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   > MEU QUERIDO CANIBAL ( opinião)



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      ARTIGOS

MEU QUERIDO CANIBAL ( opinião)

O escritor e jornalista   ANTÔNIO TORRES nasceu  em Junco, atual Sátiro Dias, sertão da Bahia, 1940, ocupa a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, e  é um dos grandes nomes  da nossa literatura. E para  nosso prazer é “ prata da casa” ou seja, mais um baiano que desmonta o cenário através da literatura, rompe fronteiras  e representa bem a nossa literatura  fora do país.

O que Torres preparou para a grande festa dos 500 anos do Brasil? O nosso  escritor  brinda a literatura com uma obra totalmente fragmentária  que opera nas margens e coloca o índio num lugar de destaque.  Uma atitude ousada e corajosa  desde a capa, onde aparece um índio com flecha em punho fazendo mira para um local que poderia ser o Rio de Janeiro do século XVI, já que a narrativa se passa nesse período com a Invasão da Baía de Guanabara e a Confederação dos Tamoios.

O romance “ Meu querido canibal”  de Antonio Torres, consegue trazer à tona a história de Cunhambebe, um índio corajoso de dois metros de altura, um  Tupinambá que muito lutou para  não deixar o seu povo sofrer  aniquilação cultural  e física. Com as bravuras de Cunhambebe é  colocado em xeque a memória historiográfica oficial. Uma narrativa na qual o índio sem nenhum romantismo é o herói vencido, mesmo sendo canibal, não perde a qualidade de ser o “querido”  e íntimo do narrador,  a ponto de chamá-lo de “meu”.

Através da sua brilhante obra “ Meu querido Canibal”  (2000) o escritor Antonio Torres, autor de Essa Terra(1976),  adota um tom polêmico na narrativa onde a história e a memória se mesclam, repulsam  através do  Cunhambebe, um índio que foge da representação de índio brasileiro criada no século XIX para a invenção da identidade. Não resta dúvida que para muitos  a ideia do índio canibal,  aquele que “come gente” permanece viva no imaginário de cada  um. Mesmo porque foram anos de ensino em que  os povos indígenas  eram retratados como  “bestas ferozes”,  “selvagens” que viviam nus e  não tinham “cultura.”

Cunhambebe ocupa uma posição de liderança na sua tribo diante da cultura antropofágica carregada de misticismo e rituais. No entanto, para defender sua gente contra os povos portugueses,  se une aos franceses na Confederação dos Tamoios, mesmo que essa aliança custe caro. Afinal,   sangues indígenas correram  sob as pedras que construíram a  Cidade Maravilhosa.

O livro  “Meu querido canibal”  questiona o lugar do índio na história do Brasil,  apontando os choques culturais que se deu  entre  os Portugueses e os povos Tupinambás.  Choque esse resultando o massacre de indígenas apagado  nos livros de história. Com o propósito de reconto sob a perspectiva do massacrado, Cunhambebe  aparece como espécie de “justiceiro”, talvez como elemento que  teve seus dias de glória no Rio de Janeiro no século XVI, espécie de herói/ bandido  que oscila  no tempo  passado e presente.  Um índio  canibal  que praticava o ritual antropofágico e sem nenhum remorso o inimigo era devorado. Uma cultura muito combatida e condenada no Brasil.

De certa forma, ao lançar o livro justamente num período em que o Brasil estava nas comemorações dos “500 anos de Descobrimento”, Antonio Torres surge como se “substituísse o tapete vermelho”  por um “tapete de penas”.  E soa como uma denúncia de apagamento do lugar do índio na história do descobrimento.  Quantas vidas foram ceifadas? O texto de Torres é híbrido, movente, impactante, histórico, ficcionalista e… e… canibal?! Por que não?

Acredito que em algumas passagens  ele deglute e é deglutido pelo leitor. Como se   Oswald de Andrade  viesse com o seu Manifesto Antropofágico e bradasse de forma retumbante para concordar com o romance de Torres:  “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismo, de todos os coletivismos…”

Enfim,  “Meu querido canibal”  é uma obra literária importante  que “brinca” com a história, memória, literatura e  deveria estar em todas as bibliotecas brasileiras.  Uma narrativa  de um guerreiro vencido, derrotado, aniquilado mas que bravamente lutou, fez alianças com estrangeiros  para preservar a sua gente, a sua cultura, a sua língua.  Afinal, Cunhambebe e o seu povo Tupinambá queriam  respeito e não o massacre.

                                       E. Amorim



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