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   > Soletrando Vocábulos do



Marlene Da conceição de Sousa
      CRôNICAS

Soletrando Vocábulos do

  Soletrando vocábulos do “Ser tão”
 
 
Tem coisas e expressões que só quem é naturalizado sertanejo entende e sabe explicar. No alto sertão da Bahia, por exemplo, há uma infinidade de vocábulos que nem mesmo o Aurélio explicaria. São as peculiaridades que fazem e fizeram parte de uma rica cultura que diversifica e certifica tradições e costumes de um povo. O que abrilhanta nosso dicionário oral e informal são antes de tudo os palavreados. Quantos já “mangaram” de nós, por conta disso? Contudo, a força da linguagem ultrapassa o convencionalismo e interage com as épocas de determinadas gerações possibilitando a abrangência da cultura popular, dentre eles, o falar.   
 
São os nomes atribuídos a apelidos, chingamentos, as referências a fatos, doenças, brincadeiras, e até nomes de localidades como os das Zonas Rurais, que enriquecem as nossas raízes e reforçam a nossa identidade. E que identificação pujante que torna imperioso às gerações, haja vista as que há anos luz perdura.    
 
Quem nunca ouviu as expressões sertanejas: Cão dos inferno, mizera, desgraçado, fio duma égua, traste, peste. Estas eram ditas por aqueles homens geralmente mestiços, vaqueiros valentões, cabras da peste, que quando ao sol queimavam os miolos assentados no cavalo, ao puxarem a boiada com uma vara cutucando os bois, vinham costurando a estrada em passos alongados, acompanhados de uma cadela magra, rabugenta, gritando de alto e bom tom: _ Boi dos diabos! Vai peste!  Ôa, ôa , ôa... E era o próprio cansaço que o tornava forte, abarbarado. Quando a gente via um destes tipos vindo com os mesmos cantos de sempre, ao entardecer, pedia logo a bênção tremendo de medo (quiçá respeito). Assim que passava por nós, corríamos e escondíamos atrás da porta até que dobrasse o último carreiro e só restasse o grande lençol vermelho de poeira cobrindo o largo. Tudo isso porque nos causos de visagem, assombração, dizia que quem pronunciava esses nomes eram as pessoas que viravam lobisomem na Semana Santa e para ficar protegidos de sua aparição tinha que sair munido de um dentinho de alho na mão ou folha de arruda atrás da orelha. Lendas do sertão.
[...]
Em algumas situações como nos apelidos existiam perversidade. Como os que eram dados aos negros. Por outro lado, apesar da exposição de codinomes que os ridicularizavam, havia uma proeminência interessante, quase sempre era pacífico e não era necessário nenhum movimento negro, nenhuma lei, que como na atualidade existe e a meu ver, todos devem ser iguais não obrigatoriamente perante a lei, mas perante a consciência de cada um. Seria ingenuidade? Insultos como: Cabelo de Bombril, negro só tem juízo de manhã até meio dia; tição, fundo de panela, filhote de anum, sabão de mula, urubu, Tibério, tiziu, caroço de pinha, pau de fumo, picolé de asfalto.... Queria-se tirar um do sério mesmo, bastava cantarolar um refrão assim: “nego preto do sobaco fedorento bate a bunda no cimento pra ganhar mil e quinhentos.”, mas nada que levasse ao extremo de um revide impetuoso como ao que assistimos aos quatro nortes ultimamente envolvendo vidas. O máximo que podia acontecer era contestar tais expressões como, coalhada, branquelo(a) , lesma, antes preto de nascença que branco de doença , coisas desta categoria.As cores da pele eram meramente “cores “ definidas para um e outro como diferenças, sem um fundamento mais propenso ao mal.
 
Prosar, então, sempre fora o ponto alto de cultivar um modelo de vocabulário. Começando por cumpade ou cumade no início das conversações e espontaneamente esbanjando um glossário à moda da casa termos como: promode , intonse , adonde, apois, assunta, arre, condefé , lubrina, vote cobra! ... As pessoas não tinham vergonha de seus vocabulários espontâneos. O que avexava mesmo era quando ficava prenha uma moça ainda solteira, pois de boca em boca, diziam que tinha ficado “perdida” e para os princípios religiosos era motivo de inobediência, assim como para as famílias que eram conservadoras ao extremo.
 
Quem dera um tempinho para esses encontros hoje, sem o horário de Brasília, para contar e ouvir causos, que foram substituídos por noticiários de tragédias que ocorrem velozmente em função da perda de valores dessas mudanças de comportamento, do espontâneo para o contemporâneo distanciando cada vez mais as pessoas e letrando um mundo ilusório.
 
Até mesmo as moléstias ganhavam designações que causavam menos complicações ao pronunciar, possuíam nomes mais caseiros. Imagina alguém dizer que fulano (a) está ruiento, com andaço ou com difuso? E o “boi”, que também chegava todo mês? A menstruação. Dordói, dor de facão, espinhela caído e muito torrado para provocar um atchim. .. Criança tinha remela, pereba, caxumba e calundu... Brincava de bacondê, bisa, maê, roda, tico-tico; Malinava pra valer!
 
As localidades, roças, geralmente foram batizadas com nomes que marcaram uma história, acontecimento daquele lugar e vivenciado pelos moradores. São os mais inusitados: língua de Vaca, Farinha Seca, Picadas, Piabas, Capoeirão, Boca da Onça, Sanguessuga, Peixe, Bezerro, Garrote, jacaré, Mulungu, Massangano, catriangongo, Cabajá, Varginha, Antas, Pengué, Amarra Saco, Caldeirão, Cipó, dentre outros. Em cada uma destas paragens, também, pessoas com pseudônimo bastante sugestivo.
 
Todas essas soletrações trazem em sua essência uma sensata altivez no diz respeito a valores. Quantos de nós não já ouvimos diálogos “formais”, não mais prosas, onde manifestam decepção ao progresso? É comum ouvirmos:
-Antigamente não existiam essas coisas, como os tempos mudaram! Quando se referem à violência urbana, à desmoralização aos direitos humanos, às angustias da humanidade, à falta de amor, a convivência familiar, à moral e bons costumes que outrora presenciara ou ouvira contar. Hoje se tem pesar até mesmo de não ter tido oportunidade de  convier com a simplicidade de uma era feliz do “nois foi”.  Como dizia o poeta “A verdade popular nem sempre ao sábio condiz, mas a verdade serena nas coisas que o povo diz”. Adelmar Tavares.
 
Marlene Sousa
 
 
 


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