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   > UMA FANTASIA DE COELHO SALVA A RELAÇÃO



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

UMA FANTASIA DE COELHO SALVA A RELAÇÃO

Uma lagartixa descia a parede, teria avistado uma mosca, o seu alimento preferido, quando de repente parou. Com seus olhos arregalados e desprovidos de sobrancelhas ficou observando o casal Pedro Roberto e Leticia.
Estavam juntos há mais de 3 anos. Três anos, dez meses e cinco dias, para ser mais exato.
O relacionamento chegou num ponto que não dava mais. Peter Robert, como Leticia costumava chama-lo na intimidade, disse que prosseguir com aquela “farsa” de quinta categoria era praticamente insustentável.
“Farsa?”, perguntou Leticia. Pedro Roberto, depois de um profundo suspiro, soltou a resposta: “Sim, uma farsa.”
Então tudo acabou. Leticia com os olhos transbordantes poeticamente não de lágrimas, mas de fluidos não condensados pela córnea, balançou a cabeça. “Tudo bem. Vamos colocar um ponto final nessa história.”
Leticia foi embora daquela cidade, distante mais de quatrocentos quilômetros marcados na Kombi que ela herdou na repartição dos bens. Ela mal chegou na cidade e a Kombi fundiu o motor. Era o destino. Era ali onde deveria recomeçar.
Começou um trabalho de estudos de bactérias que se multiplicam em alimentos estragados. Trabalhar com bactérias devolveu a Leticia seu amor próprio. Quanto mais pensava em Pedro Roberto, mais aumentava sua curiosidade para o estudo das bactérias.
Num estudo em conjunto com a Universidade de Columbo, dos Estados Unidos, ela descobriu uma nova bactéria que se desenvolve muito bem em lasanha podre. Batizou essa bactéria de Pedro Roberto. Matéria que foi publicada na revista Science daquele ano.
Leticia se tornou doutora em bactérias pela mesma universidade.
Voltou então para o Brasil depois de dez anos e prosseguiu seus estudos, dessa vez com bactérias que se desenvolviam em chuchu deteriorados.
Leticia tinha uma sobrinha, Glaucia, menina de oito anos. E prestes a fazer aniversário a menina queria uma festa de coelhos, e queria um coelho gigante e dentuço para animar seus coleguinhas durante a festa. Claro que Leticia teria de procurar uma fantasia de coelho. Leticia fora coelho uma vez, corrigindo: coelha. Mas encontrar fantasia de coelho aonde?
Tentou em lojas da cidade, não encontrou.
Foi quando lendo o jornal, viu na página de classificados, que “Vende-se uma fantasia de Coelho. Em bom estado de conservação. Com dois dentes protuberantes e bastante orelhuda. Tratar com Sheila.”
“Achei!”
Foi então para o endereço citado no anuncio. Foi um tanto difícil de encontrar, mas acabou localizando.
Parou o carro em frente, desceu.
A frente da casa era murada, e um portão eletrônico fechado, sem qualquer visão da parte de dentro.
Leticia apertou o botão do interfone. Depois de alguns segundos uma voz feminina perguntou quem era. Leticia disse que estava ali porque se interessou pela fantasia de coelho.
Depois de mais alguns segundos, saiu uma mulher de pouco mais de vinte e três anos, morena, parecia modelo de comercial de cerveja.
Sheila, a moça do anuncio, convidou Leticia para entrar.
Depois de uma conversa preliminar de como Leticiaprecisava dessa fantasia de coelho, Sheila pediu que Leticia fosse até uma sala contígua. A fantasia de coelho estava dependurada numa espécie de porta chapéu.
Leticia apalpou os pelos do “coelho”. Olhou a fantasia de cima a baixo, textou as orelhas do coelho. Sheila disse se quisesse experimentar que ficasse a vontade.
Como Leticia estava de vestido e temesse por amassá-lo, resolveu se despir, ficou então de calcinha e sutiã. Vestiu a fantasia. Sheila a ajudou com o zíper.
Leticia começou a saltitar pela sala e Sheila não pôde segurar de rir. O coelhão mexia os dentinhos, erguia e baixava as orelhas. O coelho indo ao bosque todo feliz.
Foi quando aconteceu o que não podia acontecer. Surgiu Pedro Roberto. Pedro Roberto era agora casado com Sheila. O espanto de Leticia foi grande. Ela tentou correr para a outra sala, mas se atrapalhou com seus grandes pés de coelho. Sem falar que o rabinho pompom tinha enroscado nos ganchos da persiana da janela. O coelho caiu, na queda bem em cima de Pedro Roberto, que foi ao chão com valise e tudo.
O coelho por cima dele. “         Estou sendo atacado por um coelho mutante! –gritou ele”.
Sheila correu em auxilio de Pedro Roberto, puxando o coelho de cima dele. Foi quando Sheila puxou forte e acabou arrancando a fantasia de coelho e revelando Leticia em cima dele, em trajes menores.
“Leticia!!! –gritou ele de espanto.”
“Voces se conhecem? –perguntou Sheila, desconfiada.”
“Ela é minha...”
“Ex! –respondeu Leticia.”
“A fantasia de coelho. –disse ele, -Foi quando nós...”
“Pra que lembrar disso, Pedro Roberto.”
“Fomos entregar ovos de Páscoa para nossos sobrinhos e...”
“Pra que lembrar disso, Pedro Roberto?!”
“Ei! E eu? –perguntou Sheila.”
“Cala a boca, Sheila, não tá vendo que estamos conversando. –respondeu Pedro Roberto. –Vai catar coquinho!”
“Mas o que é isso!!! –Sheila ficou indignada.”
“Se não tiver coquinho, vai catar carambolas.”
“Onde já se viu, Pedro Roberto! Que pouca vergonha! Saiba que eu to indo embora da sua vida!” –Sheila jogou os cabelos para trás, bufou como se fosse um búfalo fazendo atchim e desapareceu da vida de Pedro Roberto.
“Peter Robert. –sussurrou Leticia.”
“Minha Lelê.”
E a velha lagartixa de olhos arregalados, chupada na parede com seus pezinhos ventosos, suspira de amor.
 


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