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   > Os dentes de Soárez



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      CRôNICAS

Os dentes de Soárez

O que faz o ser humano brutalizar diante dos conflitos e se comportar de forma  irracional? Por que será que a imprensa do mundo inteiro não intimidou um ato inusitado como a mordida de Luiz Soárez, da Seleção do Uruguai em Giorgio Chiellini, da Seleção da Itália? Vivemos em uma sociedade com comportamento imprevisível, por isso,  em busca da realização pessoal , muitos atropelam quem atravessa o  caminho.  Antes o combate era contra um inimigo em potencial, hoje, quem escapa das mordidas? Eis a mídia que não deixa mentir... nem morder!?

 Na terça-feira ( 24 de junho/2014) a imprensa nacional  explorou um ação bizarra  de um jogador  uruguaio  para interromper a ação do adversário: mordida no ombro. O problema maior foi a reincidência do jogador.  Conforme investigação implacável no currículo de Soárez, outros casos ocorreram, punições já foram tomadas e nem isso intimidou o ataque traiçoeiro.

 Em busca de audiência que a notícia rendia e continua rendendo, psicólogos, jogadores  e comentaristas esportivos entre outros foram convidados pelas emissoras de Tv para analisarem o comportamento do agressor. E os diagnósticos se divergiram entre a “tensão do jogo” , “transtorno comportamental” “ problemas na infância”. .. No entanto,  todos concordaram que o jogador Soárez precisa de um acompanhamento médico. 

O fato ganhou uma proporção tão grande que coube a Fifa uma tomada rigorosa de posição. O jogador foi suspenso por nove jogos, eliminando com isso, sua participação na Copa do Mundo. Até aí, tudo parecia seguir um script.  Porém ao anunciar a punição do jogador e expulsão dos locais sob o domínio da entidade,  as opiniões se dividiram, causando inquietação em grande parte da mesma imprensa “sedenta” pela justiça.  De diferentes formas houve pronunciamentos sobre o ocorrido. Entre as manifestações de solidariedade ao jogador Soárez, encontramos  Chiellini,  vítima das últimas dentadas, através de uma nota nas redes sociais, o mesmo achou rigorosa  a pena aplicada ao companheiro.

Talvez,  a mordida não tenha doído tanto assim. Parece que a consciência é que está doendo mais com tanta espetacularização da cena, passada e repetida em diversos ângulos e emissoras. Claro que não é normal a atitude do jogador uruguaio, principalmente por ser a terceira vez.  Acompanhamento médico para esse tipo de distúrbio é a atitude mais viável, algo já apontado pelos psicólogos.

E se o problema de Soárez é questão para especialista tratar, muito louvável o apoio recebido da torcida uruguaia. Em nenhum momento tirou os méritos do jogador: aplaudiu, agradeceu, homenageou pelas ações boas em campo. O ato feio, deixou para quem estudou sobre o caso  resolver. Acredito que nós, brasileiros, temos muito a aprender com essa atitude. Porque costumamos agir por influência da mídia, esquecemos, no entanto, que a mesma que cria os herois, derruba-os.

Com  a derrubada da Seleção do Uruguai no último jogo contra a Colômbia,  surgiu a pergunta: Será que se Soárez estivesse jogando o adversário sairia vitorioso ou ele morderia mais alguém?  Não contente com isso, houve um programa esportivo que iniciou com uma enquete entre os comentaristas: “Você já foi mordido em campo?”  Seguida de gargalhadas , como se a desgraça de um causasse a felicidade de muitos.

Uma coisa podemos afirmar,  diante dos fatos quem mais vem mordendo os telespectadores é a imprensa. Como engolimos  sem mastigar!  E basta tomarmos como exemplo, o que a mídia faz com o   jogador Neymar. Ao  descarregar toda a “culpa” ou “honra” ao jogador que precisa trazer essa taça de qualquer forma, esquece que um jogo de futebol é o coletivo que faz a diferença. Não adianta Neymar ser um craque se a bola não chegar até ele.  E quando o homem Neymar encontra-se mal, das porradas que ganhou durante todo jogo,  pula-se as “porradas” e lembra-se apenas do “não jogou bem”.

Muito pertinente o desabafo do técnico da Seleção Brasileira ao falar do tamanho do joelho de Neymar... Como um grito :  _ Ei, parem de morder o garoto, ele é humano! Vocês já  observaram como ele está machucado?!  Aplausos para o Felipão!

Enquanto não decidirmos o que iremos fazer com o controle remoto que temos em mãos,  apreciaremos os capítulos da mesma novela:“ Hoje, herói e  ontem, bandido!” com aquele sorrisão inocente exibindo  os dentes de Soárez.
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                Iaçu, Bahia/ 2014

 

 

 

 



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