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   > NO TERCEIRO MISTÉRIO



claudio antonio mendes
      CONTOS

NO TERCEIRO MISTÉRIO

Maria Aparecida estava absorta em suas tarefas domésticas. Queria apressar-se para não perder o capítulo da novela. Achava a produção colombiana Café Com Aroma de Mulher uma novela exemplar, para se assistir em família. Ainda que sua família estivesse resumida nela e no seu marido, que a está hora está no árduo trabalho da capina.
 
Ouviu latidos do cachorro, não se preocupou. Devia ser algum jacu que veio até ao terreiro atrás de milho. Agora o cachorro soltava uns rosnados esquisitos, aí se preocupou. Afastou-se da pia em que lavava vasilhas, e sem tirar o avental, foi até a janela. Passou um olhar rápido pelo terreiro. Tudo parecia em ordem. Retornou para seus afazeres. Mal teve tempo de se concentrar e puxar uma música meio assoviada, que sentiu o peso de alguém atrás de si e um aço frio transpassarem sua garganta. Ainda teve tempo de ver o sangue esguichando sobre as vasilhas que tinha acabado de lavar. Desfaleceu sem ter tempo de ver o rosto do seu algoz.
 
Ademiro voltou da capina com o sol se pondo e não encontrou sua mulher em frente à televisão como de costume. Foi até a cozinha guardar desfazer-se da garrafa de café e do garrafão de água e deparou com uma cena jamais imaginada por ele. A sua esposa sobre poças de sangue. Viu com muita clareza um corte na garganta e outro na altura do seu ventre. O seu útero fora arrancado. Uma cena que chegou aos seus olhos como uma porrada de mil megatons. Nessa hora ele precisou muito de sua fé, de sua devoção a Nossa Senhora. Tudo o que se seguiu desde aquele momento até à tarde do dia seguinte, na hora do sepultamento de Maria Aparecida, foi a prova mais difícil que ele enfrentou em sua vida.

Nem a perda de duas crianças, com apenas um ano de intervalo, ainda no útero da esposa, foi tão golpeante quanto esse assassinato. A perda das crianças podia por na conta da anatomia, da infertilidade. Mas e esse assassinato? Por quê? Por quem? Colocar na conta de quem?
 
Duas semanas depois, o trauma de Miro, como era conhecido na localidade, ainda não estava superado. A polícia não tinha nenhuma pista, ou talvez, nenhum interesse. O caso era contado e recontado na vendinha do vilarejo mais próximo, entre as rodas de conversas das mulheres e cada um elaborava a sua tese. Até suspeita de adultério da religiosa e devota esposa Maria Aparecida foi aventada.
 
“Mas é hora de ter mais fé, de superar com a ajuda de Deus esse fato doloroso em minha vida”.Assim pensava Ademiro conduzindo mais um encontro do Terço dos Homens na comunidade. Era um grupo de nove homens venerando Nossa Senhora. Esse pequeno grupo de uma comunidade na zona rural, nunca passou de quinze membros. Sempre foi um grupo pequeno. No terceiro mistério algo inexplicável começou a acontecer. Os terços nas mãos dos devotos começaram a ficar como que possuídos. Movimentavam-se incontrolavelmente sobre as mãos dos homens incrédulos diante de tal mistério. Pareciam ter vidas próprias, tremulavam como um peixe fora d’água. Assim que cada terço se livrava da mão do seu dono, pulava para seu pescoço e começava a lhe enforcar. Ninguém estava ali para assistir, a não serem dois olhos famintos a certa distância. Ouviam-se alguns fracos gemidos. Em questão de cinco minutos estavam todos mortos, inclusive Ademiro, que partira para a outra vida, e quem sabe, lá encontrara sua amada.
 
Ainda em estado de animação, os terços foram se rastejando pelo chão e enovelando-se perto da mesa do altar. O dono dos olhos famintos então penetrou no interior da pequena igrejinha, fez o sinal da cruz, passou sobre os corpos e pegou os terços, guardando-os dentro de um embornal. Isso só foi possível para a criatura pelo fato da igreja não ter a presença do Santíssimo Sacramento.
 
Esse fato foi mais estranho que o assassinato da mulher há duas semanas. A polícia novamente esteve na cena do crime, dessa vez com a presença do detetive Ramos, ou melhor, Dr. Ramos como gostava de ser chamado. O detetive esteve pelo amanhecer na capela da comunidade e viu os nove corpos, uns caídos entre os bancos e outros próximos ao altar. Pela disposição, parece que cada um tinha relutado contra algo que os enforcara. Esse enforcamento coletivo tinha uma particularidade. Os hematomas formados nos pescoços dos homens pareciam com certas tatuagens de jogador de futebol que ele via na televisão em tarde de domingos de descanso. Tinha um jogador em especial, Como é o nome dele? Dr. Ramos vasculhava os arquivos de sua memória. Ah, se lembrou, Lincoln. Mas onde estão os terços? Quem fez aquilo deve tê-los levado. Difícil é acreditar que alguém fez isso sozinho. Não havia sinais de luta corporal e tão pouco de rendição.
 
Três semanas depois, Dr. Ramos ainda não tinha respostas para o estranho caso da capela. Resolveu conversar com o padre responsável pela paróquia. Ele parecia tão assustado quanto os demais da região, independente da crença. Foram até a comunidade e averiguaram tudo relacionado ao grupo de homens que semanalmente rezava o terço. A frequência era satisfatória em se tratando de uma pequena comunidade. Um membro, de frequência recente, porém assídua, faltou naquele dia.
 
O padre passou o contato de um colega que se especializou em fenômenos paranormais, um ex-aluno do afamado Padre Quevedo. Depois de quatro telefonemas, estava Dr. Ramos dialogando com o padre especialista. O padre do outro lado da linha ouvia tudo atentamente e ficou de dar retorno daí a três dias com alguma consideração sobre o fato estranho e se os dois casos teria alguma ligação. Dr. Ramos começou a perceber que estava diante de algo que fugia à compreensão humana.
 
O padre especialista retornou conforme o prometido. Começou se desculpando por não vir até o local dos fatos. Estava em Roma em um congresso de parapsicologia. Lembrou a Dr. Ramos que tivera um colega no seminário. Esse rapaz, na eminência de ser expulso da congregação, fez um pacto com o inimigo. Tinha esse infeliz, a mania de colecionar terços. Vivia pedindo aos padres terço como lembrancinha de viagens para aumentar a sua coleção. Era um hábito doentio. Presente de aniversário aceitava com ar de felicidade apenas terços. Guardava entre seus pertences uma caixa enorme. Queria ele continuar colecionando terços e fazendo parte de uma congregação religiosa, isso era mais fácil. Mas todos começaram a achar estranha essa mania e terços começaram a ser negados a ele. Procurou ajuda sobrenatural. Primeiro recorreu a Deus, pedia baixinho em suas orações. E nos dias de ser expulso do seminário, julgando-se rejeitado por Deus, recorreu ao outro lado.
 
O parapsicólogo seguiu explicando: _Então esse infeliz fez um acordo com o satanás. Ele teria forças especiais para conseguir terços à vontade e em troca daria ao satanás úteros de mulheres com o nome de Maria. Sobretudo úteros que não teria dado de fato a luz por ainda não ter concebido ou por se estéril.
 
Então, Dr. Ramos pediu o nome do ex-seminarista. Com um pouco de esforço, o padre do outro lado da linha lembrou. João do Rosário de Almeida, conhecido como João do Rosário, por causa do nome e por causa da mania.
 
Esse nome veio como uma flecha certeira em algum alvo dentro da memória do Dr. Ramos. Uma hora depois a polícia estava vasculhando toda a casa e todo o quintal do novo morador da localidade. Atrás do casebre encontraram indícios de uma cova. Cavaram e lá estava a urna lacrada com cadeado e uma imagem macabra entalhada na tampa. Abriram e dentro encontram um útero.

Um cheiro forte de enxofre espalhou-se pelo ar. As formas de uma criatura estavam por detrás da membrana do útero. Os policiais não tiveram duvidas, sacaram suas armas e metralharam a tal criatura. Depois tiveram que requisitar um guincho para transportar a urna macabra até a delegacia para ser guardada.

Vasculharam a casa minuciosamente e não encontraram o maléfico colecionador de terços. Havia fugido. Certamente para um lugar bem distante em busca de mais terços e de mais mulheres com nome de Maria.



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