Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (204)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2501)  
  Resenhas (129)  

 
 
Arquitetura-03-418
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)



Conquistas,apenas uma...
Itiel Monteiro de...
R$ 26,80
(A Vista)






   > Parede nua



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      CONTOS

Parede nua

            Norma era uma dona-de-casa que queria ir além. Por pensar diferente não era vista como normal pelos seus vizinhos.  O normal era aceitar ser apenas dona-de-casa e ponto final. Mas Norma fingia ignorar as interrogações e os discursos implícitos no olhar de cada um. Mesmo morando na zona rural, com oportunidades mínimas de mudança de vida, ela resolveu enfrentar todo o tipo de preconceito para ir em busca do seu sonho: ser professora.

         Não era fácil para Norma ter que enfrentar aquela jornada. Às vezes, pegava carona em cima de caminhão,  sabia dos muitos degraus que teria a sua frente, mas estudava muito, conseguiria subir aquela escada até o topo, mesmo o sistema empurrando-a para baixo. No vilarejo em que morava era conhecida, talvez, por quebrar tabus… A gravidez na adolescência, mãe solteira e o último deles era sair regularmente por conta dos estudos, colóquios, seminários, congressos, workshop…  as palavras estranhas naquele local contribuíam para aumentar os rótulos.  Vieram as cobranças do diploma na parede. Morava uma casa humilde, mas já havia pintado a parede para colocá-lo, apesar da dedicação daquela jovem senhora de 33 anos,  a parede continuava vazia.

                 A cidade grande era como uma selva de pedras e concretos para Norma. Hostilizada por não fazer parte do grupo urbano, as roupas simples, linguagem monossilábica, olhar triste eram  elementos de escárnios.  Ninguém validava o esforço daquela mulher para chegar até aqueles prédios com bonitas fachadas. Norma levava a sua marmita quase vazia, fruto da dieta forçada. Ela tinha que conciliar despesas domésticas e livros  por conta daquele sonho. Mas, na sala de aula, Norma não passava de um número, especial, talvez, porque aquele local não foi feito para ela.

                 Mas Norma estava ali, contrariando as estatísticas e as normas locais. Firme, mãos calejadas por conta do cabo da enxada, pele bronzeada do sol intenso,  achava-se dura na queda. Nunca vivenciara tanta violência. Exclusão não é apenas expulsar, mas invisibilizar o outro. E Norma naquele espaço  não passava disso, uma mulher invisível.

                Toda semana ouvia uma piadinha do motorista:   “- Ô mulher que dorme fora de casa!”  Não respondia, pois ele não entenderia.  Norma era a Macabéa daquele local, tinha a estranha mania de achar que chegaria a “hora da estrela”.

                    Norma enfrentava os problemas mais difíceis para conseguir o seu diploma, a sua vaga. Era uma prova de resistência… a cada dia subia alguns degraus, mas era obrigada a descer  tantos outros para cuidar do pai da sua filha que retornou muito doente, a filha que segue o exemplo da mãe, engravida na adolescência, e para completar, lidar com a discriminação dos seus colegas mais jovens e apadrinhados. Entre as visitas na UTI e livros havia uma Norma. Entre as teorias e a prática, também estava Norma. Entre a sabedoria e a ignorância, Norma! Mesmo dominando o conteúdo, era sempre a ignorante.

                      Limpou uma lágrima traiçoeira, não sentiria saudade do seu neto que não vingou. Seria mais um que sofreria o preconceito por nascer pobre naquele lugar. Foi esperto, antecipou demais o nascimento, não resistiu!

                     Novas lágrimas, limpou as com raiva. Raiva de ser pobre. Raiva de trazer no nome uma marca. Raiva de ser saco de pancadas da vida. Dessa vez ela não queria perder, não queria descer nenhum degrau, pois foram anos de caminhada, empurrões e rasteiras. Já arranhara bastante, não queria mais nenhuma cicatriz.  As doenças inesperadas vieram para sua família tirando o sorriso, o sono, a tranquilidade, não! Não deixaria levar também o seu sonho.

                 Norma passava sete horas diárias estudando. Às vezes, nos quartos de hospitais, lá estava ela com um livro, enquanto a outra mão  segurava outra  tão necessitada de apoio quanto a sua.  Ensaiou um  sorriso quando viu o resultado da sua prova, nota máxima. Bem, dessa vez nada poderia dar errado,  a vaga  era sua. Quantas vezes Norma teve que recomeçar?  Dessa vez não teria recomeço. Ela conseguira! A sua dedicação valera a pena, iria prosseguir. Até que…

                 –É ELA QUE ESTÁ AQUI DE NOVO?!  Feche a porta, rápido! Não a deixe entrar!

                  – E o que eu falo?  Eu já disse para ela que estava satisfeito…

***

                 Norma ao ser empurrada da escada pela sexta vez, não conseguiu se levantar. Chegou a hora da estrela… sua hora. A escada parecia que movia, talvez na tentativa de protegê-la, mas não adiantou. E corpo chocou-se violentamente no chão.  Aquele ser leve como um passarinho, pela primeira vez, acolhido. O olhar vago e assustado se dirigia   para a parede recém-pintada, pois tantas tintas envelheceram.  Sorriu. E a vida ia passando como um filme… entre o cair e o levantar não teria mais uma norma. Sorriu novamente, acomodou-se melhor, sentia o céu em festa à sua espera, porém, seu último olhar foi para a parede nua.

 



CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui