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Paulo Correia de Moraes Junior
      CONTOS

Anotações

Norberto era um homem prático. Acordava cedo, preparava seu café da manhã, alimentava seu gato de estimação, tomava seu banho e saia com algumas horas de antecedência para o trabalho. Não importava o que acontecesse sempre chegava no horário.
Não era o melhor funcionário, tampouco fazia questão desse título, trabalhava o suficiente, não reclamava, mas era metódico, saia sempre no mesmo horário e nunca aceitou fazer nem mesmo cinco minutos de hora extra, não podia mudar sua rotina.
Voltava para casa, trocava a areia do gato, ligava o rádio, escutava música e lia, suas leituras favoritas eram os guias de viajantes, acompanhava os relatos e anotava tudo em um caderninho de couro que estava sempre com ele.
Após desfrutar de sua leitura, preparava a janta e aguardava sua visita que assim como ele era muito pontual,  sua única amiga a morte.
Conheceram-se quando ele era criança, ela chegou um dia em sua casa, brincou um pouco com ele e levou sua mãe. Alguns dias depois apareceu novamente e levou seu pai, depois dali a amizade entre eles apenas se fortaleceu.
Norberto era um ótimo ouvinte, a morte se queixava das coisas de sempre, era o morto que não se conformava, a família que se lamentava e uma série de reclamações, nesses anos ela sempre desabafava o quanto detestava o seu trabalho. Norberto falava pouco, apenas concordava com o quanto era difícil o trabalho da Morte e ao fim da conversa jantavam em silêncio com Norberto fazendo anotações em seu caderninho de couro. A morte se despedia dele pontualmente as onze e saia de lá alegre por ter desabafado com seu único amigo. Norberto cumpria seu categórico ritual, alimentava o gato fazia suas ultimas anotações no caderninho de couro e dormia.
Era uma segunda feira quando durante o jantar a morte quebrou o silêncio e disse, “Vou te levar”.  Norberto com a mesma calma de sempre assentiu com a cabeça e pediu uma semana para doar o gato, terminar os serviços que estavam faltando em seu emprego, doar seus livros e avisar para sua faxineira para doar seus órgãos e cremar seu corpo. Assim dito, assim feito e depois de uma semana no horário de sempre a morte foi encontrar seu amigo.
Bateu levemente a porta e aguardou, mas ninguém atendeu, forçou a maçaneta e ela se abriu, esperava que seu amigo não fosse lhe dar o trabalho que todos dão, mas ao fim ele era apenas mais um mortal.
Procurou em todos os cômodos e nada, procurou então por algum bilhete, Norberto não sairia assim sem avisar, mas nada encontrou. A morte saiu dali e passou a procurar Norberto na vizinhança, perguntava por ele para todas as pessoas e elas sempre respondiam que a poucos momentos Norberto havia passado por ali. A busca por Norberto a levou a muitos lugares, mas Norberto sempre estava à frente. 
A busca já levava meses que logo se transformaram em anos que se converteram em milênios e a morte envelheceu, ceifando um a um os homens de todos os quatro cantos do mundo, até o dia que não sobrou mais nenhum mortal, mas Norberto a Morte não encontrou. 
Já muito velha e cansada a morte chegou até o fim do mundo, lá entrou em um antigo templo de pilares altos que se perdiam nas nuvens do céu, com paredes que continham segredos esquecidos pelo tempo. No templo havia um velho ancião, que recebeu a debilitada morte e a acolheu. A velha morte contou para ele sua busca, relatou de como gostava de seu emprego e da falta que sentia dos mortos. O senhor alimentou a morte e a levou para um singelo aposento com apenas uma cama e ali mesmo a Morte faleceu.
O Ancião se dirigiu para os seus aposentos em passos vagarosos, alimentou o seu gato, fez suas ultimas anotações em um velho caderninho de couro, sorriu, fechou seus olhos e nunca mais abriu.


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