Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (204)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2501)  
  Resenhas (129)  

 
 
Contradições
Marcos de Sena Pereira
R$ 30,50
(A Vista)



Veículos-03-202
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > Quebre seus cristais!



Airo Zamoner
      CONTOS

Quebre seus cristais!

QUEBRE SEUS CRISTAIS

© Airo Zamoner

Os olhos descontraídos, vagabundos, sem destino, dançavam pela sala. De repente bateram na velha cristaleira. Um rasgo iluminado de alhures fixou-os ali por um instante.

Lá estavam garbosamente enfileirados, lindíssimos copos de cristal. Antigos. Seus pensamentos relampejaram refletidos na pureza que se expunha há tanto tempo. Disciplinados, ansiavam por uma hora de luzes que certamente viria algum dia a justificar sua existência.

A nostalgia incomodou suas lembranças. Levantou-se e caminhou pela casa. Atônito, vasculhou as coisas fora do comum que morriam pelos cantos na expectativa de um momento único. Nos armários, roupas que nunca foram usadas, aguardavam conformadas um evento importante. Nas gavetas, jóias que o futuro prometia fama. Enfeites, bibelôs, porcelanas, broches, lenços de seda e tantas coisas intocadas se amontoavam, sempre a espera do momento diferente de todos, da hora incomum a justificar seu uso.

Seus passos ecoavam surdos e os chinelos corroídos se arrastavam. Na caixa, um outro chinelo de couro novo aguardava quieto, pacífico, a hora divina para explicar-se. No guarda-roupa, a virgem camisola de seda pura quedava-se para o momento certo.

Agora, vagava qual fantasma entontecido na solidão do casarão abandonado. Onde estariam todos que desejavam com ele os instantes supremos? A bruta realidade empurrou pra fora dos olhos, lágrimas desconsoladas. Afloraram com elas, as vidas estupidamente comuns que não justificavam nada surpreendente.

Velho, carcomido, decrépito, nem ele nem os seus, viveram algo extraordinário a justificar a inauguração dos símbolos escondidos pelos ângulos a se inutilizarem no tempo.

Arrancou o lençol da poltrona, desnudando-a de seu recato dormente. Seu revestimento delicado estremeceu. Nunca foi usada, afinal ainda não acontecera a magia do inusitado. Ficaria ali até que a morte do movimento a mergulhasse na penúria do abandono completo. Desvestiu-a com raiva. Atirou-se desleixado, sobre ela. Balançou-se o quanto pode e adormeceu, babando sobre o revestimento em luxo.

Acordou com o barulho da casa. Espantou-se. A vozearia vinha lá da cozinha.

Como era possível estar ouvindo a voz da esposa, dos filhos, se todos já haviam partido?

Pareciam alegres e muito vivos. Levantou-se. Foi até o quarto. Vestiu roupas de festa. Sem uso. Espantou a todos ao chegar lá embaixo. Segurava aquele vinho dos anos sessenta que guardara para uma ocasião única. Abriu-o sem cuidados sob o olhar assombrado da esposa e da aflição dos filhos.

O que é isso Alfredo? Enlouqueceu?

Enlouqueceram todos juntos. Quebraram os cristais em mil peças. Beijaram-se. Abraçaram-se. Festejaram como nunca o dia mais comum de suas vidas.


Airo Zamoner é escritor

airo@protexto.com.br



CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui