença que a minoria situada na cúpula do domínio planetário incita, através das religiões. Todas elas são dispensadas das arrecadações dos governos, pois mantêm a vasta humanidade inconsciente e facilmente dominável. Mas quando as pessoas, situadas no topo da "pirâmide", despertarem da inconsciência, descobrirão que obterão lucros infinitamente maiores através da união. Todos ou nenhum: Nova Era.
         Nascemos com a absurda expectativa de urgência no atendimento de nossas necessidades. A impossibilidade de satisfação da nossa absurda expectativa de atendimento sem esperas imprimiu em nosso Sistema Operacional a suspeita de determos um defeito e de sermos inviáveis. Isso nos imprimiu o constante medo de estar em risco de aniquilação, levando-nos a estar em constante busca de provas do nosso valor. Um dos modos de provarmos a nossa validade é nos transformarmos em salvadores, neste quesito estamos sempre “de plantão”. Entretanto, assim permanecemos girando dentro do mesmo circuito fechado e egocêntrico. 
        Todavia, quando percebermos o comando da Imagem Idealizada no estabelecimento do caos contemporâneo, desistiremos da falsidade de nos colocarmos como criaturas inofensivas e injustiçadas, em busca de um salvador que possa fazer tudo por nós. Deixaremos de nos alternar no papel do salvador “de plantão”, aquele que sabe a fórmula correta para a vida alheia, enquanto permanece inconsciente de si mesmo. Quando enxergarmos todo esse emaranhado no comando de nossa vida, ingressaremos num estágio um pouco mais avançado de abertura na percepção de nós mesmos. Deixaremos de ser medrosos e desistiremos de suplicar a um deus exterior e distante no céu as soluções de nossas pequenas questões egoístas. Seremos capazes de nos responsabilizar pelos equívocos geradores das intrincadas questões das nossas histórias de vida. Desse modo, diminuiremos o jugo da Imagem Idealizada sobre as nossas atitudes. Isso nos garantirá a distensão da nossa presença no agora. Pois, livres do nosso algoz idealizador de nós mesmos, manifestaremos aceitação com boa vontade a cada momento da nossa história de vida. 
        A partir daqui, começaremos a descortinar os motivos que impedem o ser humano de se orgulhar de si mesmo. Ao aprofundarmos um pouco mais a nossa percepção de nós mesmos, poderemos nos perguntar: “Por que os desastres ambientais e sociais diariamente vistos na televisão não nos deixam cheios de desespero?” Começaremos a compreender porque assistimos inertes às tragédias humanas da fome e da miséria, em sucessivas imagens nos noticiários televisivos. Então começaremos a perceber a existência do entorpecimento que nos mergulha numa felicidade ilusória, a qual esconde a realidade, representada pela desordem e pelos ecos da humanidade. Também começaremos a perceber um sentido sádico e cruel que se esconde no Inconsciente Coletivo, com o qual nos mantemos em sintonia, em consequência da separação promovida pelo nosso Algoz Idealizador de Nós Mesmos. Ao percebermos os paradoxos do mundo civilizado, poderemos compreender que eles decorram do nosso aprendizado perturbado, a partir da ignorância daqueles que se situam na liderança do mundo. Apesar de nossa formação acadêmica, permanecemos desconhecedores da nossa inerente condição contraditória humana. Tal clareza a nosso respeito descortinará o nosso Equívoco Idealizador de Nós Mesmos. Sobretudo é possível a afirmação de que nos reinventaremos a partir da conscientização sobre nós mesmos.
         Em todo o Globo Terrestre, já está se expandindo a abertura da perceptividade de Nossa Verdade  de seres interconectados pelo Elo Vital que nos une. Isso nos garantirá acesso à inteligência infinitamente maior, contida em nossa união. Nesse estágio avançado, nosso cérebro permanecerá em seu relevante papel de principal ferramenta na consolidação da instalação do nosso programa de separação e de autonomia.  Mas, a partir daqui, nossas ações serão motivadas pela percepção do Elo Vital Criativo a perfazer nossa comunhão. Ao atingirmos a dimensão mais abrangente da abertura da nossa percepção de nós mesmos, nos colocaremos esvaziados de medos e desejos egoístas. Pois compreenderemos que sempre fluímos com a vida -- nunca tendo havido o êxito individualista, ou a culpa pessoal.
        Esvaziados de medos, preocupações, desejos e súplicas infantis. Ou seja, esvaziados do Algoz Idealizador de Nós mesmos, alcançaremos presença em Nossa Verdade, e entraremos em sintonia com o Consciente Coletivo. Nessa dimensão de grande abertura da percepção da Nossa Verdade, teremos a compreensão de que a aceitação, a boa vontade e a coragem no enfrentamento das dificuldades que encontramos durante os desdobramentos de cada momento das nossas histórias de vida, garantem-nos a sintonia benéfica com o Consciente Coletivo. Ao assumirmos uma postura de aceitação ao presente, faremos alinhamento com as forças universais de abundância. Então alcançaremos a certeza de não haver nada a temer -- Plenitude. Ao percebermos a Nossa Interconexão, ficaremos esvaziados de desejos, de medos, e dos nossos habituais padrões egocêntricos congestionados de preocupações. Então desistiremos de qualquer expectativa a ser atingida. Ficaremos totalmente livres. Em paz, acessaremos nosso estado calmo e assertivo. É assim que atingiremos os melhores resultados para cada situação a ser enfrentada em nossas histórias de vida.
        Místicos, estudiosos da Bíblia, disseram que o grande milagre bíblico representado pela abertura de um caminho por entre as águas de um mar é apenas uma metáfora para o verdadeiro grande milagre. O verdadeiro milagre que libertará a humanidade do cativeiro imposto pelos nossos egos é a abertura da percepção da Nossa Verdade. Somente assim nos situaremos no comando de nossa história de vida: manteremos nosso ego em estado de equilíbrio. 
         Todo ser humano, ao nascer neste mundo, tem mesmo que ingressar no ego. Depois de algum tempo, décadas, à medida de experimentarmos os inevitáveis dissabores impostos pela imaturidade egocêntrica, seremos levados a testemunhar, dentro de nós, a existência do nosso algoz egocêntrico. Esse autoconhecimento nos levará a abertura da percepção da Nossa Verdade. Pois nossos egos, devidamente testemunhados, suspeitarão haver mais na vida do que a perseguição de desejos materialistas insaciáveis e do que a busca por proteção contra medos intermináveis. Em estado de entrega ao momento presente, desobrigados de um objetivo a ser atingido, livres de expectativas, nos permitiremos simplesmente ser. Então o esplendor de Nossa Verdade se desvelará para nós. Assim, através da nossa interconexão, iremos influenciar a todos os demais a também perceberem a Nossa Verdade, numa maravilhosa cascata que não terá fim. Então quando nos sintonizarmos com o silêncio e com a abundância cósmica, perceberemos que o universo nos acolhe: perceberemos como tudo está como deve ser.
          A maior revolução jamais vista é a que ocorre na alma humana em decorrência da abertura da percepção consciente no agora, ou iluminação espiritual. Ela nos permite saber que somos indestrutíveis e que existiremos sempre. É revolucionário, já que por deixarmos de temer o engodo representado pelo risco de aniquilação, advirá o saber de que podemos inclusive morrer por uma boa causa. Afinal, jamais deixaremos de estar aqui. A coragem é a característica mais marcante da essência amorosa e eterna que somos. Então quem poderá nos escravizar?  O despertar humano, em grande escala, irá transformar o mundo que conhecemos de forma jamais imaginada.
          Não poderíamos reconhecer a Plenitude que nos preenche e que nos forma, sem o meio de contraste representado pela ilusão de limitação material. Afinal, não podemos saber o que é Plenitude onde apenas Ela exista. Os corpos celestes longínquos, espalhados na imensidão sideral, são pontos de referência a nos permitirem conhecer as distâncias astronômicas entre eles. É assim que adquirimos a noção da grandeza da Existência Verdadeira que somos. Também a profundidade dos oceanos, a extensão dos céus entrecortada pelo voo das aves e pelo colorido das nuvens. Da mesma forma, os horizontes distantes contendo os imensos espaços entre eles. Tudo concorre para nos permitir imaginar a medida de grandeza da Verdadeira Potência Interconectada que é a nossa união indivisível de amor.
         Não saberíamos o que é luz, se somente ela existisse. Pois, para alguém saber o que é luz, precisa antes ter presenciado a sombra. Como saberíamos o que é o silêncio, se não houvesse o som? A nossa paixão pela música acontece, devido à nossa percepção da Presença Verdadeira Silenciosa a se revelar nas pausas entre as notas musicais. E se o tempo não passasse? Como alguém saberia o que significa a eternidade e a atemporalidade? A finitude da vida é o contraste que nos permite conhecer a Essência Atemporal que somos verdadeiramente. Como reconheceríamos a incondicionalidade do amor verdadeiro, onde não houvesse a discórdia? O nosso mundo repleto de conflitos é o maravilhoso meio de contraste, no qual a Consciência Infinita torna evidente a grandeza do Seu amor incondicional a tudo.
          A Lua Cheia, refletida na água, parece muito real, mas é apenas um reflexo da Lua no céu. Assim também, o nosso mundo parece ter realidade própria, mas é um reflexo projetado pela essência criadora que somos. É como se um programa de computador tivesse sido inserido na Consciência Infinita, Aquela que verdadeiramente somos. Então um tipo de realidade virtual, cuja concretude é meramente aparente e ilusória, permanece sendo projetada em cada um, por aqueles à nossa volta.
          A Essência Unificada, que genuinamente somos, é plena e complacente, nada desejando, repelindo ou temendo. Portanto, a Verdadeira Realidade não conhece em Si Mesma qualquer tipo de troca. Ela possui preenchimento total, não restando nenhum desnível, no qual fosse possível haver um tipo de necessidade ou permuta. Contudo, a limitação material nos permite desfrutar da dinâmica troca de papéis, nos quais ora somos os doadores, ora somos os receptores do amor e de todos os sentimentos que essa dinâmica troca nos confere. Todavia, em nossa aventura terrena, sentimo-nos medrosos e ao mesmo tempo fazedores. Sentimo-nos responsáveis pelo controle da vida. Não obstante tudo isso, já podemos saber que todos os dramas da vida humana se resumam a um mirabolante meio de contraste no qual a nossa plenitude se revela para nós: êxtase. Enquanto não formos capazes de nos abstrair da materialidade ilusória, para olharmos diretamente para a essência genuína e imaterial que nos constitui, manteremos a impressão de que a gradação do nosso sofrimento seja crescente. Mas, de fato, nada acontece: somente existe a plenitude, que é a vida única. 
         É impossível ao nosso cérebro pensar em algo que não conheçamos. Só podemos pensar em algo que tenhamos conhecido no passado, mesmo quando seja o segundo que acabou de acontecer. Nosso cérebro jamais encontrará o Novo -- o Novo se renova de momento a momento. Portanto, cada desdobrar do agora permanecerá sempre novo e jamais será nosso conhecido. Pois para conhecermos algo, analisamos o seu passado. Assim continuamos desconhecedores do agora. Apenas durante rápidos flashes, é possível nos deslumbrarmos profundamente com a rápida percepção de nossa presença no agora. Quando, por breves instantes, abstraímo-nos da sistemática análise cerebral e do contínuo julgamento separativo do bem e do mal em nós e à nossa volta. Ao termos a compreensão do significado de nossos flashes de presença no agora, permaneceremos calmos e assertivos, apesar do que aparente acontecer em nosso entorno. É assim que acionaremos a cascata que levará à expansão de nossa percepção consciente no agora.
          Disciplina, renúncia, cultivo de pretensas virtudes, seguimento de determinadas sequências de ritos cerimoniais, são processos do cérebro: nosso cérebro somente pode nos levar à repetição do passado conhecido. Por isso, a verdadeira segurança e a verdadeira paz, somente poderão ser encontradas quando o cérebro se colocar profunda e inteiramente silencioso. Mas esse silêncio não poderá ser conseguido por meio de sacrifício, sublimação ou repressão. Esse silêncio virá, apenas quando o cérebro deixar de buscá-Lo. Apenas quando nos libertarmos do "processo do vir a ser", experimentaremos o silêncio, sem nada desejar ou temer. Mas o Silêncio continuará desconhecido pelo cérebro, porque o cérebro o registrará como memória. Mas Ele é novo, de momento a momento, nunca se transformando em passado, ou em memória.
          O reconhecimento de nossas partes obscuras calará o nosso julgamento separador – então ficaremos silenciosos. Daremos uma pausa na contínua análise comparativa e armazenadora de memória. Pois ao reconhecermos em nós toda a multiplicidade de aspectos que nos compõem, ficaremos cheios de compreensão e de compaixão a nós mesmos e ao próximo. Iremos nos unificar a Tudo-que-é: plenitude. Nada a temer ou a desejar: presença integral no instante zero do Novo. Mas sem saber,  ao desejarmos dar continuidade à sensação de liberdade, experimentada nesse flash de presença no agora, o transformaremos numa lembrança, interpretada a partir dos condicionamentos da personalidade, ou ego. Então não mais estará presente a espontaneidade, resultante de nossa permeabilidade à percepção do brilho, do cheiro e de todo o som, presentes no instante zero.
          Ao falarmos, baseamo-nos em experiências passadas, as quais não têm realidade própria, pois são meras projeções de memória. Nossos arquivos de memória se misturam aos nossos equívocos inconscientes. Assim, deixam de corresponder aos fatos, tornando-se apenas projeções equivocadas e distorcidas. Portanto, a Verdadeira Realidade é inefável. Uma oração diligentemente repetida, ou um mantra iogue, não nos levará ao desconhecido: a Realidade Inefável não pode ser captada por nada do que fizermos.  Ela não possui objetivo algum e, portanto, não sofre a interferência de nossa vontade. Muito embora, a nossa impressão de determos o controle da vida continuamente acelere o ritmo incessante de nossos pensamentos -- por esta ótica, podemos entender porque uma oração contenha o dom de nos apaziguar. Afinal, quando oramos, acreditamos que a ajuda pedida já esteja a nos amparar. Então resgatamos o nosso estado calmo, assertivo e não julgador do bem e do mal. Por um curto momento! A duração é curta, porque a oração não envolve o devido esclarecimento das nossas partes obscuras. Através de nossas orações, não resgatamos a nossa integridade não julgadora -- nossa inocência, de quando ainda estávamos no ventre materno.
          Em Lucas, no Novo Testamento da Bíblia, Jesus afirmou a Nicodemos que, para conhecermos o “reino dos céus”, primeiro teremos de nascer de novo. Teremos de voltar a ser tão inocentes e tão sem julgamentos, quanto éramos quando ainda estávamos no ventre materno. Significa que, ao recuperarmos nossa inocência não julgadora do bem e do mal, será possível nos unificarmos. Inteiros, presenciaremos o instante zero, único tempo no qual a vida pulsa.  Contudo, em longo prazo, nossas orações contribuem para a idealização tirana de nós mesmos e daqueles à nossa volta, aumentando a severidade do nosso julgamento separador. Nesse caso, torna-se mais um fator contribuinte para o crescimento da inconsciência de nós mesmos. É a nossa estagnação inconsciente que nos envenena e que nos leva a virar um tipo de Frankenstein autodestruidor. O pior é que nos tornamos destruidores da capacidade que ainda tem este planeta de abrigar a vida. A única maneira de atingirmos o estado calmo e assertivo é pela repetida entrega ao Nada-que-é-tudo, sem expectativa alguma. Somente nos sabemos plenos, ao assumirmos o estado vazio. Pois, nesse estado, unificamo-nos a Tudo-que-é.
           Lao Tzu disse: “Quando o tipo mais elevado de pessoa ouve o Tao, tenta arduamente viver de acordo com ele. Quando o tipo medíocre ouve o Tao, parece estar consciente e, ainda assim, está inconsciente dele. Quando o tipo mais inferior ouve o Tao, irrompe numa sonora gargalhada: se ele não fosse digno de riso não seria o Tao.” Ou seja, segundo Lao Tzu, são basicamente três os níveis de gradação da abertura da perceptividade humana: 1º- Aqueles que transcenderam o cérebro, simplesmente por terem ido além do ego. 2º- Aqueles que não chegaram ao cérebro, por terem nascido com déficit cognitivo, sendo deficientes mentais. 3º- Aqueles que, por terem nascido com alto potencial intelectual, vivem no cérebro, sendo eruditos.
         O alto desenvolvimento intelectual dos eruditos lhes permite perceber que algo sutil esteja embutido nas palavras. Ou seja, eles conseguem suspeitar haver nas entrelinhas um sublime sentido, além do significado literal. Mas eles não podem compreender esse sentido abstrato, por se manterem presos ao raciocínio meramente cerebral. Estacionados no nível meramente intelectual, analisamos e denominamos tudo por categorias do tipo “isto e aquilo”: "isto é bom, aquilo é ruim", "isto é superior, aquilo é inferior", "isto é virtude, aquilo é pecado". Todavia, para atingirmos o estado de inteireza e de unidade, temos que transcender a análise cerebral. Para nos tornarmos um com todos, sem nenhuma exceção, unificando-nos, em nossa total inteireza no agora, temos que nos dissolver na realidade à nossa volta, sem nenhuma análise ou julgamento, sem nenhuma escolha.
          Uma pessoa nascida com déficit cognitivo, ou seja, com baixo potencial intelectual, não construirá um ego. Ela não chegará a se sentir no estado de separação: ela continuará com um sentimento de unidade. Ou seja, uma pessoa despojada da capacidade analítica cerebral não irá efetuar o julgamento separador, o qual nos fragmenta e nos deixa pretensiosamente distintos e separados. Ela tem uma inocência que nos encanta. Por isso, muitas vezes, podemos venerar um possuidor de déficit cognitivo como se ele fosse um sábio. Mas o contrário também pode acontecer: podemos achar que um sábio seja um idiota. Em um ponto, aquele que transcendeu o cérebro indo além do ego, assemelha-se àquele que não atingiu o potencial cerebral por ter nascido com déficit cognitivo: ambos não estão aprisionados pela sistemática análise cerebral. Portanto, ambos não se encontram divididos pela segregação promovida pela análise e pelo julgamento separativo do bem e do mal: ambos estão em estado unificado no agora.  Ambos dão risada ao ouvir falar da verdade. O primeiro, porque compreendeu a sutileza e a simplicidade Daquilo-que-é. O segundo, porque vive mergulhado na unidade e não pode compreendê-la: é a mesma situação do entendimento do que seja água para um peixe.
          O pretenso entendimento do erudito o faz se sentir separado e muito distante, num pedestal acima dos demais seres mortais, reforçando a separação dentro de si mesmo e à sua volta. Mas ele não percebe que o seu poder mental promove a divisão e o caos no mundo físico. Mas, em estado silencioso e alerta, podemos olhar à nossa volta com todo o nosso ser e não apenas com a nossa porção intelectual. Então a verdade se desvelará para nós e nunca seremos novamente o mesmo: é como se alguém passasse a perceber a luz, tendo antes vivido na escuridão.
          Não importando onde esteja uma pessoa desperta, ela sempre perceberá o chamado da Sutil e Verdadeira Realidade. Ela está sempre presente. Nós “A” percebemos, ou não. É espontâneo: não há um caminho a ser percorrido para atingi-La. Por isso, não é necessário seguirmos a um guru, ou a uma religião. Pois, venerações exteriores, apenas reforçam a cadeia que nos aprisiona no estágio de baixa percepção do Elo Vital, ou agora, a nos unir na vida única.                                                 
 


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