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   > O oportunismo e a ganância da grande imprensa¹ brasileira



Marlos Mello
      ARTIGOS

O oportunismo e a ganância da grande imprensa¹ brasileira

Nos últimos anos tenho feito um esforço enorme para não mais me deixar surpreender pelas decisões dos responsáveis pela grande imprensa brasileira. Trata-se de uma vontade própria, complexa e que quase já estou dando o braço a torcer. Pois em um país em que o consumo de produtos e serviços alcança números exorbitantes, as fronteiras do possível e do impossível, do ético e do não ético, se tornam reféns do oportunismo e da ganância das corporações controladoras dos veículos de comunicação que não medem esforços diante do desejo de “lucrar” frente a qualquer tipo de situação.
           
A palavra “lucrar” aqui esta sendo utilizada também para denotar que atualmente os empresários mais ricos do mundo estão preocupados com a suas imagens e com a visibilidade e a repercussão das suas decisões frente à sociedade. Nesse caso não estou tratando da famosa responsabilidade social das empresas que ano a ano aproveitam os espaços da mídia para fazer doações milionárias para programas de cunho “social” e com isso estabelecer uma “fama para deitar na cama” e colar o selo de empresa solidaria renovando os votos e a fidelidade de seus clientes e, sem sombra de dúvida, deduzir os impostos através de seus “mimos” para com os consumidores que mais precisam, conforme a sua visão mercado.
           
Como exemplo do oportunismo e da ganância da grande imprensa brasileira, focalizarei minha análise em duas situações que surgiram nas últimas semanas. Uma delas retratou o caso de um empresário de Curitiba. Talvez pelo nome você não reconheça quem é. Mas basta citar que ele foi responsável por quebrar uma televisão enquanto assistia à disputa de pênaltis entre Brasil e Chile que logo alguém se dará conta da pessoa que estamos falando, do personagem que protagonizou uma ação que ganhou espaço nos principais veículos de comunicação no Brasil. No entanto, não é o fato do empresário quebrar a televisão que ganha destaque, mas sim a repercussão da informação confeccionada pela grande imprensa de que alguém é tão torcedor, tão brasileiro, que é capaz de se emocionar tanto que até quebra a televisão demonstrando a sua paixão pela seleção brasileira.
           
A imprensa corporativa, que vive de patrocínios e se alimenta dos sonhos de uma vida de novela da maioria da população brasileira, se sente na obrigação de repercutir ações tão brasileiras, quebrar uma televisão em nome da seleção, por exemplo, que parece até bonito, tão inédito de se registrar esse feito para a posteridade. Tanto quanto um vírus pegajoso e contagioso, que cria alardes e se espalha rapidamente, a repercussão de que foi quebrada uma televisão em nome da seleção logo assanha os publicitários que veem nela a oportunidade de tirar vantagem da situação e emplacar uma boa imagem das suas respectivas empresas contratantes. Assim, não se incomodam em distribuir alguns “mimos” para o torcedor apaixonado que viu no seu desejo de assistir o jogo do Brasil e Chile um tormento por ter quebrado o aparelho que o conectava aos “heróis nacionais” do time brasileiro em busca da vitória.
           
O meu artigo não vai reproduzir o nome das empresas que o “presentearam”, pois esse não é o meu objetivo. Mas o que mais chama a atenção é a justificativa para lhe dar de graça algo que é tão caro a qualquer outro consumidor. Nesse sentido, convido os leitores e leitoras desse artigo a procurar, pesquisar e apontar os movimentos que foram feitos pelos publicitários e tentar sacar se, talvez, quem sabe, desde o golpe fatídico ao televisor não possa ser tudo parte de uma estratégia para causar um impacto e provocar a considerada boa repercussão para as empresas que se alimentam de factoides, talvez não nesse caso específico, mas sejam eles quais forem.
           
O outro exemplo da ganância e do oportunismo da grande imprensa brasileira carrega características diferentes da anterior. No entanto, parece ser mais grave, já que explora a imagem de crianças e do cotidiano de uma brincadeira. Trata-se da repercussão que ganhou as telas e as páginas dos veículos de comunicação utilizando um certo Taca-le pau. Peço a você, caríssimo leitor desse artigo, que pare um instante e reflita comigo. Até uns dias atrás Taca-le pau não significava nada para você, possivelmente você nem daria bola se ouvisse algo do gênero e passaria despercebido pelo assunto. Contudo, no mundo em que você e eu vivemos não existe mais o significado enquanto algo que se cria através de um conceito justificado, mas sim, como da noite para o dia, as expressões ganham vida através da grande imprensa; E aquilo que parecia não ter sentido, se torna tão comum e corriqueiro que todo mundo parece entender como o óbvio. Assim é com as expressões, mas também com os fatos, com as realidades, com as decisões das pessoas. E tudo ocorre de uma forma como se parecesse natural, como se tudo fosse sempre assim.
           
Por exemplo, do dia para a noite a brincadeira de duas crianças em férias no município de Taió, Santa Catarina, acaba ganhando uma repercussão inimaginável e ninguém pensa como essas situações adquirem visibilidade. Mas essa exposição se transforma num desejo de apropriação dos veículos de comunicação. E não são as crianças que desejam a visibilidade, possivelmente elas nem entendam como isso funciona ou do que realmente se trata. Mas a grande imprensa sabe muito bem, os publicitários e os oportunistas de plantão tem certeza que naquela exposição está mais uma vez a chance de lucrar. E assim, mais rápido que a própria brincadeira com o carrinho, logo os agentes correm atrás para conseguir mostrar quem são aquelas crianças e o feito que elas realizaram. A exposição não é medida, as consequências não são pensadas, pois para os soldados da grande imprensa todas as pessoas querem ser famosas e o que falta é a oportunidade, mas eles carregam essa importante missão de criar o que as pessoas vão gostar, mesmo que seja por pouquíssimo tempo. Diante desse fim, a brincadeira ganhou as telas dos smartphones e se transformou em um game que pode ser obtido por qualquer pessoa que possua o aparelho. E não mais que de repente logo as pessoas puderam estar escutando a voz da criança narrando e brincando com o carrinho, mas na tela do seu aparelho. É ou não de se surpreender?
           
O oportunismo chega a tal ponto que até um tradicional programa de jornalismo sensacionalista aqui do Rio Grande do Sul está trazendo uma chamada com a expressão “Taca-le pau … véio”. Este é demarcado como o momento em que o apresentador no mais alto da sua indignação, ou sei lá qual o nome daquilo, grita, esperneia, dizendo que está tudo errado no Brasil. Todos os dias se repete essa situação, mas agora denominada com a vinculação da expressão criada pelas crianças que estavam brincando em férias em um carrinho. Não entrarei em detalhes porque esse não é o foco do artigo. Mas enfim, concluindo, o que cabe destacar é o quanto os responsáveis pela grande imprensa brasileira se apropriam de tudo o que lhes é de interesse, sem pensar nas consequências e nas pessoas envolvidas.

[1] Expressão utilizada para designar as empresas de comunicação que exercem grande influência política e cultural sobre a sociedade, tanto em nível regional quanto nacional. A grande imprensa é representada pelos principais conglomerados transnacionais da indústria da informação e do entretenimento.



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