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   > Liberdade perdida



Airo Zamoner
      CRôNICAS

Liberdade perdida

Aquela segunda-feira se recusava a começar. A cabeça inchada por um final de semana com serões intermináveis não deixava espaço para concentração nos problemas pessoais que afligiam seus castigados pensamentos, muito menos no trabalho que se acumulava por todas as mesas do escritório em desalinho.
Mas a semana tinha que ser iniciada ou tudo desabaria.
O lápis, desapontado, dançava entre os dedos trêmulos. A carteira de cigarros, amassada, que trocava de lugar a toda hora não se sabe há quantos anos – mas que não arriscava mandar definitivamente para o lixo – era ostensiva placa de proibição. Teimava em adverti-lo a cada minuto, desde o dia em que rompeu com o vício por imposições de todas as ordens. A marca nem mais existia, porém estava ali e nesta segunda-feira, ele a encarava, tamborilando o lápis descansado.
Os olhos abandonaram o caos de sua mesa e percorreram as paredes cobertas de certificados, diplomas e alguma arte duvidosa, indo parar no quadro de avisos. Avisos que ele dava a si mesmo estavam lá, escancarando todas as urgências.
Um ímpeto rebelde foi tomando conta de sua cabeça, de seu corpo, de sua alma. Segundas-feiras antigas vieram, sorrateiramente, ocupar o labirinto de seus arquivos fluidos que dançavam de neurônio para neurônio.
O ar fresco das manhãs; a árvore cheia de seus segredos no quintal; o caminho tortuoso no terreno infinito de sua casa antiga a rabiscar correrias inúteis e gostosas, sem restrições; a calça curta, mostrando joelhos prazerosamente esfolados; o suspensório de alças caídas, afrouxando o incômodo aperto. Um cem número de liberdades materializadas naquelas antigas segundas-feiras de Curitiba fazem contraponto a esta maldita segunda-feira de agora, que teima em não começar.
Olhou novamente as paredes, a janela pequena, a visão do prédio vizinho, cinza-escuro. Sempre cinza-escuro. Cor de chuva, de tempestade. Janela sem horizontes, sem sol, sem luz.
Como se enclausurara naquela prisão voluntária? Voluntária? Não podia ser voluntária! Ele foi aos poucos penetrando num labirinto imperceptível. As escolhas que fizera foram retirando o ar fresco das manhãs. As árvores do quintal foram cortadas para dar lugar ao escritório. O terreno e seus caminhos livres foram ocupados com novas construções. Construções necessárias para atender a novas escolhas. Os joelhos foram cobertos com calças de ternos impecáveis, necessários para os grandes negócios. O suspensório, este teve que ficar firme em seu lugar, apertando o peito e as costas, pesando nos ombros que hoje se encurvam para o chão, forçados por elásticos opressores.
O lápis voa para longe. A ponta se espatifa no vidro do diploma colorido, pendurado há milênios. As paredes, ele as quer no chão como quer de volta sua árvore preferida para subir e se acomodar lá no alto, quieto, ouvindo o vento falar com seu coração que palpita como louco ao gravar a canivete o nome dela, bem escondido. Quer espalhar todos aqueles papéis importantes, queimá-los, rasgá-los, mastigá-los para que desapareçam.
Mas o telefone toca.
Começa a segunda-feira. Disciplinada, obediente como todas as segundas-feiras...

Airo Zamoner é autor de “Contos de Curitiba”



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