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   > CORISCO



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

CORISCO

            CORISCO
 
            Determinada manhã, eu levantei mais cedo decidido a limpar a bagunça que o vento e a chuva da noite tinham provocado. E até pensei em ter que passar toda manhã consertando alguns danos causados pela tempestade. Mas, tudo isso me foi esquecido, ao abrir a porta da cozinha; ali, à minha frente, eu vi, no chão encharcado do quintal, um ninho com dois filhotes dentro; um, ainda vivo, tremendo de fome e frio, certamente. Sequei-o de imediato. Aqueci-o com uma lâmpada acesa. Improvisei um novo ninho numa caixa de sapatos, onde o aconcheguei. Alimentei-o com farelos de pão embebidos na água. Depois de sepultar seu irmão, corri até uma loja de ração, que abriu comigo à porta.
            O retorno para casa, eu o fiz pensando o que mais poderia fazer por aquele filhote indefeso. Estava levando comidas apropriadas, vasilhas para alimentos e água, um ninho, além de uma gaiola para sua proteção. Concluindo que no momento, aquilo era o suficiente, resolvi, então, batizá-lo com um nome capaz de lembrar aquela noite de chuva, trovões e raios. 
            Em poucas semanas, já não se via nem uma parte do corpo de Corisco sem penas. Meu filhote crescia livre e solto; em uma gaiola sem trancas! Eu a mantinha fechada só à noite, para sua segurança.  
            Um dia, entretanto, ele se enturmou com outras aves - prováveis ascendentes - que habitavam as árvores do meu quintal, onde seu ovo havia chocado.
            Naquela noite, Corisco não dormiu na sua gaiola. Mas no dia seguinte, eu o vi, bem cedo petiscando em seus pratos. Não ralhei, afinal, liberdade é seu dom. - e quem sou eu para privá-lo disso? - Fui até ele, o examinei, acariciei... e o deixei, aconselhando: Vá! Mas volte sempre que sentir cede e fome.
            Não fui totalmente sincero, confesso, omiti-lhe algumas verdades - mas por que eu haveria de confessar a uma inocente ave algo que nem mesmo os humanos têm conseguido entender?    
            Assim meu filhote foi se acostumando com o mundo lá fora, e eu com suas fugas de até quatro dias sem dormir na casa, onde viu cresceu suas penas; formar suas asas.
            Um lado meu torcia para que ele não retornasse; o outro, implorava para que ele nem saísse do meu quintal, e ali, para sempre, ficasse. Uma coisa, porém, era certa: os dois só queriam sua felicidade. 
            Numa dessas saídas, passaram-se semanas; minha avizinha não retornou. Fiquei sem saber como me sentir; feliz em pensar que ela estava livre. Triste quando imaginava ela não estar bem; afinal, fora criada em casa, não tinha experiências do mundo lá fora, como seus companheiros.   
            Semana após semanas, fui me conformando. Mas sempre buscando ver, no meio de toda aquela revoada que povoava as mangueiras do meu quintal, minha avizinha domesticada. Mas todas que desciam para petiscar nos pratos que eu conservava sempre cheios de ração, frutas frescas e água para ela, voavam quando eu me aproximava.
            Anos já passados, porém, certa manhã, bem cedo, eu acordei à sinfonia de um sabiá, que imaginei cantar dentro de casa. Levantei da cama mais que depressa, com o coração batendo bem forte! Ao abrir a porta do quarto, Corisco, que estava no basculante da cozinha, deu um rasante pelo corredor e pousou no meu ombro, corrupiando em torno de minha cabeça, beliscando-me orelhas, nariz... Nem é preciso descrever a minha emoção!
            A partir daquele dia, todas as tardinhas, Corisco descia das árvores e se guardava. Nunca mais ele dormiu fora de casa.
Três dias após seu retorno, deu-se o maior temporal: igualzinho ao que provocou a queda do seu ninho em meu quintal!
            Foram sete semanas desse jeito; acordando ao raiar do dia, com seu lindo canto espalhado por toda casa. Eu passei até a dormir com a porta do quarto aberta, a fim de que lhe coubesse mais espaço na casa. E ele se mostrou agradecido: entrava no quarto e ficava por sobre mim, beliscando o cobertor, que me envolvia até a cabeça, como se petiscasse alguma coisa; mas, na verdade, ele pedia para que eu levantasse. E só no terceiro dia, com a tempestade iniciada, eu o entendi e passei então, a obedecê-lo, após algumas brincadeiras, entre nós, ali mesmo, antes de levantar e sair.
            Numa fatídica manhã, porém, acordei, depois das cinco horas, sem ele ali, sobre mim. Assustei-me com isso e o silêncio na casa. Então gritei: Corisco! Cadê você, meu garoto?! Vem cá, amigão! E levantando a cabeça, eu o vi do meu lado, quieto sobre o travesseiro, com se estivesse dormindo: imóvel. Calado.
 


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