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   > A esposa do Boto



Valdemar Gonçalves da Silva
      CONTOS

A esposa do Boto


Lendas da região amazônicas que ouvi quando la vivi.
Escrita por Valdemar Gonçalves da Silva
                   
             A esposa do boto
 
A horas ela está absorta em pensamento só seus e com o olhar perdido num horizonte que existe só dentro de seus sonhos.
Nem o grito estridente do casal de araras vermelhas que em voo namoram e vão a procura da arvore onde de costume fazem o ninho no oco de um galho, mas ali numa castanheira um tucano solitário lança seus gritos ao vento na esperança que uma femea o escolha como parceiro.
Ela parece não ouvir tudo isso, sentada na areia da pequena praia do igarapé que passa a poucos metros da casa de seus pais ela continua a olhar sem ver nada ao redor seu espirito vaga dentro dos limites do seu conhecimento de mundo que com certeza não vai mais longe que algumas horas de canoa do seringal onde mora até a casa de alguns parentes ou conhecidos.
Mas a mente humana não conhece limite ou distancia dentro de sonhos onde a paixão e o amor são os veículos e nesse momento ela sonhava com o amor de uma forma especial, pois nunca fora cortejada ou amada por alguém.
Nos seus dezessete anos de vida ela nunca fora tocada por mãos ou lábios de um homem era tão virgem como a selva que a rodeava e isso a fazia triste e nesta época do ano quando o verão amazônico propicia a todos os seus habitantes o momento de procriação é a renovação e todos animais sentem que precisam formarem pares para dar continuidade a vida.
Ela se levanta e deixa a mostra a exuberância de sua beleza quase selvagem, morena jambo de uma estatura mais para alta e de sua cabeça em ondas caiam seus cabelos negros que passavam pelos ombros e chegavam aos seios grandes cobertos por uma surrada blusa onde via a estampa em flores a saia curta e em desalinho deixava à mostra as bem torneadas coxas.
Era um belíssimo exemplo da mulher amazônica, mas seus olhos dentro desse belo contexto destoavam pela tristeza que expressavam, eram grandes e negros como perolas brutas, mas seu brilho era ofuscado por esse manto de tristeza que refletiam.
Caminhou lenta e despreocupadamente para o tapiri e ao chegar no último dos dez degraus sua mãe ali estava e perguntou.
-Filha o que está acontecendo? -Agora deu para andar jururu como alma penada, nem conversa mais.
Ela olhou longamente para aquela mulher sofrida e mal tratada pela vida e as doenças que contraiu ali no seringal, sim a sua mãe era o reflexo do que ela seria um dia e isso a deixava desesperada ela desejava encontrar o amor e a felicidade.
-Mainha eu estou sofrendo por não ter uma pessoa que me faça feliz a muito eu desejo ter homem que me trate bem e me mostre o mundo, mas como vou conseguir isso neste fim de mundo se as únicas pessoas que conhecemos são tristes e mal amadas como nós mesmas.
Ela deixou que as lagrimas rolassem pelo seu rosto esse não era o primeiro choro que tinha a muito as lagrimas conheciam os contornos de seu jovem e belo rosto.
A mãe aprendera a conviver com essa solidão da vida dentro dos seringais e amava o marido que dentro das parcas condições tentava faze-las felizes e como também não conheciam outro tipo de vida achavam que o que tinham era suficiente.
Mas para Maruri que era jovem e aprendera a cultivar sonhos, aquela vida já não fazia mais sentido ela sentia que o mundo desconhecido que pulsava la fora longe da selva era onde encontraria o amor e a felicidade.
Quando o pai chegou a tarde cansado, mas feliz por ter abatido um mutum gordo e sorrindo entregou para mulher e comentou.
-Encontrei com um bando de queixada, mas não tive tempo de atirar, pois uma onça estava rondando o bando e me olhou com cara de pouco amiga, mas logo encontrei esse mutum e ta gordo.
-Vai dar um bom guisado e vou pedir para Maruri me ajudar ela anda muito estranha.
-Também tenho notado a quietude dela será que está doente.
A mulher fez um muchacho e balançando a cabeça foi para beira do fogão atiçar o fogo.
Já estava escurecendo e sentados no assoalho de paxiuba comiam o mutum com farinha e conversavam.
-Filha o que está passando com voce só a vejo calada e com o olhar distante nem falou mais em ir comigo pra estrada.
Ela ficou um instante sem responder, mas criou coragem e olhando para o pai, falou.
-Painho eu quero ir embora daqui. Ficou quieta esperando para ver a reação do pai ela sabia que ele era um homem bom, mas saber de seu desejo talvez fosse demais para ele.
Ele mastigava o pedaço da coxa do bicho, parou e olhando para ela devagar retornou o mastigar e tomou um gole de agua para ajudar e falou.
-Que coisa mais besta é essa minha filha?
-Painho eu não quero magoar o senhor, mas meu coração pede que eu vá procurar a minha felicidade o senhor entende.
Ele levantou e foi sentar na rede e perguntou.
-Mas para onde voce deseja ir se nunca saímos mais longe que na vila do Murtinho.
-Não sei painho, mas sei que esse mundo deve ser grande e outro tipo de vida ter por la.
-Mulher que acha disso, não acha que é bestagem da cabeça dela o que precisa é arrumar um namorado, o filho da Doquinha já demonstrou que gosta do ce e é um bom rapaz e trabalhador, dará um bom marido.
-Eu sempre falei pra ela que deveria arrumar um namorado e logo embuchar, pois é assim que vivemos por aqui, mas ela nunca aceitou que eles chegassem perto.
-Vocês não entendem que eu não quero só deitar com um homem e ter um monte de filhos e continuar sem sonhos eu preciso de mais que isso.
O pai coçou a barba crescida e acendeu um cachimbo e depois de umas baforadas olhou para filha e ficou assim analisando e percebeu que a sua menina não era mais uma criança ela era bonita e se transformara numa linda mulher que faria qualquer homem feliz por tê-la ao lado.
-Filha eu acho que voce tem razão eu e sua mãe passamos a nossa vida enfurnado na mata por que foi assim que fomos criados e fizemos voce passar por isso, mas só agora é que falou de ir embora que notei o quando voce está mudada e que linda mulher voce se tornou, não é mesmo minha velha?
-É, a nossa garotinha cresceu e quer criar asa diferente da nossa eu acho que está na hora de nós sair deste lugar e ir ver esse tal de mundo que existe la fora.
-Pois então ficara acertado que nesses meses que falta para terminar a safra da borracha trabalharemos com afinco para produzir o máximo e depois iremos embora.
Ela sorriu feliz e abraçou o pai e falou. –Vamos trabalhar muito e no final convidaremos os amigos e faremos uma festa de despedida, que acham?
-Isso mesmo faremos uma bela despedida deste lugar onde vivemos por todos esses anos.
E assim eles fizeram e ela estava feliz e muitas vezes ficava lavando as roupas ou as coisas da cozinha ali no igarapé e admirava a quantidade de peixe que vinham comer os restos de comida e depois de um tempo começou a aparecer uns botos o que era novidade por ali, eles normalmente viviam nos rios mais largos.
-Painho o senhor já viu o casal de boto cor de rosa que apareceu ali no poção.
-Vi e fiquei admirado com o tamanho deles e a visita deles aqui tão longe do rio grande é novidade, mas se eles vieram é por que temos fartura de peixes.
O tempo passou e eles conseguiram muitas pelas de borracha e centenas de latas de castanha e mais algumas peles de animais que abatiam para comer o regatão passou e venderam tudo apurando um bom dinheiro e chegou o grande dia da despedida, os amigos chegavam logo cedo e traziam carne de caça ou peixe seco e muita farinha, pois essas festas costumavam durar dias ou enquanto durasse a cachaça e o sanfoneiro tivesse força para tocar.
Todos estavam felizes e no terceiro dia mataram e assaram vários porcos do mato e a tarde a festa reiniciou com o baile e ao escurecer os candeeiros e lamparinas foram acesas e todos dançavam alegres, menos Maruri que conversava com umas amigas e seu olhar foi atraído para um jovem bem vestido que acabara de chegar e veio em sua direção.
Ele se aproximou e estendeu a mão e galantemente a convidou.
-Será que a princesa desta festa poderia me conceder a honra desta dança.
Ela estava atraída pela beleza do jovem que trajava roupas coloridas e alegres e trazia na cabeça um lindo chapéu de feltro de abas estreita na cor cinza, ela voltou o olhar para as amigas, mas essas pareciam que não percebiam o que estava acontecendo e saíram para o meio do terreiro dançando, ela se virou e aceitou o convite.
Quando ele tocou suas mãos e ela sentiu a macies de sua pele seu corpo tremeu de emoção e ele a trouxe suavemente para perto e no ritmo da dança envolveu seu corpo num abraço carinhoso ela se entregou aquele prazer e rodopiaram pelo terreiro em passos precisos que ele a conduzia e dançaram muitas partes, mas ninguém parecia prestar atenção neles.
-Minha donzela é a mais belas de todas por estas paragens, terá voce algum serio compromisso de amor.
Aquilo era música para os ouvidos dela e uma onda de bem estar se apossou de seu ser.
-Não conheço o amor e só a solidão é minha companheira e agora me sinto feliz pela primeira vez por estar com voce.
-Então somos dois solitários e isso não pode continuar assim.
Ele a beijou e ela retribuiu como nunca imaginou que um beijo poderia ser tão bom e prazeroso, ele a tomou nos braços e rodopiaram pelo terreiro e aos poucos eles foram se afastando do centro e ficando fora da luz do candeeiro e seus pés tocaram a areia da praia.
-Voce quer ser a minha esposa minha querida donzela.
-Sim eu quero que me faça a mulher mais feliz deste mundo.
Ele a beijou demoradamente e ela sentiu um leve tremor de uma vertigem ao perceber que suas vestes eram tiradas e um perfume delicioso tomou conta do ar.
Ela foi encontrada pelas pessoas quando já era madrugada quando deram por sua falta e a procuraram, sua mãe a cobriu com as roupas que ajuntou do chão e a levaram para casa, ela estava com um lindo sorriso no rosto e não respondia a nenhuma pergunta.
E assim três dias depois e quando já estavam só eles na casa é que ela retomou a consciência e perguntou.
-Onde estão todos?
-Já se foram e voce como está?
-Estou bem, por que me olha assim?
Eles então disseram como a tinham encontrada e que tinha marcas de sangue na perna, mas tinha machucado algum.
Ela estava sentindo uma grande felicidade e se lembrava do jovem lindo que dançara e falara palavras tão bonitas para ela e perguntou.
-Vocês viram o rapaz com que eu dancei?
Os pais se olharam e respondeu a mãe.
-Filha voce não dançou com ninguém só a vimos dançando sozinha!
 Ela sorriu e disse. –Mainha eu dancei com um lindo rapaz bem trajado e que me pediu para ser sua esposa eu não estou louca e não bebi.
Eles se afastaram e saindo para o terreiro comentaram.
-Será que nossa filha adoeceu da cabeça. Falou o pai.
A mãe colocou a mão no ombro dele no exato momento que o boto pulou e fez aquele barulho de assobio ela olhou aquilo e falou.
-Acho que aconteceu algo pior para nossa filha, voce mesmo viu que ela tinha sangue ali embaixo e era sangue da virgindade dela.
Ele se afastou um passo e vermelho de ira quase gritou.
-Eu mato o desgraçado que fez isso com a nossa filha eu vou descobrir agora mesmo. E ameaçou ir para o tapiri, mas ela o conteve.
-Se acalma, todos que estavam aqui são gente de confiança e não fariam nada pra ela.
-Mas então mulher quem diabo fez isso se não tinha nenhum estranho, só... Ele parou de falar e olhou para a mulher, ela balançou a cabeça e apontou para o igarapé.
-Meu Deus a nossa menina foi seduzida pelo boto. Ele falou com lagrimas nos olhos.
-Sim meu marido isto explica ela confirmar que dançou com um rapaz bonito e só ela ter visto.
Algum tempo depois se confirmou a gravides e ela não mais quis sair da região e se transformou numa mulher feliz e respeitada e cuidava do filho com muito carinho e dizem que em certas noites quando a lua se faz escura se ouve assobios de chamamento e ela corre para o igarapé e mergulha para encontrar o seu amado só retornando para sua rede quando o sol está para chegar.
 
 
FIM
 
 
 
 
 
 
 
 


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