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   > O último abraço



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      CRôNICAS

O último abraço

                     

 

     Nem bem cheguei a sala de espera, “esbarro-me” nele. Falastrão e debochado fiquei sem saber o que dizer. Na verdade fiquei a imaginar o quê aquele rapaz de cabelos crespos indomáveis, saindo entre as brechas das palhas de um velho chapeu enorme e trajando bermudão surrado estava fazendo naquele local. Que idiotice! Achar que um local público deveria ter uma placa de advertência para a roupa combinar com os preceitos de cada um. Meus pensamentos infelizes voam até ele que me olha debochando da minha roupa “adequada” e vem em minha direção. Sem nenhuma cerimônia, estende a mão e apresenta-se : “seu criado! Sou neto de Dercy com Gregório de Matos...” Acompanhado de uma boa gargalhada.

     Talvez eu deveria pedir desculpas por tê-lo julgado mal em meus pensamentos, mas fiquei quietinha para desfrutar a companhia daquela criatura tão “esquisita” e ao mesmo tempo tão dócil e triste. Uma tristeza muito bem disfarçada atrás das sonoras gargalhadas. Um humano que foi brutalizado pelo sistema, apanhou e muito que ficou arredio e irônico. Como resposta quebrava todas as regras de etiquetas, sempre chocando os demais. Simpatizei de imediato, apertei sua mão e ali iniciou uma amizade.

     Enquanto esperávamos a nossa vez de atendimento, notei o quanto o “meu criado” era inteligente, estudioso e sensível. A queima roupa ele falou algo pessoal sobre mim. Sorriu do susto que levei com a observação feita. Percebeu que construimos alguns muros a nossa volta, respeitou o meu silêncio e a fuga de assunto. Rimos juntos.

     Era assim, a semana que nos encontrávamos ele tinha algum tipo de brincadeira sobre minha cidade, aparência, estudos, leituras... Algo banal, mas sempre motivo de uma gargalhada bem gostosa e debochada. Via o brilho nos seus olhos ao falar de um filho ausente. Esse era o único momento que ele baixava a guarda, sem nenhuma máscara nem deboche, a voz transmitia a doçura de um pai saudoso.

     Cumprimos nossos créditos, cada qual segue seu rumo. Diversas vezes recebi a mensagem de convite de amizade em rede social. Não respondia, precisava encontrá-lo pessoalmente para explicar que não havia criado páginas em redes sociais indicadas. Não era nada pessoal, mas nunca tive paciência para esse tipo de leitura: “fulano começou amizade nova com beltrano”, “beltrano curtiu blá, blá, blá” e “kkkkkkk” das frases sem graça. Via nas redes sociais um controle social e emocional de uma geração com liberdade vigiada. Como dizer isso para um jovem negro, pobre com mais de mil amigos virtuais? Onde estavam os amigos reais?

     O muro de proteção que criamos não permitia esse tipo de conversa. Poderia ser mal interpretada e estragar a amizade que estava brotando. Talvez era na virtualidade que ele encontrava apoio, riso e proteção. Não sei, talvez. Só sei que cada vez mais as pessoas se agarram as redes sociais como se fossem vitais para a existência, esquecendo-se de passar e receber calor humano. O que conta é a quantidade de “curtidas” recebidas em cada postagem.

     Mas naquele dia tudo parecia combinado. Junho de 2013, mês frio. A cena se repete em minha memória como uma imagem congelada... Estava tranquilamente estudando na biblioteca, sem aviso prévio ele, espalhafatosamente, entra. Eu brinco sobre a capacidade dele “destoar” o ambiente com a chegada. Ele sorri e retribui a brincadeira sobre não ser surpresa encontrar-me “sempre numa biblioteca”. Cumprimenta-me efusivamente com esses tradicionais “beijinhos no ombro”. O toque cada vez mais se distancia do ser humano... Falou da sua aprovação de comunicação em um congresso fora do estado. Faço gozação, acompanhada de um “ te aprovaram?! Qual o padrinho?” Responde sobre o seu parentesco com o famoso “Boca do Inferno” e com uma gargalhada debochada sai... Deixando-me com os pensamentos: “meu criado” não muda!” Ah, ainda me cobra antes de sair a aceitação nas redes sociais sem “desculpas”, pois queira fazer parte do círculo de meus amigos virtuais.

     Em menos de dez minutos ele retornou, dessa vez silencioso como uma sombra, concentrada na leitura, assusto-me quando vejo de pé em frente a mesa. Sorrindo questiono: “ o que foi dessa vez?” Ele retribuiu o sorriso e disse baixinho:

_Só voltei para te dar um abraço!

                          ***

Na mesma semana saiu de cena sem deixar nenhum abraço para os amigos virtuais.

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                       Bahia, 2014



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