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   > EMBARQUE - A CASA - ESCONDIDO POR TRÁS DA BARBA



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

EMBARQUE - A CASA - ESCONDIDO POR TRÁS DA BARBA

   EMBARQUE
O rebento, aoembarcar no trem, recebe de imediatocapa de um livro, somente. Dia pós dias, vão lhe surgindo páginas, assim como nascem folhas nas árvores - naturalmente. O bebê começa a garatujar suas folhas iniciais, aos olhos e vigilância da casa. Aos pouco, a criança passa a fazer rabiscos significativos, com ensinamentos e carimbos dos pais.
O tempo é rápido, e mais ligeiro ainda é o trem que conduz o menino às estações - ele leva; mas não o traz!  E é com notório contentamento que o garoto vê a plataforma do Inverno - sua primeira estação - ser deixada para trás: #a viagem é ininterrupta e ele nem faz ideia do que essa locomotiva lhe preserva!
Eis que surge aPrimavera. Ali, arrebatado pela formosura de suas flores e belezas de suas formas,o adolescente pensa que tudo sabe! Vêm-lhe projetos à mente; tantos sonhos que nem lhe cabem! Indiferente aojovem no ápice do seu êxtase, o comboio prossegue para uma terceira estação. E convicto de que é dono da verdade, o rapaz nem percebe quando a Primavera é deixada para trás.
O Verão lhe resplandece. As flores, logo, se despetalam: algumas se fazem frutos - doces, insípidos, azedos e amargos - conforme as sementes escolhidas e plantadas. Muitas, porém, nem vigoram: murcham, secam e caem.
A partir de então, o porvir fica por sua conta e risco: o rapaz fez-se homem emancipado! Entretanto, ao moço nem cabe saber de que seu livro esteja no clímax, descambando para o desenlace final;embora ele perceba algumas páginas já ficando esmaecidas e frágeis. E o trem, em marcha, força-o a seguir estrada. E agora com ele, em seu vagão, um homem vai!
À frente, mais uma estação o aguarda. É provável que esta lhe seja a última, portanto, lá estando, é hora do senhor ler e revisar tudo que escreveu, durante toda viagem. E enquanto dure o fatídico Outono, o idoso ainda segue lendo e escrevendo em suas débeis páginas envelhecidas e enrugadas, até o instante que o trem pare.
 
A CASA
 
Era uma humilde casa, e quem de longe a observava somente via uma simples residência tosca: de perto, não muito diferente; rústica e vazia. Se por instantes adentrava, apenas percebia muitos cacarecos: panelas de barro, tralha e pouca mobília. Mas, de suas paredes emanava alguma coisa que só a pessoa ali permanecendo sentia!
Naquela modesta morada, aparentemente sem vida, tinha algo muito especial: assim diziam  vizinhos e amigos.
Casa pequena, contudo, nela cabia muito: #varanda e sala; uma cozinha com despensa; dois quartos... Ela era do tamanho do mundo! E o banheiro ficava de fora; bem afastado, nos fundos! #De taipa, toda coberta com palma: palhas de coqueiro maduras e abertas, assim se dizia, mas na verdade, tinham que ter seus filamentos fechados, e suas partes ajuntadas para tal serventia!
#Um lindo jardim ladeava. Nele viam-se muitas flores; lindas rosas, que uma só Rosa cuidava! #Atrás, havia um imenso quintal com muitas árvores plantadas. Ali brotavam muitos frutos; frutas diversas e variadas: manga, romã, caju, carambola, mamão, coco, pinha, goiaba... Tinha, também, parreiras, limoeiros, pés de graviola, araçá e mangaba!
Hoje, tantos anos já passados!... E eu ainda me lembro, perfeitamente do tempo que, sem me importar com proventos, fui muito feliz nessa casa!
 
ESCONDIDO POR TRÁS DA BARBA
 
No decorrer dos nossos dias; no passar dos anos, a gente conhece, convive e deixa para trás muitos “eus”. Apesar dos tantos, há sempre um e outros que gostaríamos de sê-los ou tê-los eternamente conosco.
Quase uma década depois de ter deixado Teiê na Estação da Primavera, eu retornei ali, onde nos separamos. Voltei para rever minha gente: minha mãe, parentes e amigos que não os via por exatos nove anos#. 
À minha chegada, ainda no porto, - o acesso a esse povoado era exclusivamente através de canoa ou veículo com tração nas quatro rodas, mesmo assim, bastante dificultoso# - muita gente foi me receber; saudar e me ajudar com a bagagem. E por todo aquele dia a casa de dona Rosa - segundo a própria - nunca teve, ali, tanto entra-e-sai.
À noite, depois da ceia, ainda na sala de jantar, em volta da mesa sentaram-se em dois bancos grandes e duas cadeiras: Chica de Dedé, Judite, Natália, Maria de Elvira, Joaquim, o irmão Alfredo com esposa Lurdes. Minutos mais tarde, também chegaram João Mick, Maria de Totonho, com Totonho, Detinha e Braz. Esses sentaram em cadeiras avulsas.  
A prosa se estendeu por mais de quatro horas. Todos me pediam a cidade; o que ela tem, e as coisas que ela faz. Eu lhes exigia bem mais; tais como luz elétrica, posto de saúde, estradas de rodagem, ensino de primeiro e segundo graus - lá só havia Mobral e ensino básico (primário) -, água encanada, um porto decente para embarque e desembarque; coisas que ao ser humano se faz necessário. Infelizmente, o meu pequenino Coqueiro, depois de nove anos não havia mudado; não tinha sequer um projeto cabal! Eu lhes perguntava, e com muita resignação concluíam: “Oxente, menino! E aqui, político faz nada?!”.
Já no final da visita, alguém - quem, não me lembro - quis saber o que Teiê diria de tudo aquilo, depois de tanto tempo afastado! E Alfredo, rindo, me perguntou:
- Falando em Teiê... E agora, como ele está?
Antes mesmo de responder, Chica de Dedé Valente, com seu jeito singular, se antecede:
- Gente; Teiê morreu, e nove anos já se passaram! Não é mesmo Luiz Carlos?
- Sinceramente, eu não...
Fui acudido por dona Rosa que, se levantando da sua cadeira, pôs suas mãos sobre meus ombros, com sessenta e seis anos de erudição e prosas, comedidamente disse com um sorriso sincero e calado:
- Teiê morto? Rhum! Morreu nada! Ele só cresceu, e se escondeu por trás da barba!
Minha mãe, como sempre muito sábia, mais uma vez mostrou o que todo homem ignora depois de perder seu maior tesouro e se vê diante do nada: se retrai; se acomoda e se esconde por trás da barba!
 
 
 
                           


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