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   > Parágrafo insone



Maygon André Molinari
      CONTOS

Parágrafo insone

Quando, já alta madrugada, eu percebo no rádio que as rádios estão misturadas, compreendo que a insônia está de volta. Tem acontecido bastante, ultimamente. O problema é que eu não descanso, porque às quatro horas devo estar em pé. Às quatro e meia eu saio. E só volto oito da noite, porque é longe ond’eu trabalho. Faz anos que estou lá. Vi os trens se transformarem, o caminho alongar-se, e a fábrica também crescer. Vi tanta mudança nesta cidade, e no país também, que às vezes me interrogo, mais ou menos assim: se tudo mudou tanto, até onde eu sou eu ainda? E me apalpo nos meus olhos, e uma rádio toca um tango. Acho que é tango, porque não é português. Acho que é castelhano. E tenho pensado, a respeito da insônia, se ela não vem, justamente, do cansaço. Faz anos que faço o que faço. Logo me vão aposentar. Mas eu sinto que, ai Deus, fiz tão pouco! Não me casei. Não tive filhos. Saí pequeno da minha cidade, voltar não posso, me faltam forças, me falta dinheiro. E coragem. E eu sinto uma vontade de apertar mais forte eu mesmo, e dizer que mesmo assim me gosto... Rádio AM me lembra meu pai. Ele dormia escutando orações. E acho que foi por isso que, passado um tempo, coloquei o rádio na cabeceira: eu queria era ouvir meu pai. Agora, por exemplo, são duas horas. Antes, quando eu olhava este mesmo horário, eu sentia assim um alívio, puxava as cobertas e dormia de novo. E, no acordar para o serviço, eu pensava: “Ah, mas parece que eu dormi mais.” Mas agora esta insônia! Será que ela não é vinda de um jeito errado de levar a vida? Sempre achei que fui muito egoísta. Até nem sei se é esta a palavra. O que busco é uma, que justifique eu estar sozinho. E eu talvez estivesse dormindo se, dum meu filho um filho - um meu neto! - no quarto ao lado estivesse dormindo: passando suas férias... eu talvez estivesse. E ao meu lado, uma honesta senhora com as mãos delicadas dos tantos carinhos feitos nos filhos, feitos em mim, feitos na vida. Eu talvez estivesse. E quando eu chego a esta altura da prosa, eu olho o relógio, que dá quatro horas, e ponho minha calça, e calço minha bota, e saio a caminho de ir pegar o trem.

Extraído do livro de contos "Os só(i)s", que pode ser adquirido neste site.

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