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   > Teoria da Mente Piramidal



Heitor de Assis Chierentin
      ENSAIOS

Teoria da Mente Piramidal

 A Teoria da Mente Piramidal se constitui numa representação esquemática da mente humana em sua totalidade, sendo compatível com as principais abordagens e correntes, experimentais e teóricas.
Em suma, determina a teoria que a psique, como equivalente virtual do sistema nervoso central, tem uma forma ou configuração específica – equivalente à forma geométrica dum tetraedro, ou seja, uma pirâmide triangular, com três faces e uma base.
Qual sistema composto de órgãos abstratos, a psicopirâmide possui correspondendo às suas faces três órgãos mentais com funções e mecanismos distintos: a Razão, a Memória e a Emoção. Em sua base possui o que designo como Interface Psíquica, sendo sua conexão física com o corpo ou o ambiente. No alto dessa pirâmide tetraédrica se situa a Consciência, tendo o Arbítrio como zênite.
Essa representação tridimensional – o fundamento da Teoria da Mente Piramidal – acredito, nos permitirá perscrutar a estrutura da mente humana, catalogar, mapear e compreender mais nitidamente seus componentes e funções. Espero também contribuir para conciliar as principais ciências que tem o cérebro e a mente como seus objetos de estudo, desde a psicologia cognitiva à comportamental, da psicanálise à neurociência.
 
A Natureza da Mente
 
Toda abordagem e consideração em psicologia esbarra na mesma questão inicial: o que é a mente? Afinal, será que a mente existe de fato?
Pondo o “mentalismo” à parte, é inegável que algo, que quer que seja, ocupe o lugar, ou, melhor dizendo, ocupe a função, de todos os processos e fenômenos que se atribui à psique. Apesar das asserções mais ferrenhas do behaviorismo radical, algum aparato extremamente complexo existe por detrás do comportamento individual. Um mero mecanismo estímulo/resposta pressupõe a ocorrência de processos intermediários. Mesmo em física, entre a ação e reação entre corpos de qualquer sistema mecânico, incidem forças não percebidas pelos sentidos, porém inferidas por fórmulas exatas, bem como pela observação e comprovação experimental.
Obviamente a existência do cérebro humano é inegável. E a psicologia não poderia se escusar do mecanismo fisiológico do sistema nervoso central. Uma vez que podemos inferir processos complexos no funcionamento de qualquer mecanismo físico ou instrumento tecnológico, não podemos esperar algo de menos do cérebro, dada a complexidade do comportamento humano e a versatilidade de suas atividades ocupacionais e interações sociais. Portanto, se no plano físico há um órgão fisiológico, biológico e concreto, o cérebro, a intermediar ações do ambiente físico e do corpo humano, no plano abstrato há um correspondente virtual, abstrato, esquemático, a intermediar a percepção dos estímulos e o comportamento conseqüente. Então, concluímos que a mente existe.
A princípio, se poderia dizer que a mente é o próprio funcionamento cerebral. A neurociência deixou mais do que claro a correspondência entre inúmeros fenômenos cognitivos e comportamentais e a presença ou extirpação de circuitos neuronais, ou o equilíbrio químico de neurotransmissores e hormônios. Tão nobre quanto a psicologia, a neurologia vem para encontrá-la no sentido contrário. Por lançar-se objetivamente à pesquisa e observação física do sistema nervoso, a neurologia acabará por esclarecer o pleno funcionamento fisiológico do cérebro. Porém, não lhe caberá esclarecer diretamente toda a complexa relação desse maravilhoso órgão com o ambiente humano. A existência humana está associada a uma vasta experiência de conceitos e ocupações, de valores e vivências desconhecidos nas outras espécies do planeta. Manifestações de humanidade, como a moral, a ética, a espiritualidade, dentre outras, reclamam a existência de algum sistema sofisticado operante no encéfalo de cada indivíduo entre nós. E a experiência individual, mesmo a do próprio leitor, é um inteligente testemunho de que algo de natureza ímpar se situa no cérebro biológico, algo que transcende seu funcionamento fisiológico. A isso chamamos de “psique”, ou “mente”.
A mente humana é, portanto, um sistema abstrato. Evidentemente, tem sua base no funcionamento físico do cérebro, de modo que não pode existir independente dele. Na verdade, atua sobre ele e é por ele afetado. Porém, como objeto de consideração e estudo, existe e merece um lugar entre as principais áreas de interesse científico.
Ainda que de natureza abstrata, operando sobre uma base neural física, o sistema nervoso, a mente pode ser explicada cientificamente. Isso se dá por observação e experimentação comportamental e o estudo científico laboratorial da base neurológica. Questiona-se, no entanto, que a própria mente dum indivíduo seja intocável, imune à pesquisa alheia. Isso é verdadeiro. Contudo, como Descartes demonstrou, ao atingir com incontestável racionalismo sua famosa proposição: “penso, logo existo”, uma inferência lógico-filosófica nos permite concluir que se somos fisiologicamente iguais,  é provável que nossas mentes funcionem de forma similar. A introspecção, o “conheça-te a ti mesmo”, permite que compreendamos nosso próprio pensamento e, por extensão e grosso modo, também o de outrem. Por isso, apesar de sua complexidade, a mente é perfeitamente explicável.
Como sistema, a psique não existe por acaso. Independentemente da crença e convicção do leitor, seja essa num projeto de origem divina ou numa evolução resultante de incontáveis tentativas e acertos, a mente existe e funciona com objetivos definidos.
Podemos dizer que são três seus objetivos existenciais:
 
·      Auto preservação– a vida biológica em suas inúmeras formas tem seus próprios mecanismos de manutenção e proteção. Mas além de gerenciar as funções fisiológicas, a mente estende seus cuidados para outros planos, assegurando a integridade física, a higiene e saúde, o bem-estar e o equilíbrio emocional, bem como os direitos do indivíduo.
·      Autonomia– o “milagre” do livre-arbítrio, a possibilidade que têm o indivíduo de agir de modo imprevisível e único. A individualidade e a consciência, atribuições praticamente exclusivas dos seres humanos, são talvez os mais incríveis processos resultantes e possíveis pela existência da mente.
·      Interação– sendo o ser humano consciente de si e autônomo, necessita para todos os fins de se relacionar com seus semelhantes. A interação entre seres conscientes necessita de afetividade para fortalecer qualquer ligação pessoal, bem como uma sistemática social de complexidade crescente.
 
Esses mesmos objetivos aparecem como necessidades em diferentes níveis e processos aos quais a mente se submete, desde a cognição até o comportamento, do inconsciente ao consciente.
Para atingir tais objetivos a psique precisa responder continuamente ao ambiente ao qual o indivíduo está e ao seu próprio organismo. Ambos trazem estímulos que precisam ser detectados, necessidades que devem ser supridas, problemas que demandam soluções.
A mente talvez inicie sua existência como um sistema reativo. Mas não meramente reflexivo. Não meramente recebe os estímulos e os reflete em comportamento. Não como um espelho que devolve ao ambiente a mesma imagem, ou uma mola que devolve a mesma força aplicada. Ao passo em que opera numa busca interminável por soluções, entre a percepção sensorial e o comportamento ocorre vasta mediação mental. O pensamento intermedeia ações passadas e futuras, o meio orgânico interno e o meio ambiente externo.
Contudo, a mente não é apenas uma ponte de transmissão de informações. A informação transmitida no ambiente qual elemento abstrato, subjetivo, tem seu equivalente psíquico interno no conhecimento cognitivo. Assim, além de unicamente refletir ou transmitir estímulos e informações, a mente os processa e trabalha. Então é um sistema processador.
Além disso, sendo um sistema abstrato que tem por base um órgão biológico, o magnífico cérebro, a mente conserva desse a sua fagulha de vida. Gerando-se com o organismo vivo em formação, tem ela o impulso permanente para a ação. Lança-se em direção ao ambiente, não apenas recebendo sua imposição, mas agindo antes de reagir, conhecendo e construindo sua própria estrutura. Então ela é um sistema de estrutura dinâmica, plástica e versátil.
Mas qual é a constituição da psique?
Não subestimamos a necessidade de estabelecer uma configuração provável para o aparelho psíquico, que possa esclarecer seus muitos processos. Sem isso, as ciências da mente tateariam às cegas indefinidamente, sem jamais se darem as mãos.
Aliás, se julgarmos pelas recorrentes questões filosóficas formuladas pelo pensamento humano, pela peculiar história da humanidade em contraste às demais criaturas ou pela atestação pessoal de cada indivíduo dotado de inteligência, intrigantes conceitos como “consciência” ou “livre-arbítrio” clamariam por uma explanação convincente. O próprio pensamento e a linguagem precisam estar situados para que ocorram, ainda que num plano abstrato. Isso sem mencionar os sentimentos pertinentes ao gênero humano.
Não devemos, contudo, dispersar a vasta nuvem dos processos atribuídos à psique por uma amplidão de explicações contraditórias e inconciliáveis. Há muito se percebe imprescindível um modelo teórico que dê uma forma esquemática plausível ao que chamamos de mente.
A esse propósito apresento a Teoria da Mente Piramidal.
 
A Mente Piramidal
 
Uma vez que é um sistema abstrato, intangível aos sentidos alheios e à tecnologia atual, como a mente pode ser explanada e ilustrada graficamente?
Ora, o Universo e todas as coisas existentes, físicas ou não, sabemos respeitar às mesmas leis e princípios lógicos. Há, portanto, princípios fundamentais que entrelaçam todas as coisas existentes. É por isso que somos capazes de explicar incontáveis fenômenos através de analogias, semelhanças e comparações. O mesmo se dá com a psique, para o qual utilizarei a analogia duma pirâmide como corpo de meu modelo teórico. Também farei uso de inúmeras analogias na explicação de muitos processos englobados em minha teoria.
Como cheguei ao modelo duma psicopirâmide?
Não é necessária vasta pesquisa para se comprovar que a mente possui três atribuições principais distintas: a Razão, a Memória e a Emoção. Tanto a neurociência quanto a psicologia o podem atestar. Os três conceitos interagem em inúmeros processos e fenômenos, conservando, apesar disso, suas funções definidas e diferentes.  Por isso mesmo os considero como órgãos, ainda que abstratos. São tais as funções dos três órgãos mentais:
 
·           Razão– é o órgão mental que controla a análise e a síntese de informações, instruções e deliberações.
·           Memória– é o órgão mental que controla a seleção, registro e o armazenamento de informações, instruções e experiências.
·           Emoção– é o órgão mental que controla as sensações e reações das energias fisiológicas e motivacionais.
 
Uma primeira representação gráfica da mente comporia, então, um triângulo com cada um dos órgãos em sua respectiva face, conforme a figura seguinte.

 
Contudo, como tem provado muitas tentativas realizadas pelos maiores teóricos em psicologia, uma representação plana, bidimensional, torna extremamente difícil estabelecer uma esquemática para os processos psíquicos.        
Além disso, o modelo deve possibilitar uma oposição gráfica entre a recepção dos estímulos do ambiente e o ápice dos processos mentais, a consciência.  Em termos de informação, o ambiente apresenta à mente um volume praticamente infinito, ao passo que a consciência é limitada em capacidade, podendo receber poucos, ou talvez apenas um elemento por vez.
Considerando uma representação plana, opondo uma linha reta como superfície de contato da mente com o ambiente a um ponto considerado como a consciência, também chegamos a um triângulo. Nesse caso, tratando de informações que seguem pela mente, do ambiente para a consciência, temos uma direção, da base ao zênite.
Mas, como consideramos, a mente é reativa. Não apenas recebe estímulos, mas os processa e responde. Deveríamos então apresentar um segundo triângulo, dessa vez tendo em seu zênite a consciência, mas em sua base o comportamento. Esse triângulo também tem um sentido, mas contrário.
Ligamos os dois triângulos e temos uma representação primária da psique. Uma analogia grosseira nos lembraria um processador de grãos, ou uma ampulheta.
 Entretanto, o modelo deve incorporar os três órgãos mentais já definidos. Uma representação tridimensional se faz necessária. Mas isso seria demasiadamente complexo e impraticável num modelo em “ampulheta”. A pirâmide condensa e simplifica tal analogia. Por isso, julgo que uma representação piramidal cumpra satisfatoriamente com o propósito.
Fazendo uma analogia com a termodinâmica, numa fraseologia leiga, imaginemos uma pirâmide de metal maciço sobre uma chapa aquecida. A chapa representa o ambiente e o organismo biológico. O calor da chapa representa as informações que sobem pela mente através da interface. Assim como o calor tende a subir pela pirâmide de metal até seu ápice, as informações e seus processos conseqüentes seguirão pela mente até atingirem a consciência em seu zênite. Por outro lado, a “friagem” descerá do ápice em direção à base da pirâmide metálica em sua superfície de contato com a chapa aquecida. Uma analogia com a mesma pirâmide de metal maciço utilizando eletricidade nos conduziria a conclusão semelhante.
Assim, uma representação tridimensional em pirâmide oferece a possibilidade de se considerar fenômenos em direções opostas, da base ao zênite e do zênite à base. Estímulos e informações entram na mente e por ela avançam sendo processados até atingirem a consciência. Depois, respostas e intenções de ação corporal retornam da consciência em direção à linguagem e ao comportamento.
 É certo que, na mente, os processos não são tão simples quanto essa analogia material.
Como mencionado, vasta mediação ocorre em todo o sistema e nisso ocorrem importantes processos como a percepção, a cognição, o pensamento, a linguagem, entre outros. Entenderemos tais processos à medida que “escalarmos” através do modelo agora proposto.  Sugiro com finalidade prática, a seguinte representação que toma uma perspectiva superior da pirâmide de três faces como modelo principal na maioria das considerações.
 Embora usualmente representada num plano bidimensional (numa página impressa), que o leitor não confunda a pirâmide, tridimensional, com um triângulo, bidimensional. Para que possa compreender o modelo, deve atentar ao fato de que se trata dum poliedro visto de cima. Note também que o centro da figura usualmente corresponde ao topo da pirâmide, onde está a consciência e o arbítrio.
É desnecessário enfatizar que a pirâmide é apenas um modelo teórico, seja em sua perspectiva bidimensional ou tridimensional. Estabeleço como um mero modelo virtual da psique, que tem natureza abstrata.
Também, a representação piramidal não deve ser confundida com uma abordagem unicamente “gestaltista” da psique, embora tal abordagem encontre seu lugar na explicação de muitos dos processos, especialmente relativos à percepção e a cognição. Um modelo virtual da psicopirâmide, imaginário e não puramente geométrico, permite ademais uma abordagem dinâmica da mente.

 A Psicopirâmide
 
Realizei muitas tentativas para mapear os principais processos psíquicos e cognitivos e situá-los nas respectivas faces, conforme suas funções. Foi então que o modelo piramidal incorporou mais de uma dezena de “degraus” partindo de sua base. Esses degraus corresponderiam a etapas ou níveis funcionais da psique. De início busquei um nivelamento correlativo entre os degraus adjacentes nas três faces. Porém, os processos psíquicos são por demais diversos e complexos para respeitarem tal linearidade gráfica. De modo que os degraus nas diferentes faces não propriamente equivalem aos mesmos níveis nos processos, ou não se referem a processos que ocorram num mesmo instante cronológico. Oferecem os degraus apenas maiores possibilidades esquemáticas.
Cogitei, além disso, a incorporação de “vias de acesso” à mente, inspirado na contemplação dos cortes do sistema nervoso central em literaturas de neuranatomia. Sendo dinâmica, a mente piramidal deve ter canais de ascensão e declínios de dados, e tais canais, ou vias, poderiam ser catalogados. Claro que isso é tarefa para pesquisa e consideração exaustiva. Não caberia apenas a um único teórico, e nem mesmo a uma única obra. Portanto, não intento isso nessa exposição inicial.
Apesar disso, um canal de comunicação interna entre os processos psíquicos deve ser admitido. Simplificaríamos em muito o modelo considerando uma linha que ligue um ponto central no triângulo formado pela base ao ponto situado no zênite. Nesse caso, ao lado do modelo principal podemos comparar um corte rente à base correspondendo à interface. Notamos que há um ponto central que faz fronteira com a superfície inferior dos três órgãos mentais. A linha imaginária entre esse ponto e o zênite permanecerá em contato com os três órgãos mentais em toda sua extensão. Numa consideração simplificada da dinâmica dos processos psíquicos, tal linha será considerada como o principal canal de comunicação interna em nosso modelo virtual.
Tal admissão de um único canal de comunicação interno talvez não seja mera simplificação. Como entenderemos, embora cada um dos três órgãos mentais conserve sua função distinta e se mantenha operante com certa independência, a grande maioria dos processos mentais, do pensamento ao comportamento, do consciente ao inconsciente, faz uso comum de mais de um dos órgãos, senão dos três ao mesmo tempo. Isso justifica a linha imaginária central, que possibilita o contato constante entre os três órgãos. Os principais processos psíquicos se desenrolam, se estruturam e ascendem por esse meio central.
 
A Interface Psíquica
 
Não se admira que algumas abordagens em psicologia façam uso corriqueiro de jargões de informática e processamento de dados em sua terminologia explanatória. Afinal, os computadores e circuitos integrados são invenções humanas com o intuito de tratar informações para nosso manejo. Realizam cada vez mais o que a mente já o faz há milênios, embora estejam ainda muito aquém da capacidade quantitativa e, especialmente, qualitativa, do cérebro humano. Tendem, porém, a imitar sempre mais os processos e a arquitetura neural, visando perfazer no futuro os mesmos “milagres” de que a mente é capaz. É compreensível então que a imitação seja recíproca, ao menos na terminologia, no caso do estudo da psique.
Portanto, à superfície de contato entre a mente abstrata e o mundo físico chamo de Interface Psíquica.
 O ambiente físico apresenta à mente uma quantidade imensurável de estímulos. Se considerarmos que os estímulos podem ser todos interpretados, também podemos afirmar que o ambiente oferece uma quantidade ainda maior de informações. Mas a psique não tem contato com o ambiente físico. Os estímulos do ambiente são de natureza física. Em última análise, todos estes se relacionam a forças transmitidas respeitando as leis da física. Isso vale para a luz, as cores, o som, a temperatura, o choque, a pressão, os sabores, os aromas e assim por diante.  Todos esses estímulos originários dum mesmo meio oferecem à mente a possibilidade de criar uma representação interna suficientemente pormenorizada a fim de permitir ao indivíduo que nele se situe e mesmo atue. De modo que esses estímulos após serem captados precisam ser transmutados de sua natureza física para uma natureza abstrata, a fim de serem passíveis de tratamento por parte da mente. Sendo estímulos diversos, referentes a forças físicas diversas, portam informações diversas. Então precisam ser decodificados nessa transmutação e recodificados para uso psíquico.
Como parte do modelo virtual e um componente periférico da mente, a Interface Psíquica realiza a interação entre a mente e o ambiente físico, ou o próprio corpo físico, o que ocorre nos receptores nervosos do sistema nervoso periférico. Os receptores nervosos nos órgãos de sentido (olhos, ouvidos, narinas, língua, pele) captam os estímulos ambientais. Outros receptores através do corpo captam estímulos proprioceptivos. Considerando a mente desse processo em diante, a Interface Psíquica é responsável pelatransdução dos estímulos físicos em códigos sensoriais neuropsíquicos. O mesmo deve ocorrer na função emocional com os estímulos endógenos de natureza hormonal. A Interface entrega os códigos sensoriais prontos para ascensão na pirâmide rumo ao tratamento no processo da percepção.
Todavia, a Interface não tem apenas essa função passiva, mas também uma ativa. Na operação psicomotora, a resposta e ação efetiva da mente sobre o ambiente físico, a transdução também deve ocorrer, mas em sentido oposto e em modo diverso, transmutando os códigos psíquicos em impulsos neuromotores para as terminações nervosas nas fibras musculares. O mesmo ocorre quanto às reações emocionais, na ativação de glândulas e liberação de outras substâncias pelo organismo.
Como mencionado, a quantidade de estímulos que o ambiente apresenta é imensa. Porém, como sabemos, apesar de sua magnificência a mente é limitada, já que tem por base um órgão fisicamente limitado. Dessa maneira, o único modo da mente poder manipular as informações e compreender o ambiente em que está inserido o indivíduo é por haver uma considerável redução na quantidade dos estímulos e informações. A própria limitação física e fisiologicamente qualitativa dos órgãos de sentido funciona como um primeiro filtro, quantitativo. Talvez uma “barragem” seria a melhor analogia, já que a barreira dessa limitação não discrimina tipo ou procedência dos estímulos, apenas impede que todos adentrem no mesmo instante no sistema nervoso central.
A Teoria Neuronal de Sigmund Freud já previa que o aparelho psíquico deveria ter ”crivos” e “proteções” que limitasse a quantidade (volume) e qualidade (tipo) dos estímulos a ingressarem no sistema.  Concordo com sua teoria quando afirma que na passagem da periferia para o interior do aparelho psíquico a quantidade de estímulos deve diminuir. Nesse sentido também o modelo piramidal mostra-se útil, já que a pirâmide graficamente segue se estreitando da base até atingir o seu ápice.
A Interface, além da transdução, deve oferecer também uma filtragem aos estímulos e aos códigos que deles resultem. Muito deve ser dispensado. Certos tipos ou “pacotes” de códigos devem ter preferência em determinadas circunstâncias ou em determinados processos pelos quais a mente passe. O certo é que uma quantidade suficiente dos códigos, com uma qualidade satisfatória, ascenda pela mente rumo à percepção.
  
Razão, Memória e Emoção
 
Com o fim de compreender os principais fenômenos psíquicos através do modelo piramidal, é fundamental a definição exata das funções de cada um dos três órgãos mentais aqui considerados.  Convenciono a exposição e as explanações respectivas na seguinte ordem: Razão, Memória e Emoção. Essa seqüência serve apenas para efeito prático, já que temos predileção por tratar primeiramente dos processos cognitivos que, por sua vez, fazem uso mais acentuado das funções racionais e mnemônicas. Os processos emocionais merecem atenção à parte, embora sejam fundamentais para a psique e o comportamento. Claro que os três órgãos possuem importância igual e são imprescindíveis à estrutura e funcionamento da mente humana. Além do que, os três têm contato direto entre si, seja graficamente na pirâmide, seja em sua real interação funcional na mente.
 Na grande maioria das considerações através dessa exposição, a “razão”, a “memória” e a “emoção”, serão cada qual tratadas como um órgão mental de função específica, salvo na explanação de fenômenos em que os três vocábulos serão usados em seu sentido comum. Diferenciarei os dois usos pela letra maiúscula sempre que a palavra for um sinônimo do órgão mental em sua função básica.
Assim, inicialmente os processos psíquicos podem ser distinguidos em processos racionais, processos mnemônicos ou processos emocionais, conforme o órgão priorizado no respectivo processo.  Outras distinções também podem ser feitas, envolvendo o uso conjunto de dois ou três órgãos mentais. Há de se ater ao fato, também, de que importantes processos relacionados com o pensamento, como na oposição entre consciente e inconsciente, ou consciente e subconsciente, farão uso simultâneo indistinto dos três órgãos, nem por isso tendo qualquer deles por dispensável.
  
A Razão
 
Quando discutimos sobre a “razão”, uma faculdade peculiar nos vem à mente. Em termos populares, chamamos de “razão” ao juízo, à capacidade de avaliar, ponderar, ao raciocínio propriamente dito. Cálculo, pensamento, reflexão, são exemplos de ações e conceitos que também associamos ao vocábulo “razão”. Ainda filosoficamente tratando, o relacionamos à lógica, ou à aptidão em exercê-la. A vasta maioria dos dicionários o traduz com sinônimos semelhantes, segundo sua origem no latim rătio.Definindo a razão como qualidade essencialmente humana, nos autonomeamos “animais racionais”, dessemelhante das outras criaturas, que rebaixamos ao nível de “animais irracionais”, um erro como demonstrarei.
Como órgão mental a Razão se constitui numa série de dispositivos lógicos que, em última instância, manipulam “pacotes” de informações de natureza sensorial ou cognitiva. Tais dispositivos realizam operações lógicas muito semelhantes aos circuitos processadores de dados, frutos da própria inventividade humana. Mesmo as operações de cálculos aritméticos estão atribuídas a esses dispositivos psíquicos. 
Uma de suas principais operações racionais no tocante à cognição é a Inferência, ou o que se pode chamar de “lógica trina”. Numa analogia com o cálculo geométrico, se temos os dois lados dum triângulo, deduzimos o terceiro. Isto é trigonometria básica. O mesmo ocorre com os elementos das equações algébricas na popular “regra de três”. Esta lógica trina permeia todo o universo das coisas conhecidas. Permite à mente a dedução, inferindo informações de outras. Também permite a criatividade, combinando-se uns elementos para compor outros. Bem representada no triângulo, a lógica trina talvez seja o principio fundamental da Gestalt, estando presente em vários processos psíquicos, sejam sensoriais, cognitivos, dialéticos e até comportamentais.
Assim, as principais funções da Razão são:
 
·           Comparação– as informações na forma dos códigos psíquicos são associadas a outras contidas na memória e se subtrai diferenças entre elas. Disso resultam processos de identificação e diferenciação.
·           Associação– como resultado de processos perceptivos e cognitivos, informações são relacionadas através da lógica somando-se em conjuntos.
·           Análise– conjuntos de informações sensoriais e cognitivas são quebrados, divididos ou desmontados, em conjuntos menores ou em unidades, a fim de serem usados. A análise pode ocorrer por Crítica, Dedução ou Dissociação.
·           Síntese– unidades de informações sensoriais e cognitivas são associadas ou multiplicadas formando conjuntos e estruturas maiores e mais elaborados a serem manipulados. A síntese ocorre por Produção, Reprodução e Composição. 
Na verdade, a maior parte dos fenômenos psíquicos faz uso rigoroso do órgão racional, mesmo quando o comportamento individual resultante seja na prática irrefletido ou impulsivo. Processos como a Percepção, a Cognição, o Pensamento, a Linguagem, o Comportamento, o Arbítrio e a Consciência, usam-no invariavelmente. Mesmo os processos emocionais têm grande participação das funções racionais.
Fundamental no funcionamento da mente e do comportamento de qualquer ser vivo dotado de um sistema nervoso, a razão não é predicado exclusivo da raça humana. A percepção e o comportamento animal, tanto o individual quanto o coletivo, faz uso de inúmeros processos lógicos.  Os hábitos e ações desses seres vivos têm sua própria lógica comportamental. E mesmo certo nível de raciocínio, ainda que elementar, é preciso em cada resposta, espontânea ou condicionada. Portanto, os animais não são irracionais. Deveremos atribuir-lhes algum outro adjetivo para diferenciá-los de nós humanos, sem dúvida, extraordinariamente mais complexos.
Os primeiros degraus, ou níveis, da Razão na psicopirâmide serão vistos a partir do estudo da percepção, já que lhe são principalmente dedicados.
 
A Memória
 
Possuindo também origem latina, o vocábulo “memória”, da sua parte, não costuma trazer consigo qualquer ambigüidade. É de uso cotidiano e muito utilizado em jargões de informática e eletrônica.
Como órgão mental, a Memória se encarrega de catalogar e arquivar informações na forma de códigos psíquicos. Tais informações são de origens várias: sensoriais, cognitivas, emocionais etc.
Na psicopirâmide, a face correspondente à Memória pode ser dividida verticalmente em três facetas. A faceta central se ocupará das funções mnemônicas em operação ativa. A faceta esquerda, segundo o modelo principal em perspectiva superior, tem contato direto com a razão e ocupa do arquivo lógico. Nesse são arquivados dados, informações cognitivas “frias”, todo tipo de conteúdo sem valor sentimental ou importância imediata. A faceta direita, em contato direto com a emoção, se ocupa do arquivo sensitivo. Nesse são arquivados códigos sensoriais, informações “quentes”, com importância e valor para o próprio indivíduo. Evidentemente, a Memória em geral faz uso combinado dos dois arquivos.
 A função mnemônica, ou memorização, tem seus mecanismos de retenção e busca.
A retenção mnemônica é realizada conforme os seguintes fatores:
 
·           Associação– a retenção por associação, como o nome supõe, ocorre quando se associa um estímulo ou informação a outro. Essa associação pode ser por Simultaneidade ou por Similaridade. Na associação por simultaneidade, informações diferentes ou códigos de estímulos de naturezas diferentes podem ser relacionados pelo simples motivo de ocorrerem simultaneamente, seja na percepção do ambiente, seja no encadeamento dos pensamentos. Isso permite à mente situar-se na corrente temporal e no meio físico. Permite também a experiência pessoal rica em significados para o indivíduo. Na associação por similaridade, informações semelhantes ou códigos de estímulos semelhantes podem ser relacionados por tal semelhança. Isso permite à mente o tratamento racional das informações. Certamente, a discriminação dessas semelhanças requer a interação entre processos racionais e mnemônicos.
·           Intensidade– a retenção por intensidade é de natureza física, bioquímica. Levará em conta a intensidade da carga, do sinal, o valor da informação. Ocorre por Repetição ou por Importância. A retenção por repetição ocorre sempre que o mesmo código, ou outro semelhante, for tratado. A repetição constante ou regular tem efeito proporcional para informações de qualquer intensidade. Porém, maior a intensidade ou importância da informação, maior a retenção. Por “importância” consideramos seja a grandeza física do estímulo externo percebido, seja o valor racional ou sentimental atribuído a uma informação. Também, quanto maior a importância do código, menor a necessidade da repetição, uma vez que esta mesmo que sendo esporádica terá efeito. Esses processos exigem também interação entre os órgãos mnemônico e emocional.
·           Inferência Lógica– a retenção por inferência lógica presume um método desenvolvido casual ou voluntariamente pelo indivíduo consciente, método este com participação racional.
 
Os métodos de Aprendizagem fazem uso combinado desses fatores.
Quanto à busca mnemônica, ou recordação, esta ocorre de dois modos:
 
·           Varredura– um tipo de busca em que um sinal correspondente a um código requerido, ou um sinal de “vaga” equivalente à falta deste, é difundido através de todo o arquivo mnemônico. O sinal varre todo o arquivo até que a informação seja encontrada por semelhança com o código requerido ou por preenchimento da respectiva vaga.
·           Rastreamento– um tipo de busca em que os sinais acima mencionados percorrem um rastro deixado pelo processo mnemônico na corrente do tempo, partindo do instante atual rumo ao arquivo passado, numa espécie de trilha cronológica, até que a informação seja encontrada. O rastreamento também ocorre através da teia gerada pelo processo de associação. Esse fenômeno é essencial no encadeamento dos pensamentos nos processos cognitivos.
Quanto à arquitetura do órgão mnemônico, distinguimos três degraus iniciais, correspondendo a três etapas ocorridas em função natural do tempo, a saber: Memória Breve, Memória Recente e Memória Remota. Tais etapas são de conhecimento corrente em psicologia cognitiva e nas neurociências. Contudo, têm sua posição definida no modelo piramidal.
 Na Memória Breve, todos os códigos tratados pela mente num dado instante, independentemente de sua origem ou natureza, são retidos para tratamento. Variados processos psíquicos definirão sua utilidade ou destino. A grande maioria dos códigos retidos num mesmo instante é de natureza sensorial e estará sendo tratada pela percepção. A vasta maioria será anulada, já que o ambiente continuará ali a oferecer os mesmos estímulos indefinidamente. A memória não deverá reter tudo, o tempo todo, o que seria impossível. Onde houver mudança, tal será retida, somando-se ao volume anterior. Onde houver continuidade, a continuidade como conceito em si será retida, não o volume contínuo. Também este processo efetua outra filtragem quantitativa e simplificação qualitativa, evitando transbordar a memória com volume desnecessário.
O tempo de permanência dos códigos e informações na memória breve dependerá dos fatores de retenção, bem como da capacidade individual. Em geral, isso se dá numa escala entre segundos e horas, dependendo da informação, de sua intensidade e utilidade. Vencido o prazo, as informações e códigos são anulados, cedendo lugar a novos.
A memória breve funciona espontaneamente e é generalizada. Mas pode ser direcionada para uso específico, seguindo instruções conscientes.
Alguns códigos ou informações podem ser marcados pela importância para serem retidos por um tempo prolongado, ultrapassando o prazo da memória breve.
Todo o conteúdo da memória breve destinado a permanência além de seu prazo integrará o Pacote Mnemônico. Esse ascenderá para o degrau seguinte, a Memória Recente.
Na Memória Recente as informações e códigos são armazenados por horas ou meses, dependendo do respectivo caso. A seleção das informações destinadas à permanência além desse prazo levará em conta principalmente os fatores de retenção por associação e intensidade, sendo então mais rigorosa. Atravessando mais essa filtragem, o pacote mnemônico ascenderá para o próximo degrau, a Memória Remota.
Na Memória Remota, as informações e códigos são armazenados por anos, indefinidamente. Rigorosos e complexos processos de seleção e arquivamento são realizados, com o fim de que a memória retenha tudo o que for essencial para a experiência do indivíduo, desde conceitos cognitivos a recordações de momentos da vida. A memória remota faz uso extenso da retenção por inferência lógica e grande porção das informações e experiências é recuperada posteriormente pelo fato de estarem relacionadas com outras. Códigos são reescritos com base em informações antigas arquivadas.
A memória remota permite ao individuo uma percepção e consciência existencial. Por outro lado, impõe-lhe uma perspectiva distorcida, parcial e discriminatória da realidade ao seu redor, uma vez que a visão que tem do mundo é moldada por sua própria experiência de vida. Ainda assim, a memória remota é necessária para a individualidade e a efetiva consciência.
Outros degraus se seguem aos três primeiros na face da Memória. Superiores em complexidade e cada vez mais próprios da raça humana, esses novos degraus acima no modelo não mais seguirão obrigatoriamente a escala do tempo, mas corresponderão a níveis mais elevados nos processos.  Intrincadas estruturas cognitivas desenvolvem-se na medida em que a percepção trabalha as experiências do indivíduo. Tais estruturas comporão toda a vivência e identidade desse, sendo registradas indefinidamente em sua memória. Essas estruturas, bem como os degraus superiores que as abrigam, poderão ser considerados em obras posteriores.
Note o leitor que o modelo piramidal é versátil e plástico. Entre os degraus iniciais já definidos e o zênite da consciência, numerosos e complexos processos terão seu posto. Assim o modelo pode e deve ser incrementado progressivamente, seja por mim mesmo, seja por outros teóricos e pesquisadores que a tal aderirem.
  
A Emoção
 
Finalmente, ocupando a terceira face da psicopirâmide, situo a Emoção.
Evidentemente as emoções são fundamentais nos processos psicológicos. Como defende Daniel Goleman, ‘um modelo da mente seria pobre se as deixasse de lado’.
Todavia, entre todos os temas estudados em psicologia, talvez poucos se apresentem mais ambíguos. Por isso, é importante uma definição mais precisa e específica acerca do uso do léxico e da própria natureza das emoções humanas.
Como léxico, a palavra “emoção” provem do radical latino mŏvēre, que porta o sentido de “mover-se”. Traz implícita a noção de movimento, ou a causa deste. De fato, boa porção dos fenômenos que classificamos como emoções têm a ver com processos que motivam ações comportamentais, ou mesmo os impulsos propriamente ditos existentes no interior da psique que levariam a tais ações externas. Assim, o sistema emocional tem uma natureza tanto ativa quanto reativa.
Ao mesmo tempo, tem uma natureza passiva. Relacionamos as reações emocionais com os “sentimentos”, palavra essa vinda do radical latino para o que se sente ou percebe. Mesmo o vocábulo “paixão”, derivado do latim păthe, tem sua raiz etimológica no grego pathos, léxico ligado ao sofrimento ou ao que se padece.
Portanto, o sistema emocional deve ser ao mesmo tempo passivo, ativo e reativo.
No modelo piramidal, considero a Emoção como um terceiro órgão mental. Defino-o como um sistema autotrófico de estímulos. Um sistema de realimentação de “energias psíquicas” ou motivacionais. Estímulos exteriores trazem à psique variadas tensões. Algumas dessas se transformam em impulsos que conduzem a ações devolvidas ao ambiente, ou são manifestados como reações no organismo. Outras se acumulam gerando os processos mais avançados que chamamos de emoções e sentimentos, processos esses que se estendem na corrente do tempo, afetando ações comportamentais futuras e incorporando a própria personalidade do indivíduo.
A Emoção processa e compreende toda espécie de desejo, vontade e necessidade consciente ou inconsciente. Suas manifestações são tanto psicológicas quanto fisiológicas. A causa de grande parte da ambigüidade em sua definição é seu efeito sobre o organismo. Daí, visto influir diretamente sobre os órgãos físicos, habituou-se a definir a “emoção” como o “coração” da pessoa.
Qual terceira face da psicopirâmide, a Emoção tem seus degraus que também ascendem à consciência. Os primeiros degraus que consideraremos não obedecem a uma seqüência rígida ou por etapa, porém parecem estar muito ligados aos processos ocorridos nos primeiros degraus da Memória e da Razão.
A partir de sua base na Interface, podemos definir os três primeiros: a Sensibilidade Sensorial, a Sensibilidade Proprioceptiva e a Sensibilidade Endógena. Os três equivalem a processos de detecção e discriminação dos respectivos estímulos externos.
 A Sensibilidade Sensorial recebe da Interface Psíquica sinais de origem nos órgãos físicos dos sentidos. Porém, diferente da percepção sensorial, que veremos mais ligadas aos processos racionais, esses sinais informam apenas acerca da natureza e intensidade dos estímulos sensoriais, e serão discriminados como dor ou prazer, conforme os estímulos forem nocivos ou agradáveis ao corpo.
A Sensibilidade Proprioceptiva, embora situada no próximo degrau para efeito esquemático, também interage com a Interface Psíquica, sendo que dessa recebe sinais de origem somática. Tais sinais informam sobre tensões musculares e estímulos internos, também passíveis da discriminação em dor ou prazer.
A Sensibilidade Endógena, também ligada à Interface Psíquica, informa acerca das necessidades fisiológicas, da falta ou excesso de certas substâncias, da necessidade de todo tipo de ingestão, absorção, secreção ou expulsão de substâncias ou materiais, bem como do nível energético do metabolismo basal. Muitos desses sinais podem ser discriminados como dor ou prazer, mas também possibilitam outras associações mais complexas. A Sensibilidade Endógena, em sua qualidade passiva, também é responsável pela detecção de níveis hormonais, embora o sistema hormonal ao mesmo tempo esteja ligado às reações frutos dos processos emocionais.
A discriminação dos estímulos externos tem importância fundamental para a preservação do indivíduo em seu ambiente físico. A discriminação dos sinais acima considerados em seus respectivos degraus é essencial para a conservação vital, a conservação da saúde e o conforto físico do indivíduo.
Tais discriminações sensitivas são internas no órgão emocional e diferentes das discriminações sensoriais destinadas à percepção do ambiente físico externo. De modo que podemos considerar o desenvolvimento duma modalidade diversa de percepção, a Percepção Sensitiva, dessemelhante da percepção sensorial, que abordaremos a seguir.
A Percepção Sensitiva traduzirá os sinais em sensações, conforme sua natureza e intensidade. Essas são as sensações puras: fome, sede, sono, libido, náusea, tenesmo e etc. A Percepção Sensitiva está ligada diretamente ao conhecido mecanismo prazer/dor.
Em resumo, a Emoção tem em seus degraus superiores mecanismos e dispositivos próprios, complexos, com o fim de regular a condição física e psíquica do indivíduo, ao tempo em que afeta diretamente sua cognição e comportamento. O mecanismo de prazer/dor será a base para o desenvolvimento dum elaborado sistema balanceado em que desejos, sentimentos e emoções duma variada gama qualitativa terão suas funções essenciais à condição humana. Esses também deverão ser tópicos de obras posteriores.
 
A Consciência
 
Tema de milenares debates filosóficos e intensa especulação em psicologia, a consciência é uma função imprescindível para a existência humana como conhecemos. Como léxico, define-se como “a ciência, ou conhecimento, de si mesmo”.  Envolve também a capacidade do indivíduo de perceber a realidade ao seu redor de forma relativamente aceitável aos seus semelhantes.
Não me deterei nessa exposição a divagar em todas as suas atribuições. Questões tangentes à sua natureza e dinâmica serão pertinentes a outras obras. Por ora, limito-me a determinar sua posição na psicopirâmide.
Deve a Consciência ocupar o topo da pirâmide mental. Todo o volume relevante de informações e estímulos processados e interpretados, todos os processos perceptivos, cognitivos e emocionais, todo o conteúdo psíquico, tende a ascender visando atingir a consciência direta ou indiretamente.
Isso, obviamente, admite a existência de processos subconscientes no caminho, ou mesmo a existência inegável do inconsciente. Também se admite que processos e desenvolvimentos extremamente complexos ocorram abaixo dela (sem o autoconhecimento do indivíduo), tomando-se figurativamente a consciência por mera “ponta do iceberg”. O fato é que a consciência é a sumarização e o alvo final de todo pensamento, sentimento, imaginação ou qualquer que seja o produto da psique.
Sendo a mente um sistema dinâmico e reativo, os produtos dos processos psíquicos sobem à consciência, que avaliará cada conteúdo e deliberará a resposta apropriada. Claro que trato aqui grosso modo tal processo tão complexo. Se por um lado o volume informativo diminui na medida em que o conteúdo ascende na pirâmide, a complexidade das estruturas que vão sendo trabalhadas, bem como o seu valor subjetivo, cresce a cada degrau/etapa.
Acredito que apenas um conteúdo por vez alcance o topo, muito embora por um tempo ínfimo, o que permitiria que vários deles fossem trabalhados quase (ou, na prática) simultaneamente.
Considerados como um contínuo fluxo, esses conteúdos compõem o Pacote Pré-ativo. Nesse pacote vão sendo trabalhados diversos elementos e possibilidades que tendam a se efetivar na linguagem e no comportamento.
Antes de atingir o zênite, que deve incluir a deliberação do indivíduo, a consciência filtrará e julgará o conteúdo. Assim, podemos sugerir que haja três constituintes da consciência, um em cada face/órgão mental, como segue:
 
·           Critério– situado no órgão racional, seria um dispositivo de avaliação e julgamento do conteúdo psíquico ou de qualquer outro produto que se destine à consciência e demande resposta. É nesse dispositivo que surgem os grandes conflitos e se trabalham as importantes decisões.
·           Registro Contínuo – situado no órgão mnemônico, é um registro linear e cronológico de todos os conteúdos conscientes e deliberações do indivíduo. Em suma, trata-se de sua própria história, ou o que ele sabe de si mesmo. É indispensável para sua conexão com a realidade física e o mundo social.
·           Retribuição– situada no órgão emocional, é um dispositivo de recompensa que determinará respostas emocionais relativas à proporção dos conflitos ou à natureza e direção das respostas.
 
Em muitos casos, especialmente em decisões conscientes, os três dispositivos relacionam-se entre si, até que um produto adequado tome forma.
Finalmente, no zênite situa-se o Arbítrio, ou o Ponto de Decisão. O produto dos três dispositivos da consciência ascende um por vez convergindo ao mesmo ponto. O Arbítrio também será como um “gargalo”, visto que a deliberação depois descerá compondo o Pacote Ativo a fim de gerar produtos lingüísticos e comportamentais.
É previsto assim a existência de degraus intermediários, com função de direção descendente, que comportem uma “oficina lingüística” e uma “oficina comportamental”. Seus produtos descerão até a Interface Psíquica, sendo convertidos em ações do indivíduo sobre o ambiente em que estiver inserido.
Essa explanação sucinta, a saber: a Interface Psíquica na base, os três órgãos mentais, Razão, Memória e Emoção, cada um assumindo uma face da pirâmide, e a Consciência no topo, tendo o Arbítrio por zênite, perfaz o fundamento da teoria piramidal. Visto isso, podemos nos aventurar a uma explanação do funcionamento da mente utilizando esse modelo teórico.
E de todos os fenômenos psíquicos de maior relevância, talvez a percepção sensorial seja o primeiro tema a requerer uma consideração explanatória.
 

 


Freud, Sigmund (1969) Entwurf Einer Psychologie (Projeto de uma Psicologia) Trad. Osmyr Faria Gabbi Jr.. Imago Editora.
Tomado emprestado da Ciência da Computação, o jargão “pacote” pode ser usado em muitas considerações.
Dicionário Latino-Português, José Cretella Júnior e Geraldo de Ulhôa Cintra, 1956, Comp. Ed. Nacional.
Goleman, Daniel (1995) Emotional Intelligence. Bantam Book.
Dicionário Latino-Português, José Cretella Júnior e Geraldo de Ulhôa Cintra, 1956, Comp. Ed. Nacional.
Do latim: sensus.
Dicionário Etimológico Nova Fronteira, de Antônio Geraldo da Cunha.
Latim: conscientia.


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