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   > Uma Experiência do Conhecimento na Contemporaneidade



Jonivan Martins de Sá
      ENSAIOS

Uma Experiência do Conhecimento na Contemporaneidade

*
O breve texto que se segue tem por foco central uma pequena exposição sobre a questão do conhecimento no decorrer da história e de como poderíamos reformular nossas noções de conhecimento, tornando-as mais completas, livrando-as de preconceitos simplistas, restaurando uma totalidade que parece ter se perdido em algum lugar do passado humano. A linguagem poderá parecer demasiada simples e, por vezes, evasiva. Isso acontece pelo fato de não querermos nos estender, apesar de abordarmos um tema extremamente extenso, e também pelo fato de nossos esforços terem em vista a leitura daqueles não habituados a tradição filosófica e científica: é um texto dedicado ao “homem comum” que busca alguns momentos de distração e uma breve apropriação intelectual.
1.
O que é o conhecimento? Muito provavelmente é uma questão que não se obtêm uma resposta satisfatória de maneira fácil e tranqüila. Talvez seja necessário algum esforço mental ou até mesmo alguma sensibilidade para perceber por quais nuances movimentam-se os elementos que constituem o conhecimento. Um trabalho duro precisar ser traçado em conjunto com nossas capacidades sensitivas – não somente sensoriais – no sentido de encontrarmos uma definição plausível e palpável de “conhecimento”.
2.
Se fizermos um esforço imaginativo e olharmos para um passado distante, longínquo, onde o homem ainda rastejava por ai, buscando construir sentido para as suas vivências quotidianas, talvez percebamos uma certa intersecção entre as noções “espiritualização” e “conhecimento”: o conhecimento para as civilizações antigas não estava apenas atrelado a certas práticas matérias, quotidianas, mas também à práticas espirituais em um sentido religioso do termo. Em outras palavras, o homem antigo não dissociava espiritualização e quotidiano e o elemento que cimentava tal mistura era, justamente, o conhecimento.
3.
O que compreendemos aqui por “espiritualização” não são necessariamente os ritos religiosos de um povo, mas sim a forma com que esses homens antigos se relacionavam com o universo. Tais civilizações entrelaçavam o espiritual ao natural: através da natureza não só cultuavam e representavam deidades, mas também se relacionavam com estas. Ao viverem um quotidiano intrinsecamente ligado à natureza, partilhavam de uma experiência espiritual.
4.
Dentro desta lógica, quanto mais se sabia – se é que podemos falar assim – mais espiritualizado se estava e mais conhecedor de aspectos práticos da vida se era. Ao continuarmos nosso esforço imaginativo e refletirmos sobre a figura de um líder espiritual antigo, um xamã, por exemplo, como aquele que está habituado a certas práticas quotidianas que o elevam tanto em um patamar espiritual como em um patamar material. As experiências quotidianas de um xamã não estão dissociadas de suas experiências espirituais e vice e versa. O que o xamã conhece, conhece efetivamente, tanto em seus aspectos práticos quanto espirituais.
5.
Obviamente, devemos levar em conta que os simbolismos e rituais que representam a espiritualidade humana são variáveis e relativos a determinados espaço-tempos. Mas esse elemento que une quotidiano e espírito através do conhecimento foi muito decorrente, como se sabe, nas civilizações antigas. O conhecimento tribal, apesar de seus preconceitos, ingenuidades e superstições acaba sempre retornando ao ceio do universo, no sentido de culto à natureza como um todo universal.
6.
Não são poucas as tradições que insistem em sobreviver à modernidade e a pós-modernidade apesar de suas noções de mundo – conhecimentos – muito provavelmente não terem escapado ilesas aos processos de modernização. A questão que fica a partir de então é: onde se encontra essa noção de conhecimento atualmente e como essa concepção antiga de conhecimento veio se tornar o que compreendemos hoje como tal?
7.
É preciso que tenhamos em vista um movimento que nasceu na antiga Grécia, provavelmente com Sócrates, e que acabou por definir a noção de conhecimento que há muito cultuamos. Sócrates parece ter sido o primeiro a construir um sistema de pensamento onde a mitologia – um elemento de espiritualização do conhecimento grego – passou a ocupar um papel secundário, deixando o conceito de lógica protagonizar a noção de conhecimento. Portanto, depois de Sócrates e escola clássica grega (Platão e Aristóteles), o conhecimento é atrelado substancialmente à idéia de lógica.
8.
Aristóteles sintetiza a concepção grega de lógica através de sua noção de silogismo. O silogismo é um jogo de linguagem muito simples, que, segundo Aristóteles, poderia identificar a verdade em determinada premissa. O exemplo mais clássico da lógica aristotélica é o seguinte silogismo: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. Esquemas como este, de certa forma, definiram nossa maneira de pensar moderna.
9.
A essa altura da história – que se estendeu por séculos – o “conhecedor” aos poucos deixa de ser espiritualizado e passa a ser aquele que usa a lógica dos silogismos como forma de conhecer o universo: a lógica da argumentação em uma espécie de sentido matemático. Para Platão, por exemplo, as abstrações aritméticas eram a melhor forma de compreendermos o universo. Tal concepção de lógica foi adotada pela grande maioria dos filósofos considerados pós-socráticos.
10.
Alguns séculos depois do advento desta concepção de lógica, o mundo ocidental(1)passa pela Idade Média. Nossas noções de conhecimento ganham um novo elemento: a institucionalização. Através do poder da Igreja, o “conhecedor” passa a se fragmentar: primeiro é visto como aquele que compreende exclusivamente dos assuntos da Igreja, um clérigo. Depois do advento das universidades – século XII –, o “conhecedor” também pode ser aquele que compreende os estudos universitários.
11.
É importante salientarmos uma intersecção entre conhecimento e instituição – no sentido de instituição moderna. No passado, à época do tribalismo xamânico, o conhecimento provavelmente era ligado à instituição religiosa, mas essa instituiçãotalvez se apresentasse sob outros moldes que não os modernos, já que, apesar de serem hierarquicamente organizados, os integrantes da tribo talvez tivessem uma visão globalizada desta instituição: dentro desta lógica, toda a tribo partilharia das normas da instituição de forma passiva, sem grandes coerções internas(2), o que não aconteceu – sabemos – com a Igreja, e o que não acontece até hoje com as instituições universitárias.
12.
Esse entrelaçamento entre instituição e conhecimento, acabou se tornando as novas bases da sociedade moderna e contemporânea. Existe toda uma tradição filosófica que debate pertinentemente tal questão, mas não é nosso objetivo nos aprofundarmos neste debate já existente, mas sim, pensarmos uma perspectiva direta – e com linguagem acessível e talvez até simplista demais – sobre a questão do conhecimento contemporâneo.
13.
Com o passar to tempo, a perda de poder e influência por parte da Igreja e aumento da influência (e do poder) das pesquisas universitárias no sentido de definir o que é um conhecimento legítimo – ou seja, um saber válido, que pode ser tido como verdadeiro – o conhecimento acabou se fragmentando em duas partes: 1- o científico, que é cultivado nas universidades através de uma lógica que inevitavelmente deriva dos pós-socráticos; 2- e o popular ou “senso comum”, que é a união de valores e axiomas cultivados por determinado povo ou até em escala global, mas que, acabou influenciado também pelos pós-socráticos.
14.
O conhecimento científico, aos poucos foi se tornando o responsável por nossas concepções de verdade: a verdade depende da experimentação científica. Há, portanto, uma hegemonia deste tipo de conhecimento no tocante à verdade. Ao passo que o senso comum é tido apenas um guia inicial, de onde se parte para a obtenção de um conhecimento científico.
15.
“Aprendemos” o senso comum com nossos pais e com quem nos rodeia desde a infância, juntamente com valores morais, concepções de vida da sociedade em que vivemos. Para aqueles que chegam à obtenção do conhecimento científico ao adentrarem instituições científicas, como as universidades ou centros de pesquisa, o senso comum foi apenas a base necessária para aprenderem a “verdade efetiva” da ciência; ao passo que para aqueles que nunca adentraram as instituições científicas – salvo raros e felizes casos de autodidatismo – o senso comum acaba se tornando o guia para toda a vida.
16.
À hegemonia do conhecimento científico como aquele que guia a verdade, devemos muito. A grande maioria dos avanços tecnológicos que a Humanidade acabou por conquistar se deve á concepção científica que deriva da lógica dos gregos pós-socráticos: as grandes indústrias, as grandes construções modernas, os meios de locomoção e um sem número de outros itens.
17.
Mas, diante de todos esses avanços tecnológicos advindos do conhecimento científico hegemônico, onde se encontra atualmente aquele elemento do conhecimento antigo que busca uma relação com o universal/natural, aquele conhecimento que não refletia em nosso quotidiano através das técnicas e das produções científicas, mas sim através de nossa relação consciente com o espaço em que vivíamos, de forma espiritual?
18.
À espiritualização que experimentávamos outrora, acabou restando um papel secundário dentro do senso comum, papel este impregnado por preconceitos e ingenuidades: é como se só o lado ruim – se é que podemos falar assim – do conhecimento tribal tivesse chegado até nós. Depois do entrelaçamento entre a Igreja e o conhecimento e sua posterior separação através do nascimento das universidades, essa espiritualização tornou-se a única fonte de poder das instituições religiosas e acabou se desprendendo de seu aspecto verdadeiramente espiritual, dando margem – na grande maioria das vezes – apenas para esses elementos negativos.
19.
Uma das principais questões que perturbam aqueles que pensam no conhecimento como algo global, ou seja, como parece ter sido outrora, ligado às leis cósmicas aparentemente naturais, é como unificar esses dois elementos do conhecimento contemporâneo. Mais precisamente: ao unificarmos ou encontrarmos algum denominador comum entre conhecimento científico e senso comum, retornaríamos, de certa forma, a um estado espiritual de saber?
20.
Algumas teorias científicas do início do século XX acabaram por desconstruir (ou reconstruir) noções partilhadas entre o cientificismo e o senso comum. As noções de espaço, tempo, velocidade e os métodos utilizados para medirmos quantitativamente tais noções foram colocados em cheque pela relatividade de Einstein e pela mecânica ondulatória de Broglie. Não nos importa adentrar profundamente em tais questões(3). O importante é percebermos que tais noções eram caras a ciência e ao senso comum, na medida em que, de certa forma, formavam a base de ambos, já que, advinham da antiga lógica pós-socrática. Desde então, princípios que tínhamos por verdades simples e absolutas não deixaram necessariamente de existir, mas precisam fatalmente ser vistos sob uma óptica mais complexa.
21.
Não há mais espaço para o simplismo e formalismo conceitual. O certo e o errado podem estar separados por um fio de cabelo ou por um elétron. E é, justamente, nesta conjuntura de novas descobertas científicas que gostaríamos de pensar em um entrelaçamento possível entre o senso comum e a ciência, através daquela antiga noção de espiritualização que outrora permeava os saberes.
22.
Assumimos os riscos em apontar duas linhas possíveis para que tal projeto utópico se ordene e venha – provavelmente em um futuro distante – a se concretizar no Ocidente: 1- É necessário que haja interesse do homem comum pela ciência. Não é tarefa nada fácil para aquele desprovido de bases científicas se apropriar dos conhecimentos científicos, sobretudo na ciência contemporânea. Mas isso se faz de extrema importância para que as percepções e, principalmente, a imaginação do homem comum possa mudar. Novas formas de imaginar seriam o principal produto que obteríamos a partir do momento em que o homem comum se apropriasse – pelo menos parcialmente – do conhecimento científico. 2- Se faz de suma importância que o cientista passe a se preocupar com a humanização da linguagem científica, na medida em que esta pode ser a maior razão pela perda de interesse do homem comum pelas coisas da ciência.
23.
Qual é o sentido da ciência se não reflete direta e conscientemente na maneira de pensar do homem comum? Foi exatamente isso que homens como Newton e Euclides conseguiram fazer, mas e os cientistas contemporâneos, como têm se empenhado diante de tal necessidade? Não basta que se criem produtos no sentido de melhorar o bem-estar das pessoas – segundo essa lógica consumista, onde o bem-estar é sinônimo de comprar mais. É necessária a construção de uma nova percepção do conhecimento, onde religuemos substancialmente nossa forma de perceber as coisas com o universo: e isso é responsabilidade de todos.
24.
Portanto, o que é o conhecimento senão aquilo que cultivamos de maneira global, no sentido de contribuirmos para um esclarecimento que entrelace tanto os vários tipos de saberes, quanto a nós – os “conhecedores em potencial” – e a realidade que se apresenta no universo e que pode ser assimilada através de nossa razão e imaginação? Nosso quotidiano necessita de uma espécie de espiritualização – com a dos antigos –, e uma nova concepção de conhecimento que una senso comum e cientificismo pode ser um caminho a ser trilhado nesse sentido.



 (1) Compreendemos por “Ocidente”, basicamente, como sendo os países de tradição judaico-cristã: a Europa, a América do Norte e parte da América do Sul.
 (2) Não estamos defendendo aqui uma noção de “estado de natureza” puro e completamente pacífico, como aquele pensado por Rousseau (o filósofo francês que disse: “todo o homem nasce bom e a sociedade o perverte”). Mas tentando pensar em uma diferenciação possível das instituições primitivas em relação às modernas.
 (3) Aconselhamos o leitor que se intere sobre tais questões assim que se apresentar a oportunidade para tal.


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