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   > Para.



Elisa Coimbra Rodrigues
      PENSAMENTOS

Para.

Depois que meu pai morreu o descobri melhor. Era melhor do que eu pensava. Quando criança, sentia falta de suas palavras não ditas; quando agora, eu agradeço.
Eu não sabia que ele gostava de rock, aliás, pouco lembro de meu pai ouvindo alguma música. Uma vez comprou um cd de rock, mas achei que era só pra irritar minha mãe, que sempre considerou o rock como algo de péssimo gosto. Todavia, mexendo em suas memórias deixadas para trás, havia um cd do soundgarden. Nunca tinha ouvido soundgarden, e meu pai, depois de morto, apresentou-me.
Quando criança, admirava seu hábito de fumar apenas enquanto bebia.
Ele não gostava de ter alguém por perto, era um momento íntimo,
a cerveja de um lado, o cigarro do outro.
Hoje eu entendo.
Uma vez me deu um gole de vinho. Eu tinha seis anos, reclamei do azedo, disse-me ele para eu colocar açúcar. Bateu-me uma única vez quando estraguei um pedaço de pão; foi apenas uma sandália havaianas entrando em contato com minhas pernas; aquele amor que disciplina doeu tanto que, instantaneamente, fiz xixi e só depois chorei bastante. Ele se arrependeu, mas não pediu desculpas. 
Quando saiu de casa definitivamente, depois que bateu o porta malas (guardando as malas e minhas últimas esperanças de que ficasse), nos olhamos a distância. Ele suspirou com aquele ares de saudades, e disse, foi a única coisa que disse, enquanto me abraçava suspensa, bem baixinho, rente ao ouvido para que ninguém mais ouvisse, que eu era a princesinha do papai.
Até que para alguém que acha que o amor de família é mais obrigação que vontade própria, tem muitos excessos sendo transbordados de mim.
Mas sou eu. 
Pego-me pensando se sem sua ausência permanente eu me ateria tanto
aos detalhes. A resposta vem tão branda quanto um desespero: é um seco não em minha enterna estiagem. Mas ainda assim o amaria, e teria medo de perdê-lo como sempre tive. Uma vez ele me contou que depois que morrêssemos e subíssemos ao céus, não lembraríamos mais um do outro (eu não acredito mais em céu, mas ainda acredito no esquecimento).Chorei muito. Jamais queria esquecê-lo. Ainda não quero. Então permaneço, aqui, hoje, a todo instante, morrendo das saudades que me grudam nas carnes e não me soltam jamais,
mas agradecendo a complacência de ainda me lembrarem. Mesmo que junto aos detalhes guardados, eu perca muitos deles; a verdade é que perco mais do que guardo.
Está tocando how soon is now, e me sinto, ainda que escrevendo estas palavras(!), "filha e herdeira de nada em particular" Assim como vejo que meu pai sentia. E sou eu uma filha sendo o maior reflexo de seu pai não sendo filha. Um alguém que se sente, em meio a toda feira de sentimentos do mundo, sozinha; eu e ele, dois filhos "de uma timidez que é criminosamente vulgar, mas que precisam ser amados, assim como todo mundo precisa".


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