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   > Diante do Tempo



gabriel gramacho lima
      PENSAMENTOS

Diante do Tempo

Diante do Tempo
 
                No extase do irreal de nossas mentes condicionadas, glamurizadas com ideais de cultura vistos como sendo importantes, em busca de contextualização e bem estar, é possível gastar uma vida. Utilizar o tempo é uma tarefa fácil, até porque independente de como seja gasto ou se nossas decisões respeitam padrões éticos, ele passa. Se caminhamos para um abismo de morte certa ou para um padrão de vida tido como ideal, ele passa, uniforme e imparcial. A possibilidade de embebedar-se com qualquer que seja o veneno do bem que ingerimos, seja esse nosso, ou do mundo, e estabilizar boas emoções no decorrer de nosso ciclo vital parece ser o mais sensato a se fazer aos olhos do senso comum.
                Eu, por algum motivo do qual eu não tenho menor mérito, seja a depressão de ordem genética, que se manifestou cedo, ou a minha própria estrutura cerebral que gerou tendências à buscar descascar as camadas de maquiagem da vida, eu tive dificuldades de me saciar com o que parecia ser tão agradável para o ser humano. Prazeres, ambições, preocupações cujo peso é criado por nós mesmos, nada disso prendeu minha atenção. Meu olhar de curiosidade e sede de compreensão sempre se voltaram aos clichês existenciais, e meus “porquês” incessantemente davam passos largos em direção aos limites da minha própria mente. E as respostas que me trariam esperança nunca vieram, nem jamais virão, pois estas são uma necessidade meramente humana da qual o ecossistema não compartilha. Incapaz de gerar conclusões que me  fizessem apreciar aexistência, a vida gradativamente perdeu o peso. Tirando-se o peso do fenômeno da vida, todos os eventos que descorrem de sua existência perdem o peso também, gerando um estado inabalável de apatia. Se você for assaltado e não vê valor em preservar o próprio corpo para o dia de amanhã, não vê importância nos bens materiais que carrega, e enxerga o agressor como uma harmonia de carne, ossos e química, gritando palavras e mais palavras vibrando as cordas vocais, com um revolver frio em contraste com a pele quente... pra que sentir medo? A partir do momento que se segura a vida nas mãos como uma esfera maleável, ao invés de estar dentro dela, largar essa esfera tão pequena e desinteressante, para ela se arruinar em cacos no chão sujo, não soa tão grave quanto o mundo diz que é.
                Porém, ao se render as possibilidades de ajuda do meio que nos rodeia, com terapia e remédios, eu me vi sendo arremessado de volta pra esfera, e dentro dela, esse tipo de pensamento é tido como incabível e improdutivo. Ao aceitar um “tratamento” ( o que eu teria a perder senão a sensação de estar morto,) subsequentemente outros vetores lançaram seus tentáculos no corpo que passei a sentir e me levaram mais fundo. E uma vez no núcleo, vivo, com sintomas e preocupações de gente viva, foi preciso adaptação, e com adaptação eu digo ilusões e mais ilusões da minha própria cabeça para me sentir capaz que nem as outras pessoas que já são veteranas no jogo de manipulação do que é concreto, e já se embebedaram ao ponto de coma com os venenos mentais do conformismo, inclusive tornando-se os próprios agentes de fiscalização que garantem que todos estejam na esfera. O que me levou a despertar novamente foi a própria exaustão de pensamentos que não conseguiam mais calar a verdade. Eu simplesmente cansei de mentir e colher migalhas, o meu pavor de voltar a ser uma pessoa infeliz se esvaiu e eu me encontrei novamente com quem eu realmente era. Imagine um homem que teve seus membros decepados em um acidente, e optou por viver em uma realidade virtual na qual ele tem todos os membros, mas que após se acostumar tanto com esse novo mundo, se perde a memória de que aquilo é uma ilusão e se esquece também o motivo de um certo zumbido na cabeça alertar que tem alguma coisa errada. Pois eu me coloco como sendo esse homem, por mais que os membros decepados sejam na verdade as paredes da minha mente e do universo que eu quis tanto quebrar pra ver adiante ( e nada tinha alem do vazio da horripilante conclusão de que só existe o que é contido dentro das paredes), e o zumbido ficou alto demais pra ser ignorado e eu acordei. Nunca foi tão bom olhar pra esse simbólico corpo destruído, e contemplar o sadismo da existência. É uma dor tão desesperadora, mas que eu recebi com uma certa excitação. É tão real e consistente, e o alivio de parar de mentir foi tão imenso que eu me vi satisfeito. Eu passei a amar essa dor, e encarar a realidade nos olhos nunca foi tão gratificante. O mero fato de escrever esse texto é gratificante, é algo que eu realmente sinto prazer em fazer. Contemplar abismos e pintar quadros, capturando seus detalhes proporciona uma imersão que desvia o próprio fato de que o abismo é algo terrível.
                Estarei caminhando dentro da esfera ao mesmo tempo que a seguro nas mãos, então voltarei para a vida medíocre que construí durante minha peregrinação no que chamam de normal. Estarei pensando sobre o quão pobre foi a imagem superficial que passei enquanto tratava o mundo como um campo de testes, sem nunca me preocupar em expor o que poderia me tornar especial. Penso, talvez se eu tivesse sido fiel ao meu centro ao invés de mudar, teria cativado melhor as pessoas. Um humano será um humano por mais que seja capaz de se observar em terceira pessoa. Agora mesmo estou pensando no meu próprio engrandecimento, julgando como tolos os que não enxergam o plano dos vivos com uma perspectiva tão macronomica  quanto eu, e afinal por que diabos isso me tornaria mais do que outro que se satisfaz com uma partida de futebol? Essas atitudes são sintomas de quem está vivo. Não existem realizações, após a morte a vida é um pacote fechado que nunca mais será aberto. A epifania da percepção do quão plástica é a nossa existência não a altera, apenas desgraça aquele que não pode mais encontrar a própria ignorância. No final, minhas atitudes não importam, tentar fugir do fato de que sou um tolo como qualquer outro faz de mim ainda mais tolo, porque isso significaria eu querer ser grande em meio aos conformados, não significando nada alem de um patético egocentrismo e necessidade de ser admirado. Meu tesouro é a dor, e o ato de deixar de ser um fantoche, um ator, abruptamente, não causará nenhum impacto, pois não existem impactos. A grande ironia do despertar é que ao finalmente abrir os olhos, nos deparamos com uma sala infinita tão escura quanto a visão das paredes de nossas pálpebras. Se no dia de amanhã eu finalmente serei eu mesmo, depois de tanto mentir, terminadas as observações daqueles que notam uma diferença no meu comportamento, que já era muito instável, devido a fraca base de meus planos ilusórios, a falsa sensação de progresso será uma esmola que receberei em minha tigela enferrujada.
                O tempo passa constante e uniforme para todos, independente do quão cientes estejam do acidente evolucionista que foi a consciência e o raciocínio. Caminhando para a esquerda ou para a direita, o quebra-cabeças nunca será completo, pois este não foi feito para tal fim. Nada que o ser humano possa fazer escapa da falta de densidade e sentido da nossa existência. E quando a minha hora chegar, no auge da minha futilidade e estupidez eu direi: “pelo menos não me deixei ser idiota”
                Essas decepções  geradas ao encontrar um grande monte de nada depois de tanto escavar, se ver exausto e suado, enquanto outros mal se deram o trabalho de se interessar por algo desse tipo, são causadas por fatores muito naturais de nosso comportamento. Essa própria busca se inicia com certas expectativas. Como se ao entender o grande segredo das coisas, luzes se acenderiam e pessoas bem vestidas viriam aplaudindo com um grande troféu. O próprio rancor da injustiça é hilário por si só. Tem coisa mais humana do que querer ser reconhecido? De querer merecer um mérito por ousar percorrer caminhos tão intocados?
                A aceitação das coisas, a vida pós-despertar, significam mais um passo adiante. Se é possível ver a vida como uma esfera nas mãos, é possível afastar-se ainda mais e se ver segurando essa esfera. Nesse ponto as coisas ficam mais apreciáveis. Observar-se sendo humano, observar a mecânica da natureza, observar o próprio fato de estarmos desvendando mistérios cada vez mais perturbadores é no mínimo interessante.
                Aliás o que somos então? Quem é essa criatura que observa a carne que habitamos ponderando sobre a própria existência? Por mais que essa entidade que nos caracteriza possa ser uma criação das próprias anomalias cerebrais, dispensando suas origens, ela é algo muito bonita e que eu me orgulho de ser. Essa grande entidade que é tão alheia ao terreno e que acha tão dispensáveis as necessidades de reconhecimento, respostas e culto ao ego, é quem pode caminhar confortavelmente em meio à uma existência tão vaga.
                Se o tempo passa independente de como este seja usado, e que o patamar que abrange a humanidade é o mesmo para autointitulados gênios, trabalhadores braçais e vigaristas, eu acho imprudente usa-lo  arrancando os cabelos, julgando os demais, ou tendo pena de si mesmo contemplando a injustiça de ter acordado em uma dimensão tão vaga, aleatória e sem peso. Viverei eu habitando minha carne como um apreciador, do vento que apalpa meu rosto, e do comportamento do ser humano que me carrega. Me aproveitar da falta de peso e densidade dos eventos e ser ainda mais leve. Uma entidade que roubou tudo de melhor que a morte poderia proporcionar e lhe deu um coração pulsante cheio de vida. Dar ainda mais passos adiante para observar com cada vez mais detalhes e beleza o caos da existência. O tempo passa, uniforme e imparcial, para todos.


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