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   > Dia de Jazz



Lucas Moraes
      CRôNICAS

Dia de Jazz

Olhou para o relógio. Eram nove horas, ele estava atrasado e se deu conta ainda na cama; viu as botas próximas de sua mão esquerda e pegou-as em um salto já para vesti-las. Esquecera que estava de pijamas e sem suas meias, ficou de pé para procurar seu macacão que não estava à vista. Achou suas vestes de trabalho espalhadas por toda a casa: sua camiseta no tapete da porta, suas meias nos corredores que davam aos quartos e seu macacão na janela de seu quarto – “como foi parar lá”, pensou - não tinha tempo para isso e logo começou a se vestir, mas sua atenção foi tomada pela musica alta que vinha da sala; a antiga vitrola de Dorotéia estava tocando, em um nível ensurdecedor e irritante para Ele, uma musica qualquer de jazz dos anos 40. Aquilo tira qualquer tipo de concentração necessária quando alguém acaba de ser despertado de maneira inopinada.

 - Odeio essa música! Desligue isso, mulher! – Exalou com todo o ar que continha nos pulmões.

Ela não lhe deu atenção. Gostava de fazer as tarefas domésticas ao sabor de um jazz passível de ser ouvido a um quarteirão de distância. Os vizinhos já não se importavam mais por que ou estavam trabalhando ou estavam cuidado do lar; apenas Dorotéia tinha uma vitrola que reproduzia musicas tão amistosas, de timbre tão calibrado e que tocava aquelas que agradava a todos do bairro.

Ele notou o desprezo despropositado de sua mulher e continuou sua epopeia contra o macacão que não durou mais do que alguns minutos. O grito somado a musica tinha lhe proporcionado uma disposição descomunal, estava acordado e pronto pra labuta. Pegou sua valise de trabalho e dirigiu-se para a porta quando sua esposa lhe indagou com uma expressão atônita:

-Aonde você pensa que vai? Hoje é domingo! – enunciou essas palavras com um leve tom de deboche somada a um ar maternal; virou-se, com um suave movimento e pôs-se a dançar.

Ele largou sua valise na porta, tirou rapidamente suas botas, desabotoou o macacão e dirigiu-se para geladeira procurando um copo gelado de água acompanhado com uma rodela de limão e disse:

-Aumente o som querida, adoro essa musica!

O que ele não tinha notado é que a musica que tocava ainda era a mesma.


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