Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (653)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (204)  
  Pensamentos (643)  
  Poesias (2504)  
  Resenhas (129)  

 
 
O HOMEM RELIGIOSO
Luis Carlos Lemos da...
R$ 28,00
(A Vista)



O Recomeço
Paulo Ademir de Souza
R$ 104,30
(A Vista)






   > O AMOR CORTÊS EM O ROMANCE DA ROSA



Jonas Batista dos Santos
      ENSAIOS

O AMOR CORTÊS EM O ROMANCE DA ROSA

1. PROPOSTA
            Este trabalho tem a proposta de estudar o amor cortês contido na primeira parte de O Romance da Rosa ¹, poema francês medieval escrito como um sonho alegórico por Guilherme de Lorris (1200-1230), que descreve as tentativas de um cortesão para conquistar sua amada representada por uma rosa. Como base teórica, será utilizado o verbete “Amor Cortesão”, do Dicionário da Idade Média ², organizado por Henry. R. Loyn.

2. JUSTIFICATIVA

            Essa obra foi escolhida para estudo por ter sido extremamente famosa na Idade Média francesa e também uma das que mais representam o amor cortês cultuado desde o ano de 1.100 a.C. pelos aristocratas franceses, amor este definido como um conceito europeu medieval de atitudes, mitos e etiquetas para enaltecer o amor, este conceito foi muito bem retratado por Guilherme de Lorris pois ele trabalhou com palavras delicadas, sensatas, desconhecendo qualquer obstáculo.
            É apenas a primeira parte que representa fielmente o amor cortês, os grandes princípios da “arte de amar” trovadoresca, valorizando o sofrimento amoroso na esperança de uma felicidade que nunca vem.  De forma geral o amor cortês é uma experiência entre o desejo erótico e a realização espiritual, segue um conjunto de regras para se concretizar, pode ser ilícito ao mesmo tempo moralmente elevado, autodisciplinar, humilhante, exaltante e transcendente.
            O verbete “Amor Cortesão” foi escolhido, pois descreve fielmente os princípios do fenômeno em estudo, servindo de guia de fundamento e desenvolvimento, fornecendo um suporte teórico para os estudos, análises e reflexões sobre os dados e informações do livro.
 
3. ANÁLISE CRÍTICA
            3.1. SINOPSE
            Em sua juventude, idade em que o corpo pede uma companheira, o Rei Cipião dorme profundamente e tem um sonho belíssimo que o agrada muito. Sonha que é maio, mês de amar, de prazeres, da primavera no hemisfério norte, quando se cultua o início da vida, quando o verde fica exuberante e os pássaros voltam a cantar. Momento também em que os jovens começam a se enamorar, graças ao tempo promissor e prazeroso chegado. Em sua casa o cavaleiro desperta, sai para contemplar a beleza da natureza, vai ao encontro do rio e segue sua margem até chegar ao jardim do amor, cercado por um muro onde está a rosa; do lado de fora, esculturas e pinturas de sentimentos que não devem fazer parte do amor cortês. Para participar do jardim é necessário ter algumas qualidades morais, opostas às figuras pintadas do lado de fora do jardim. O cavaleiro então é convidado a entrar no Jardim do Amor por Ociosa e dá início à sequência ritualística característica da vida cortesã.
 
             3.2. ANÁLISE TEXTUAL
            Conforme Henry R. Loyn, no Dicionário da Idade Média, existe uma série de regras a ser seguida no amor cortês, em sua ritualística, regras baseadas em valores morais que se moldaram a valores cristãos, inspirados no serviço a Maria que definiam o que faz e o que não faz parte da vida cortesã, criando assim um contraste para enaltecer e diferenciar o amor verdadeiro do falso. Vejamos a citação abaixo:
            O verdadeiro amor, ou Fin’amors, contrastava com os Fals’amors da maioria, caracterizado pela inconstância, a insinceridade e o ciúme mesquinho, o que os excluía da elite amorosa. O Fin’amors foi cada vez mais “cristalizado” em fins do século XII, quando a imagem do amante ansioso foi assimilada a um código de busca religiosa de Deus, em que as virtudes cristãs foram adquiridas através do serviço a Maria. (D.I.M, p. 21)
            Este contraste é bem definido através da alegoria do muro, do lado de fora do Jardim do Amor, onde estão pintadas figuras que representam sentimentos que sejam opostos aos conceitos do Fin’amors (verdadeiro amor). Malquerença, figura que representa a perversidade, é pintada ao centro, um exemplo do que deveria estar fora da vida cortesã. Vejamos como isso se apresenta na seguinte passagem:
            [...]Em pouco tempo deparei-me com um grande e alegre jardim completamente rodeado por um muro alto. A parte externa da parede tinha desenhos, esculturas e títulos ricamente pintados. Com grande prazer contemplei essas figuras e imagens, que irei contar e descrever tal como as recordo. No centro vi a Malquerença. Ela dava a impressão de estar triste, aflita e de ser perversa; parecia evidente que desejava provocar e molestar, porém se mantendo oculta a todos. Parecia uma mulher pobre, porque não estava bem vestida. Tinha o semblante enrugado e franzido, e seu nariz era chato. Essa horrível e depreciável mulher cobria-se com um véu. Ao seu lado esquerdo havia uma figura de aspecto diferente; li o nome que tinha na cabeça: chamava-se Felonia.  À direita, vi uma imagem que tinha o nome de Vilania: era semelhante às outras duas, tanto no aspecto quanto na forma. Como era insolente, dava a impressão de ser uma má e louca criatura, disposta a causar danos e a falar mal de todos. Eu saberia pintar e retratar muito bem o que fazia tal imagem, pois ela parecia realmente uma coisa vil, como se estivesse cheia de injúrias e fosse uma mulher pouco disposta a prestar honra a quem devia.[...] 
            Criando um contraste com o padrão aceito dentro da vida cortesã, Malquerença contrasta diretamente com o amor ao próximo, Felonia com a lealdade ao Senhor, Vilania com a qualidade de ser bom e caridoso. Percebe-se que são valores cristãos mesclados ao fenômeno em estudo. Pelas convenções, o cavaleiro deveria repudiar tais figuras, se desejasse dar início ao cortejo. Possuindo valores contrários às figuras pintadas do lado de fora, isto é, sendo portador de valores aceitáveis, o cavaleiro pode dar início a sua função no cortejo com as constantes investidas e solicitações amorosas, cabendo à amada recusar ou aceitar. Contudo, pela ritualística em estudo, a dama é obrigada a dar pelo menos esperança ao cavaleiro, satisfazendo-lhe alguma solicitação que ela julgar razoável. Conforme vemos na citação abaixo:
            Embora a dama pudesse parecer a figura dominante nesse drama privado, ela estava obrigada pelas convenções a condescender com as solicitações razoáveis do cavaleiro, da mesma forma que um senhor estava obrigado a recompensar seus fiéis seguidores; se ela não oferecesse algum favor ou esperança, era tachada de cruel e sem coração. (D.I.M, p. 21)
            Com isto, Ociosa, que está à porta do jardim, já inserida na vida cortesã, não pode negar o pedido feito pelo cavaleiro, pois ela deve ser cortês e ceder a sua solicitação razoável. Como podemos observar logo abaixo:
            [...] – Senhora Ociosa, não me leve a mal: já que Lazer, o belo, o nobre, está aqui nesse pomar com suas gentes, gostaria, se pudesse, de estar em sua reunião nessa mesma tarde. Tenho que ir, pois penso que a visão deve ser agradável e creio que os participantes serão corteses e bem educados. Sem dizer mais nada, entrei no pomar pela porta que Ociosa abrira. 
            Ociosa atende ao pedido e permite sua entrada no Jardim do Amor, um sinal de esperança de êxito na vida cortesã. O amante se divide entre satisfazer seus desejos e seguir os valores morais, devendo seguir uma sequência de ritos preliminares, para ter realização sexual, lícita, em plena concordância com as restrições sociais e espirituais, elevando e valorizando seu amor. Como podemos constatar na citação a seguir:
            A luta intima do amante entre o seu desejo de satisfação imediata e sua consciência do valor moral implícito em batalhar pelo inatingível; entre as ambições pessoais e as restrições sociais externas; entre o estado auto-imposto de submissão e a necessidade irresistível de expressar dor e ressentimento: são essas antíteses que emprestam à poesia de amor cortesão sua tensão dramática e riqueza emocional. (D.I.M, p. 21)
            O cavaleiro então é tentado a olhar no espelho de Narciso, ciente de que encontraria ali algo que o impulsionaria imediatamente a amar. O espelho reflete sua amada; após isto, não quer mais deixar o lugar. O cavaleirotrava uma luta interior entre a satisfação sexual imediata e as restrições impostas pela moralidade. Como podemos ler abaixo:
            [...] Este é o espelho perigoso no qual Narciso, cheio de orgulho, contemplou seu próprio rosto e seus olhos verdes claros, caindo morto imediatamente. Quem se olhar nesse espelho não encontrará salvador nem médico que possa impedir que veja em seus olhos algo que o impulsione e imediatamente a amar.[...] 
            [...]No espelho, entre outras mil coisas, vi roseiras carregadas de flores que estavam em um lugar afastado e rodeado por uma cerca. Então senti um grande desejo de ir contemplar o grupo maior, e não deixaria de fazê-lo em troca de toda riqueza de Pavia e de Paris.[...] 
            [...]Dentre todos, escolhi um botão belíssimo; ao seu lado me pareceram inferiores os demais que vi. Tinha a cor vermelha mais perfeita que a Natureza pôde criar e estava rodeado por quatro pares de pétalas, colocadas com habilidade pela Natureza, umas nas outras. O talo era reto como um junco e sobre ele a flor se assentava sem pender nem se inclinar. Seu aroma se espalhava ao redor e o perfume que produzia enchia todo lugar. Ao cheirá-lo, perdi a vontade de abandonar aquele lugar e me aproximei para colhê-lo, mas não me atrevi a estender as mãos: os cardos afiados e os pontudos espinhos me impediram e assim não me deixei avançar, por medo de me causar dano – afinal, eram espinhos cortantes e sutis, além de urtigas e sarças de pontas finas como chifres.[...]
             A rosa ainda é um botão, o que demonstra sua tenra idade. Mesmo assim o amante apressa-se a tentar colhê-lo, deixando evidente seu desejo por satisfação imediata, contudo se detém por medo de causarem-lhe danos os espinhos entre outras barreiras que o impedem de aproximar-se de seu objeto de desejo. Tais espinhos e barreiras nada mais são que alegorias representativas das restrições que possuem um papel fundamental no amor cortês, pois sem restrições não existiria a ritualística, o amante no primeiro encontro colheria a rosa, dando fim ao cortejo.
            O amante percebe que o único caminho é servir a sua amada como o cavaleiro ao seu senhor, demonstrando com isto seu valor e coragem, provando seu nobre e puro amor a fim de ser merecedor de colhê-la posteriormente. Como se lê abaixo:
            Os protagonistas assumiram distintos papéis: o amante submetido à sua dama como o cavaleiro ao seu senhor, jurando leal e permanente serviço. Chamando a atenção para o seu pretz (“valor”) e valor(“coragem”) – ainda mais reforçados por seu nobre e puro amor -, ele solicita mercê (“piedade”) e alguma recompensa. (D.I.M, p. 21)
            Ao ser atingido pelas flechas atiradas pelo Deus do Amor, o amante demonstra sua coragem baseada na sua necessidade, resistindo ao sofrimento, mostrando assim que não desistiria de suas investidas com a rosa. Como podemos observar abaixo:
            Grande coisa é a necessidade: Ainda que eu tivesse visto caírem flechas e pedras mescladas tão abundantemente como se fossem granizo, eu não teria deixado de me dirigir até ali, pois o Amor – que tudo supera – dava-me valor e ousadia para cumprir suas ordens. Pus-me de pé, mesmo débil e desfalecido como se estivesse ferido. Sem me preocupar com o arqueiro, procurei caminhar até rosa que tinha meu coração, mas havia tantos espinhos, cardos e sarças que não consegui avançar o suficiente para chegar até a flor.
            O sofrimento interno do amante é basicamente por ter de cumprir com todas as convenções impostas pelo amor cortês, antes de ter satisfação. Tarefa esta, quase inatingível, contudo o sofrimento paciente valoriza ainda mais o seu amor. Como lemos abaixo:
            Entretanto, ela era quase sempre inatingível, em virtude de sua alta posição ou distância física e por medo da censura social; paradoxalmente, era a própria distância dela que dava valor ao paciente sofrimento do amante. (D.I.M, p. 21)
            O amante toma consciência de que o caminho é árduo e que seu sofrimento está longe de ter um fim e que, olhando para si mesmo, não conseguiria forças para prosseguir. O amante, ferido pelo amor, perde sua esperança, percebe que seu sofrimento aumenta cada vez mais. Contudo, o próprio amor lhe presenteia com alguma dádiva que lhe aviva a esperança de prosseguir. Como podemos verificar abaixo:
            [...]Ao voltar a mim, chorei e suspirei, pois meu sofrimento aumentava e piorava, de forma que eu perdia toda esperança de cura  e alivio. Preferia estar morto ao invés de continuar vivo, pois definitivamente – segundo me parece – o Amor faria de mim um mártir e eu não poderia escapar.
Entretanto, pegou outra flecha que apreciava muito, mas que eu considero muito pesada: a Boa Cara, que não consente que nenhum enamorado se arrependa de servir ao Amor, à margem de seus próprios sentimentos.[...]
            [...]– Vassalo, considera-te preso, pois não podes fugir nem te defender; não ofereças resistência, entrega-te a mim. Quanto mais de bom grado o fizeres, logo encontrarás piedade. Está louco quem pretende resistir ao que deve louvar e ao que tem que suplicar clemência. Não podes te esforçar contra mim. Quero te mostrar como não ganharás nada com o orgulho e a soberba. Renda-te sem lutar e de bom grado, pois assim o desejo.
            – Por Deus, com gosto o farei, não vou me defender. Não me permita Deus pensar que posso resistir frente a vós, pois não seria justo nem razoável. Podeis fazer comigo o que quiserdes, enforcai-me ou dai-me a morte: sei eu que não posso impedir-vos, pois minha vida está em vossas mãos.[...]
            Em um romance como este, onde os personagens são alegorias, devemos considerar que o personagem Amor nada mais simboliza que a relação sequenciada em sentimentos entre o amante e a amada. Quando o Amor faz o cavaleiro sofrer, são as tribulações da relação que lhe causam sofrimento.
            Chega o momento em que a amada demonstra que está disposta a aceitar o amante, que tem sua esperança reanimada. A amada mostra o caminho certo para o amante ter êxito, o repreendendo, pedindo para que abandone o orgulho e a soberba se desejar continuar. O amante compreende que não deve dar atenção ao seu sofrimento passado, voltando à ritualística, por prazer de servir ao Amor, esperançado pela Rosa.
            Por meio destas análises, foi possível verificar que O Romance da Rosa reflete de forma detalhada os aspectos e implicações característicos do Amor Cortez, desenvolvidos no ambiente feudal palaciano, influenciado por valores cristãos baseados no serviço a Maria. De forma que a obra em estudo pode ser comparada a um manual da arte de amar, um grande exemplo do conceito de amor medieval. Fica evidente a valorização da Rosa (mulher) que é tratada com respeito e admiração.



CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui