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   > A LÁGRIMA NA BATATA



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

A LÁGRIMA NA BATATA

Meio quilo de carne de panela, seis batatas, a missão de Odorico Pasmaceira. Teria de ganhar o portão de saída da casa, sair pra rua e ir cumprir a sua missão. Olhar mordido em direção ao horizonte, o sol ia alto, dez e meia da manhã de um dia que tinha três nuvens esparsas no céu. Não ia chover, se chovesse ele ia apanhar de rodinho. Uma casa inteira de roupas secando no varal. A moça bonita do jornal previra que seria um dia de sol, com certa nebulosidade. Se tivesse seus vinte anos ia pedir a moça do jornal em casamento. Odorico mordendo ainda o horizonte fecha o portão. O cachorro quer sair, fala bravo com Salsicha, esse o nome do cachorro. O animal obedece, mas seu intuito era o de sair. Odorico toma uma decisão, primeiro comprar um jornal, fazia tempo que não comprava jornal na banca pra ler sentindo o cheiro da tinta, o verdadeiro cheiro da noticia. Só tem noticia ruim. Mas alegra-se com uma mulata quase pelada que desfila pelo carnaval daquele ano. A batata foi a responsável pela alta da inflação naquele quadrimestre. A batata? E ele tinha a missão de comprar seis batatas, ou ia ver com quantos paus se faz uma canoa! Odorico caminha suave pela rua de asfalto falho, numa descida, onde tem mais sacolejo pra quem passa de carro que gelatina viajando de mula. Encontra dona Fátima varrendo folhas amareladas da calçada, ela está com uma cara de quem chupou limão. Acena pra ela, mas a mulher só fica observando. Ao lado dela um búfalo. Material de limpeza Búfalo. Vassoura Búfalo, rodo Búfalo, desinfetante Búfalo, força contra a sujeira e o encardido. Odorico caminha entre a fauna de perigo iminente de uma selva pouco explorada: o cérebro humano. Que sofisticado, o cérebro parece uma fruta do conde, cheiro de saliências e reentrâncias desconhecidas. Tão obscuro quanto um rego fundo de uma nádega. Odorico corre os olhos pelas fotos da mulata quase pelada que tem no jornal à sua mão. Pra que desvendar mistérios? O bom é viver com a incompreensão do segredo, que mesmo revelado não serviria para nada. Qual segredo guarda uma batata? Humm!!? Odorico faz a pergunta em voz alta e nem percebe, está escolhendo batatas no supermercado e do seu lado uma mulata de proporções consideráveis de luxuria observa-o interrogativa. Um pedaço do universo. Agora a mulata fica sem entender nada mesmo. Estamos aqui escolhendo batatas e tentando encontrar explicações para os mistérios do Universo. Dayse, o nome daquela beldade, diz que seu marido um dia saiu para comprar batatas e desapareceu. Odorico ficou estudando cada expressão daquela face morena e gostosa. Segurava uma batata de maneira libidinosa, Dayse mostrou lágrimas merejando em seus olhos como se fosse um veio d’água descoberto numa ribanceira. O marido daquela mulher nova ainda foi atrás de uma batata e desapareceu. Como pode? Sim, as batatas guardam mistérios que jamais serão elucidados. Nunca mais apareceu?, arriscou perguntar Odorico. Dayse passava seus dedos bem feitos divinamente por outra batata, como se a tivesse masturbando ou esperando dela uma atitude mais drástica, da batata. Meu marido?, repetiu ela. Sim. Não, nunca mais apareceu. Tinha outra na história vai ver, Odorico tinha essa hipótese. Outra batata? Odorico ficou estarrecido. Uma batata alheia, uma outra batata sem importância sentimental tal qual a primeira, aquela que o marido jurou convivência até a morte (ou até que um caminhão de batatas passasse), de repente tudo aquilo, uma vida inteira, virou purê. Pior que Odorico pudesse imaginar. Não se troca de batata dessa maneira. Não é justo. Tchacabum, o apelido do marido traidor de batatas. Quem sabe um dia Tchacabum aparecesse numa surpresa agradável. Dayse já não tinha esperanças. Mas ela confessou que o esperava todos os dias, mas aquele dia que Tchacabum saiu pra comprar batatas foi o fim. O fim, a Última Batata, como se o destino da humanidade estivesse dependendo daquela batata. Dayse chorava, mas sugava o nariz para disfarçar. Odorico pôde ver quando uma lágrima da mulata rolou e despencou do abismo dos seus olhos e atingiu uma batata da banca. Odorico ficou comovido, há milhões de anos atrás mastodontes e mamutes deixaram de existir para nos passar a vez. Mas do que adianta tudo isso nas nossas mãos se ainda não entendemos o real segredo contido numa batata. O que nos reserva este tubérculo rico em carboidrato? Dayse sofria por causa desse tubérculo rico em carboidrato, sofria, sofria. Dayse não tinha resposta para essa dor. Odorico também não podia ajudar em nada. Se pudesse fazer alguma coisa. Mas neste momento agricultores inocentes estão plantando batatas para servir de subterfugio para maridos fujões. Vá plantar batatas! A expressão que ganhou o provérbio popular. Dayse sofrendo. Odorico sem saber o que fazer. Odorico não tinha notado, mas ela estava com o carrinho cheio de batatas. Ele refletiu um minuto, mas não chegou a nenhuma conclusão. Subitamente Dayse se afasta sem se despedir. Odorico fica olhando ela desaparecer ao tomar à esquerda na sessão de farináceos. Volta seus olhos conspurcados para as batatas, pega a batata que foi atingida pela lágrima de Dayse. Seis batatas, mais meio quilo de carne de panela. Pouco depois chegava em casa. Elvira, sua esposa, já preparando os temperos. Odorico pega a batata lacrimejada, segura à frente do seu nariz e pergunta, Como pode? Elvira fica um tempo olhando para ele sem entender. 



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