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   > RECÉM CASADOS



Geovani Silva
      CONTOS

RECÉM CASADOS

Andavam de mãos dadas, mas não se achavam. Não havia cumplicidade nos olhares. Estavam juntos, mas distantes. Ficavam balançando os braços sem se aperceberem da infância arremetida. Em casa era aquele dialogo monótono, e de pequenas farpas. Um indício de impaciência monopolizava as poucas frases do dia a dia. Etelvino chegava tarde do serviço. O jantar já estava na mesa e a casa limpa. Tinha ate suco de laranja que Eldora preparara com amor. Apesar de haver poucos meses de casado, Etelvino parecia ter perdido aquela paixão estonteante que um dia unira ambos.
Etelvino ainda não se acostumara com a vida de casado. Quando Eldora Suspirava vontade de ter uma vida melhor, de sair ao shopping, e fazer compras, viajar para rever as amigas, ele se chateava por não ter condições financeiras. Então dizia que ela devia agradecer a Deus o que tinha. Começava a contar como sua vida fora sofrida de homem batalhador na vida de sol a sol.
 Bruto e ignorante aprendeu desde cedo com o exemplo do pai que maltratava a mãe com palavras chulas. O pai trabalhava na roça, na plantação de milho, feijão e café. E levava Etelvino para as lavouras. Dizia para a mulher que homem nasce para trabalhar e tem de sustentar a família a todo custo. E dominar a casa com braço de ferro. Pois a mulher tinha de prestar-lhe servidão e obediência mesmo que fosse a cabresto de cavalo.
Evinalto, pai de Etelvino levava marmita todos os dias, que ele chamava de quentinha. Falava horrores em casa quando marivalda, sua mulher atrasava o jantar. Etelvino se lembrava bem da atitude do pai que lançou o prato esmaltado de comida na parede só porque achou um fio de cabelo da mulher dentro dele.
            Este menino cresceu com esse comportamento. Convivendo dia e noite com as atitudes agressivas do pai. Sem carinho e sem esperança. Ainda era bem pequeno, sete anos de idade, quando o pai se foi e deixou contas e trabalho árduo para uma criança. A mãe doente não podia trabalhar, e não conseguia se aposentar. Cuidou da mãe até aos quinze anos então ela falecera.
Etelvino encontrou emprego numa granja e cinco anos depois conheceu Eldora e se casaram. Durante as secas passaram fome quando o desemprego assolava o estado do Piauí. Mudaram então para Belo Horizonte com as únicas economias que tinham.
E Eldora lhe dizia enquanto limpava a casa:
— Você é igual ao seu pai!
Às vezes até esbravejava. Mas Etelvino sempre tinha as respostas prontas.
— Mas é claro que sou! Meu pai sempre foi homem direito, trabalhador e tenho grande orgulho dele!
— Eu sei amor. Mas estou falando do jeito que você fala as coisas comigo. Só fala com ignorância.
— Que ignorância, mulher?! — Gritou com raiva.
— Disso! Olha aí como ta gritando!
— Ah, pelo amor de deus! Que mulher mais sensível! — Retrucou e saiu batendo a porta.
— Ei! Aonde você vai?! O jantar está pronto!
Ele nem ligou. Eldora foi jantar sozinha, coisa que ela não gostava de fazer. Ela queria aproveitar o tempo com ele: banho juntos, café da tarde, jantar, e depois quem sabe assistir TV. Ou mesmo nada juntos. Lembrava-se de quando começaram o namoro. Ele era meio estúpido, era mais calado e não gostava muito de brincadeiras, mas prometia melhorar. Ela dava um desconto por procurar compreender que ele sofrera muito com a perda dos pais ainda jovem.
Mas agora depois do casamento as coisas não estão legais.
            Eldora estava se sentindo um caco, diminuída, anulada e nem mais se sentia mulher para o marido que só a procurava quando ela se queixava.
E assim o dia a dia daqueles dois ia acontecendo, a cada noite era marcada por uma discussão banal. Nenhum dos dois estava disposto a abrir mão de alguma coisa, ser flexível.
Mas ela achava que não devia ser assim, com aquela cara fechada, e de mau gosto com a vida. Que ela não tinha culpa de sua rotina, de sua vida sofrida no passado. E o pior de tudo era os vizinhos dando com a língua entre os dentes. As mulheres mais velhas não hesitavam.
            — Que casal briguento, Marieta!— Comentava a vizinha de frente.
            — Pois é, minha filha. Como moro bem aqui do lado ouço tudo! — A outra já falava por desgosto de ver aquele casal naquela situação.
            — É mesmo?!
            — Ontem mesmo foi um quebra pau danado! Ela voou nele de unhas. Só dava pra ouvir os gritos dele!
            — Que estranho... Um casal tão novo!
            — Ééé minha filha. Quando é assim entra pra madrugada afora.
            Quando a sogra vinha visitar era uma harmonia sem igual. A alegria parecia brotar nos olhos. Tudo era metricamente pensado antes da velha chegar.
            — Olha o que eu trouxe para o belo casal!
— Ah, dona Irani! Não precisava!
— Que isso, Etê, vocês merecem!
— A sra. aceita alguma coisa? Ei, meu bem traz café pra sua mãe!
A sogra de visita breve já insinuara a intenção de sua vinda. Já que não ficaria por mais tempo, voltaria tão rápido para o Piauí.
— E aí, já encomendaram meu netinho?!
— Não demora ta chegando. Não é amor?!
— Ah, sim. Claro!
A velha se despedia. Ele suspirava. Depois provava do pudim que ela trouxe.
— Que delicia! Se você tivesse aprendido a cozinhar igual a sua mãe...
De manha no domingo Etelvino dormia ate meio dia. Achava o almoço pronto e sua postura ficava anulando as qualidades de Eldora. Logo depois saía para o bar. Ficava lá tomando cerveja com os novos amigos o resto do dia. Entrava em casa as oito, tomava banho, deixava as roupas jogadas no chão e pouco se importava. Eldora não conseguia mais se afirmar como pessoa.
 Todas as noites era a mesma rotina: brigavam. O vizinho escutara muito barulho das vassouradas nas costas. Nenhum grito, apenas pancadas. Depois o silencio.
De manhã, ele colocava um enorme embrulho todo muito bem amarrado no porta malas do carro. Era flexível e se dobrava. E fez um baque oco ao atingir o fundo.
A viúva o cumprimentava.
— Bom dia, Etelvino! Não tenho visto Eldora, sua esposa. Ela esta bem?
Etelvino já era bem treinado a falar para fofoqueiros o que eles queriam ouvir.
— Bom dia, Sra. Meire! Foi visitar a mãe no interior e não sabe quando volta.
— É mesmo, meu filho?!
— Briga demais, né? Olha só meu braço como ta de marcas de unhadas... Não agüento mais isso. Aí acho que foi melhor assim.
— Coitado, meu filho. Mas Deus sabe o que faz.
— É Sra. Meire quando não da certo não da, né?
Arrancou o carro tranquilamente em direção a serra do cipó.
A Sra. Meire ficava encafifada.
— Mas, engraçado. Agora que estou lembrando... a mãe dela não estava aí ontem?!              
Eldora ainda acreditava em um casamento feliz. Esperava que o marido mudasse. Mas nunca deu queixa. ( VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. DENUNCIE! NÃO ACREDITE EM MUDANÇAS FALSAS! NÃO SOFRA SOZINHA!)                                               


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