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   > O Largo da Ponte*



Airo Zamoner
      CONTOS

O Largo da Ponte*



A praça nunca tinha visto alguém tão revoltado como aquele ancião. Ele gesticulava alvoroçado. O rosto vermelho, como o sangue a inchar as veias do pescoço, assustava os transeuntes. Aos berros, expulsava toda a raiva que aflorava de um coração inconformado, de uma alma em guerra, de um corpo marcado pelo tempo, mas vazando energia.
E tudo aconteceu ali, na Praça Zacarias de minha velha e doce Curitiba. Os pombos, mansos como sempre e indiferentes a tudo o que faz diferença para nós, abandonaram em revoada o costumeiro passeio por entre as pernas apressadas de gente preocupada. Postaram-se de fronte ao museu, bem no início da Avenida Desembargador Westphalen. Lá ficaram enfileirados, olhos cheios de espanto, atentos para o que se passava nas proximidades do repuxo.
O velho dava passos para frente, depois para traz, para os lados. O dedo em riste, vociferando impropérios antigos. O engraxate aprendiz não entendia nada, mas achava divertido. Apertava a mão na boca banguela com medo que o riso atiçasse ainda mais o orador raivoso. Temia que sobrasse para ele algum respingo, obrigando-o a fugir, perdendo a féria do dia.
Encolhida, corpo dobrado, mãos plissadas, manchadas pela vida, tapando a face, soluços guinchados, lágrimas safando-se pelos dedos, Fidélia sentia medo. O mesmo pavor dos condenados na iminência do fim. Não ousava levantar o rosto para tentar se justificar. O velho Fidêncio nem olhava para a criatura humilhada, tão próxima a seus pés. Continuava seu discurso furibundo, ininteligível, que nada mais provocava além do riso zombeteiro da platéia.
Fidélia não ouvia o que Fidêncio falava. Penava sob o peso da consciência. No escuro do cubículo artificial cercado pelas mãos, o arrependimento grassava solto. Não conseguia entender porque aceitara o convite daquele estranho para sentar e conversar na beira do chafariz. Era bonito, aquele estranho. Atraiu-a irremediavelmente. Tinha olhos claros, um sorriso irresistível e falava coisas bonitas que Fidêncio não sabia dizer com tanta doçura. Só sabia berrar o tempo todo. Mas agora ele fazia isso em público e ela sentia uma vergonha profunda, avançando por todos seus ossos. Por que este maldito teve que aparecer ali na mesma hora?
A vergonha aumentava quando pensava em sua covardia. Nunca enfrentara Fidêncio. Nunca rebatera sua fala áspera com outra fala dura. Sempre abaixava a cabeça e se retraía. Aí, resolveu levantar-se de onde estava. Decidiu escancarar o rosto, enxugar as lágrimas. Fidêncio não merecia lágrima alguma, pensou. Esse velho nunca dera a ela o carinho que merecia. Bastava ver como o estranho era delicado com ela. Como era amoroso.
O contraste despertou uma coragem extraordinária. Caminhou até Fidêncio com passos firmes. Estava na hora de enfrentá-lo. Cutucou suas costas com a força da determinação feminina do século vinte e um. Fidêncio virou-se e exclamou surpreso:
– Querida! Que bom que você está aqui. Veja só o que fizeram! Acabaram com o Largo da Ponte e sumiram com o mercado! Estou fulo da vida!

Airo Zamoner é autor de “Contos de Curitiba” Ed.Protexto, 2005


* Antigo nome do local onde hoje é a Praça Zacarias, uma praça no centro de Curitiba.



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