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   > EM BUSCA DA DENTADURA DA FUTURA SOGRA



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

EM BUSCA DA DENTADURA DA FUTURA SOGRA


-Gata, sem sombra de dúvida to perdido de amor por tu. Sem o cê não sou capaz de sobreviver. Os apocalipse não tem sentido sem o cê. O cê é minha fonte de amor. O meu amor por o cê é tão grande que fica espremido entre o meu coração e o esôfago. Gata, o cê é a razão de existir dos pernilongos notívagos. Gata, o cê é a razão de existir da paranoia. Gata, você é a razão de existir da psicose. Gata, o cê é a muié que eu escolhi pra nóis viver na miséria...
-Ahnn?
-... digo na miséria, na riqueza, nas doenças nas perebas e na saúde. Gata, o cê é a razão de existir das amebas. O cê produz n’eu uma sensação estranha. Até minhas glândulas sebáceas produz mais sebo. Nossa, gata, cê mora aqui?
Era uma casa antiga, mas reformada, que lembrava o início do século (ele lembrou-se do Tratado de Tordesilhas, das Sesmarias, lembrou-se do sistema feudal).
Havia um gramado na frente. A porta da sala é aberta num safanão e os pais dela são encontrados na varanda dos fundos. Seo Agenor passando pomada no joelho atacado de tendão de dona Joana.
-Pai, mãe!! Esse é Fiapo!!
-Annnn???
-Oi gente. Gostei dos ceis.
-Filha, como é o nome dele?
-Fiapo, mãe. Mas é apelido.
-Gente, os ceis pais da minha gata que eu escolhi pra nois viver junto até um de nois bater as botas, ceis são gente fina. Eu sempre falei pra minha gata “de onde o cê saiu é um lugar de respeito”. Eu falei pra minha gata a placenta que te envolveu é uma placenta dos mais desenvolvidos produtos biológicos da biomassa.
-Mãe, ele ficou apaixonado por mim depois que viu o meu xixi.
-O que?? – Seo Agenor fechou a cara e fechou o punho com força, espremendo o tubo de pomada, pomada espirrou longe e por pouco não acerta a testa de dona Joana.
-Mas foi só pra fim científico, gente.
-Mãe, pai, é que contei pra ele, que eu estava desconfiada de estar com dor no rim devido a uma infecção. Mas o meu gato pediu pra ver o meu xixi e constatou que não era infecção não.
-Eu cheirei o xixi da minha gata. Tenho os sentidos das fossas nasais muito sensíveis.
Seu Agenor ficou um bom tempo olhando de atravessado para o sujeito.
-Mãe, Fiapo cozinha que é uma beleza. Ele quer convidar vocês para provar uma lasanha na casa dele.
-Eu faço questão. Pai e mãe da minha gata os ceis vão provar uma lasanha que os ceis nunca provaram.
Educadamente Seo Agenor e dona Joana recusaram o convite, dizendo que não precisava se incomodar, que uma outra vez quem sabe. Mas foram convencidos veementemente por Lucinha e Fiapo, argumentando que iriam ficar pelo resto da vida indignados e não iriam descansar em paz e talvez nem iriam alcançar o reino do céu.
Então feito.
No próximo domingo todos iriam para a casa de Fiapo.
Fiapo estava muito feliz e emocionado. Chamou todos para uma área que havia nos fundos da casa. Havia uma mesa grande debaixo de uma espécie de coberto. Acomodaram-se todos ali.
-Vamos aproveitá gente, a vida é curta. Os ceis pais da minha gata merecem todo o mió tratamento que existir na face da terra.
Seo Agenor se serviu de um copo de cerveja que foi servida pelo futuro genro e depois fez uma pergunta:
-Não repare na minha curiosidade, mas você, Fiapo, é formado em alguma coisa, estuda, pelo menos?
-Sim, meu futuro sogro. Sei, o senhor tá preocupado se sua filha vai passar fome se casar comigo. Mas fique sossegado. Eu estudo línguas.
-Óóó! Estuda línguas!
-Sim, eu trabalho no frigorífico na esteira de classificação de línguas de boi. Faço um estudo minucioso e só deixo passar as melhores. Sou bom em língua.
Seo Agenor, no impacto da declaração, quase que engasga com a cerveja, soprou tudo longe e quase acerta em cheio dona Joana, que virou de lado para apanhar um petisco num prato.
-Vou preparar os ingredientes para a lasanha.
Pouco depois Fiapo picava cebolinha, quando seo Agenor aproximou-se cauteloso e perguntou:
-Quais as suas intenções com a minha filha?
-As melhores possíveis. Quero casar com ela, funhunhá, fazer ela feliz. Eu tenho um amor por ela que é maior que qualquer coisa.
-O que seria amor pra você?
-Um grude que a gente tem que só gruda com outra pessoa que tem aquele grude.
-Grude?
-Sim, mas quando os grudes são compatíveis.
-A entendi.
Uma hora e meia depois foi servida a lasanha. Uma coisa pastosa estava dentro da assadeira. Aquela substância assemelhava-se a algo borrachudo que a faca não conseguia cortar. Com muita labuta a lasanha foi dividida e colocada no prato de cada um.
-E então, o que acharam? –perguntou Fiapo.
-Nunca vi uma lasanha tão péssima assim. Uma verdadeira porcaria. Desculpe, Fiapo, mas é a verdade. Você é jovem, tem muito o que aprender. Mas tenho que lhe dizer, não posso esconder a verdade, eu não ia me sentir bem, não ia mesmo. Essa lasanha é a pior coisa que já vi na face da terra, dá impressão de um animal marinho desconhecido. Sei lá, uma criatura sem definição. Fiapo, não me leve a mal, mas essa lasanha tá uma aberração. Essa lasanha está horrível, hedionda. Essa lasanha está impraticável. Simplesmente intragável. –respondeu Seo Agenor, -Não vai dizer que é em homenagem á placenta da Lucinha??!
Incrivelmente seo Agenor abraçou o futuro genro e o beijou na testa.
-Mas eu tenho de dizer uma coisa, gostei de você. Pela sua ousadia de nos chamar para apreciar essa lasanha que foi um fiasco, foi uma tremenda derrota sentimental para você, mas gostei. Você foi ousado. –SeoAgenor apertava mais o futuro genro com seu abraço de tamanduá, -Você é ainda dos poucos que restam em cima da terra. Ousado e corajoso.
Certo dia a futura sogra, dona Joana precisava buscar a dentadura que teria ficado pronta, e não tinha quem buscasse.
-Faço, questão. –falou Fiapo.
-Não precisa. –contemporizou dona Joana.
-Eu vou.
Fiapo montou em sua moto Honda Biz e saiu cantando pneu em direção ao Grajaú. Fiapo jurou que traria a dentadura da sogra custasse o que custasse.
Até que não foi difícil encontrar o local Clínica de Próteses DrAjust. Fiapo entrou no imóvel, identificou-se, mostrou a nota fiscal da dentadura. Entregaram-lhe uma caixa, sobre a qual havia o desenho de um sorriso. Fiapo pagou com o dinheiro que dona Joana havia lhe entregue e partiu.
Amarrou a caixa da “joia preciosa” em cima do banco na parte traseira da motoneta e partiu.
Fiapo ia todo sorridente e feliz de estar fazendo uma boa ação. Mas ele não contava com aquilo, o cordão com o qual amarrara a dentadura começou a afrouxar e em poucos segundos, devido aos constantes solavancos, a caixa caiu, ao bater no asfalto abriu-se e a dentadura escapou da caixa. Fiapo no mesmo instante freou a motoneta, fez meia volta, entretanto um cachorro, curioso por ver aquela incrível peça bucal humana, correu, abocanhou a dentadura e saiu correndo. Fiapo gritava para o cachorro soltar aquilo. O cachorro assustado corria mais ainda. Fiapo gritando para o cachorro soltar, gritando ameaçadoramente para o cachorro. E o bendito cachorro não tinha a intenção de soltar a dentadura da dona Joana de maneira alguma. Fiapo desesperado buzinando para o cachorro. Quando em cima do viaduto, o cachorro solta a dentadura, Fiapo vai pegar a dentadura, mas ao frear a motoneta bate o pé na dentadura e ela, chutada, despenca o viaduto, cai em cima de um caminhão de titica de galinha que ia decerto para alguma roça.
Fiapo mais desesperado procura a saída do viaduto. Logo em seguida está correndo o máximo que podia atrás do caminhão de titica. Gritava e com um braço só gesticulava para o motorista do caminhão parar. Certamente que o motorista do caminhão imaginava que aquele doido correndo atrás do caminhão fosse um doido ou um bandido perigoso. O motorista acelerou mais o caminhão. Fiapo ficou em pânico, a aceleração da motoneta estava ao máximo e não podia acelerar mais. Foi quando a ajuda veio do céu. Atraído pelo mau cheiro da titica sobre o caminhão, um urubu fez um rasante e conseguiu bicar e prender em seu horrível bico a dentadura da dona Joana.
Fiapo começou a seguir o urubu pela via marginal, não podia perder aquele urubu de vista. Era o sorriso da sua futura sogra que estava em jogo. O urubu começou a subir mais alto, para a angústia de Fiapo. Ele começou a sentir um calafrio descer pela espinha. O urubu de pescoço esticado procurando alçar voo mais alto. Fiapo em completo desespero, nem conseguia respirar, estava completamente pálido. Mas quem disse que Fiapo não tivesse sorte. Surgiu um outro urubu e começou a disputar com aquele primeiro a dentadura da Dona Joana há mais de quatro mil metros de altura. Naquela briga pela dentadura, a dentadura despencou lá de cima. Por um capricho do destino, a dentadura caiu dentro de uma betoneira que remisturava concreto para construção. Fiapo marcou o local mentalmente onde a prótese bucal havia caído e atravessando uma avenida, uma rotatória e outra avenida, chegou ao local.
Dificil foi convencer os pedreiros funcionários da obra de que a dentadura da sogra de Fiapo caíra dentro da betoneira. Depois de muito diálogo e mostrar como ele estava angustiado por causa daquilo tudo, os funcionário deixaram Fiapo a enfiar o braço no recôncavo metálico da betoneira para procurar a dentadura. Encontrou!!! Envolvida naquele esverdeado da massa de concreto, foi tomando forma a dentadura. Fiapo ficou todo feliz. Encontrara a prótese bucal da futura sogra.
Lavou bem a dentadura, recolocou-a novamente na caixa e dessa vez fixou a caixa embaixo da própria camisa, para segurança. Montou na motoneta e Fiapo foi todo feliz.
Vinte minutos depois ele entregava a dentadura para a futura sogra, que toda feliz o abraçou e olhando para a filha e depois para Fiapo, disse:
-Minha filha, você acertou. Esse é um moço e tanto, difícil de se encontrar nessa terra.


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