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   > Rodízio de pizza



Karen Kings
      CONTOS

Rodízio de pizza

Era primavera, muitos carros passando apressados diante da janela. Está um dia bonito. Apesar das janelas estarem sujas. Como nunca havia reparado nestas montanhas? Está tão claro hoje. Aperto os olhos para conseguir enxergar. Me levanto da cadeira. Vou até a janela. No prédio ao lado, percebo uma mulher tomando chá na sacada. Ou seria café? Bem, ela está com uma xícara de chá nas mãos. Ela está de vestido rosa, sem sapatos.

O telefone toca. Volto rapidamente para minha mesa.
-Financeiro Ana!
Olho para o relógio, são quase dez horas da manhã.
-Sim, te enviei por e-mail ontem, juntamente com o relatório de outubro. Você verificou no lixo eletrônico? Humm, que bom. Ok. Até.

Odeio o lixo eletrônico, ninguém nunca abre o lixo eletrônico. Deveriam mudar o nome para pasta esquecida.
Viro a cabeça, a mulher não está mais tomando chá.

Me levanto da cadeira novamente. Vejo um carro vermelho estacionado. Dentro dele uma moça ruiva retoca a maquiagem. Passa um batom vermelho da cor do carro. O batom combina também com a cor do cabelo.

-Ana, o Oswaldo quer confirmar a reunião das quatorze horas.
-Tudo bem, pode confirmar, estarei lá.
Ainda na janela, vejo um cachorro de rua. Ele é marrom. Magro. Parece estar sujo. Solto um sorriso de canto de boca quando vejo ele abanando o rabo.

Volto para minha mesa. São onze horas. Percebo que a mesa de meu chefe está vazia. Vou tomar um café.
Tudo são processos. Pegar o copo, colocar no lugar marcado, apertar o botão, o pó cai, a água cai, a máquina apita, pego o copo, a colherzinha, misturo e bebo.

Volto para a mesa. Fico parada fingindo estar olhando continuamente para a tela do computador como se estivesse lendo algo importante e começo uma conversa dentro da minha cabeça.
-Sabe o que seria legal?
-O quê?
-Almoçar num rodízio de pizza! Um almoço assim, de duas horas!
-Nossa, seria mesmo!
-Depois de comer pizza de calabresa, quatro queijos, frango com catupiry e milho e bacon, eu comeria pizza de nozes, chocolate branco, chocolate preto e chocolate com morango!!!
-Humm, aí sim!

Vanessa se aproxima com uma pilha de papel.
-Ana, pediram pra te entregar, as orientações estão no seu e-mail.
-Obrigada Vanessa! Pode deixar.

Meio dia. Vou almoçar. Pegar a fila, entrar no elevador, apertar o botão do térreo, andar cinquenta metros, pegar a fila do Buffet, pegar o prato, o pacotinho que contém garfo, faca e um guardanapo (UM guardanapo), pegar uma comida sem graça que alguém que odeia o faz colocou numa tigela inox e encaixou no suporte do Buffet, pesar, procurar uma mesa, sentar, comer com pressa, entrar na fila do caixa, pagar, andar cinquenta metros, apertar o botão do elevador, entrar no elevador, apertar o botão do quinto andar.

Meio dia e trinta. Vou para a janela, ainda tenho trinta minutos. Vejo uma pomba. Acho que é a mesma pomba de ontem. Acho que ela gosta desta sacada. Olho pro céu. Tem poucas nuvens, imagino como seria se eu visse um óvni, assim como aparece no Discovery. Solto um riso bobo, sozinha. Percebo algo no céu. Aperto os olhos, ele se mexe rápido. Será? Ele pisca. Será? Se aproxima. Ahhh, é um helicóptero. Com tanto barulho na rua, quase não consegui escutar.

Volto pra mesa, já é uma hora, pego minha nécessaire e vou escovar os dentes. Abrir a porta do banheiro, entrar, trancar, abrir a nécessaire, pegar escova e pasta de dentes, abrir a pasta de dentes, colocar pasta nas cerdas da escova, fechar a pasta de dentes, abrir a torneira, molhar as cerdas da escova de dentes, fechar a torneira, escovar os dentes, abrir a torneira, enxaguar a boca, lavar a escova, fechar a torneira, guardar tudo na nécessaire, abrir a porta.

-Ana, você viu o –mail...
-Ana, Roberto na linha...
-Ana, posso te acompanhar na reunião?
-Ana, sua mãe ligou enquanto você estava na reunião...
-Ana...
-Ana...

Dezoito horas. Olho pra janela, o Sol está se pondo. Do outro lado do prédio, aqui nem consigo ver.
Desligo o computador, pego minha bolsa e minha garrafinha de água. Digo boa noite e até amanhã para as pessoas que trabalham comigo que me respondem com a mesma frase que eu disse. Pessoas que me abraçam no meu aniversário, mas que só sabem a data do meu aniversário porque as pessoas do Recursos Humanos fizeram uma lista utilizando os dados do meu RG e colaram no mural.

Entro na fila do elevador, já apertaram o botão do térreo, caminho uns cem metros até o estacionamento ao lado, pego meu carro, pego o trânsito.

Comprei um novo aparelho de som para o carro, instalaram hoje enquanto estava trabalhando. Comprei várias músicas on-line e gravei no meu pen-drive.
Agora está tocando Tchaikovsky, concerto de violino em D maior. Nem sei o que significa, mas eu gosto. O trânsito está lento. Eu estou com vidros fechados, tenho medo.
O casal do carro ao lado está cantando. Não consigo entender qual é a música porque criei uma caixa acústica aqui dentro do meu carro. Parece que tudo está em harmonia com Tchaikovsky, tudo está no ritmo.

São sete e trinta, cheguei em casa, tenho fome, mas estou muito cansada para cozinhar. Faço um sanduíche, tomo um banho e vou para a cama.

Nove horas da noite, assisto o jornal. Mais alguém foi morto, mais um político denunciado, mais uma tragédia da Natureza em algum lugar do Mundo, pego no sono.

Sou ruiva, estou usando um vestido rosa, estou sem sapatos e voando em um cachorro marrom com asas de pomba. O cachorro pára no topo da montanha, começo a cantar e um óvni se aproxima. A nave pousa, ela pisca muito. Entro na nave e está tocando Tchaikovsky bem alto. É um lugar tão seguro. Alguns ETs se aproximam. Começam a conversar comigo. Eles falam minha língua, eles dizem que estavam me procurando, que sabem meu nome, que sabem tudo sobre mim, até a data de meu aniversário. Me oferecem um chá, um espelho e um batom vermelho. A nave parte. Eu fui embora.

São seis da manhã, o despertador tocou.

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