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   > A MULHER DOS OLHOS GRANDES... E AZUIS.



Roberto Villani
      CONTOS

A MULHER DOS OLHOS GRANDES... E AZUIS.

 
            Sueños...  Pero, ¿qué son los sueños?
            Súbito, encontrei-me no meio de um grande problema. Eu precisava alugar uma casa e não tinha documentação pessoal para fazê-lo. Na realidade, via-me num lugar inóspito, desconhecido, lúgubre.  Parecia insano, mas era por ali que eu buscava moradia. Numa esquina, um bar. Típico de lugarejo simplório. Duas mesinhas de madeira circundadas por cadeiras surradas pelo tempo. Na fachada outrora branca, o nome do estabelecimento, desbotado, escrito acima das duas portas de entrada: Bar do Zé. Entrei e acomodei-me junto a mesa mais próxima à porta da direita.
            - Seu Zé, um guaraná, por favor. - disse ao homem atrás do balcão.
            - Não servimos nas mesas. E eu não me chamo Zé. - respondeu o tal homem, enquanto lavava copos. E informou: - Não vendemos água com açúcar.
            - Muito bem. E o que temos pra beber?
            - Bebida pra macho!
            Resolvi experimentar. Encostei-me no balcão e pedi uma dose da tal bebida. O homem apanhou o punhado de moedas que eu havia posto sobre o balcão, colocou um copo na minha frente e voltou-se à prateleira no lado oposto. Desceu uma garrafa escura e encheu meu copo com um líquido preto e mal cheiroso.
            - Porra! Você não tem algo melhor?
            - Não! Isso é o melhor! Já disse, é bebida pra macho!
            Um tanto desconcertado, conduzindo aquela horrível bebida, retornei à mesa próxima a porta da direita. Confesso que fiquei tentado a experimentar o tal líquido preto e fedido. Prendi a respiração e degustei um pequeno gole. Assombrei-me. O sabor delicioso lembrava néctar de jabuticaba, mas  com alto teor alcoólico. Seduzido pelo gosto, em rápidas pausas respiratórias sorvi completamente o conteúdo negro do copo. Curioso, não me embebedei completamente. Quase sóbrio, mais uma vez dirigi-me ao homem do balcão.
            - Eu preciso de informações para alugar uma casa. Aqui tem cartório?
            - Não. Mas tem a casa da mulher dos olhos grandes... E azuis. - respondeu-me sem tirar o olhar dos copos que lavava. E prosseguiu: - Siga pela rua em frente. Acompanhe as casas desenhadas ao longo dos muros. A casa dela é a mais bem grafitada. Mas preste muita atenção. Fale com ela pela janela. Nunca entre naquela casa.
            Devolvi o copo e parti ao encontro da casa indicada. Engraçado, naquela rua as caras das casas pareciam desenhos do Maurício de Souza. Coloridas, destacadas, lindas de se ver. Todas com portas e janelas abertas, sugeriam convites para quem se atrevesse invadi-las. Mas ninguém de seus interiores a vista. Pareciam inabitadas. Apenas uma, a três quadras, apresentava alguém na janela à esquerda da porta. Uma mulher com dois olhos enormes... E azuis.
            - Estava esperando o senhor. - disse-me com largo sorriso. - O que precisa?
            - Um documento para poder alugar uma casa.
            - O resultado de exame de urina.
            - Tá brincando, dona? - estranhei a conversa.
            - O que mais identifica uma pessoa é o que vem de dentro. Do avesso. Papel assinado, fotografia, isso tudo é bobagem. Pode ser adulterado. Urina vem de dentro. É documento que vale.
            Tudo aquilo era certo? Ou eu estava vivendo alucinação provocada pela tal bebida preta e fétida? Entretanto, por incrível coincidência,  no bolso da minha calça havia o resultado de exame de urina recente. Será que ela sabia? Com  a cabeça no miolo de um furacão, mostrei a ela.
            - Perfeito. Agora só me falta autenticar com o meu carimbo grotesco. - E riu gostosamente. Depois... - Por favor, entre.
            O convite me arrepiou. Encarei a mulher. Coisa de mágica caricata. Rosto bem redondo, branco, com destaques arroxeados para lábios, pálpebras e orelhas. Cabelos cobertos por pano rosa; não os via. Dois olhos muito grandes... E azuis. Deveria eu atendê-la e entrar? E o aviso do homem do Bar do Zé? A teimosia sempre foi um dos meus pontos fracos. Entrei e me estrepei. Lá dentro, tudo era desenho. Família,  cachorros... Dela, o que restava da cabeça, ombros e braços, que se mantinham para fora da janela, via-se como desenho. Tudo grafado em muitos painéis espalhados pelo ambiente. Então, entendi. No interior das casas daquela rua existiam famílias inteiras desenhadas. Vidas inertes desenhadas em grandes superfícies planas. Exposição pálida de cartunistas crueis. E eu, que me transformei, no primeiro passo a dentro, em mais uma imagem estática.
            - Meu bem, tá na hora! - minha querida esposa Rosária acordava-me para mais um dia de vida. Saltei da cama, corri ao espelho... Tudo bem, Graças a Deus!
 
 


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