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   > PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE A MORTE



José Leilson de Sousa Alfredo
      ARTIGOS

PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE A MORTE

José Leilson de Sousa Alfredo

Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais-SP; Bacharelado em Teologia pela a Universidade Católica do Salvador-Bahia; Psicólogo pelo Instituto Superior de Rondônia e Jornalista DRT 1569/RO.

16 de junho de 2017

RESUMO: “A morte humana pode ser entendida num duplo sentido: como “morrer” e como “morte consumada”. O morrer é um acontecimento da vida e, enquanto tal, pertence à própria condição humana. Pode ser interpretado de múltiplos modos: como fim (acabamento), como consumado (plenitude), como ruptura (mudança), como transformação (realização definitiva). No fundo todas estas interpretações do morrer, o que elas expressam é a compreensão da finitude da vida humana intratempora” (VIDAL, 1996, p. 06).

 

Palavras-chave: Vida.Morte. Revitalização. Corpo e Eutanásia.


Precisamos conversamos sobre a morte, essa dor que não tem cura, a finitude e o aniquilamento da vida! Como é miserável a condição humana e nossa vida sem Cristo torna-se sem sentido, afirmou São Bráulio de Saragoça, bispo (séc. VII) “Ô morte, que separas os casados e, tão dura e cruelmente, separas também os amigos!”

Para Clark (2004) só os seres humanos, entre todas as criaturas vivas da Terra, sabem que um dia vão morrer. Nesse mesmo referencial teórico da tanatologia, Leloup (2010) citando André Malraux dizia que o homem é o único animal que sabe que vai morrer.

O definhamento da vida é progressivamente e gradual o processo de morrer, que segundo Blank (2004), os seres humanos possuem bilhões e bilhões de cédulas vivas, que vão morrendo passo a posso, num processo lento e demorado que o autor denomina de morte clínica (uma morte aparente) que finda na morte biológica (morte real).

Da morte clínica a morte real, contabiliza-se um espaço temporal de 21 dias para que as últimas células do corpo humano morram, sem nenhuma possibilidade cientifica de haver, a revitalização do cadáver. 

A tanatologia, nome dado pelo russo E. Metchnikoff, em 1901, à ciência que estuda os fenômenos sobre a morte constitui um dos grandes interesses do século XXI. Sendo uma das preocupações permanente para a pessoa ao longo da história. A morte ganhou uma importância decisiva no horizonte da reflexão moral.

Recentemente em maio de 2016, os principais jornais de comunicações nacionais e internacionais de nosso país, anunciaram que pesquisadores vão usar células-troncos para tentar ressuscitar pessoas. Uma empresa de biotecnologia tenta fazer algo cientificamente ousado: ressuscitar 20 pessoas clinicamente mortas. Chamada Bioquark, a companhia da Filadélfia obteve aprovações éticas das entidades de saúde dos Estados Unidos e da Índia para o seu projeto (Revista Exames.com: 4 maio 2016).

A ideia desses cientistas é injetar células-troco na medula espinhal de gente que tenha tido a morte cerebral declarada. Isso, em conjunto com a injeção de uma mistura de proteínas, estimulações elétricas do sistema nervoso e terapia a laser no cérebro, suspostamente faria com que o morto deixasse de ser morto.

O discurso sobre a morte atingiu os limites da especialização, criando diversas áreas de interesse. Também a ética encontra na realidade da morte um dos seus campos temáticos mais destacados.

O discurso ético da morte diversifica-se em duas grandes fontes que de acordo com (Vidal 1996) há dupla distinção que se possa estabelecer no fenômeno do morrer:

“A morte humana pode ser entendida num duplo sentido: como “morrer” e como “morte consumada”. O morrer é um acontecimento da vida e, enquanto tal, pertence à própria condição humana. Pode ser interpretado de múltiplos modos: como fim (acabamento), como consumado (plenitude), como ruptura (mudança), como transformação (realização definitiva). No fundo todas estas interpretações do morrer, o que elas expressam é a compreensão da finitude da vida humana intratempora” (VIDAL, 1996, p. 06).

Descreve Vidal (1996) que entanto morte consumada, a morte humana é uma “objetivação” para nós que ainda vivemos:

“É a representação do morrer para uso dos que ainda não morreram. Diante desta representação da morte surgem diversas perguntas: por que se morre? Para que se morre? Por outro lado, diante do morrer, a pergunta básica se reflete nestes termos: quais seriam as condições preferíveis para o acontecimento humano do morrer? ”(VIDAL, 1996, p. 06).  

Por este viés a consideração ética está implicada na interpretação total da morte humana, tanto naquele que tem de “morte consumada”. Como bem afirma Vidal (1996) o ser humano não tem experiência própria da morte. Ela vem-lhe sempre de fora. É certo que o ser humano sofre situações que podem ter alguma semelhança com a morte:

“O sofrimento, a velhice, o sono. Contudo, estas e outras experiências vitais não são em absoluto homogêneas com a experiência da morte. A certeza da morte é um “conhecimento”, mas nunca uma experiência. No máximo, a morte converte-se em “pressentimentos” (VIDAL, 1996, p. 19).

Vidal (1996) afirma que o pensamento da morte “contamina” algumas das experiências humanas e por isso parece que o homem presente experimentalmente a morte. “É a certeza do ‘dever-morrer’ que da à enfermidade, à velhice, à perda da consciência seu caráter de pressentimento”.

A certeza da morte confere ao sentimento de contingência uma tonalidade nova, um som mais agudo e metálico: não somente ela diz ao homem que ele é limitado e contingente, mas também adverte o que essa limitação e contingência se realizam mediante o “dever-morrer”.

No entanto, para Vidal existe uma aproximação com o fenômeno da morte que se assemelha à forma de experiência. “É sentir e sofrer a morte do “outro”, sobretudo quando o “outro” é um ser “querido” e “amado”. “Então a pessoa pode dizer: “morreu-me alguém” ou” a morte me tirou alguém,” e por isso “eu também morri um pouco”. O encontro decisivo com a morte é a morte do ser amado.

Assim nas argumentações de Marciano Vidal sobre o fenômeno da morte, ele descreve “é certo que o morrer é uma “taça” que deve sorvê-la somente aquele que morre; é um caminho que deve ser percorrido solitariamente pelo moribundo. A solidão é um ingrediente da agonia, do combate no qual ele leva desvantagem”.

Neste sentido tinha razão Unamuno quando anotava: “Nós homens vivemos juntos, mas cada um morre sozinho e a morte é a suprema solidão”.  O próprio Unamuno via anunciada essa solidão da morte humana na forma natural que os animais adotam ao morrer, “procurando um recanto para morrerem sós e na solidão”.

Numa perspectiva cristã sobre o morrer, a solidão não é tudo, pois, a morte humana é também a vitória sobre a incomunicabilidade. Nisto consiste a afirmação de Marciano Vidal “aquele que morre sabe que morre em companhia”. Diz o escritor, “o cristão que morre sabe que morre no seio da comunidade dos fiéis em Cristo”. Também podemos encontrar sentido na expressão da frase derradeira de Santa Tereza: “Morro como filha da Igreja”.

Mas falando sobre o aspecto do morrer, é importante descrever sobre o significado da eutanásia que normalmente é definida como a conduta pela qual se traz a um paciente em estado terminal, ou portador de enfermidade incurável que esteja em sofrimento constante, uma morte rápida e sem dor. É prevista em lei, no Brasil, como crime de homicídio.

No uso norma, a eutanásia se define como “morte sem sofrimento físico e, em sentido restritivo, aquela que assim é provocada voluntariamente”. Já nessa mesma definição, parece admitir-se um sentido ampliado (o etimológico de “morte doce”) e um sentido restritivo (morte por ação de ajuda externa).

No uso factual o termo e o conceito de eutanásia têm, na prática, uma grande variedade de sentido, em conversas, escritos, manifestos, movimento e grupos. A eutanásia converteu-se num termo polissêmico. Valham os seguintes sentidos, mas se poderiam enunciar muitos outros:

“Sentido etimológico: boa morte, sem dor. A luta contra o sofrimento, a qualquer preço. Supressão da vida de um enfermo a pedido dele próprio, ou dos familiares, ou dos próprios profissionais da medicina. Decisão de se abster de meios extraordinários, considerados “desproporcionados” na fase terminal, e vistos como obstinação terapêutica. Direito a própria morte, com o significado de morte apropriada, que outros chamam de morte digna”. (VIDAL,1996,p. 55).

Na perspectiva de Leloup (2010) a vida e a morte não estão separadas. Quando os antropólogos e etnólogos estudam a história do cosmo e de sua evolução, notam a presença do ser humano a partir de um certo número de rituais funérios, como se o fato de ser ocupar do ser como mortal fosse o sinal da presença e do nascimento da humanidade.

Leloup faz um questionamento muito sério, sobre a ausência do acompanhamento adequado aos moribundos, a ausência do ritual funerário não seria o sinal, o símbolo do fim de nossa humanidade? Da nossa perda de sentido do humano? Pois o advento do ser humano na história da evolução é marcado pela presença de ritos funerários, como por exemplo, nas grutas do homem de Neandertal.

A partir da experiência da morte, vamos superando e buscando novas formas de saber atenuar o sofrimento humano. Para aliviar a dor temos necessidade de medicamentos. Para consolar a nossa alma precisamos de conforto espiritual e para apaziguar nosso coração temos necessidade de compressão psicológica. E para iluminar nossa inteligência temos necessidade de sentido.

E por fim, precisamos conversamos sobre a morte quer, que seja na tradição cristã ou budista, quer seja ateus ou crentes, para Leloup (2010) somos primordialmente seres humanos que devem enfrentar a dor e um certo número de medos, principalmente este medo do desconhecido que, para alguns, a morte representa. Finalmente, existe o medo da separação, o separa-se dos seres que mais se ama, o medo de deixá-los sozinhos. Este é o medo afetivo.
 
 
BIBLIOGRAFIA
 
BLANK. Renold J. A morte em questão: Coleção de Parapsicologia. São Paulo, SP: Edições Loyola, 2004.

BINA. Gabriel Gonzaga. Liturgia de Exéquias. Mogi das Cruzes, SP: Edições Paulinas, 2008.

LELOUP. Jean-Yves. Além da Luz e da sombra: Sobre o viver, o morrer e o ser. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 7ª Edição, 2010.

VITAL. Marciano. Eutanásia: Um desafio para a consciência, Moralia1. Aparecida, SP: Editora Santuário,1996.
 
 

 


Miguel de Unamuno y Jugo. Nasceu em Bilbau, a 29 de Setembro de 1864, e, faleceu em Salamanca, a 31 de Dezembro de 1936. Unamuno foi um ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol. Passou seus últimos dias de vida em prisão domiciliar. Em 1894, Unamuno abandonou as idéias positivistas que cultivara e aderiu ao socialismo. Três anos mais tarde, abandonou o Partido Socialista e viveu um momento de crise pessoal e depressão. Defensor de ideias republicanas, Unamuno escreveu um artigo considerado injurioso ao rei Afonso 13 e foi deportado para a ilha de Fuerteventura, no arquipélago das Canárias, em 1924. Apesar de anistiado, o pensador se exilou na França. De sua obra, podem-se destacar as narrativas "Paz na Guerra" (1895) e "Névoa" (1914); os poemas de "Poesias" (1907) e "Andanças e Visões Espanholas" (1922); e os ensaios filosóficos "Vida de Dom Quixote e Sancho" (1905) e "A Agonia do Cristianismo" (1925). Fonte: Enciclopedia Gran Espasa Universal, Madri (2007).
 


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