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   > Amor é coisa de criança



Luana Ribeiro Costa dos Santos
      CRôNICAS

Amor é coisa de criança

Hoje quando voltava do trabalho parei para descansar um pouco no parque. Era uma hora bonita do dia, o céu misturava em cores e já não conseguia distinguir o laranja do vermelho. Sentei no primeiro banco que encontrei e ao meu lado havia dois meninos que pareciam muito descontentes em sua companhia. 
Ignorei a tristeza existente no banco ao lado e voltei para admirar as cores que mudavam agora para um tom ainda mais confuso. Quando o sol se pôs por completo senti meu pulmão sugar todo o ar e soltá-lo com uma vibração distante de mim.

A semana havia sido difícil, e finalmente tive um tempo para organizar meus pensamentos e ideias que pairavam ao meu redor. Evitava falar sobre mim e sobre o que eu era constituída, não é fácil amar nos tempos de hoje, e eu sabia disso. Sinto que perdi muito tempo olhando fixamente para uma estrela que antes confundi com um avião, sei que sem notar um dos meninos havia sentado ao meu lado e me olhava fixamente.
Antes que pudesse falar algo, virou o rosto, olhou para a mesma estrela que eu encarava e falou:

- É verdade que não existe amor? - suspirou - Meu amigo disse que isso é conto de fadas e eu não quis mais conversar com ele, ele foi embora e eu fiquei aqui sozinho. Vi que você também estava triste, e quando não é por amor que as pessoas ficam triste é por dinheiro. Você ta triste por dinheiro?

Soltei um riso diante da inocência de uma criança de sair de seu banco e vim conversar com uma estranha. O menino não parecia ser pobre, pelo contrário, usava bom tênis, camisa de marca e óculos de grau que devem me custar um mês de trabalho. Vendo que exitei em responder, me olhou novamente e sorriu.

- Você não tem cara que sofre por dinheiro. Mas sabe, minha mãe diz que dinheiro não compra felicidade, e meu pai diz que dinheiro só não compra amor. Fui contar isso para o Pedro, meu amigo que estava aqui, e ele me falou que os pais dele diziam se amar, mas hoje o pai dele mora com uma moça em outra cidade e que amor é pra pessoas idiotas. Você também acha isso?

Soltei um sorriso entre dentes e falei:

- Se amor fosse para pessoas idiotas Chico Buarque, Cazuza, Elis Regina até mesmo Johnny Cash e Elvis Presley não falariam sobre ele. Creio que amor é pra quem acredita, não?

- Eu não sei quem são essas pessoas, mas você tem cara que sabe das coisas. Aliás, todo adulto tem. Eu queria ser grande logo, pra poder parecer que sei das coisas. - mexeu em uma folha seca jogada no banco e continuou - Todo dia eu dou meu lanche pra menina da minha sala, e fico sem comer. Eu não faria isso por mais nenhuma outra, isso é amor? 

- Se você gosta de ter ela por perto, e fica feliz quando vê ela feliz com seu lanche, é uma das qualidades do amor. Ele não precisa ser padronizado. Tem casal que se ama muito, mas se separam as vezes por causa de coisas que o amor não pode impedir, pode ser o caso dos pais do seu amigo.

- É. Você fala difícil mas eu consigo entender. Meu pai é advogado e vive dizendo que amor não existe nos contratos de divórcio, não da pra dividir em separação de bens e calcular perdas e danos por isso. "O amor é um estrago que já vem sem reembolso." Ele diz isso, eu não entendo bem, só que ele vive rindo que nem bobo pra minha mãe, ai eu entendo que não da pra colocar sorrisos bobos no papel e pedir dinheiro em troca. Você já amou alguém?

- Já gostei muito de alguém, mas faz muito tempo.

- Por isso você é tão calada? Eu converso muito, e converso mais ainda quando a menina da minha sala, a que eu dou o lanche, me pede alguma coisa emprestado. Eu fico rindo pra ela que nem meu pai ri para minha mãe, e fico torcendo pra ela me devolver depois da aula, assim podemos ir até o pátio para conversar. Ela é linda, sabia? Eu não sabia diferenciar bonito do feio, então vi que ela tinha uma mecha do cabelo torta e achei aquilo engraçado, mas um engraçado de querer ter sempre aquilo por perto pra mim, entende? 

Comecei a rir diante do menino que não parava de falar. Falava e me perguntava as coisas e no fundo eu queria dizer que amor era algo que não existia mais, era extinto que nem os dinossauros. 
Só que tudo aquilo fazia muito sentido, eu ficava olhando ele dizer como se fosse uma miniatura de mim. Passamos horas no parque conversando, apresentei meus poetas preferidos e músicas mais tocadas. Não quis contar para ele que por amor a gente sofre, por amor a gente perde o coração e não consegue de volta. Essas coisas a gente tem que descobrir sozinho. Também não quis contar que a menina da escola era só uma paixão, afinal, nunca se sabe.
Sei que voltei para casa com um brilho diferente dentro de mim, como se aquela estrela que olhei por tanto tempo tivesse voltado comigo.

Eu não cheguei a dizer para ele... mas sabe de uma coisa?

Ainda bem que o amor existe.

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