Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (204)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2501)  
  Resenhas (129)  

 
 
A Turma do Morro do...
Marcos Wagner Santana...
R$ 33,70
(A Vista)



Elixir do amor - A cura...
Michele Stringhini
R$ 34,90
(A Vista)






   > A aberração



Geovani Silva
      CONTOS

A aberração

Aconteceu numa cidadezinha próxima.
Quando amanheceu o menino veio correndo e não conseguia falar. Só ficava apontando para o canavial e tremendo de medo. Já era bem tardinha, pouco antes de escurecer. Antônio, homem matuto e bronco pegou logo o facão. Queria que o menino, Pedrinho fosse à frente para lhe mostrar o lugar.
Mas quando ele viu a cara barbuda de Antônio saiu em disparada e se escondeu debaixo da cama da avó.
Antônio que nunca teve medo de nada colocou a botina, pegou o chapéu de palha, acendeu um cigarro de fumo e foi até o local.
Olhou por todos os cantos até que a noite se intrometeu no meio do canavial. Abriu a pequena bolsa de caça que sempre levava consigo e apanhou a lanterna.
Depois de começar a perder a paciência xingou o menino por ter inventado aquelas mentiras.
 Pegando um trilho que cortava a extensão da grande plantação ele deu uma brusca parada. Repetiu o clarão no canto e viu uma pegada no lamaçal próximo ao córrego miúdo. Ali era apenas um filete de água, mas se tornava uma grande corredeira mais a baixo.
Quando abaixou para ver melhor assustou-se com o tamanho da marca.
Não se parecia com nada a que ele estava acostumado e conhecia. Tinha mais ou menos o tamanho de uma mão. Só que um pouco menor. Talvez uma mão feminina.
Mas o fato assustador não era isso. Era que nas pontas das marcas que indicavam dedos havia profundos sulcos de grandes unhas curvas cravadas na lama.
De repente Antônio sentiu um frio percorrendo por toda a espinha. E se percebeu abaixado e indefeso. Olhou em sua volta e viu a negra escuridão que o cercava. Temeu o desconhecido. Coisa que nunca antes temera.  Armou-se do facão endurecendo os pulsos. Notou que seu coração estava acelerado. Porque de súbito um barulho tão silencioso, como uma pequena folha seca se amassou atrás dele. Ouviu um fungado de animal a pouco mais de metros das suas costas. Sabia que não podia se virar bruscamente, nem demonstrar medo, ou que estava desatento a sua presença. Então ele se levantou bem devagar com os ouvidos atentos. Mas a coisa seja lá o que fosse não avançava, não fazia nada. Então sem se virar deu um passo corajoso para atravessar a pequena ponte de tronco velho. Do outro lado olhou para trás e iluminou com a lanterna, mas não tinha nada.  O que era já não estava mais ali. Antônio conhecia muito bem a região e sabia que não havia animais como onça ou jaguatirica ou qualquer outra espécie de felino.
Mas ninguém acreditava ainda. Alguns comerciantes achavam que era um golpe de marketing, outros não sabiam em que basear a opinião dos que tomavam frente nos boatos. Crianças não saíam mais assim que escurecesse. Temiam serem raptadas ou algo parecido. Não sabiam ao certo por quem ou pelo que. Só que era perigoso. Assim diziam os adultos.
Quando anoitecia todos ficavam bem quietos. Não ligavam som alto e conversavam baixinho.
- Será verdade isso que dizem pai? -questionava o pirralho com medo.
- Parece que sim meu filho. Aconteceu em vários lugares por volta de meia noite. E como não temos certeza se é verdade é bom que não andemos por aí sozinhos.
No entanto, quando deu meia noite todos os cachorros da vizinhança latiam sem parar. Eles corriam por todos os lados. Estavam dando voltas em torno do curral.
De repente pararam e ficaram quietos.
Pela manha Tonhão foi à procura de Antônio. Eram amigos achegados de longa data. Disse que era urgente que fosse ate sua casa.
- Estou te chamando porque me disseram que você foi atrás dela pelo canavial.
- Fui, mas não encontrei nada.
- O que você acha que é?-indagou Tonhão.
- Uma onça! Com certeza!
Incrédulo Tonhão o levou ate o chiqueiro.
- Da uma olhada aqui! Olha só o que ela fez!
- Minha nossa! Que isso! Estripou o seu porco e largou a cabeça!
- Por isso os cachorros latiram tanto! Já falei com o Zeca, o João, o Francisco e o Abel. Todos foram atacados e perderam suas criações. Hoje à tarde vamos reunir o pessoal e vamos matar esse bicho! Você vem com a gente?
- Posso ir, mas acho que é perda de tempo. Lá no canavial só encontrei uma pegada estranha. Pra que lado quer começar?
- Vamos lá na gruta de baixo. O Zeca escutou uns rosnados lá. Vamos à tarde.
- Eu não sei o que vamos encontrar, por isso é melhor que vamos preparados. Pode ser perigoso. -aconselhou Antônio.
Chegou a hora e todos estavam prontos. Cada um com seu equipamento.
Antônio era o primeiro da fila. Não largava seu chapéu de palha e o cigarro. Com o facão ia desbravando o mato, os cipós e verificando o lugar. Tonhão não comentava, mas como sempre ficava no meio da fila.
- Melhor o cão vivo do que o leão morto. -dizia isto para amenizar sua fraqueza.
 João estava por ultimo. Ele não se importava com nada. Nem bem acreditava muito na historia que todos andavam contando.
Acharam uma pequena clareira próxima a uma arvore. Zeca deu um grito de horror. Havia grande quantidade de ossos pelo chão.
- Não falei que a coisa era cabeluda!
- Calma Zeca. Vê! São ossos de animais pequenos. Não tem de gente aqui, não.
Procurou acalma-lo Tonhão.
- É isso aí. Estamos na trilha dela. Logo vamos achar a bicha.
A caminhada já durava mais de uma hora e eles não viram nenhum outro rastro do que quer que fosse. Tonhão se preocupava com o anoitecer.
- É gente... Vamos dar um tempo e voltamos amanha. Se escurecer não vamos ver nada.
- Preocupa não. Todos trouxe uma lanterna. -disse João rindo dele.
Mais a frente Antonio chamou fazendo gesto com a mão para que o seguissem.
Sem imaginar que o pior estava para lhes sobrevir faziam chacota uns dos outros.
Acabou escurecendo de vez. Tonhão iluminava para os lados suspeitando que estivesse sendo seguido. Era o mais paranoico. Pouco a frente um barulho quebrava o silencio da noite. Uma cachoeira descia chocalhando entre as pedras. Tonhão não comentava, mas achava que o som que a água fazia nas locas de pedras eram como um caboclo murmurando. Lenda esta que também percorria aquela cidadezinha distante das grandes cidades.  Deram a volta por detrás de um enorme barranco úmido. E de repente Antônio se assustou com o local.
- Que foi Antônio? Parece que viu um fantasma!- gozava João.
- Estranho. Nunca tinha reparado nesta gruta!
Zeca, que era mais argucioso não entendia como não ter sido vista antes:
- Rapaz! Olha só! Que enorme buraco. Eu também já pesquei por esses lados, mas não tinha visto isto.
- Parece bem escondido atrás dessas arvores e arbustos. -disse João.
- Tenho certeza que ela, ou seja lá o que for esta escondida aí. Eu vou entrar. Quem vem comigo?-perguntou Antônio.
- Vai você Tonhão. Ela comeu sua porca e só largou a cabeça. -disse Abel que quase não falava nada.
- Não. Vou ficar de fora vigiando. O Zeca vai, não vai Zeca?
- Vamos! Se tiver aí sapeco bala nela!
 Antes de entrar Antônio entregara seu chapéu de estimação feito de palha das primeiras colheitas de seu milharal para Tonhão alegando perde-lo porque a caverna era muito baixa. Ele achou bom porque assim também se protegeria de sereno.
 Os dois entraram iluminando a caverna. Não era muito grande. Ela tinha mais ou menos um metro na largura. De altura cabia um homem de estatura mediana quase que em pé. Eles entraram meio que agachados.
Enquanto Tonhão, João, Francisco e Abel aguardavam do lado de fora o tempo passava e nada. Francisco não gostava de ficar parado e logo se pronunciou:
- Não deveríamos entrar também? Se a gente ficar aqui não vai ajudar em nada.
- Ta certo. Concordo com o Francisco. E você Tonhão? -perguntou-lhe Abel.
- Claro. Entra vocês dois que eu e João esperamos aqui caso o animal chegue.
Mas antes de entrarem, Antônio apontou a cabeça na entrada.
- Acho melhor vocês entrarem também. A caverna é enorme por dentro. Tem um tanto de galerias e passa um pequeno córrego no meio. Nas margens encontrei mais pegadas. Vocês tem que ver isso!
Nisso entraram rápido Francisco e Abel jogando a claridade da lanterna pelas paredes grotescas cheias de raízes e pedras desordenadas. Lá dentro viram que realmente havia muitos outros emaranhados. Parecia mais um labirinto desconexo. Como havia três seguimentos eles decidiram se separarem. Antônio e Zeca continuaram com a que tinham começado antes de Abel e Francisco chegarem. Os outros dois não se separaram um do outro. Acharam melhor entrarem juntos na outra caverna, se não encontrassem nada voltariam e veria a maior que ficava à esquerda. Mas as cavernas não eram o que pareciam, nem o que eles achavam que fossem. Elas eram extremamente profundas. E lá se dividiam em outras e mais outras.
 Depois de duas horas perceberam que era praticamente impossível que continuassem a procura. A esta altura achavam que estavam perdendo tempo.
Antônio sentiu fome, muita fome. Lembrou que ninguém havia levado nada para comer e nem de beber. A não ser que tomassem daquela água cristalina que escorria silenciosa pela caverna. Ele notava que não precisava mais ficar abaixado. Enquanto mais a adentravam mais ela aumentava sua altura.
Ate que surpreendentemente Antônio e Zeca se depararam com ossos de crianças nas margens da água. Zeca deu um grito de horror.
- Meu Deus do céu! Que é isso? Antônio, essa coisa tem que morrer! Lembra do menino que sumiu a seis meses e ninguém nunca mais teve noticia dele?!
- Não pode ser ele! Não tem como saber.
Zeca olha ao redor com a ajuda da lanterna entre os garranchos de galhos secos.
- Lembra que a mãe dele disse que sumiu tinha ido caçar passarinhos com o bodoque?
- Sim. Por quê? -perguntava procurando em outro canto.
- Olha só o que achei enroscado no calção dele. Minha nossa! É o bodoque dele mesmo! O que vamos falar pra mãe?
Mas um rosnado estranho interrompeu a conversa.
- Ouviu isso?! Antonio cadê você? Onde estava? To aqui falando sozinho enquanto você sai sem dizer nada...
- Achei um outro caminho aqui... Parece que veio dá onde entramos. Vamos lá!
Andavam muito rápido cismando que a criatura atacassem alguns de seus amigos. Chegando mais perto escutaram gritos de Abel se agonizando de dor.
Correram atrás sem conseguirem acompanhar os pedidos de socorro dele. Ele estava sendo arrastado para o fundo da caverna. Ate que não ouviram mais nada. Silencio total. Apenas a tristeza nos olhares de seus amigos na escuridão. Inertes sem saber o que fazer ouvia as gotas de água que pingavam das paredes molhadas. Neste instante agora o medo tomara conta de ambos. Tinham de sair dali e encontrar com os outros se ainda estivessem vivos.
Todos escutaram os gritos de Abel. Do lado de fora Tonhão e João chamavam sem parar no interior da caverna, mas inútil. Porque não havia uma resposta de alivio. Não sabiam o que estava acontecendo. Mas temiam que não fosse nada de bom. João resolvera entrar para ver o que acontecia. Pegou sua arma e entrando disse a Tonhão se quisesse podia ir com ele, mas que seria melhor ficar do lado de fora caso precisassem de ajuda externa.
- Eu sabia que daria nisso. Mas bando de teimosos. Ninguém me deu ouvidos.
João entrou valente. Pensando se houvesse ali alguma coisa que ele meteria bala sem nenhuma dó. Que se danassem os defensores de animais. Andando meio sem saber para onde caminhar, João começou a chamar os nomes deles.
- Antônio! Zeca! Abel! Francisco! Respondam! Onde estão?
E novamente o rosnado angustiante tornou a se repetir ecoando misteriosamente por todas as galerias.
João empunhou a arma com coragem e gritou:
- Pode vir danada! Pode vir que não tenho medo de você!
Mas foi surpreendido pelas costas com uma força abraçando-o. Um  movimento involuntário o fez disparar sua arma.
Novamente Antônio e Zeca se desesperaram na correria.
- Esse grito. É do João. Droga, ele também entrou?
- Vamos lá! Ele atirou. Será que acertou?
- Não sei. É capaz. Ele é o melhor que conheço. Se não acertou nenhum de nos conseguirá.
Zeca não tinha duvida da mira de João quando diz que realmente o conhecia.
Quando chegaram não tinha mais nada. João sumira assim como acontecera com Abel. E Francisco? Ninguém ouvira gritos dele. Parecia ter desaparecido silenciosamente.
Eles entenderam a verdade.
- Essa danada ta caçando a gente. Vamos embora daqui. Rápido! -apressava- se Zeca.
- Não podemos deixar nossos amigos aqui!
Antônio  queria ir ate o fim por causa dos outros.
- Ta louco! Você viu o que essa fera fez?! Está escuro, nossa lanternas estão quase sem baterias e não conhecemos essa caverna. Se continuarmos aqui ela vai nos matar também.
- Ta certo. Vamos voltar amanha com mais gente durante o dia para mata-la.
Andaram o mais rápido que podiam em direção a saída. Mas uma das lanternas se apagou. Tinha descarregado a bateria. A outra já estava quase no fim. Só Antônio estava iluminando a direção enquanto Zeca o acompanhava.
Enquanto isso do lado de fora Tonhão estava tremendo de medo. A escuridão tomava conta do lugar. Mas sua alma foi tomada de uma grande agonia quando ouviu seu nome. Era Antônio que o gritava. Varias vezes pedia socorro. Mas Tonhão se desesperou. Pegou a arma. E indeciso se entrava ou saia correndo pelo meio do mato.
Antônio o chamou novamente. Sua voz dava a entender que estava bem perto da entrada da caverna. Então Tonhão resolveu ajudar seu amigo. Respondeu-o dizendo que estava indo.
- Onde está você? Fale!
- Aqui! Machuquei a perna. Rápido!
- Aguenta aí que to chegando.
Entrando seu coração gelou. No meio da escuridão uma espécie de homem peludo agachado e de costas rasgava pele e ossos como se fosse papel. O som que Tonhão ouvia era apenas de carne sendo mastigada e dilacerada entre os dentes. Bateu a luz da lanterna e suas pernas se amoleceram. Aquela coisa sem definição de rosto se virou. Os olhos brilhavam. Fitou-o compenetradamente e virou-se continuando a rasgar a carne. Sentiu que era um aviso para que fosse embora. Pasmo deixou a lanterna cair. Tonhão tentou correr, mas seu corpo não lhe obedecia. Era como se estivesse em um pesadelo cruel. Saiu se arrastando de costas ate que conseguiu achar a saída.
 O monstro não o quis devorar. Talvez alguma coisa em sua aparência o impedisse. Não conseguia nem pensar direito. Era a única coisa que vinha em sua cabeça enquanto corria e caia pelo mato. Rolava morro abaixo em extremo desespero. Cortava matos e espinhos no peito. Não tinha mais a lanterna nem a arma. Perdera o chapéu de seu amigo. Tudo que queria era sair daquele maldito lugar. Com a sensação terrível que estava sendo perseguido pelas trilhas escuras.
Tonhão passou pelas casas tremendo igual vara verde. As pessoas param-no para lhe perguntar pelos outros, mas ele não conseguia pronunciar uma sentença que fizesse sentido. Estava completamente fora de si soltando palavras entrecortadas. Quando o pequenino Pedrinho se aproximou dele e viu em seus olhos chorou de medo. Olhos estufados de pavor, Tonhão ficava repetindo:
- Presas grandes...Comeu todos eles... Comeu todos eles.
E foi andando sem rumo. Mancando e delirando todo sujo e rasgado. Fezes escorriam vazando pelo meio de suas pernas quando escorou no celeiro e olhou para a penumbra. Sua face se transformou.
- Vim buscar meu chapéu.
 
 
 
 


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui