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   > o simbolo do mal



jose de jesus curado
      CONTOS

o simbolo do mal

  O símbolo do mal
José de Jesus  Curado*
(jjcurado@hotmail.com)
      Depois de quase quarenta minutos de falatório no pé do meu ouvido, eu sai da sala do diretor, tonto e sem entender nada. Quem me mandou à direção foi o professor de história por causa de um desenho que eu espalhei pela escola. Na verdade eu fiz o desenho numa folha de caderno de desenho e preguei  na camisa bem encima do meu coração. Quando os meus colegas viram aquilo, fizeram a mesma coisa e na hora do recreio estávamos todos de Suástica no peito. O desenho eu vi no livro de história, eu vivia procurando desenho nos livros da escola, desenho que eu pudesse reproduzir, todos os meninos da minha idade faziam isso.  Quando eu vi a suástica, eu achei que ela era fácil de desenhar, além de achá-la muito linda. Tinha suástica, azul, vermelha com os traços finos e com  pontos vermelhos debaixo de cada braço. A suástica que mais chamou a minha atenção foi a preta, com traços grossos. Foi essa que eu desenhei e preguei no meu peito.  A brincadeira durou apenas quinze minutos, e depois do intervalo fui para a sala do diretor.
     Ali naquela sala triste, fria  e cheia de mofos, foi que eu ouvi falar pela  primeira vez em guerra mundial, nazismo, judeu e carnificina. Eu tinha só treze anos,  e nem sabia que o mundo lá fora tinha passado por uma guerra, e que era perigoso andar com a suástica no peito.  O que eu sabia, era que não se podia falar de política, na rua, nem na escola,  e nem em lugar nenhum, isso minha mãe havia me dito, ela sabia que um vizinho próximo da nossa casa tinha sido levado para Brasília, porque vivia falando coisas contra o governo. Eu sabia que os militares mandavam no Brasil,  na escola tinha uma fotografia grande do presidente Médici, e eu o achava um homem simpático. Vai ver que ele não gostava da suástica também. Eu acho que eu sai tonto daquela sala, porque o diretor  me sacudiu, e me perguntou:
     __você é nazista menino?  Responde. Você é nazista menino?
     __Não.  Eu respondi seco, querendo chorar.
     Foi quando ele me mostrou a fotografia de um homem que tinha um bigode esquisito, só debaixo das narinas.  Esse homem tinha uma braçadeira com uma suástica enorme pregada no braço.  E na foto ele tinha a mão direita estendida sobre a cabeça de uma multidão. Meu colega Osvaldo Diniz que estudava no terceiro ano de contabilidade foi que me explicou:
      ___Vocês da quinta serie não sabem nada. Esse homem de quem você fala é Hitler. F0i ele que começou a  Segunda Guerra Mundial. Sabe aquela dona, que fala meio enrolado, vizinha da dona Aurora? Então o marido dela, foi preso pelo Hitler, e foi morto lá na Alemanha, porque ele usou uma suástica no peito.
     Aquela explicação não me esclareceu nada. Como podia alguém morrer por que tinha usado um desenho bonito daqueles no peito? Perguntei para minha mãe sobre a suástica, mostrei o desenho para ela, mas ela não soube me dizer nada. Fechou a porta e disse que a polícia esteve na casa do vizinho próximo de nossa casa. Era prá eu fechar o livro e falar baixo. Alguma coisa estava acontecendo nesse mundo de meu Deus, e ninguém queria  me dizer o que era, e para não deixar a minha mãe ainda mais nervosa, chamei o Italiano e fui jogar botão.
     Um dia sai de casa mais cedo, para me encontrar com o Italiano, ele tinha um primo, (que desapareceu em 1972, quando saiu para comprar leite) professor exonerado, que sabia de tudo sobre o Brasil e o mundo. Foi ele que me explicou que a suástica era um símbolo político que podia significar a adesão de quem a usava ao nazismo.  Naquele dia o nazismo para mim deixou de ser uma coisa vaga, e distante, como o livro didático demonstrava e a suástica, bem mais do que um simples desenho. Eu só não consegui entender, a razão de tanto segredo, afinal eu tinha treze anos, mais eu era capaz de compreender com perfeição as coisas visíveis e invisíveis desde que me fosse dado instrumento, de onde eu pudesse retirar a compreensão e o entendimento. Outra coisa, por que será que o Diretor e o professor de História não me explicaram nada?
      __Aquilo que  os professores não explicam, Osvaldo Diniz esclarece você acredita?
     __Sim, diz aí.
     __Quinta serie, os professores acreditam que as paredes têm ouvido. O que se diz dentro de uma sala, corre rápido pelo cerrado e chega a Brasília, aí é pau na certa.
Fiquei satisfeito com a explicação, Osvaldo Diniz, o meu amigo Chincheiro, sabia de tudo.
*Jose de Jesus Curado é escritor.


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