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   > Biografia - Momentos da Minha Vida na Amazônia



Valdemar Gonçalves da Silva
      ARTIGOS

Biografia - Momentos da Minha Vida na Amazônia

1
Valdemar Gonçalves da Silva
Momentos
Da
Minha
Vida
Na
Amazônia
2
Escrita por
Valdemar Gonçalves da Silva
E-mail sanvi-sanvi2013@hotmail.com
Conchas- Estado de São Paulo- Brasil
2014
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São relatos reais de momentos vividos na região amazônica em trabalhos de topografia ou em loucas aventuras atrás de minérios garimpando, nos mais longínquos e inóspitos lugares.
Se eu fosse escrever todas as minhas aventuras que passei por todos esses longos anos andando na região amazônica seria um longo e cansativo livro, por iço resolvi contar alguns momentos que aconteceram e que tiveram relevância e não seguirei uma ordem cro-nológica, mas contarei como estivesse sentado entre amigos tomando uma bebida e me pe-dissem para falar das minhas aventuras, pois bem vou iniciar falando de uma dessas aventu-ras que aconteceu e que marcou minha vida pelo perigo que passei, mas que deixou uma marca maior no meu espirito, os meus companheiros foram reais menos os seus nomes, pois ai vai a história de um final de ano que passei longe de minha família e ganhei como presente, a vida!
Rio Machado, cachoeira de Monte Cristo.
Está caindo uma torrencial chuva, nesta época do ano que é conhecida como inverno amazônico é quando as chuvas estão no auge e transborda os rios, mas estou tranquilo num quarto de hotel na cidade de Ji-Paraná a espera que a empresa mande a passagem de avião para São Paulo onde irei passar com os familiares o natal e final de ano.
Estou jogando uma partida de domino com a filha do dono do hotel quando o silencio foi quebrado pelo som do telefone ela se levantou e foi atender e me chamou.
-Valdemar é uma ligação para você. Fui atender, era o engenheiro responsável pela obra de uma barragem que estávamos estudando em Rondônia e o que ele pediu me deixou preocupado, mas nunca fui de recusar um trabalho e se um superior mesmo sabendo dos riscos da empreitada vem pedir é por que confia no profissional e é algo muito necessário.
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-Valdemar eu sei que deve estar ansioso para vir a São Paulo e a jornada que cumpriu foi muito proveitosa para a empresa, mas para fechar com chave de ouro e o pessoal do projeto ter material para já definir o ante projeto, nós estávamos precisando que fossem feitos uns pontos de nível de alagação entre a cidade de Ji- Paraná e a vila de Tabajara, acha que é possível fazer isso?
-O rio Machado está na sua alagação máxima e é um rio perigoso pelas corredeiras, mas não é impossível só que o nosso material foi recolhido e está num deposito que não tenho acesso.
-Vou mandar a autorização e fazer um deposito em dinheiro em sua conta para custear as despesas é só me passar o valor.
Eu não estava feliz, pois sabia dos riscos, mas a adrenalina pelos riscos me fascinava, sempre fui assim eu gostava de testar meus limites, mas teria a responsabilidade do pessoal que iria comigo, por iço tinha que planejar bem para não pôr a vida deles em risco.
Fui até a beira do rio onde morava um dos barqueiros da empresa que mais tem conhe-cimento do rio, mas ele estava acometido de malária e não tinha condições de fazer a viagem e ainda avisou.
-É loucura descer o rio como ele está, mas se bem conheço você não adianta dizer nada então vá procurar o mundico é quem de melhor conhece esse rio e quem mais você vai levar?
-Preciso de dois pilotos e vou atrás de meus ajudantes, para esse serviço eu vou pedir uma gratificação para quem for comigo.
-E os barcos com qual vai?
-Vou com os botes de alumínio de quatro metros e os motores rabeta.
-Tomem muito cuidado você não conhece esse rio quando este cheio e peça para que naveguem próximo da margem que é mais seguro.
Preparei tudo para em dois dias descer.
Amanheceu chovendo no dia vinte de dezembro e as águas transbordaram invadindo a rua de terra na margem esquerda, as casas são construídas altas do chão e por iço ainda estavam a salvo, mas as embarcações já aportavam nas portas.
Carregamos tudo e no centro de cada barco colocamos um tambor de duzentos litros que tinham certa quantidade de combustível e estavam bem amarrados no barco se no caso de alagar ele manteria o barco flutuando, toda mercadoria a maior parte enlatado o que não era ia dentro de isopor para não molhar, as roupas também estavam em sacos encauchados.
Já eram dez horas e comemos uma farofa na casa do mundico e debaixo de uma fria garoa demos início a viajem.
A uns três quilômetros se formam umas ilhas e passamos no canal mais próximo da beira é já deu para sentir o que ia ser essa viagem e ao meio dia parei para fazer o segundo ponto já que o primeiro tinha feito próximo da ponte na cidade.
Eu e o mundico íamos à frente com o nosso barco e logo atrás vinham Jorge pilotando e França meu ajudante de topografia, o único casado era o mundico.
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Passamos pela primeira corredeira e as ondas jogavam água dentro do barco que eu tinha que com uma cuia ir jogando para fora, pois junto com a água da chuva poderia alagar o barco, foram momentos tensos, pois batemos num tronco que estava rodando e nosso barco balançou perigosamente entrando muita água e fomos carregados para o meio do rio, mas habilmente mundico e Jorge conseguiram vencer a corredeira e ir para a margem direita onde eu faria outro ponto.
-Caramba, nem bem começamos a viajem e já um susto desses. Falei.
-O rio está correndo muito rápido e perigoso, temos que tomar muito cuidado e nave-gar sem pressa deixando que as aguas nos leve, mas manteremos os motores ligados para uma emergência.
Tiramos umas conservas e comemos com farinha, a chuva tinha dado uma trégua, mas as nuvens carregadas pronunciavam que ainda choveria muito.
-No próximo ponto que será na margem esquerda nós acamparemos já está ficando tarde e estou gelado.
-Você trouxe um esquenta bucho pra noite. Perguntou rindo o França.
-E de praxe, com uma chuvarada dessas até o osso fica gelado e só uma cachaça para esquentar.
-Tem um lugar especifico do outro lado que fará o ponto ou pode ser em qualquer lugar, pois abaixo da corredeira da andorinha tem barranco alto que seria bom para pernoitar. Falou o Jorge.
-Pode ser lá mesmo e tomara que essa chuva não desabe até chegarmos.
Mas mal começamos a descer e a chuva desabou, estava sendo difícil visualizar o rio, mas navegamos perto da margem por um bom tempo até que comecei a notar que estáva-mos indo muito rápido e as ondas estavam maiores, gritei pro mundico.
-Estamos entrando numa forte corredeira levanta a rabeta da água.
Ele entendeu e respondeu.
-Segura que acho que entrei no canal errado.
Ouvir aquilo foi assustador, pois ele é o prático e nossas vidas estão teoricamente nas mãos dele, me afirmei na borda do barco que já dançava loucamente nas ondas violentas que jogavam o barco de um lado para outro.
Soltei uma das mãos e bati um pouco de água e num solavanco maior quase fui jogado fora do barco e bati com violência o braço na quina do tambor de combustível, a dor foi lan-cinante achei que tinha quebrado o braço.
-Que merda, acelera tudo porra para sairmos daqui, cuidado com as pontas das pedras. Mas foi um grito com palavras que ele não entendeu, pois estava chovendo muito e mais o barulho do motor e os olhos pregados nas águas revoltas a nossa frente, eu olhei para trás e vi que o outro barco estava perigosamente perto podendo colidir com o nosso.
Quando olhei para frente fiquei gelado com a visão de um tronco imenso boiando na nossa frente, mas o mundico tinha visto e fez uma manobra brusca para a direta e passamos
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encostado com aquele tronco que navegava quase a nossa velocidade, mas a galhada nos acertou em cheio e passamos por dentro dela foi um barulho infernal e senti ardor pelo corpo com os arranhões deixados. O barco do Jorge deu mais sorte, por estar muito próximo do nosso a onda formada por nós fez com que se afastassem do tronco e ficassem a uns trinta metros de distância.
O mundico foi acertado por um ramo em seu rosto e estava sangrando, mas não des-cuidou do timão e fez outra manobra agora mais longa para a esquerda e entramos em um redemoinho violento que nos carregou e atirou no meio de pedras expostas onde a violência das águas levantavam longas línguas de ondas de espumas que invadiram o barco quando passamos rente a pedra e me molhou todo, achei que ia bater e isso seria terrível e trágico, mas ele numa manobra arriscada jogou o barco entre duas enormes pedras e conseguiu des-viar de todas e fomos arrastados e empurrados para um remanso enorme e ele encostou o barco rapidamente, pulei no barranco com a corda e amarrei num tronco o Jorge também aportou e todos estavam em terra firme.
-Puta merda achei que não sairíamos dessa, cara estou todo dolorido pela pancada dos galhos e vocês como estão, machucou feio em mundico vamos dar uma olhada nisso.
-Eu não percebi por causa da chuva que já estava próximo da corredeira, senão eu teria continuado na margem. Disse mundico que foi retrucado por Jorge.
-Se tivéssemos ficado próximo à margem nesta hora estaria boiando por ai, ali na en-trada da curva aquela pedra que fica exposta arrebenta tudo que passa por lá, você fez certo em entrar no meio só que o tronco atrapalhou, mas a mãe d’água nos ajudou. E parando de falar olhou para o rio e gritou. –Obrigado rainha e nos guie em seu mundo, obrigado.
Eu sempre respeitei a natureza e os seus habitantes e a muito tenho o costume de pedir permissão aos guardiões para adentrar em seus domínios e fiz isso no início de nossa viajem, mas ouvindo o Jorge declarar isso com toda fé, me arrepiei, pois com certeza fomos ajudados e fui até a borda do barranco e em silencio também agradeci por todos nós, eles respeitaram meu momento, pois me conhecem e sabem que sou um filho adotivo destas terras, mas que a amo e respeito os seus costumes.
-Vamos acampar por aqui ou vamos descer mais um pouco? Perguntou o mundico.
-Vamos ficar aqui por hoje já passei muito susto, vamos deixar um pouco para amanhã. Todos riram e foram tirar a mochila do barco eu servi uma dose de pinga para todos, era preciso relaxar os nervos, pois só assim se sobrevive neste mundo estando muito atento.
A chuva deu uma trégua e fui armar a rede entre duas arvores e jogar uma lona por cima, essa era a minha morada e é bom, pois se está dentro de uma natureza ainda bruta e quanto menos interferir é melhor para todos.
Acendemos nosso fogareiro a gás e fizemos um arroz e esquentamos uma feijoada de lata e muita farinha, estava ótimo e esquentou o corpo e o espírito.
As redes estavam armadas cada um em um lugar, mas não muito longe e dava para ficar conversando deitado na rede, pois a noite ainda demoraria a chegar.
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-Daqui a pouco vamos tirar o barco para o barranco acho que ainda vem muita chuva e assim não precisaremos levantar para esgotar a água. Falou mundico.
-Vamos fazer isso já que quero tomar um banho e descansar. E Jorge e França já foram se ajeitando para cumprir a tarefa, em pouco tempo puxamos os barcos, mas ficamos enla-meados.
Os banhos nessa época de chuva são terríveis a agua carrega muito sedimento das ma-tas e isso dá coceira e para evitar se ensaboa com sabão em pedra a base de álcool.
Deitado em minha rede reviso as cadernetas de anotações elas ficam guardadas em uma sacola de plástico, mas antes são enroladas em uma toalha.
-Quando vai voltar de São Paulo Valdemar? Quis saber França.
-Estava programado para que eu descesse dia vinte e dois e voltasse só no final de ja-neiro, mas agora com esse atrapalho já não sei quando vou, mas com certeza estarei aqui em fevereiro, merecemos essas férias este ano foi puxado e cumpri a minha meta, ou melhor, cumprimos, pois somos uma equipe e abrimos frente de trabalho para todas as equipes o pessoal da geologia agradeceu pelo nosso desempenho, senão eles teriam que ficar son-dando por mais tempo.
-Mas fizemos muitas loucuras só não aconteceu nada de pior por que acho que você tem o corpo fechado Valdemar, se lembra do dia que fomos descer de rapel na clareira oi-tenta e cinco e você foi o primeiro a descer e uma rajada de vento o jogou nos galhos da castanheira e você não teve dúvida se agarrou e soltou o cabo, se não tivesse feito isso com certeza o helicóptero teria caído e todos nós lá dentro teríamos morrido. Falou França.
Mundico comentou. –É eu me lembro de que todos ficaram apreensivos, pois o piloto não conseguiu recolher o cabo e teve que voltar até o acampamento trinta minutos de dis-tância deixando você na copa da castanheira, como foi aquilo Valdemar, muito medo?
-O medo nos ajuda a tomar cuidado e decisões só e preciso saber controlar, mas tive muito medo sim, primeiro eu tinha instrução para que se acontecesse um fato daquele eu teria que tentar me desvencilhar do cinto o mais rápido possível, se o helicóptero caísse com certeza eu também morreria, mas se eu conseguisse soltar o sinto eles com certeza tentariam me resgatar mesmo que não resistisse a queda e foi o que eu fiz.
-O que deixou o pessoal preocupado foi que não conseguiam lançar o cabo no meio das folhas e foram feitas várias tentativas e a noite se aproximou e tiveram que parar como se sentiu quando percebeu que não deu certo o resgate? Perguntou o Jorge.
Fiquei alguns momentos quieto relembrando aqueles momentos e comecei a contar.
-Existem coisas na vida que se aprender a respeitar elas nos acompanharão para sem-pre e nos protegerão, há muitos anos atrás eu estava numa região e aconteceu um fato inu-sitado, não vou contar a história porque é longa, mas nesse dia me apareceu uma luz que aprendi a respeitar e até a amar como protetora e com o tempo ela sempre que eu pedia ela aparecia, mas isso é outra história e ali naquele dia ela estava comigo e o medo deu lugar a
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uma certeza que eu tinha que dar um jeito de ficar tranquilo, pois estava a uns cinquenta metros de altura e o galho não era o dos mais grossos. Parei para respirar e continuei.
-Quando eles tentaram pela terceira vez e não deu certo eu sabia que a minha estada ali em cima ia ser demorada e com as pernas enganchadas numa forquilha olhei ao redor e num galho a uns dois metros de distância eu vi uma espécie de bromélia que lançam suas raízes em forma de cipó até o chão, se eu conseguisse um cipó daquele poderia me amarrar, mas para chegar eu teria que descer uns dois metros até a próxima forquilha e isso é muito longe quando se está numa altura daquela. –Mas eu tinha que tentar, pois sei o quanto o sono pode ser perigoso e difícil de ser controlado e se eu dormisse com certeza cairia então devagar e bem abraçado eu tirei a perna da forquilha e fui descendo escorregando e ralei o saco todo, mas cheguei a forquilha de baixo e fiquei observando e estudando como faria para chegar até o cipó e mais uma vez criei coragem e estiquei o corpo o máximo que pude sem tirar as pernas da forquilha e com as pontas dos dedos peguei e rapidamente puxei o cipó e enrolei em volta do corpo e amarrei bem, agora já poderia dormir tranquilo. Tive que aguen-tar a fome e os mosquitos e ainda me apareceu umas formigas pretas que ferroava dolorido, mas o que mais me perturbou foram os macacos da noite, o jarnau, cara, eles vinham muito próximo de mim e davam guinchos estridentes, gritei alto e balancei uma ponta de cipó que acabou espantando eles.
-Só de ouvir você contar eu estou suando, pelo amor de Deus você é de fato protegido e por iço todo mundo quer trabalhar com você.
A noite já chegara ao acampamento e todos queriam ouvir a história, mas o cansaço era maior e o Jorge falou.
-Valdemar nós sabemos que essa história é longa e teremos todos esses dias para que nos conte a sua versão, que acha pessoal?
-E verdade nos contara até o final da viagem eu também estou com sono e só espero não sonhar que estou trepado numa arvore. Falou mundico e rimos do que falou.
Segundo dia 21/12
A noite passou sem chuva e logo que amanheceu levantei e fiz café com bolinho de trigo, eles levantaram e depois do desjejum fiz o ponto e saímos.
Navegamos beirando a margem, mas logo vimos que o caminho não era bom se abria muitos redemoinhos violentos que se os nossos barcos entrassem dentro não resistiriam, mundico deu sinal para o Jorge que abrisse para direita e também guinou para o centro do rio. Mas fomos infelizes na manobra, um redemoinho enorme se abriu bem embaixo de nós e nos arrastou violentamente pela sua borda em uma trajetória espiral, recuperado da sur-presa mundico acelerou tudo que podia e navegamos na borda do redemoinho a toda velo-cidade em direção a muitas pedras. Meu coração estava a mil e meus dedos roxos de tanta
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força que fazia me manter agarrado a corda, estava apavorado e ao mesmo tempo eufórico dentro daquele girar enlouquecido daquele redemoinho que mais parecia uma roda gigante plana e aquática, a nosso lado muito pedaços enormes de troncos quebrados pela violência das quedas d’águas por onde passaram pareciam disputar corrida conosco, mas o redemoi-nho estava afunilando e se nos tragasse com certeza seriamos triturados pelas pedras a vinte ou mais metros de profundidade.
E mais uma vez a sorte ou a mão do destino estava ali para nos amparar, um tronco foi expelido das profundezas do redemoinho e se chocou com a proa do nosso barco forçando uma curva para direita e nos atirou no meio de águas revoltas que pareciam espumas de sabão que escondiam pontas negras de pedras. O mundico gritou um palavrão e acelerou fazendo a popa deslizar perigosamente rente a uma pedra e direcionou a proa para o meio de duas pedras enormes não mais distante uma da outra que três metros, eu não acreditei que passaria e esperei a pancada no casco, mas uma onda nos ajudou jogando o barco para esquerda e isso o embicou naquela fresta e o barulho sinistro do alumínio sendo raspado nas pedras, me arrepiou e desta vez quem gritou fui eu, pois a adrenalina está correndo a mil pelo meu corpo. A vida e a morte disputavam por um acerto ou um erro nosso para saírem vitoriosa da nossa loucura, mas o desejo de viver e de desafiar o extremo saiu vitorioso e fomos atirados num turbilhão de espumas e saltando igual cabrito na crista das ondas fomos jogados num vazio de uns dois metros altura no final da corredeira, o barco se encheu de água e bati rapidamente enquanto entravamos num remanso entre umas pedras onde cen-tenas de pedaços de troncos boiavam.
Olhei para trás a procura do outro barco e o visualizei mais para o meio e já vinha também vencendo a corredeira e por sorte fora das pedras e do redemoinho, suspirei aliviado e voltei a esgotar a água do barco.
-Valdemar, esta foi a pior empreitada que você já pegou, eu sabia que ia ser difícil, mas não imaginei que seria tanto, passei medo ali atrás ainda não acredito como conseguimos e tivemos sorte de o Jorge ter pegado outro canal senão teria dado merda.
-Nem me fala eu também tive muito medo quando entramos no redemoinho e vi-o afunilar, aquele tronco veio na hora certa e confiei que você acertaria entre as duas pedras, mas foi por pouco e te digo vamos encostar eu preciso ir para o mato se é que já não fiz na calça. Ele riu e falou.
-Então não é só você. E ligou o motor e apoitamos e logo Jorge encostou e lá do mato escutei ele comentar.
-Se soubesse que seria assim não teria vindo, já viajei uns dois anos nessa época, mas nunca vi o rio tão violento estou todo dolorido de fazer força para manter o motor na água, que Deus nos ajude. Eu já ia saindo e falei.
-Jorge, Deus já está nos ajudando e agradeço por ter vocês dois comigo nesta jornada, vocês são ótimos pilotos e conhecem os perigos do rio. Fui até ele e estendi a mão e apertei com força e falei olhando nos seus olhos.
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-Obrigado por ter vindo e sei que fará sempre o seu melhor para que possamos chegar a Tabajara inteiro. Nisso chegou mundico e o cumprimentei também. –Isso que disse ao Jorge é para você também mundico agradeço a Deus de ter colocados os dois nesta missão, só aquela passada no meio das pedras já valeu a viajem e com certeza levaremos outros sustos que nos darão diarreia, mas estaremos sendo guiado por pessoas hábeis e por Deus, obriga-dos aos dois.
-Valdemar, estar aqui com você já é um privilégio e passar todo sufoco junto acaba sendo gratificante, você sabe ser parceiro. Falou mundico.
-Já que paramos vamos fazer um ponto e que Deus nos leve até a outra margem.
No resto do dia não tivemos incidentes daquele porte e acampamos as quatro e meia, debaixo de um mini dilúvio, armamos as redes e arrastamos os barcos, o mundico preparou um arroz com almôndegas e coloquei o litro de cachaça a disposição, nós estávamos preci-sando de um pouco mais, mas sem exagero.
-Caprichou na comida em mundico?
-Que nada eu sei queimar panela, mas Doquinha ela sim sabe cozinhar.
-É verdade, outro dia compramos um peixe e fomos lá e ela fez o bicho recheado que estava um delicia. Falou Jorge.
-Valdemar sabe quem perguntou de você, a irmã do Rubens da prospecção, a Marilda, vocês andaram saindo.
-Ela é muito louca vocês não acreditam, mas ela foi me procurar no hotel e quase me suja com a Jéssica não tive outro jeito senão levar ela para o motel.
-Mas ela é bem ajeitada e bonita, pena que não tenha cabeça boa. Falou França.
-Você França, como está com a Raimunda achei até que teria casório neste final de ano, ela me convidou para padrinho.
-Nós estávamos querendo casar mesmo, mas fizemos as contas dos gastos e resolve-mos usar o dinheiro para comprar as coisas de casa, pois o meu pai deu aqueles dois cômodos do fundo para nós morar é só fazer um banheiro e pronto.
-Vocês estão fazendo à coisa mais certa a hora que der vão ao cartório e faz os docu-mentos e já me comprometo em te ajudar na construção do banheiro.
-Ela vai estar em Tabajara está descendo no barco do governo vamos passar com a fa-mília dela.
O cansaço e a adrenalina que tinha sido liberada no organismo e umas doses a mais de cachaça nos levou a dormir tão logo a noite chegou, eu ainda demorei um pouco fiquei re-moendo ideias e analisando o que tínhamos passado e isso era um terço da viagem e sabia que para baixo é que estavam os reais perigos, três deles que não poderiam errar ou seria fatal e também percebi que não chegaria mais a tempo para o natal.
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Terceiro dia, 22/12
-Bom dia pessoal, hoje não fiz bolinho e sim uma farofa, amanheci com fome.
-Valdemar eu acho que temos que discutir esse trecho da viajem, você já trabalhou aqui no verão e viu a violência dessa cachoeira de Monte Cristo ela não é alta, mas as águas cana-lizam para o centro como o diabo de braba, nós não podemos entrar nesse canal temos que estar muito perto da margem, mesmo! Disse mundico com voz de preocupação.
-Eu também passei umas horas da noite pensando nisso e você tem razão devemos ter o maior cuidado, mas eu não conheço o canal, vocês já passaram aqui com ele cheios.
O Jorge se adiantou e falou. -O meu tio mora na boca do rio Jaru abaixo da cachoeira nessa época não está lá eles sobem para a Cidade de Jaru, por dois anos eu fiquei aqui com eles e ele é manso neste rio e falava que a única passagem é pelo lado esquerdo junto das pedras, mas mesmo assim é perigoso.
-Caramba, se tivesse um jeito de ir por terra e afirmar os barcos no cabo será que daria certo?
-Não tem como fazer isso além das pedras tem arvores e o risco seria maior, se escor-regar já era, acho que não podemos ficar com medo isso seria ruim e com certeza erraríamos o canal, mas vamos pensar positivo o nosso barco não vai afundar, pois o tambor não deixa, temos que nos agarrar a isso e seja o que Deus quiser. Falou Mundico.
Eu sabia o perigo, mas as palavras do mundico estavam certas se tiver medo, babau, vamos afundar por iço a confiança é nossa melhor aliada.
-Pessoal o mundico está certo vamos ter cuidado e andar meio longe um barco do outro e ter confiança no que vamos fazer e que Deus nos ajude.
Tomamos o desjejum e passamos para a margem direita sem muito problema, fiz o ponto e antes de sair começou uma chuva fina e fria o rio estava rápido e logo chegamos ao ponto e mundico falou.
-A cachoeira está próxima uns quinhentos metros no máximo, vamos devagar bem pró-ximo da margem, combinado?
-Jorge não fique muito perto e se der errado com a gente encoste o mais rápido possí-vel, entendido?
Ele balançou a cabeça que sim e claro todos estávamos apreensivos e começamos a descer margeando e águas ficaram muito rápidas eu ajudava com o remo a direcionar para margem, mas a tendência era só para o meio e ao desviar de umas pedras demos de frente com um tronco boiando perigosamente. Mundico tirou para direta escapou do tronco, mas fomos sugados pela corredeira ele acelerou tudo e tentou endireitar para esquerda, mas a popa rodou e perdeu o controle, mas estávamos longe da cachoeira e conseguiu endireitar para o meio do turbilhão e gritou.
-Que Deus nos ajude. E acelerou o máximo, olhei para trás e vi o Jorge a uns dez metros de nós e pensei. “Que Deus e todos os guardiões tenham pena de nossas almas.” E segurei firme na corda que segura o tambor o estava a uma velocidade incrível parecia que voava por
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sobre as águas pretas e espumantes. E mais uma vez olhei para trás e o barco deles estava muito próximo e não a como controlar não freio na água, me virei no momento em que vi o rio sumir na minha frente. É inacreditável quando o medo se transforma numa coragem sui-cida o trágico se torna belo e admirável e apreciei naquele momento um voo para as entra-nhas daquela cachoeira e vi o azul borbulhante das águas me envolverem num abraço fatal e como num beijo de despedida adentrou pela minha boca e me sufocou. E como já dona de meu corpo a morte me mostrou naquele infinito instante a minha trajetória passada nesta vida como de despedida, não sei quanto afundamos, mas tudo escureceu e bebi muita água e achei que ali acabava a minha história e tão longe das pessoas que amo.
Mas não era a minha hora e nem daquele jeito, senti um deslocamento na água e vi o fundo do barco do Jorge passar rente a minha cabeça e por instante soltei a corda, o instinto de sobrevivência me fez afastar e boiei naquele turbilhão infernal e fui atingido na coxa pelo bico do barco que a pressão da água o trazia para cima, gritei de dor e desmaiei por instante. Mais uma vez a morte se aproximou, mas a minha luz protetora está ali e abri os olhos por um momento e a vi perto da corda, estendi a mão e alcancei a ponta solta da corda e cheguei a borda do barco, assim que me ergui e minha perna bateu no banco gritei e involuntaria-mente chorei de dor e de medo, esse instante pareceu eterno eu estava entorpecido e meio inconsciente e a liberação da adrenalina fazia o meu corpo tremer como se estivesse em con-vulsão.
Ouvi a voz do mundico como se estivesse muito longe.
-Valdemar! Valdemar! E repetiu até que levantei a cabeça e vi-o nadando agora com a corda na boca, percebi a situação e reagi, era instintivo, o perigo ainda não tinha desapare-cido e com esforço e muita dor sentei e procurei pelo outro barco, ele tinha emborcado, mas o que importava era que os amigos nadavam se afirmando nele. Levantei o braço e eles res-ponderam tentei descer do barco, mas os meus sentidos falharam e tive um pequeno des-maio a dor na perna era intensa e fiquei debruçado em cima do tambor.
Senti a água fria no rosto e abri os olhos e vi o mundico ao lado do barco dentro da água.
-Está machucado Valdemar?
Com esforço eu respondi. –Acho que quebrei a perna está doendo pro diabo.
-Tenta ficar consciente e bate a água que vou tentar puxar o barco para margem. E saiu nadando com a corda na boca e bati a água para deixar o barco mais leve, mas a cada movi-mento eu gemia de dor, ele conseguiu chegar e amarrou o barco e se atirou na água para ajudar o outro barco.
A minha perna estava inchada e doía feito o diabo, mas sabia que não podia me entre-gar e devagar consegui desamarrar a mochila e tirar dali uns comprimidos para dor e tomei, eles tinham escapado do remanso e estavam lutando para trazer o barco, mas conseguiram e se atiraram nos chãos exaustos e ficamos assim por alguns longos minutos, cada um agra-decendo em silencio pela continuidade da vida.
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Quando fui tentar levantar urrei de dor e eles ficaram me olhando assustado.
-Que aconteceu Valdemar? Perguntou França.
-Fui atingido na coxa pelo barco quando ele subia.
-Tire a calça para ver o que aconteceu. Falou mundico.
Tirei e me assustei com a visão a coxa estava toda inchada e com um vermelho arroxe-ado e o esfolado onde ouve a batida.
-Caramba foi forte, não sei como não quebrou! Exclamou Jorge.
Com muito custo fui até o tapiri do tio do Jorge que por sinal estava limpo, eles armaram a minha rede e foram desvirar e descarregar os barcos e trouxeram todo material para dentro e os barcos ficaram bem amarrados, mundico sentou perto da minha rede e preocupado fa-lou.
-Valdemar nós temos um problemão os dois motores estão com água no cárter e com certeza areia, as ferramentas que temos não dá para abrir, que devemos fazer?
Era de fato um sério problema, mas tínhamos que tentar alguma coisa, estava no meio do nada e sem comunicação.
-Em princípio esgotem o óleo em uma vasilha para ver se tem areia e guarde, pois o que trouxemos só dá para um motor, tragam os motores para dentro e vamos tentar secar o má-ximo que puder se não der certo vamos a remo um dia chegaremos.
Eles tomaram uma pinga e começaram a mexer no motor e o Jorge perguntou.
-Quando que você marcou para o avião ir nos pegar em Tabajara.
-No dia vinte e quatro, ou seja, já perdemos o avião e o natal.
-Que beleza, mas a minha mulher vai ficar preocupada eu disse que passaria em casa. Falou o mundico.
-As coisas se complicaram, mas ainda estamos vivos e isso é o que importa e com cer-teza chegaremos inteiro, apesar de que as duas piores cachoeiras estarem para baixo, mas nessas vamos descer por terra nem que leve uma semana, não vamos abusar da sorte.
-Também acho que já gastamos o cartucho da nossa sorte agora vamos nos cuidar é melhor que fiquem preocupados com a gente do que chorem para sempre. Profetizou o Jorge.
Eu estava sentindo muitas dores na perna e Jorge foi para o mato com França e quando voltaram trouxeram um punhado de folhas e cipó e fizeram uma infusão que bebi um pouco e as folhas e cascas colocaram na minha coxa e enrolaram com uma tira cortada do meu lençol.
-Isto é tiro e queda. Falaram. –Amanhã já estará andando, pois dependemos de você, trate de sarar. Falou rindo o Jorge.
Terceiro dia 23/12
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De fato melhorou um pouco e passei bem a noite, estava sentado na varanda do tapiri quando ouvi o ronco de um avião, eles também ouviram e correram para fora e o avião des-pontou por cima do rio.
-Pessoal é o nosso avião nos procurando pega um lençol e abana para eles saberem que somos nós.
Eles abanaram e ele passou num rasante e subiu e voltou novamente deu outro rasante, eu saio quando vi que ia voltar e pedi o lençol e enrolei em minha perna e eles ficaram me carregando, o piloto veio bem rasante quase encima da água e passou por nós e quando já mais alto ele o sinal de quebra de asa e dois passes no motor, tinha nos reconhecido.
-E agora Valdemar que acha que vai acontecer? Perguntou mundico.
-Com certeza é o Alfredo e ele viu que alguém está machucado, quando chegar à cidade vai se comunicar com São Paulo e eles mandarão um helicóptero nos resgatar. Eu estava ci-ente disso a empresa não pensaria duas vezes.
Mas o tempo fechou no resto dia e choveu muito só deu uma trégua já à noite.
-Se amanhã o dia estiver limpo ele vira só que temos que arrumar um lugar para ele descer e não vejo muitos aqui.
-Temos sim, logo atrás tem o roçado de mandioca, amanhã logo cedo nós iremos limpar um local para ele pousar. Falou o Jorge.
-Valdemar poderia contar o resto da sua história na castanheira.
Não tinha como não contar e seria bom para os ânimos de todos.
-No outro dia demoraram por que era o dia de troca de pilotos e foi a minha sorte, pois o piloto que chegou era o português angolano e todos sabiam que ele era doido, mas eu gostava de voar com ele, desci em muitas clareiras de rapel e em nenhuma tive problema ele era campeão.
-Às dez horas escutei a batida das apas do helicóptero e me preparei, desatei os nós e fiquei a espera, ele se posicionou e fez o procedimento com as apas para abrir a mata com o vento, na primeira tentativa não deu certo tinha um galho que atrapalhava e resolvi mudar de posição e devagar fui passando para outro galho mais alto e parece que ele adivinhou, pois deu um tempo e quando eu me posicionei ele deu o passe nas elicies e o vento forte me atingiu e visualizei o bojo azul da minha salvação e como a mão de Deus vi o gancho naquele cabo prateado vir a minha direção era o momento que se eu errasse todos pagariam, mas com as mãos firmes coloquei o cabo no gancho na minha cintura e me senti como um pássaro voando por entre as folhas no espaço divino e aquele português maluco me conhecia bem e sabia que eu queria aquela loucura e voou por uns dez minutos por sobre as copas daquelas arvores e foi pousar numa praia do rio, me levou ao solo e pousou cortando o motor e cor-rendo como louco me abraçou e disse.
-Você é louco é tem muita sorte, nem na guerra do Vietnam onde servi por cinco anos conheci alguém que passasse todas essas horas nessa situação e não está fedendo e ainda
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está sorrindo. Vamos pra zona é o único lugar para descarregar toda adrenalina, você é meu herói.
-E de fato voamos por uma hora e meia sem comunicar a ninguém e passamos o resto do dia e a noite nos braços das garotas da boate taboquinha, no outro dia fomos intimados por ter estacionado o helicóptero num lugar impróprio.
-É verdade que a empresa pagou a despesa da boate para vocês, todos comentavam isso no acampamento?
-O coronel que estava no comando e que veio nos intimar por termos descido no pátio de um posto de gasolina que ficava perto da boate era pessoa conhecida e como não tínha-mos dinheiro ele falou para o proprietário que podia confiar e mandar a conta para o escri-tório da empresa.
-Você teve muita coragem e sorte cara, neste serviço se colocassem qualquer um dos outros topógrafos com certeza já estaria boiando por ai. Falou o Jorge.
Então brinquei. –Deus gosta de mim e deve ter coisas mais interessantes para eu fazer do que morrer afogado nesse rio, França pega para mim aquele envelope e um copo de água faça o favor a minha perna voltou à dor.
A noite foi de muita chuva, eu não estava conseguindo dormir alguma coisa estava me perturbando só não sabia o que era e mais a dor, fui dormi de madrugada.
Quarto dia, 23/12
Eles limparam o roçado e voltaram pra casa, foram mexer no motor o Jorge encontrou umas linhadas com anzol e foi tentar a sorte no rio.
Almoçamos uma bela caldeirada de Matrinchã e a tarde foi de muita chuva que conti-nuou noite adentro.
Quinto dia 24/12
O dia amanheceu claro e sem chuva e as dez horas escutamos o ronco do helicóptero e logo ficou visível, estava voando baixo e os três correram para clareira para sinalizar e pousou sem problemas.
Era uma aeronave da Líder, mas eu não conhecia o piloto ele desligou e veio até o tapiri.
-Bom dia companheiro sou o comandante Francisco e vim para resgatá-los.
Estendi a mão e cumprimentei. – Obrigado Francisco eu sou Valdemar, topógrafo e a minha equipe que já conheceu.
-Só dará para levar de dois de cada vez quem vai primeiro, vou deixá-los em Tabajara e o avião já deve estar pousando.
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-Eu preciso fazer ainda pelo menos dois pontos nesse percurso eu e meu ajudante ire-mos primeiro e aonde der para descer faremos isso e voltara para recolher os dois.
-E o material o que faremos? Quis saber o mundico.
-Recolham tudo para dentro, até os barcos e na cidade avisarei o seu tio que deixamos aqui nosso material.
Decolamos e uns quinze minutos de voo falaram para o piloto.
-Francisco ver aquela clareira será que dá para pousar.
Ele sobrevoou o local e disse.
-É pequena, mas vou tentar.
E foi pousando virando em volta do próprio eixo para investigar o local e suavemente tocou o solo.
-Pode cortar que farei esse ponto e me levara até abaixo da cachoeira grande.
Foi difícil chegar até a margem a minha perna estava doendo muito e mais de uma vez parei e pensei em desistir, mas consegui e fiz o ponto e levantamos voo, passamos a cachoeira e na clareira que eu queria descer tinha caído um arvore e fomos mais abaixo e vimos uma casa que eu nunca tinha reparado e com um grande lugar limpo, descemos ali.
-Francisco agora você resgata eles e deixa em Tabajara e volta me apanhar.
E nos abaixamos e ele levantou voo, só nesse momento é que reparei no casal de idosos que me olhavam sorrindo, quando comecei a caminhar mancando e com cara de dor, eles vieram nos encontrar e ele disse.
-Seja bem-vindo a muito que o estamos esperando.
Não entendi nada, mas estendi a mão e os cumprimentei.
-Viemos fazer um serviço aqui na margem do rio e logo partiremos.
Eles se olharam e sorriram.
-Nós sabemos e vamos ajudar a levar as coisas pra la. E pegaram a caixa do nível que eu carregava e fomos pra beira, fiz o serviço e pouco depois o helicóptero passou descendo e o céu escureceu de uma hora para outra e o mundo desabou, nós já estávamos dentro do tapiri e a senhora me levou para cozinha aonde no fogão uma panela fervia cozinhando um jacu.
-Por favor, sente se aqui neste banco e me deixe cuidar dessa perna.
Eu fiquei sem saber o que fazer, mas o marido dela falou.
-Deixa moço, ela já estava preparando o remédio pra você.
Olhei para eles que sorriam e disse.
-Desculpa a minha pergunta, mas como sabia que eu viria se nem eu sabia é meio es-tranho não é?
Antes de responder ele pegou uma rede e deu para o França.
-Arma ai na sala e descansa enquanto sai à comida.
Eles sentaram ali na minha frente e a mulher colocou dois gravetos no fogo e falou.
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-Há vários dias que te esperamos que chegasse por água, mas veio pelo ar voando é muito mais do que nós sonhamos, queremos ouvir você falar, mas antes deixa colocar o re-médio em sua perna.
A voz daquela senhora risonha me acalmou e tocou o meu coração de um modo tão estranho que me senti leve e comecei a falar, só não lembro o que falei só me lembro da chuva torrencial e da noite chegando, aquele sorriso no rosto dos dois e daquele fogo que não aumentava e nem diminuía e nem mais foi abastecido, pois ali não tinha madeira guardada.
Deram-me água para beber e continuei a falar e quando parei vi um claro lá fora, agora já me lembro de que o dia chegou sem chuva.
Ela colocou um pedaço de carne com caldo na cuia e entregou para mim e disse.
-Feliz Natal meu filho, essa farinha grossa que você gosta é da puba nós fizemos espe-cialmente para você, mas antes que coma nós queremos agradecer pelas lindas palavras que nos trouxe e que mostraram o caminho que devemos fazer nossa espera não foi em vão, agora coma que seu amigo já vai acordar.
De fato ele se acordou e falou.
-Cara que cheiro gostoso, dormi como uma pedra e você?
Não sabia o que responder procurei por eles, mas tinham saído então olhei para ele e falei.
-Estou ótimo venha comer que este jacu está uma delícia.
Ele fez seu prato e foi comer sentado na rede, fiquei ali apreciando aquela co-mida e por incrível que pareça não havia questionamento é como se eu soubesse o que vim fazer ali o meu coração estava numa paz nunca antes sentida, logo ouvimos o motor do heli-cóptero. O França foi com as coisas para aquele heliporto, eu me levantei e eles se aproxi-maram e os dois coloram as mãos em meu ombro e disseram.
-Obrigado esperamos por tantos natais um presente e você veio nos trazer, obrigado e que o seu caminho continue assim e cuide de todos que por ele cruzar, que a luz te acompa-nhe.
Eles me beijaram e fui para o helicóptero, mas senti um vazio como estivesse deixando algo muito especial ali com aquelas pessoas.
-Valdemar desculpa de não ter vindo ontem o tempo fechou e não deu para decolar, mas o avião está lá esperando, o que ouve com sua perna não está mais mancando?
Só então me toquei disso e passei a mão na perna e apertei, não doeu, pedi para ele não decolar e descendo corri para o tapiri, mas tive uma grata surpresa não tinha ninguém e nem fogo aceso, o tapiri estava vazio, mas senti um forte e inebriante perfume de orquídeas e a lagrima que se formava em meus olhos secou e senti uma imensa alegria e voltei correndo e sorrindo para o helicóptero.
-Vamos embora por que Deus não tira folga e seus seguidores também não.
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-Quando sobrevoamos a pequena Tabajara, que não tinha mais do que cem casas de madeiras, mas tinha uma imensidão de amor e eu era amado por todos sem exceção e pou-samos ali na pista que fica no perímetro da cidade, no início da pista lá na beira do rio Ma-chado se ergue a pequena igreja e numa vila que tem duas ruas uma na beira do rio e uma na borda da mata, tem também um administrador.
E ele reuniu todo povo e me esperavam Cuiabano amigo de fé com uma bonita família e o administrador orgulhoso do seu lar.
Nem bem coloquei os pés no chão e já recebi o abraço dele e de sua esposa.
-Meu amigo seja bem-vindo e falando por todos desta vila e que você conhece tão bem a cada um, um feliz Natal e a festa que fizemos é para você.
Eu abracei os dois e olhando para todas aquelas pessoas que estavam felizes de me ver vivo e me dedicavam tanto amor, não sabia o que fazer então o seu Francisquinho dono de um bar onde sempre servia uma cerveja geladinha, pois tinha motor próprio, se aproximou e falou.
-Valdemar desta vez a primeira caixa é minha e feliz Natal. Antes que eu respondesse a Rosa dono do segundo e último bar e sogra do França falou.
-Valdemar a segunda caixa é minha e não vai fazer essa desfeita com a gente.
Foi aquela gritaria e me rendi àquela demonstração de carinho e olhando para os co-mandantes falei.
-Só posso agradecer por este resgate, mas o meu povo me quer e não vou decepcionar leves os meus companheiros que quiserem ir e feliz Natal para vocês e seus familiares.
Foi a maior festa realizada naquela esquecida vila a margem do rio Machado e o meu presente foi estar vivo e saber que era tão amado fora da minha família e ter vivido mais uma experiência espiritual e aprendido coisas que guardo só para mim.
Fim
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Foi uma aventura e tanto essa viagem por esse rio Machado, mas maior foi o aprendi-zado e real valor da palavra companheirismo dentro de alguns fatores que nos ajudou o com-panheirismo acho ter sido o maior, pois estávamos sempre um pelo outro sem medo de nada nem da morte, nós ainda trabalhamos juntos por mais uma temporada e depois nos perde-mos de vista é assim a vida de pessoas como eu que não fixa raízes estamos sempre à procura de novos horizontes para novas aventuras e por iço me veio agora a mente de um serviço que arrumei para fazer a demarcação de uma estrada no estado de Rondônia, que iniciou em
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Forte Príncipe da Beira e com destino a cidade de Cacoal na margem da BR-364, passando por uma região selvagem e pouca conhecida, foi uma boa aventura e o perigo é claro sempre está presente quando se aventura nesse mundo inóspito da selva amazônica, pois ai vai essa aventura que por sorte ainda posso contar, eu até acho que Deus mandou os Gnomos e es-píritos dos guardiões das matas me guiarem e cuidarem de mim desde que cheguei na Ama-zônia para que um dia eu pudesse estar aqui contando sobre a minha passagem por esse maravilhoso mundo selvagem, sempre agradeço por isso e sei que muito ainda farei.
Forte Príncipe da Beira
Uma estrada sem fim
Forte Príncipe da Beira está no município de Costa Marques estado de Rondônia, foi descoberto por Marechal Rondon quando fazia a instalação da linha de tele-grafo em... Isso não é a minha história eu cheguei bem depois, mas fui visitar o forte onde os exércitos Brasileiros mantem uma base de fronteira, pois do outro lado do rio Guaporé está a Bolívia e suas drogas.
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Eu desembarquei na cidade de Costa Marques de helicóptero para uma árdua mis-são, fazer um traçado para estrada que vai fazer a ligação com o resto do estado e do país.
A pensão era decadente a comida era péssima, mas as pessoas eram solidarias e receptivas, recrutei o pessoal que precisava e demos início aos trabalhos.
Estava sobre as minhas responsabilidades não só a topografia, mas também as duas equipes de nivelamento, a de geologia que fazia a sondagem e a equipe que reabria o picadão num total de quarenta pessoas e mais três caçadores.
Demos início ao trabalho e foram dias de ensinar e direcionar cada equipe uma boa parte do pessoal era de bolivianos ou mestiços, pessoal difícil de lidar, mas eu sempre tive liderança e logo todos estariam fazendo exatamente como eu determinava.
A cada cinco a sete quilômetros nós mudávamos de acampamento e fazia uma cla-reira para o helicóptero recolher as amostras de solo e nos suprir com alimentos.
O primeiro mês de serviço transcorreu dentro do esperado, só na parte de abaste-cimento é que os caçadores não estavam conseguindo as caças que suprissem a cozinha.
-Seu Raimundo vocês não estão cumprindo o prometido e o pessoal está recla-mando a falta de carne se eu tiver que pedir carne de gado então não me adianta manter os três aqui e ficarei só com um.
-Valdemar, nós vamos dar conta é que pegamos uma fase de baixa dos rios e os bichos estão longe, mas pode confiar que nesta semana teremos muita carne no acampa-mento. - Eu acho que precisam tomar uma surra de cipó Imbé e capim navalha, vocês estão panema e só conheço esse jeito. Foi só risada no palavreado deles, panema é o cara que não consegue nem ver o bicho e quando era o tiro.
Eu gostava de conversar com eles, pois tinham muitas histórias vivida naquelas ma-tas e foi no meio de uma história que aconteceu um fato curioso, ouvimos um nambu azul piar ali perto, o seu Raimundo falou para o outro caçador.
-Tião vai buscar esse nambu para o chefe ai não nos manda nós embora. E deu uma risada alegre e o Tião pegou a espingarda e saiu na direção que ela deveria estar empolei-rando, nossa conversa continuou quando ouvimos o tiro e Raimundo comentou.
-Já pode pedir para o cuca pôr a água para ferver. Mas nem terminou e espocou outro tiro. -Será que viu outro bicho, pois nambu só anda solitário. E mais outro tiro se ouviu e seu Raimundo passou a mão na sua espingarda e ficou preparado e ainda mais dois tiros e o barulho de correria dentro da mata e foi o Tião que chegou correndo sem a espingarda e espavorido. Que aconteceu homem? Perguntou Raimundo segurando-o pelos ombros, mas ele estava muito assustado e não conseguia falar e todo acampamento estava ali esperando por uma resposta o cozinheiro trouxe uma caneca de água para ele e comentou.
-Isso parece coisa do curupira Deus me livre. Seu Raimundo olhou para ele com cara de poucos amigos.
-Que curupira nada seu boliviano frouxo vai cuidar de suas panelas mão pelada.
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O cozinheiro como a maior parte do pessoal era de boliviano e o resto era mestiço, já que estávamos trabalhando na divisa desse país.
-Calma pessoal deixa o Tião contar o que ouve ele já este bem recuperado. E de fato estava melhor, mas ainda pálido e gaguejando começou.
-Eu fui imitando ele para poder descobrir na qual arvore estava, mas ele me levou para mais longe e quando dei fé ele piou bem perto de mim no chão, achei estranho, pois nessa hora ele deveria estar trepado. Parou e tomou um fôlego.
-Eu mirei e atirei... Vocês não vão acreditar, quando a fumaça sumiu ele estava ali se espojando e com as penas eriçadas e partiu para o meu encontro, troquei de cartucho e atirei na cara dele e vi pena voar para todo lado. Parou e olhou para mim e disse.
-Valdemar, aquilo não era um nambu era a mãe da mata, ficava virando sobre o próprio corpo e me atacou de novo e deixei que chegasse à boca do cano e detonei, por Deus que está no céu fedeu pena queimada e elas voavam por todo lado, troquei o cartucho e fiquei esperando. -Quando acabou a fumaça ele não estava ali, pressenti alguma coisa de ruim e me virei rápido e atirei no vulto e corri deixando a espingarda lá mesmo, ele estava do meu tamanho e vi os buracos dos chumbos no seu peito. Ele estava tremulo e o cuca deu a ele mais água, o seu Raimundo que é homem experiente o tirou dali e o levou para rede e falou.
-Chega de história e sem comentários vocês são jovens e não conhecem os segre-dos da mata por iço se calem e vão descansar e veio até a minha rede que ficava afastado do barracão central e falou.
-Não vá ficar impressionado com o acontecido.
Eu olhei bem para ele e falei.
-Raimundo senta ai e deixa-me explicar quem eu sou. E contei as minhas experiên-cias na mata e a da luz que está sempre me protegendo e o que o cuca falou sem que sou-besse falou uma verdade. -Você e seus amigos estão aqui fazendo a parte ruim que é matar os seres que aqui habitam e por acaso vocês pediram licença para entrar neste mundo ou você não acredita nisso?
-É, parece que você conhece bem este mundo eu me enganei em achar que não passava um cara da cidade e que não resistiria um mês aqui dentro, até o piloto achou isso, mas agora vejo que estou trabalhando com quem entende muito desta natureza e amanhã terá sua carne de caça chega de macaco.
Eu entendi nessas palavras que estavam me sacaneando e agora era a hora de ir à forra e me levantei da rede fui bem de frente com ele e olhando nos olhos disse.
-Raimundo nunca subestime um desconhecido e não faça julgamento precipitado pelo menos comigo, eu te dei um prazo e fiquei observando e ouvi os tiros que mataram os macacos muito perto do acampamento. E sorri quando vi a cara de espanto que ele fazia e deu a estocada final.
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-Isso de hoje poderia ser pior, mas eu quis que você visse e viesse conversar comigo e você fez exatamente isso e agora digo chama o outro companheiro e vão pra mata aqui para o lado esquerdo do acampamento e traga os bichos que matarem, mas não atire em todos que enxergar. E sentei novamente ele se levantou e sem falar nada foi chamar Doca e logo vi eles saírem pela trilha.
-Seu Valdemar eu trouxe um café faz horas que está calculando sem sair daqui quer mais alguma coisa. Em todo lugar tem aqueles são mais prestativos e o cuca era um desses, não digo puxa saco, mas contava tudo que ouvia do pessoal eu não gosto disso, mas até que estava sendo útil, pois a equipe era grande e ruim de serviço e meus afazeres eram muitos.
-Obrigado Rubens um café já é o suficiente e preciso que faça a relação de merca-doria para pedir para o piloto trazer na próxima viagem se possível passarei a relação amanhã pelo rádio e o pessoal como está reagindo à falta de carne.
-Também esses caçadores só sabem matar macaco isso é terrível e tenho notado que não tem comido a carne, não gosta?
-Eu tenho um lema, se for necessário como até cobra assada, mas todo dia isso enche o saco, não é?
-É verdade e acho que será bom pedir um pouco de carne de sol.
-Não vai ser necessário de hoje em diante não faltara mais carne na sua panela, pode escrever. E dei risada lembrando-se da cara do Raimundo.
-Se você diz eu acredito, mas acho que o Tião não vai mais para o mato depois do susto de hoje, que coisa horrível aconteceu com ele, ninguém me tirar da cabeça que foi o curupira. Falou com ar de medo.
-Pode até ser que tenha sido ele, mas são todos meus amigos e não farão mal se não o fizermos agora me deixa trabalhar. Mas antes dele sair ouvimos um tiro e comentei.
-Eu não disse pode pôr a água para ferver que hoje não tem erro.
Ele saiu desconfiado e parou na barraca dos niveladores e comentou alguma coisa, pois eles olharam para o meu lado e de fato uma hora depois entrava no acampamento os dois carregando um veado e um porco queixado e todos levantaram para ver só eu não fui e o Raimundo depois de se banhar veio conversar.
-Acho que acabou a panema viu que bichos grandes.
-Não tinha panema e você sabe disso, mas pouco importa o que passou e só espero que façam a parte de vocês.
Ele ficou me olhando com o cigarrinho de papelinho nos lábios e falou.
-Você sabia que os bichos estavam lá ou chutou?
-Isso você não saberá agora, mas vai descobrir ao longo do tempo e vou repetir de novo, não mate mais do que o necessário e atire com certeza para matar sem sofrimento se seguir meus conselhos não faltara comida pros nós.
-Por onde você já andou?
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-São tantos os lugares e muitos dentro desta selva e acredite nunca a minha equipe sofreu um acidente e sempre terminamos a empreitada e agradecia isso aos gnomos e guar-diões desta natureza.
Ele se levantou e saindo falou.
-Estou contente de estar nesta equipe e vamos até o final.
O jantar estava ótimo e o pessoal feliz, pois eram acostumados a esse tipo de re-gime alimentar muita carne de caça, peixe e farinha de mandioca.
O trabalho não estava rendendo o esperado, pois a região era de muito alagado e nesse segundo mês chegamos a margem do rio Cautario ou Cautarino e começamos a ter outros problemas.
-Valdemar como que venha comigo para lhe mostrar algo. Disse o mundico. Assim que saímos alguns metros ele se embrenhou na mata e perto de um igarapé ele apontou para a margem e disse.
-Veja isso são marcas de pés descalços, ou seja, temos índio por perto.
Eu me abaixei e confirmei eram mesmo pés de indos adultos e não eram antigas as marcas eles sabiam da nossa presença.
-Tem ideia que tribo vive nesta região?
-Se falam que os índios Cintas Largas já foram vistos nesta área do Cautario, mas eu sempre soube que os Zorós é que andavam perturbando os caucheiros e as duas tribos são arredias e atacam.
Tenho que comunicar isso com o pessoal de Porto Velho e ver o que dizem.
-Vai falar para o pessoal ou esperar para ver se eles estão mesmo nos seguindo.
-Acho melhor ter certeza, pois eles podem ficar com medo e quererem debandar, mas quero que faça a ronda diariamente e qualquer novidade me avisa.
Passaram os dias e não tivemos novidade, mas uns cinco trabalhadores estavam ficando no acampamento reclamando de febre isso pode ser malária.
Os trabalhos já estavam bem adiantados e estávamos saindo da bacia do Cautario e entrando na região do rio São Miguel e o terreno tinha mudado a topografia e já estamos encontrados alguns morros e terra de cacauais nativos terra rocha.
No final de semana o helicóptero veio recolher o material da pesquisa e aproveitei para sobrevoar a região.
-Valdemar o que está querendo encontrar, para ser mais especifico.
-Na semana passada encontramos vestígios de índios e quero saber se tem alguma aldeia aqui por perto.
-Então subir para termos mais visão. E percorremos um longo trecho e não vimos vestígios de aldeia e as uns trinta quilômetros se via o contorno da serra e fomos até perto e nada, voltamos acompanhando o rio Cautario e descobrimos uma aldeia na parte alta do rio próximo a uma linda cachoeira, sobrevoamos e eles atiram flechas em nossa direção.
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-Esses índios são hostis e com certeza foram eles que passaram perto da picada, mas estão muito longe de nós acho que não teremos problemas.
-É bom você deixar um dos caçadores sempre de vigia e se ver algo me passa um rádio que avisarei Porto Velho.
Falei com Raimundo e com o cuca.
-Por enquanto é só vocês que sabem e não vou para os outros, mas você Raimundo continua rondando e pede para os seus companheiros só caçarem aqui pra direita da estrada e você cuca fica esperto, pois estará sempre na retaguarda e sozinho.
No final de semana fizemos a mudança e o cuca veio me trazer café e falou.
-Valdemar, aqueles cinco que dizem estar doente assim que vocês saem eles pulam da rede e ficam jogando domino e comendo de tudo e quando você está para chegar eles vão pra rede e nem saem para jantar.
-Obrigado Rubens eu já estava desconfiado desses caras, mas deixa que vou acabar com isso.
-Não fala que fui eu que contei, pois já me ameaçaram.
-Fica tranquilo que amanhã acaba a farra, esse café este ótimo e o que temos para o jantar, já acabou aquele nambu azul?
-Eu guardei na banha como falou e só sirvo para você foi à ordem que Raimundo passou, quer que prepare para o jantar?
-Quero sim e faz naquele molho que fez na última vez estava ótimo só não coloca a pimenta do reino, tenho problemas com ela me ataca o rim.
-Será que dá para pedir para o piloto trazer pão neste final de semana?
À tarde quando passar o rádio eu peço, não está precisando de mais nada na cozi-nha?
-Não, está tudo em ordem.
A noite estava muito quente e escutei trovoes na direção do rio Guaporé já estou a setenta dias dentro da mata e tendo muito trabalho com a equipe que não se dedicam a fazer render o serviço e para incentivá-los propus um tipo de disputa e pagaria uma caixa de cerveja a equipe que conseguisse a meta.
Passei boa parte da noite sem dormir as preocupações aumentavam com a pre-sença desses índios que apesar de só termos os primeiros vestígios algo me dizia que teríamos problemas e isso estava tirando o meu sono e tranquilidade.
Logo que ouvi o barulho na cozinha denunciando que o cuca já estava preparando o café me levantei e fui para lá.
-Caiu da rede Valdemar, bom dia.
-Bom dia, dormi mal esta noite, ouviu o trovão ai para o lado do rio?
-Não ouvi nada, mas as noites estão muito quentes e está nos dias de dar uma chuvarada de verão é a chuva do caju, coisas nossas.
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-É verdade, já está mesmo na época da florada do caju e também da festa para agradecer ao deus da chuva, vocês na Bolívia ainda cultuam isso, não é mesmo?
-Sim é a época que tudo se prepara para florir e se multiplicar e também os bichos se acasalam nesta época e nós os homens pedimos nossas amadas em matrimonio e este mês é todo de festa, pois se dará a continuidade da vida.
-Cuca você está inspirado, isso já é parte do clima dessa época.
-Nós seguimos esse ritual por toda uma vida e minha maninha passara por isso pela primeira vez, ela tem quinze anos e é virgem com certeza e se algum rapaz a cortejar será para vida toda e estou triste por não poder estar la e avaliar o homem que a fará mulher.
-Puxa vida nunca imaginei que tinha uma cultura que chegasse a este século com tanta força.
-Isso é a nossa vida e não sabemos viver sem isso, as nossas meninas não se entre-gam a um homem nem sobre a ameaça de morte, mas casam muito jovens e passam a servir quase que como escrava e isso me doem, pois vejo no seu povo uma liberdade de escolha que invejo.
-Mas também conhece a parte ruim dessa liberdade onde meninas se tornam mães tão jovens e se perdem no mundo se prostituindo esse nosso país poderia ser diferente se nós pensássemo-nos menos favorecidos como gente.
Ficamos em silencio e ele coou o café e me serviu e com sua caneca sentou e falou.
-Estive pensando em pedir que me mandasse embora para que eu pudesse estar junto de minha maninha que tanto amo e não deixar que qualquer um malandro a levasse e matasse o sonho dela de ser gente eu o mataria antes.
Aquele café delicioso que ele sabia fazer naquele momento para mim se tornou amargo e carregado de minhas próprias decepções com o que tinha presenciado na vida.
Peguei a minha caneca e fui até o bule e me servi e sorvi um trago como fel e na-quele momento me senti pequeno e fui até o igarapé e lavei o rosto ainda tresnoitado e me vi numa imagem disforme nas suaves ondas formada por minhas mãos num toque sem per-missão nas virgens águas.
Que estrago numa adolescência ignorante onde a virgindade da vida seria estu-prada pela ignorância do macho que achava ter poder sobre a vida porque ela era mulher e inferior, na cabeça dele.
Quando me retirei para minha barraca já o acampamento tinha tomado vida e vo-zes e risos que se ouvia despreocupadamente por seres que não entendiam o sofrer do pró-ximo.
O meu autocontrole funcionou e cumprimentei a todos com um sorriso que só eu sabia ser falso, mas não podia perder a autoridade frente a indivíduos que só tinham respeito pelo medo e eu impunha isso pela voz e pelo trinta e oito que carrego na cintura, negro como azeviche, eles não sabiam que aquelas balas já tinham zinabre de tão velhas e que aquelas marcar eram fantasias e que nunca atirei contra nada a menos nas histórias que contava.
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Quando nos preparávamos para sair e isso era um ritual eu sempre dizia.
-Pessoal hoje é mais um dia que Deus nos reservou para que possamos mostrar que aprendemos seus ensinamentos, sejamos o que desejamos e depois aceitaremos o jul-gamento só dele, só dele e de mais ninguém.
-Mas antes de ir gostaria de chamar nossos amigos que estão doentes para que venham aqui na frente. E os supostos doentes ali se apresentaram com cara de safados.
-Vocês dizem que estão com malária isso é verdade?
Se apresentou um tal de Jose Maria e choroso disse.
-Sênior ai de me acreditar que estoi amurraçado por toto estes dias.
-Não tenho porque duvidar de você se acha que esta amurraçado e por iço achas que está de malária nós vamos cuidar disso, por favor, se senta aqui no banco.
Ele estava tremulo e se sentou e pedi que colocasse o braço na mesa. Preparei uma seringa com cálcio que eu usava para gripe, pois tinha muito e sabia que deveria injetar com demora senão haveria desmaio.
Injetei em sua veia e disse. –Se for malária ficara bom em dois dias se não for mor-reras! Ele tentou tirar o braço, mas não dei chance e injetei um pouco rápido e ele desmaiou.
Quando caiu do banco eu deixei, pois sabia o que estava fazendo e pedi para o próximo se sentasse.
-Ele estava mentindo não estava com malária e agora é tua vez senta se aqui.
-Perdona sênior isso foi mui mal e não estamos duente, nos perdona, já basta ver Roze Maria muerto.
-De hoje em diante não quero mais mentiras ou serei implacável, agora vamos tra-balhar que já estamos atrasados.
-Cuca joga um balde de água nesse mentiroso. Ele assim o fez e Jose Maria se le-vantou atordoado e correu pegar sua ferramenta para trabalhar, acabaram as mentiras e preguiças e saíram todos quietos para o trabalho, me aproximei do cuca e perguntei.
-Quando será a festa na sua terra?
No próximo domingo, vai me mandar embora? Falou com um misto de alegria e tristeza.
-Não, mas farei melhor se me levar junto para assistir essa tradição eu te liberarei e pedirei para na sexta o helicóptero vir nos buscar.
Achei que ele ia chorar e me agradeceu muito.
-Obrigado Valdemar e tenho certeza o meu povo vai gostar de você.
Sorri e me afastei para ir ao encontro do pessoal no serviço, mas antes de encontrar com eles deparei com o Raimundo me esperando e logo notei que não era boa notícia.
-Problemas Raimundo? E parei para tomar fôlego, pois estávamos a três quilôme-tros do acampamento.
-Pode ser, apareceram novos vestígios e quero que venha olhar. Entramos na mata, logo ele parou me mostrou um punhado de pena de arara vermelha e disse.
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-Isso é sinal de índio brabo e essas penas estão aqui há dois dias e não é só um grupo de caça veja aquela flecha fincada na embaúba e um aviso que estamos invadindo seu território.
-Caramba isso é muito ruim e não posso mais deixar de avisar o pessoal, que acha?
-Se quisessem já teriam atacado, mas acho que esse grupo está só nos sondando e ainda não sabem o que fazer, devem estar em duvidas e com medo.
Reuni o pessoal ali na frente de serviço e avisei.
-Já há alguns dias o Raimundo descobriu rastros de índios próximos a nosso serviço e hoje encontramos mais vestígios e por iço estou comunicando para vocês, pois pode ser que eles nos ataquem ou não e pretendo continuar o serviço até ter uma certeza.
O Robson um dos niveladores se adiantou e perguntou.
-Sei que podemos confiar em você, pois tem experiência de mato, mas isso não porá as nossas vidas em risco, você já comunicou com o governo?
-Risco existe desde que entramos na mata, mas neste caso especifico eu acho e também tenho a opinião do Raimundo que conhece bem esta região se quisessem nos atacar já o teriam feito, mas vou colocar os três caçadores de vigia e assim nos sentiremos mais seguros.
-Nós não temos medo, mas não podemos ser pegos desprevenidos e acho que um caçador deve ficar com o cuca.
Aceitei a sugestão e pedi para o Raimundo mandar um dos seus rapazes de volta ao acampamento e trabalhamos o dia sem incidentes.
No dia seguinte o Raimundo e o Tião cercaram logo de manhã um bando de quei-xada e abateram uns dez e o pessoal foi ajudar a carregar e tratar os bichos, eu suspendi os trabalhos de campo nesse dia e convidei o Raimundo para que me acompanhasse numa ins-peção pela redondeza.
Peguei a espingarda do Tião e saímos rumo a nascente do rio, andamos por mais de uma hora, paramos perto de uma grande catana e ficamos ouvindo os sons da mata para tentar identificar algo de anormal e não demorou ouvimos gritos de macacos pregos numa sequência inusitada, Raimundo fez sinal para que eu ouvisse e fiz que já estava entendendo.
Ele apontou para uma direção e falou em sussurro.
-Eles estão indo para a nascente talvez para a aldeia.
-Você fica aqui e espera por vinte minutos se eu não voltar ou ouvir o gavião real piar vá a meu encontro. E não esperei ele retrucar e sai abaixado pelo meio da mata e não demorou encontrei o grupo que estava retalhando uma anta observou quantos eram e se tinham vigias e satisfeito imitei o pio do gavião e observei que reagiram a essa interferência, mas logo se acalmaram.
Eram guerreiros fortes e morenos, não usavam pinturas e estavam contentes com a caça obtida, não sabia dizer qual era a etnia, o Raimundo piou imitando o uru e respondi, logo estava o meu lado e apontei para o grupo.
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-São Suruis é um mal negócio eles são muito hostis até mesmo os cinta larga tem medo deles vamos sair daqui. E rapidamente nos deslocamos rumo ao acampamento e só fomos conversar com quase uma hora de caminhada.
-É estranho que esses índios estejam nesta região eles habitam do outro lado da serra do Touro e isso é muito distante e pode ser só um grupo de caça que se aventuraram mais longe.
-Mas se estão nesta região pode ser que tomaram alguma aldeia, não é possível isso!
-É pouco provável, pois as cintas largas são índios guerreiros e não se afastariam assim tão fácil de suas terras.
Numa grota vimos dois mutuns, mas não atiramos, pois isso poderia atrair aqueles índios para o nosso acampamento já que estávamos pertos, o pessoal estava fazendo um churrasco de carne de porco que de longe sentimos e o Raimundo comentou enquanto pre-parava um cigarro de papelinho.
-Esse pessoal não conhece nada de mato e se os índios resolvesse atacar acabava com todos são muito inocentes a sorte é que trabalham com um cara que cuida deles, des-conheço alguém que faria o que está fazendo agora sair atrás dos índios para identificar e tentar descobrir o que querem, pra isso é preciso ter muita coragem, pois esta mata é muito grande.
-Você está fazendo o mesmo que eu, isso é porque conhecemos o perigo e tenta-mos nos antecipar é claro que somos diferentes dessa molecada temos experiência de vida e responsabilidade, por iço somos líder de nossas equipes.
-Em partes está certo só que você é o chefe dessa equipe e me sinto seguro traba-lhando junto apesar de eu ser bem mais velho que você.
Chegamos ao acampamento e eles queriam saber por onde andamos e dissemos que fomos fazer uma vistoria, mas não vimos nada.
Na sexta feira o cuca já tinha colocado outro no seu lugar e avisei o pessoal que ia sair e voltava no outro dia, pois tinha que passar uma parte do trabalho por telefone e choveu pedido de coisas para que eu trouxesse.
Na cidade o Rubens arrumou um barco e subimos o rio Guaporé por uma hora e entramos num rio por nome San José e navegamos por umas três horas Bolívia adentro e chegamos numa vila ribeirinha.
Todos ficaram admirados com a minha presença e meio arredios até que o Rubens explicou quem eu era, eles eram sorridentes, mas a miséria era latente quase que machucava só de olhar, as crianças corriam por ali brincando inocentemente nus, só vestidos da alegria infantil.
Já nos adultos se notava uma tristeza marcada pelas rugas antigas em rostos jo-vens, eles sorriam como que se desculpando da própria miséria e perceber isso me fez mal e por instante pensei em ir embora.
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Mas o Rubens me arrastou até a morada de sua família e me apresentou a todos com orgulho de mostrar que era amigo de uma pessoa bem sucedida, meu coração ficou pequeno e me esforcei para ser o mais natural possível e peguei na mão de todos e falei algumas arranhadas palavras em castelhano, eles riram da minha dificuldade e isso descon-traiu um pouco.
Quase toda vila veio na frente da casa dele e um senhor de estatura alta veio com uma cuia e me ofereceu falando muito rápido que não entendi, mas o Rubens consertou.
-Valdemar ele é a pessoa mais velha da vila e por isso o nosso líder e vem te dar as boas-vindas e está oferecendo uma cuia de tchixa, experimenta é bom, mas é forte.
Peguei a cuia e olhei aquele caldo amarelado e olhando para todos levantei a cuia e disse.
-Gracias por mi receberem em su lar. Eles não devem ter entendido nada daquele assassinato da língua deles, mas tomei um gole, olhei para o ancião e tomei mais um, troço ruim, mas não demonstrei e entreguei a cuia para ele e agradeci.
-Muchas gracias sênior. Ele sorriu e tomou um longo gole.
-Valdemar venha conhecer a nossa vila e nosso povo. Andamos por caminhos de terra batida e muitas casas eram coladas umas a outra e todas coberta com palha de co-queiro, paramos na única construção que era de madeira e coberta de telhas de Eternit e pintada de branco.
-Esta é a escola que ganhamos no ano passado. E subimos os degraus de madeira sem cerimônia ele abriu a porta e ali estava uma dezena de alunos e alunas que se levantaram quando entramos, fiquei admirado com a educação deles.
Ele cumprimentou a professora e falou para uma menina.
-Tainara venha conhecer meu amigo e chefe. Ela se aproximou era simpática e ex-trovertida e estendeu a mão para me cumprimentar.
Eu fiquei olhando para aquela garota que o irmão me disse que na próxima festa ela seria escolhida para ser mulher de alguém da vila ou dos arredores, não era possível ela era uma criança em tudo.
Eles descendentes de índios e traziam nos traços fortes e arredondados do rosto essa coisa peculiar dos nativos que era a alegria inocente que demonstravam para os visitan-tes de outras etnias, todos ficaram olhando quando peguei na mão dela e beijei sua face, ela e eles riram pois isso não comum entre eles.
-Fui a todas as carteiras e cumprimentei a cada um e no final a professora e disse.
-Eu fico contente por ter a oportunidade de conhecer a vila de vocês.
E me surpreendi quando ela falou em português sem sotaque.
-Nós é que ficamos felizes com a sua visita, a muito não temos pessoas do Brasil por aqui, seja bem-vindo.
Acenei para todos e saímos pelo caminho.
-Tainara é a irmã que será entregue em casamento para um homem?
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-Vê o meu desespero ela é uma criança apesar dos peitos que tem eu amo essa minha maninha e não posso deixar que um homem a machuque e a transforme num trapo como as outras que viu na vila.
-Mas o que pretende fazer para impedir se é isso faz parte da cultura da sua vila.
-Ainda não sei, mas vou conversar com o ancião, vamos buscar as mochilas no barco que ele deve estar querendo ir embora, voce vai ficar para festa, será amanhã à noite, todas as casas se enfeitarão amanhã e as casas das casadoiras terá um enfeite diferente.
-Vou ficar só que iremos bem cedo no outro dia.
-Com certeza iremos bem cedo e teremos tempo de ir para o acampamento.
Pegamos nossas mochilas e paguei o barqueiro, acertei para vir me buscar, eu tinha comprado três litros de cachaça e dois pacotes de balas e uma caixa com cem Qsuco e falei para o Rubens.
-Eu comprei umas garrafas, tem problema?
-Não, mas é bom deixar na casa do ancião senão não vai sobrar nada para você.
-E comprei também essas balas e esse refresco vê ai o que faz com isso.
-Não sabia que tinha comprado maninha vai ficar feliz ela adora bombom e aqui não se tem isso e quando ganho algum dinheiro sempre trago para ela, faz assim deixa ai que vou pedir para ela vir buscar o presente.
-Rubens eu desconheço como são as regras por aqui e como será essa festa de casamento eu não quero ser mal entendido não seria melhor voce dar essas coisas para ela.
-Não se preocupe somos um povo de paz. E fomos pra casa do seu Eusébio o an-cião.
Ele chegou e conversaram rapidamente e muito pouco ou quase nada entendi, mas falaram duas vezes o meu nome.
-Valdemar você ficara aqui na casa dele e se sinta em casa ele é bom de papo, mas ficaremos andando ai pela vila.
Saímos e começou a aparecer mais gente nova e muitas mocinhas já todas mais bem arrumadas e todas usando batom super vermelho, acho que só tinham aquele, vinham falar com Rubens e ele me apresentava, falavam muito rápido e ria muito eu já estava me sentindo deslocado.
Veio um grupo de rapazes e cumprimentaram o Rubens e a mim e ficaram pergun-tando do serviço onde ele estava esses jovens viviam indo e vindo para o Brasil e por iço falavam razoavelmente bem e isso ajudou, pois pude conversar um pouco, nisso apareceu a Tainara agora toda bem vestida e com aquele terrível batom vermelho.
-Maninha o Valdemar trouxe um presente para você, vá com ele até a casa do an-cião. Senti que todos me olharam e fiquei sem graça com a situação, mas ela mais que de-pressa veio a meu lado, segurou na minha mão falando num portunhol igual o meu.
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-Vamos ver esse presente que me trouxe. E sorrindo quase que me arrastou até a casa, entramos e falou com ele em seu idioma sentou numa cadeira de palha e ficou espe-rando, eu abri a mochila e olhei para ela que sorria feliz olhando para mim.
-Quantos anos você tem Tainara?
-Já vou fazer quinze anos no mês que vem, por quê?
-É tão jovem e já vai se casar isso não assusta você?
Ela abaixou os olhos e ficou quieta, mas suas mãos mexiam nervosas e me olhando falou.
-Eu queria poder ir estudar em Santa Cruz ou no Brasil em Guayaramirim onde te-nho umas tias, mas nenhum desses homens quer sair daqui, parece que tem medo e serei obrigada a me casar com quem me escolher. -Meu irmão disse que me levaria embora, mas só veio agora e não dá mais tempo tudo já está preparada e amanhã um deles não sei qual me escolhera e terei que dizer que estou feliz.
Logo sorriu e disse.
-Cadê o meu presente eu quero ver.
Eu tirei uma sacola de bala que na região chamam de bombom e disse.
-Na verdade eu trouxe para que você distribua entre vocês, pois seu irmão falou que você é uma criança de grande coração.
Ela me olhou altiva e empinou o corpo deixando aparecer a marca dos pequenos mamilos no pano fino da blusa e disse.
-Não sou criança e amanhã serei mulher e sou uma pessoa que sabe o que deseja só não posso fugir dessa tradição, mas não aceito e um dia lutarei para isso mudar, se meu irmão tivesse vindo me buscar hoje eu estaria longe e trilhando um novo futuro. Vi seus olhos ficarem vermelhos e fui até ela e passei a mão no seu rosto, mas não disse nada nem podia interferir, ela sorriu e segurou a minha mão, o ancião falou algo que a fez rir mais alto e beijou o meu rosto e falou.
-Vou dividir o bombom com as pessoas. Eu segurei a mão dela e disse.
-Espera que tem mais. E dei o outro pacote e os refrescos ela me olhou feliz e falou.
-Você é uma pessoa boa e veio trazer um pouco de felicidade para o meu coração, obrigada. E seus olhos brilharam e sem que eu pudesse impedir beijou os meus lábios e saiu correndo com os pacotes, gritando e todos a rodearam felizes e recebiam os bombons e um pacotinho de refresco.
Fiquei sentado na escada olhando aquela cena maravilhosa de alegria por tão pouco e senti o ancião tocar o meu ombro e oferecer a cuia, aceitei, tomei um trago e devol-vendo falei.
-Tenho um presente para o senhor. E fui buscar um litro de cachaça ele sorriu ale-gre quando viu e abriu rapidamente, falou alguma coisa que não entendi, tomou um gole no gargalo e passou para mim que tomei também. E falei mesmo sabendo que ele não ia enten-der.
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-O senhor tem uma grande família e parecem felizes. Ele levantou foi à porta e falou alguma coisa e logo o Rubens estava ali, respeitoso sentou e ouviu o velho falar e olhando para mim falou.
-Valdemar ele agradeceu pelo presente que você deu a minha irmã e a pinga que trouxe para ele.
-Eu já falei que não trouxe para ela, mas fiquei feliz de ter entregado e ver ela fazer a alegria de todos é de fato uma jovem de bom coração e fiquei triste de ouvir ela falar que você falhou com ela, que ela não queria casar e sim ir embora para estudar e poder ajudar o seu povo no futuro.
-Eu sei que falhei, mas ainda não se casou e estou pensando como vou impedir isso. E falou na língua dele com o velho que falou muito e gesticulou várias vezes e tomou mais um gole, passou para mim que tomei e passei para o Rubens.
Ele ficou ouvindo o ancião e olhou para fora como para certificar que ninguém es-tava ouvindo e disse.
-Valdemar você poderia me ajudar a tirar a minha irmã daqui sem que eu e ela fiquemos impedidos de um dia voltar.
Aquilo me assustou ter que me envolver com pessoas que nem conheço e ainda pior eu estou no país deles.
-Acho isso meio difícil, como posso te ajudar se não conheço nada aqui.
-O ancião falou que tem na lei dos povos que se pode dar uma jovem de presente em casamento para um visitante ilustre.
-Mas eu não sou ilustre e nem quero casar e ainda com uma criança, pelo amor de Deus. O ancião tomou mais um trago e passou pra mim, falou me olhando e o Rubens tradu-ziu.
-Ele percebeu que você não quer aceitar se casar de verdade, mas a ideia é que você case de mentira só para poder tirar ela daqui.
Tomei mais um gole e perguntei.
-Isso é loucura e como será feito isso?
-Ele é o ancião e líder só ele pode oferecer uma jovem para o visitante, só que isso terá que ser feito hoje, ele deve reunir todos e avisar que amanhã ele escolhera uma jovem para ser esposa do visitante que aceitará a escolha dele.
-E a sua irmã será avisada dessa farsa?
Ele falou com o ancião e me retornou.
-Só se você quiser senão ela só saberá amanhã quando for a escolhida e assim não haverá de se trair, pois com certeza vai ficar eufórica em saber que estará livre. Tomamos mais um bom trago e o Rubens a mando do velho foi para dentro e trouxe uma panela de higiene duvidosa com carne de caça e ficamos ali conversando e comendo, várias pessoas foram se juntando e quando estava turvando o ancião se levantou e me abraçou e pediu para o Rubens reunir o povo.
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Quem estava ali e viu a cena acreditou que ancião me considerava um ilustre, quando todos estavam reunidos ele foi até a soleira da porta e falou, já traduzido pelo Ru-bens.
-Meus irmãos e irmãs há muitos anos não recebemos visitas em nossa vila e sinto falta delas, pois amigos vindos de longe traz muita sorte para o povo, mas nosso filho o Ru-bens nos deu esse presente trazendo esse ilustre jovem que abre caminhos para que o povo possa conhecer outros lugares em seu país. Ele parou, tomou mais um gole e continuou. E quis o destino que ele estivesse aqui neste momento e por sorte o recebemos bem, ele trouxe alegria ao povo com seu presente e sua presença e temos que retribuir esse presente e nada temos de mais valioso do que nossas vidas e por iço quero que saibam que antes da escolha dos jovens eu escolherei uma esposa para nosso ilustre visitante e com isso ele sempre vol-tara a nos visitar.
Fiquei admirado quando se formou uma gritaria e eles dançavam felizes e batiam palmas, o Rubens chegou perto e disse.
-Eles te aceitaram e será considerado um dos nossos, pena que não seja verdade e de agora até amanhã você será cortejado e cantado em músicas pelas moças, só não pode conversar com nenhuma delas, mas pode pegar aquele outro litro e oferecer aos jovens eles gostarão.
E fiz isso, me levantei, peguei outro litro e fui até a soleira e falei e o Rubens tra-duziu.
-Já que seremos irmãos quero que bebam a minha alegria e a felicidade com a es-posa que o ancião me escolher. E passei o litro a um jovem que estava ali perto e bateram muitas palmas as meninas começaram a cantar e a passar na frente da porta isso durou até que me senti embriagado de tanta cachaça e tchixa, fui deitar.
No outro dia estava com uma ressaca infernal e não podia sair até a hora da esco-lha, que aconteceu pelas quatro horas da tarde, todas as moças que se seriam escolhidas estavam em suas casas que estavam enfeitadas com flores e folhas nas paredes da frente, o ancião pediu que todas viessem para fora.
Assim que saíram ficaram lado a lado e vestiam suas melhores roupas, o ancião com sua cuia de tchixa passaram pela frente delas e depois por trás e derramou a cuia na cabeça de Tainara que ficou admirada e assustada, pois nunca tinha visto aquele ritual, mas os mais velhos gritaram e bateram palmas, o ancião ergueu a mão e falou.
-Tainara você terá a honra de desposar nosso ilustre convidado e fazer com que ele seja feliz é assim que os deuses querem. Ouve muita gritaria e elas voltaram para suas casas e começou um ritual de dança onde os homens solteiros saiam do círculo e cantando iam até a porta da casa e batia se abrisse era por que ela o aceitava senão ele ia para outra e assim iam revezando e quando terminava as casas se ele não foi escolhido saia da roda.
Isso foi até tarde quando todas as garotas foram escolhidas e se apresentaram ao ancião já os casais e assim ele celebrou um ritual simples e estavam casados e eu estava nesse
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momento ao lado de Tainara de mãos dadas e o Rubens nos levou para dentro da casa do ancião e contamos para ela.
Ela ria feliz em saber que seria livre para trilhar o seu destino da forma que sonhou e me agradeceu.
-Valdemar eu ficaria feliz casada com você, pois sei que me daria de tudo e cuidaria de mim, mas fico mais feliz em saber que está me dando a chance de ser livre e de realizar os meus sonhos, muito obrigada e nunca esquecerei esse dia e nem de você. E levantou nas pontas dos pés e me deu um beijo suave nos lábios. –Muito obrigada. E foi abraçar o irmão e agradeceu e abraçou o ancião.
O vento frio tocava o meu rosto naquela manhã que atravessamos de volta o rio Guaporé rumo ao Brasil e a meu lado Tainara tinha no rosto um lindo sorriso, que imaginei ser de felicidade por sentir a sua liberdade estar tão próxima.
-Estamos chegando e para onde você vai?
-Estou tão feliz que ainda não me dei conta desse detalhe, mas não deixarei o medo me levar de volta.
-Nem eu deixaria que fizesse isso, depois de ter me casado com você agora me deve respeito e obediência não acha? Falei sorrindo e ela passou o braço pelo meu e disse.
-Se quiser eu fico com você com muito gosto, mas com certeza já tem mulher na sua terra.
-Você é uma linda criança é peço que continue pura para o dia que encontrar o homem de sua vida, mas antes estude e alcance o seu sonho e lembre que na sua terra você é minha esposa e seja fiel a isso até ter encontrado o marido certo. Beijei o rosto dela, quando o barco atracou, descemos e subimos rumo à pensão e onde estava o helicóptero, acho que foi nesse momento que ela se deu conta que teria que se virar sozinha para chegar até Gua-yaramirim na Bolívia ou Guajará-Mirim no lado brasileiro.
O Rubens veio falar comigo.
-Valdemar e agora como faço para minha irmã chegar até nossos parentes, acho que vou descer com ela no próximo barco que sai de Forte Príncipe.
Era um problema, pois a viajem levava uns três dias descendo ele perderia uma semana e depois mais alguns dias até a viajem do helicóptero, mas isso tinha que ser feito e falei.
-Rubens leve essa garota com segurança até os seus parentes e volta que estare-mos precisando dos seus serviços. Dei a ele um dinheiro para passagem e a mais um pouco para ela e disse.
-Tainara este é o meu presente de casamento e se cuida, talvez um dia a gente se encontre por ai. Beijei o rosto dela.
Ela estava emocionada e seu rosto arredondado com aqueles olhos negros e vivos agora estava úmido por uma lagrima que se formava.
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-Não te esquecerei nunca e contarei para os meus filhos que me casei com um príncipe que me deu liberdade de sonhar, vou guardar você sempre no meu coração.
Eles foram para o cais à procura de um barco e eu fui me banhar e sai com o piloto tomar umas cervejas e paquerar as garotas da vila.
-Paulista vi chegar da Bolívia trouxe algo de bom. E deu risada é que naquela região a droga andava solta.
-Não mexo com porcaria, fui a San José assistir a um cerimonial de casamento muito bonito e te digo mais me casei com uma garota de lá.
O Fred que era o dono do bar bem na beira do rio me olhou rindo e disse.
-Não acredito que foi se casar com uma índia boliviana, to te estranho paulista.
O piloto também estava surpreso com o que eu disse.
-Valdemar eu sei que você é louco, pois tem uma profissão que se não for pirado não enfrenta, mas essa de casar com uma boliviana isso é brincadeira.
-Não é brincadeira e vou contar como foi. E contei tudo enquanto bebia e comia carne de tartaruga assada no casco, coisa de louco de bom.
-Então aquela garota que estava com você é sua esposa e você nem deitou com ela, paulista?
-É uma criança que tem um lindo sonho e estou feliz por ter podido ajudar e sei que daqui a pouco teremos muitas garotas por aqui, ainda mais com uma mesa farta dessas. Todos riram, pois essa era uma realidade naquelas paragens.
Logo de manhã partimos para frente de trabalho e se aproximando da clareira vi-mos uma fumaça a uns dois quilômetros dali e fomos investigar e constatamos que era uns pescadores na margem do rio São Miguel.
-Estranhos esses caros estarem pescando tão longe. Disse o piloto e concordei.
-Tem razão isso não me está cheirando bem, está mais para traficantes, mas estão longe de nós e mesmo assim ficarei de sobre aviso.
Todos queriam saber do Rubens e dei uma versão diferente para não ter que estar explicado muito, eles me passaram a posição do serviço e depois o Raimundo veio conversar e passou as informações.
-Estava preocupado com sua demora, logo no outro dia eu encontrei rastos muito recentes e tenho escutado barulhos diferentes na mata, acho que estão tentando nos intimi-dar.
-Tem ideia de quantos são?
-Não mais que quatro e é bem ressente eu falei com o pessoal, acho que é impor-tante que eles saibam.
-Tem razão estamos no mesmo barco e é melhor que fiquem cientes, mas amanhã depois de soltar o serviço nós dois vamos dar uma volta.
-Ótimo e como foi na cidade muita gata.
Contei para ele a minha aventura.
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-Eu conheço a vila no San José a pobreza por lá é grande e eles têm mesmo esse costume de casamento coletivo, mas você fez uma grande ação para essa garota, não poderia esperar outra coisa de você, como a gente se engana eu achava que era cara boçal e metido a besta. Parou e continuou. Mas tem demonstrado que conhece este mundo da mata e tem muita coragem e agora demonstra que tem um bom coração.
-Eu não poderia fazer outra coisa era simplesmente uma criança com um sonho e quis ajudar espero que tenha feito o certo.
-Claro que fez, por que se fosse outro com certeza teria levado ela pra rede e tirado sua pureza, depois a transformava em escrava como todas dessa região, esses caras mexem com porcaria e às vezes dão as mulheres em troca de dívidas e as levam para se prostituir.
Eu senti uma grande revolta na voz dele e fiquei imaginado Tainara numa zona qualquer servindo a bestialidade de pessoas sem escrúpulos, me deu angustia e desejei que ela fosse forte para seguir um bom caminho.
No outro dia antes de sair reuni o pessoal e falei.
-Todos estão sabendo que temos alguns índios rondando esta região, não sabemos o que querem, mas devemos ficar atento e peço a todos que não façam gritarias na mata, por duas razoes a primeira para podermos estar atento nos movimentos da mata e a principal que qualquer grito dado será interpretado como de alarme.
-Você acha que eles podem nos atacar mesmo nós sendo bastante gente. Pergun-tou o meu balizeiro de avante.
-Jesus eu acho que eles estão só vendo qual direção estamos indo eu já sobrevoei até a serra e não vi aldeia alguma, mas como disse vamos estar atento, os caçadores estarão sempre vigilantes e vamos embora trabalhar.
Foram dias tensos, mas não tivemos novidades e não vimos mais vestígios, no final de semana fui percorrer a frente do serviço, pois no outro dia faríamos mudança, o tempo estava mudando era o mês de julho e estava perto de uma friagem.
Nem bem amanheceu e desmontamos o acampamento, cada um leva aproxima-damente trinta quilos, inclusive eu, saio na frente e vamos ter seis quilômetros até o próximo local do acampamento, logo atrás vem o Raimundo e um dos niveladores, eu ando muito e rápido me distancio deles.
Quando acaba a picada ou trilha que estamos fazendo se tem que entrar na mata bruta por mais uns mil metros e vou com o facão marcando a trilha para eles, já estou próximo do igarapé e algo me chama atenção, foi mais o instinto para a percepção, do que o som propriamente dito de um galho quebrado.
Não me viro bruscamente, mas os meus olhos fazem esse trabalho e vejo a não mais de dois metros um rosto no meio da vegetação, olhos circundados por tintas negras num rosto forte e acobreado, percebi que também olhou nos meus olhos, mas não deixei que lesse o medo e continuei a andar sabendo que seus olhos estavam cravados nas minhas cos-tas.
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Aquilo me incomodou e todo meu corpo se retesou na expectativa de ser atin-gido por uma fecha, mas nada aconteceu e alcancei o igarapé, desci minha mochila e vascu-lhei discretamente a retaguarda, mas não vi nem sinal dele, então novamente imitei o nambu que só pia no entardecer e Raimundo entendeu e respondeu duas vezes e piei novamente era o sinal de que estava limpo.
Logo os vi se aproximando e Raimundo me olhou interrogativo.
-Tudo bem e calmo o pessoal estão longe? Perguntei.
-Estão vindos vamos começar a limpar o lugar do acampamento.
Uma turma abriu a clareira e a outra armou o acampamento eu chamei o Raimundo e fomos sondar a situação, subimos o igarapé e para nossa surpresa tinha muitos rastos e fiquei preocupado.
-Que acha que está acontecendo Raimundo.
-Não estou gostando disso eles estão se reunindo e podem nos atacar, vamos vol-tar e você aproveita e passa o rádio avisando.
A tarde começou um ar frio vindo do sul íamos ter uma friagem e isso não era bom, pois junto veria uma serração que passaria dois ou três dias encoberto, acionei o rádio e tinha muita estática, mas consegui conversar com o piloto e passei a situação.
-Alo base acampamento chamando, cambio.
-Acampamento aqui é base Na escuta, cambio.
-Rick, nossa situação está ficando em alerta mais rastos vistos hoje, cambio.
-Valdemar quer que eu reporte para PVH? Cambio.
-Positivo e diz para mandar pessoal da FUNAI, cambio.
-Meteorologia informa que está entrando uma frente fria nessas próximas horas, tem algum visual na região, cambio.
-Afirmativo, nuvens baixas e queda de temperatura, cambio.
-Amanhã sobrevoarei a área, vez traslado essa semana, cambio.
-Sim e estou num ponto de curva farei sinal com fumaça quando se aproximar cam-bio.
-Positivo, cambio e desligo.
-Mantenha o rádio ligado, cambio e desligo.
Coloquei o fone encima do rádio e quando me virei todos estavam ali em pé.
-Bem já avisei e se algo mudar pedirei o resgate.
-Não acho que vão atacar devem ser um grupo de caça que estão curiosos com a nossa presença. Falou Raimundo.
-Também espero que seja isso e ai já aprontaram a limpeza da clareira?
-Já está limpa, mas não foi fácil com esses marimbondos rajados.
Fui para fora e olhei para cima o céu estava encoberto por uma espessa serração, era a friagem chegando, pensei. -Que merda logo agora.
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Eu não estava tranquilo o meu sexto sentido estava em alerta e isso me incomo-dava, resolvi ir tomar um banho, já estavam ali outros fazendo o mesmo, entrei na água fria do pequeno e raso igarapé e fiquei deitado na corrente. Quando me levantei para ir embora notei que descia uma mancha que turvava a água olhei bem e perguntei para o pessoal.
-Tem alguém ai pra cima no igarapé?
-Não todos estavam aqui, por quê?
Fiz sinal para que se calasse e prestei atenção e mais água suja desceu, dei alguns passos naquele rumo a tempo de ainda ver um índio correndo pela margem, falei para o pessoal.
-Vamos sair daqui que eles estão aqui perto.
Fomos correndo para o acampamento e isso deixou todos alarmados.
-Que está acontecendo? Perguntou o Tião enrolado na toalha que estava indo para o rio.
-Os índios estão ali no igarapé o Valdemar viu eles. Disse um funcionário com pre-ocupação.
-Chegou a ver eles Valdemar?
-Sim vi um bem perto de nós, mas tinham outros que estavam atravessando o iga-rapé mais em cima... -Que barulho foi esse? Como se tivesse caído alguma coisa sobre o acampamento, corremos para ver e já estava ali o Raimundo e resto do pessoal.
-Que ouve Raimundo?
-Atiraram um ouriço de castanha encima do acampamento. Acabou de falar e a mata virou um inferno de gritos e imitação de bichos e atiravam pedaços de paus na lona do barraco, os caçadores pegaram as espingardas e fui pegar o meu revolver e munição, mas isso de pouco adiantaria o acampamento estava cercado.
-Pessoal vamos ficar deitados atrás dos troncos na clareira e levem suas ferramen-tas se resolverem atacar temos que nos defender.
Corri para o rádio, liguei e ouvi a estática alta e falei.
-Alo base, alo base SOS no acampamento, cambio.
Esperei um longo minuto e repeti.
-Alo base, alo base SOS no acampamento, cambio.
Ouvi o som da estática do outro lado e chegou a voz do Rick.
-Base na escuta, cambio.
-Rick, os índios estão cercando o acampamento, mas não atacaram só estão ati-rando paus e outros objetos, cambio.
-Mas logo vai escurecer será que atacam a noite? Cambio.
-Você já avisou PVH, cambio.
-Positivo, mas passarei essa nova situação agora mesmo, cambio.
-Ok e fica na escuta, manterei o meu rádio ligado, cambio.
-Ok, cambio.
39
Sai e me juntei aos outros na clareira e falei.
-Juntem folhas, madeira e vamos fazer uma fogueira a noite já vai chegar espero que isso os mantenha longe.
Essa noite foi o inferno, gritavam e imitavam bichos e por várias vezes atiraram paus e ouriços de castanha, ninguém conseguiu dormir, já de madrugada a temperatura caiu bastante e convidei o Raimundo para que fossemos dar uma espiada por trás da clareira.
Fomos agachados e a uns trinta metros avistaram vários deles armados de flechas, envolta de uma pequena fogueira retrocedemos mais para a esquerda e vimos outro grupo e mais adiante outros, voltamos e fui para o rádio.
-Base, base, acampamento chamando, cambio.
Dei um tempo e chamei novamente.
-Base, SOS, Base responda, cambio.
Nada, só silencio e estática, o dia não demoraria a clarear e se resolvessem atacar estaríamos em apuros, chamei o encarregado da geologia e perguntei.
-Fernando voce têm gasolina aqui no acampamento?
-Temos uns vinte litros, por quê?
-Vamos abrir as latas de óleo e jogar metade e completar com gasolina e por pavio, vamos fazer umas bombas, se nos atacarem vamos jogar neles.
Levamos tudo para clareira e começamos a preparar e já o dia estava clareando, mas a nevoa por causa da friagem deixa tudo meio fantasmagórico, voltei ao rádio no mo-mento que reiniciaram as gritarias e a atirar paus.
-Base, acampamento chamando, base cambio.
Não recebi resposta e tentei por várias vezes até que um pedaço de pau caiu a meu lado, fiquei danado e sai com o revolver na mão e atirei para cima várias vezes.
Por um instante se fez silencio na mata e nos protegemos esperando as flechas, mas elas não vieram, mas uma chuva de paus e ouriços de castanhas caiu sobre o acampa-mento e por horas ficaram gritando.
Voltei rastejando para o rádio e chamei.
-Base, SOS, SOS, base responda, cambio.
O pessoal estava nervoso e com medo e sem a resposta do rádio as coisas piora-vam, não tínhamos água nem para tentar fazer um café às dez horas começou um vento do sul e carregou as serrações, mas caiu à temperatura, voltei ao rádio sem sucesso, o Raimundo tentou chegar ao igarapé e foi barrado pelos índios que o ameaçaram com flechas.
Ao entardecer fui ao rádio e depois de tentar sem conseguir mudei a faixa e mandei um S.O.S, as oito da noite meu radio recebeu um chamado corri e atendi.
-PBX cavalo brabo, quem é acampamento com SOS, cambio.
-Cavalo brabo aqui acampamento, estamos sendo atacados por índios na floresta amazônica, cambio.
-Se ta de sarro maluco, quem é você, cambio.
40
-Sou Valdemar topografo e estou trabalhando na abertura de uma estrada no es-tado de Rondônia, cambio.
-Cara, estou em Comburiu com PBX na carreta, está muito longe maluco como posso te ajudar, cambio.
Passei a ele o telefone do escritório e da casa do engenheiro responsável, mas a minha bateria estava querendo arriar e assim que saiu entrou um novo chamado.
-Valdemar aqui equipe projeto Calha norte, passe posição, cambio.
Passei a coordenada da clareira e ele reportou.
-Estamos acampados na ilha das flores, uma hora do seu local, quantas pessoas estão com você, cambio?
-Quarenta e três, cambio.
-Assim que amanhecer prepara para ser resgatado, qual o tamanho da clareira, cambio?
-Própria para esquilo, cambio.
-Tentem abrir mais um pouco, estamos com três sapos, cambio.
-Positivo, minha bateria está dando sinal faremos fogueira para sinalizar, obrigado cambio e desligo.
Todos ficaram animados e resolveram ativar a fogueira e cortar uma s arvores altas para que o helicóptero pudesse pousar, eles são grandes levam até trinta pessoas cada.
Quando começaram a bater machado cortando as arvorem eles voltaram à gritaria e passaram assim à noite, mas quando clareou umas flechas atingiram a lona do acampa-mento, nós respondemos com tiros e algumas latas com gasolina foram atiradas na direção deles pegando fogo na mata.
Aquilo virou o inferno e muitas flechas vinham em direção do acampamento e a gritaria aumentou, por sorte ouvimos o barulho dos motores dos helicópteros.
Ativamos o fogo e jogamos galhos verdes para fazer fumaça e marcar nossa posi-ção, logo o primeiro sobrevoou a clareira e era imenso não havia como abaixar na clareira e um militar apareceu na porta e soltou uma escada de corda.
Todos queriam subir ao mesmo tempo, mas o militar que desceu organizou a fila e enquanto subiam o outro helicóptero sobrevoava a área o que fez com que os índios se afas-tassem um pouco com medo, em menos de duas horas eu e o Raimundo fomos os últimos resgatados com o material que pudemos levar.
Já na cidade reuni todos na praça e comuniquei.
-Pessoal não sei quando ou se voltaremos a continuar esse serviço quero nesses próximos dias fazer o acerto com cada um e desde já agradecer por estarmos juntos nessa empreitada e hoje a noite faremos um churrasco de despedida regado a muita bebida e con-videm as garotas para participarem.
No final de semana me despedi de todos e voei para Porto Velho no nosso helicóp-tero.
41
FIM
Vocês não imaginam como é gratificante para mim ter participado desse momento da vida de um estado que estava nascendo, muitos questionam por que não fiquei rico se ganhava muito, bem acho que estar ou ser rico depende do qual tipo de valor você acumulou, o monetário ou as experiências colhidas para uma vida toda, eu não era fascinado pelo di-nheiro, claro que gostava e sabia ganhar e usava de forma em não acumular em compras de bens duráveis para mim, pensando nisso vou contar uma aventura que fiz onde dinheiro se ganhava aos montes, vou contar história de loucuras passadas para chegar a um garimpo de ouro num fim de mundo da selva no estado do Amazonas, mais uma vez vou conviver com o perigo da mata e de seres humanos que na ganancia de riqueza se transformam em bestas feras e mais uma vez sou protegido de tudo e até da minha própria ganancia ao deparar com tanto ouro.
Esta eu contarei na próxima oportunidade. Mas se gostaram destas comentem e opinem, pois isso me ajudara, obrigado
Valdemar

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