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   > CIPÓ MENINO BÃO



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

CIPÓ MENINO BÃO

Ele era conhecido por Cipó. Era uma pessoa muito querida onde morava. Todos gostavam do Cipó. Ele era uma figura na cidade de Jacaréputanga, onde residia desde quando veio ao mundo. Cipozinho pequeno, dentro do berço, com três dentinhos, tentando alcançar com suas pernas gorduchas os golfinhos que ficavam balouçando acima dele no berço simples dos pais. Cipozinho fazia peraltices, queria porque queria pegar os golfinhos. Mas pegava o nariz da mãe no momento de mamar. Cipozinho agarrava o peito da mãe, e chupava afoito, as perninhas sacudindo no ar. Cipozinho o mimoso da família. O primeiro filho de Santa e Durango. Durango, filho de lavrador, chegou a ver chupacabra. Feio que nem a necessidade. Disparou dois tiros na criatura, mas o dito cujo monstro fugiu pra taboada. Ligeiro que nem rato de capoeira. Durango falou na Praça da cidade que tinha visto chupacabra. Perguntaram se ele não se tinha olhado no espelho não. Durango ficou bravo, soprou o nariz, roxeou as bochechas, pisou firme no paralelepípedo do chão, arreganhou os dentes, soprou na janela, mesmo não tendo visita. Olhos de veias saltadas, engrossou a artéria do pescoço, soltou um palavrão cabeludo, de baixo calão. Suspendeu no ar o picuá com goiaba, presente para Santa do tempo de namoro. Apanhou uma goiaba, fez gesto que ia atirar, se conteve. Lembrou-se da declaração da Santa beijando de leve seus lábios em forma de bico, lábios de bagre na água rasa, voltados pra ela. O gosto do beijo adocicado cheirando a pitomba do aroma de Santa. Moça de poucas piscadas, moça de pouco olhar para outros homens. No mundo só tinha Durango. Suspirava por Durango, estava abestada por Durango. Tonta de amor, desvairada de ilusão por Durango. O príncipe encantado que vinha montado em cima de um jegue enfrentar o dragão. O dragão alugado da loja de secos e molhados do seo Fortes. O dragão inflável, o dragão não queria encher, tinha um furo. Santa com uma bomba de encher pneu de bicicleta, bombando, bombando, bombando. Foi reclamar com o seu Fortes, ele prometeu arranjar outro dragão, mas ia demorar. Mas por amor a Durango fazia de tudo. Moço ele de pouca beleza, verdade. Os pais de Santa perguntando-se o que a filha viu nesse sujeito atarracado e semelhante a um bacalhau esquecido na banca. Mas tinha olhos azuis faiscantes. Santa perdidamente apaixonada. O que é o amor? Para Santa era Durango. A irmã de Santa, Perpétua tinha casado com um ator de circo. Um camarada de altura bem destacada, peitoral de musculatura invejável. Durango só tinha dois peitos estufados e uma barriga pontuda por causa de uma hérnia. Amo essa hérnia, dizia Santa. O peito pequeno de Durango, semelhante a duas cabaças emperriadas. Santa aninhava a sua cabeça naquelas duas cabaças emperriadas e sonhava acordada: voava num céu azul com gaivotas e sentia a maciez da paz e a harmonia dos colibris. Durango empunhando uma picareta abria valeta na piçarra pra passar água pros matungos beber, pra saciar a sede dos zebus poucos espalhados por três quadras de pasto. Durango voltando pra casa viu duas calçolas de Santa dependuradas no varal da casa dos pais dela. Ficou imaginando pensamentos de loucuras atrás da sebe de bambú. Foi de mansinho, ninguém em casa, nem o cachorro estava, tinha ido junto pra lida da roça. Durango de mansinho, assustou uns patos que escondiam do sol embaixo de um pé de jenipapo. Mas estava decidido, foi de mansinho, olhando de travessado por todos os cantos, na certeza de que não vinha vivente. Alcançou o varal, agarrou a calçola de Santa. Rápido, enfiou no picuá de goiaba pra mais tarde dar pra namorada. Não ia falar da calçola furtada, claro que não. Saiu do quintal, seguiu caminho de boi manso na estrada de barranco baixo, cantarolando uma canção sem nexo. Imaginava sendo acusado pelo delegado na frente dos pais de Santa, o sem caráter, canalha, cretino, sem vergonha, maledicente, salafrário, sem eira nem beira, que furtara uma calçola de moça casta de casa de família. Santa falada na vila, onde ia enfiar a cara? Da existência de Jacaréputanga, fundada pelo digníssimo Coronel Cascão empunhando uma espada e expulsando o único índio da sua chocha próxima do Rio do Toroço, e então declarando as terras de Jacaréputanga independentes e livres do domínio indígena; nenhum morador então teria visto caso semelhante. Durango adormeceu debaixo de um abacateiro de beira de encruzilhada. Despertou no momento em que as autoridades iam leva-lo para o confinamento da cadeia. Santa perdida de amor por Durango, sonhava com o amado. Chegou o dragão inflável, seo Fortes cumpriu a promessa. Finalmente seu príncipe encantado a salvaria do dragão. Durango montado num jegue, galopando pelas pradarias e campos, enfrentando criaturas sem sentido, enfrentando abismos e precipícios. Se aproxima do castelo de Santa. O jegue empaca, dá uma freada brusca, Durango cai de cima do jegue, cai rolando, atropela o dragão inflável e desaba nos braços de Santa. Durango e Santa se casam, felizes para sempre. Um dia Santa remexendo em coisas velhas do passado, encontra o picuá de Durango. Se depara com a calçola guardada há tanto tempo. Santa fica vermelha de raiva, seus olhos entumescem. Procura Durango, quer saber de onde veio aquela calçola. Durango conta a história do furto muito anos no passado. Santa de veia saltada, pusante de raiva em suas pupilas, solta um palavrão, não acredita na versão de Durango. Arruma a trouxa com as roupas que dá conta de juntar. Durango diz que sair daquela casa só por cima do seu cadáver. Santa salta a janela, e dispara pelo meio da plantação de jabá, levando consigo um coração despedaçado e o pequeno cipó.



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