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   > Isauras e Capitus: A trajetória da Atuação Feminina na Segunda Metade do século XIX.



Ricardo Santos David
      ARTIGOS

Isauras e Capitus: A trajetória da Atuação Feminina na Segunda Metade do século XIX.

 
Na época colonial, tão descrito pela literatura pátria, o comportamento feminino era adaptado desde cedo, sendo a dominação e o silêncio qualidades valorizadas como básicas. Nessa explicação, Gilberto Freyre especifica a maneira pela qual a educação familiar era transmitida:
À menina, a esta negou-se tudo que de leve parecesse independência. Até levantar a voz na presença dos mais velhos. Tinha-se horror e castigava-se a beliscão a menina respondona ou saliente; adoravam-se as acanhadas, de ar humilde. [...] As meninas criadas em ambiente rigorosamente patriarcal, estas viveram sob a mais dura tirania dos pais – depois substituída pela tirania dos maridos. (FREYRE, 1999, p. 421)
 
Por este motivo, a atitude da mulher, sua adaptação ou rebeldia em relação ao papel que sempre lhe foi imposto pela sociedade, é tema habitual na literatura brasileira desde os seus princípios.
Ao analisar a cultura brasileira vigente na época em estudo, Nelson Werneck Sodré destaca que a falta de instrução das mulheres era uma prática social aceita e indiscutível:
Em 1837, finalmente – dois lustros após a fundação dos cursos jurídicos – surgia o Colégio Pedro II: seu curso de sete anos e a amplitude do seu programa revelava a tendência ao ensino universalista e enciclopédico que constituiu traço dominante no nível médio, entre nós. Era, pois, uma “educação de tipo aristocrático, destinada antes à preparação de uma elite do que à educação do povo” destinada a “fabricar uma cultura antidemocrática, de privilegiados” apanhando os filhos-família, [...] ao mesmo tempo que marginalizava a mulher, excluída do campo da cultura e reduzida às prendas domésticas, diferentes daquelas destinadas às escravas. (SODRÉ, 1985, p. 43) (grifo nosso)
 
Esse panorama revela a herança do século XVIII, quando a família era o núcleo mais importante e também o mais impermeável às mudanças que se processavam após a abolição da escravatura, em 1888:
Dos vários setores de nossa sociedade colonial, foi sem dúvida a esfera da vida doméstica aquela onde o princípio de autoridade menos acessível se mostrou às forças corrosivas que de todos os lados o atacavam. Sempre imerso em si mesmo, não tolerando nenhuma pressão de fora, o grupo familiar mantém-se imune de qualquer restrição ou abalo. Em seu recatado isolamento pode desprezar qualquer princípio superior que procure perturbá-lo ou oprimi-lo. Nesse ambiente, o pátrio poder é virtualmente ilimitado e poucos freios existem para a sua tirania. (HOLANDA, 1991, p. 49)
 
A evolução da atuação feminina em um período específico – a segunda metade do século XIX – será estudada através do comportamento de personagens literárias marcantes, que se destacaram, algumas por representar, outras por contradizer, os estereótipos femininos em um determinado contexto histórico-social.
O fenômeno será examinado a partir da apreciação da personalidade e do procedimento das protagonistas retratadas nas obras do período de transição entre o romantismo e o realismo, ou naturalismo, que serão explanadas no decorrer do trabalho.
O período em análise, a segunda metade do século XIX, marcou o declínio do período literário conhecido como romantismo, cujas características principais eram a busca de liberdade de expressão e de pensamento, o nacionalismo, destaque dos fatos históricos que ainda repercutiam em mudanças sociais, individualismo, criatividade, fantasias românticas e idealização da mulher como musa poética e inspiradora. A literatura utilizava metáforas e valorizava as imagens e a linguagem indiretas.
O realismo, ou naturalismo, como também ficou conhecido o período seguinte, inovou tratando da realidade dos fatos e dos problemas sociais, mostrando o cotidiano das pessoas, seus conflitos e tramas psicológicas, relatos sempre temperados com um tom de ironia e traços de amargura, com que criticava a sociedade. Várias obras de Machado de Assis sintetizam essa fase: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e O Alienista.
A transição entre os dois períodos descritos revela-se claramente nas principais tramas publicadas na época, pois em algumas dessas obras personagens femininas essencialmente passivas são apresentadas como modelos exemplares de comportamento a ser imitado pelas senhoras e senhoritas; em outras, a independência e o inconformismo, disfarçados ou declarados, são a marca registrada de personagens femininas que, com determinação e coragem enfrentam a sociedade em que vivem.
Observa-se facilmente que a literatura divide as personagens femininas em duas categorias: na primeira estão as passivas, submissas e dependentes, e na outra as rebeldes, ousadas e autodeterminadas.
Dessa forma, a dicotomia entre a submissão e a rebeldia femininas expõe os valores morais intrínsecos a uma cultura patriarcal, atualmente já ultrapassada (ou quase) de dominação masculina, na qual a mulher pode ser premiada com um final feliz, ou punida com um fim trágico, a depender de sua obediência ou revolta.
A passividade, sempre ligada a qualidades como meiguice e doçura, encontra seu ícone em Isaura, a sofredora escrava criada por Bernardo Guimarães. Ela não se revolta da sua condição de escrava, nem de mulher, resinando-se a obedecer e desempenhar papel subalterno na estrutura social e familiar a que pertence, segundo a qual a mulher, escrava ou não, é mera propriedade masculina.
O tipo feminino representado por Isaura não mostra resistência ou desagrado em relação à dominação masculina, desde que esta seja condizente com a moral da sociedade em que vive. Não busca libertar-se do jugo imposto pela tradição que a inferioriza, se este não ferir os seus princípios de recato e decência, pois nesse caso estaria exposta à censura pública. Retrata a mulher com todas as qualidades essenciais ao papel de vítima da tirania masculina: bondade, pureza, humildade, nobreza de alma.
A personagem Isaura é suave, mansa e submissa. Só não aceita entregar-se sem amor ao seu senhor e dono, mas mesmo nesse momento de protesto sua recusa mostra mais súplica do que rebeldia, quando o fazendeiro Leôncio, seu algoz, procura intimidá-la bradando-lhe que ela é uma propriedade dele, um vaso que tenho entre as minhas mãos e que posso usar dele ou despedaçá-lo ao meu sabor. Eis a resposta de Isaura: Pode despedaçá-lo, meu senhor; bem o sei; mas por piedade, não queira usar dele para fins impuros ou vergonhosos. A escrava também tem coração e não é dado ao senhor querer governar os seus afectos. (GUIMARÃES, 2005, p. 42).
Deve-se ressaltar que o único motivo pelo qual o fazendeiro Leôncio do romance de Bernardo Guimarães exige o consentimento da escrava ao invés de dar vazão aos seus desejos, violentando Isaura sem considerar sua vontade, como certamente ocorreria na época, é a necessidade de preservar a pureza virginal da personagem, necessária ao final feliz, ou seja, seu casamento com um pretendente convencional, para o qual a virgindade da noiva seria um atributo indispensável.
Machado de Assis utilizou o Rio de Janeiro das últimas décadas do século XIX como cenário para apresentar a sociedade burguesa que determinava os padrões de moralidade da época. A monarquia se extinguia, o capitalismo já manifestava sua força, a crescente urbanização valorizava a cidade como centro dos acontecimentos. Como classe ascendente, a burguesia passava a ser relevante, impondo uma nova mentalidade e novas formas de organização social. A mulher ganha relevo, passando a ter participação também na vida em sociedade.
Na obra de Machado de Assis, a ênfase está sempre na personagem feminina, mas as narrações são feitas pelo protagonista masculino, deixando claro que a mulher é mostrada sob o ponto de vista de um homem, que procura entendê-la e situá-la nas novas condições que surgiam com as mudanças sociais, políticas e econômicas.
Capitu, a personagem mais famosa de Machado de Assis, representa a mulher ladina, audaciosa e arguta, maliciosa, que sabe obter o que pretende através de um falso servilismo, que mascara sua astúcia. Ela não entra em confronto direto com as convenções sociais, mas as contorna sinuosamente. Várias situações põem em relevo esse traço da personalidade, uma delas quando ela e Bentinho estudam uma forma de evitar sua ida para o seminário e ele aventa a hipótese de confessar ao padre sua falta de vocação, ao que ela retruca: Pois, sim, mas seria aparecer francamente, e o melhor é outra cousa (ASSIS, 1997, p.32), insinuando que os meios diretos não seriam os mais eficazes.
Também o seu desembaraço, o domínio de si diante de situações constrangedoras, sua naturalidade em disfarçar, mostram uma personalidade afeita a usar de estratagemas, prontamente, para sair de situações difíceis, como na ocasião em que o jovem casal trocou o primeiro beijo:
 
Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhuma contração de acanhamento, um riso espontâneo e claro, que ela explicou por essas palavras alegres (...)
 
Outro atributo marcante da personagem é a persistência de manter sua posição, mesmo quando todas as aparências a tornam insustentável. Ela não se entrega, nem quando Bentinho a confronta com a semelhança patente entre a criança e o finado amigo Escobar. Ela nega, tão firme e desdenhosa que chega a abalar a convicção do marido, mas...
 
Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado, mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando: - ‘Mamãe! Mamãe! É hora da missa!’ restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele, havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada, repetiu as últimas palavras, puxou do filho e saíram para a missa. (ASSIS, 1997, p. 207).
 
Machado de Assis, além de Capitu, criou também heroínas como Guiomar, a jovem fria e ambiciosa de “A Mão e a Luva”, que, como Capitu, usava de meios tortuosos para chegar aos seus fins: desejava casar com Luís Alves, mas, sabendo que a madrinha a queria casada com Jorge, seu sobrinho, fingiu aceitar esse, mas suspirando, de modo a que a outra percebesse que o fazia forçada, apenas para agradá-la, pois esperava que a baronesa não permitisse que a afilhada se sacrificasse:
 
A moça não queria iludir a baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de tática, de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia, se não tomassem à má parte o vocábulo. (ASSIS, 1997, p. 99)
 
Outra personagem célebre do autor é Helena, que opta por entregar-se à morte para preservar sua imagem (atitude romântica e submissa) depois de ter mentido, fazendo-se passar por imã de Estácio com objetivos escusos, de cunho financeiro, pois pretendia receber parte de uma herança (atitude calculista, digna de uma heroína do realismo). O motivo da rendição final é o amor correspondido pelo suposto irmão, o que revela a trama ainda presa aos fios do romantismo e os preconceitos da mentalidade social: a mulher tem inteligência para urdir um plano, bastante iniciativa para realizá-lo, mas não consegue ir até o fim por motivos emocionais, o que revela sua fraqueza feminina.
Já ao produzir “Memórias Póstumas de Brás Cubas” Machado de Assis deixa claro seu rompimento com o romantismo e sua filiação ao movimento realista, pois a heroína não é mais a mulher idealizada, pura e doce, mas sim uma adúltera, que age levada por erotismo e não por uma paixão sentimental. O mesmo ocorre em “Quincas Borba”, escrito já na última década do século XIX (1891), em que a sedutora Sofia age por interesse e não por amor.
Muitos autores produziram obras literárias que trazem figuras femininas que se enquadram nos padrões expostos: no romance “Inocência”, Visconde de Taunay situa no ano de 1860 o amor platônico, de impossível realização, que não consegue transcender aos obstáculos criados pelas diferenças de classe social e de instrução, levando a um final trágico. No entanto, apesar do caráter romântico marcante, a obra apresenta também traços do realismo, na crueza com que expõe as vicissitudes da vida no sertão e a incipiente discussão sobre a autonomia da mulher sobre seu destino.
Personagem mista, pois começa totalmente submissa, resignada e até feliz na sua ignorância do mundo e da vida, e depois, ao apaixonar-se por Cirino, parece tomar consciência de si e da inércia em que tinha jazido:
 
No ano que já passou e por ocasião da Sra. Sant’Ana, aqui vieram umas parentas minhas e caçoaram comigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma delas, a Nhá Tuca, me disse: Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não assunto o que mecês estão a prosear. (TAUNAY, 1984).
 
É o despertar para o fato de que existia no escuro, sua alma dormia, pois ela nada sabia do amor. Ao perceber que deve fazer escolhas, verbaliza seu medo e transfere a decisão para o outro, ao colocar-se nas mãos dele.
 
Escute, Cirino, observou ela, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e deles não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguém me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a perder... Não forma juízo como; mas a minha honra e a de toda minha família estão nas suas mãos.(TAUNAY, 1984)



Entre as mulheres retratadas na mesmo época, temos A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, que é atrevida e audaz, mas inocente, e tempera seus ímpetos de rebeldia com tanta brejeirice que sempre será perdoada, o que também é uma forma de manipulação.
José de Alencar, em vários dos seus romances ambientados no Rio de Janeiro, como Aurélia, de “Senhora”, Emília, de “Diva” e Amélia, de “A Pata da Gazela”, entre outros, traz mulheres dotadas de um espírito livre, independente, inteligente, com certo grau de instrução, embora, ainda assim, ao final, tenham declarado sua rendição ao homem escolhido para dominá-las.
Ressalta-se que a conduta dessas mulheres foi retratada pelos autores que viveram naquela mesma época, antes que ocorressem as modificações sociais que refletiram nos padrões de comportamento da mulher e que resultaram numa quebra das convenções do perfil feminino, o qual passou a sofrer uma inversão de parâmetros. Atualmente, uma heroína, para ser admirada, deve necessariamente ser independente, profissionalmente competente, boa esposa e mãe, também, mas deve valorizar sua inteligência, usá-la com criatividade, coragem e ousadia, tudo isso sem perder de vista a beleza, a elegância, a compostura e a meiguice que caracterizam o estereótipo do ideal de feminilidade.
O que se pretende, portanto, é demonstrar para chegar aos moldes atuais operou-se uma revolução de costumes que teve seu alvorecer no decorrer das décadas finais do século XIX, quando o comportamento da mulher começou a evoluir no sentido de torná-la mais atuante, não apenas no ambiente doméstico, mas também no panorama social que se modificava para incluí-la, passando a valorizar características como inteligência, astúcia, engenhosidade, sagacidade, sociabilidade, iniciativa e talento, o que lhes permitiria, no futuro, ocupar um lugar de relevo na nova sociedade que se formava e também tornarem-se verdadeiras companheiras dos seus parceiros, respeitadas e encaradas por eles como iguais.
 
 
REFERÊNCIAS
 
ASSIS, Machado de. A mão e a luva. Obras completas de Machado de Assis. São Paulo: Globo, 1997.
 
 
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Obras completas de Machado de Assis. São Paulo: Globo, 1997.
 
 
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. Rio de Janeiro: Record, 1999.
 
 
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. São Paulo: Martin Claret, 2005.
 
 


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