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   > Resenha sobre "Os Egmons" escrita por Nelson Hoffmann



Airo Zamoner
      RESENHAS

Resenha sobre "Os Egmons" escrita por Nelson Hoffmann


UMA VOLTA AOS BONS TEMPOS
 

Nelson Hoffmann

 

         Parece incrível mas aconteceu. Se alguém me contasse, ou anunciasse, eu não acreditaria. Mas, aconteceu. Comigo. Eu voltei aos bons tempos de ontem. Eu fui jovem, fui adolescente. Voltei aos tempos em que a leitura era gostosa, o prazer da leitura inebriava e contagiava. Li um parágrafo, fiquei curioso, li mais um, desandei e caí na aventura. Os acontecimentos precipitaram-se e eu perdi o fôlego. Quando emergi e acordei, um suspiro de gratificação: eu tinha lido “Os Egmons”, de Airo Zamoner.       

         A bibliografia de Airo Zamoner é de bom volume e as atividades culturais do autor já eram destaque na década de 70. Natural de Joaçaba, SC, criou-se e vive no Paraná. Contista, cronista e romancista, divide suas realizações por jornais, sua própria editora e publicação de livros. Os títulos vão crescendo e despontam “Os Dez Encontros da História”, “A Construção”, “As Companhias do Presidente”, “Os Diabanjos” e “Bagunçando Brasília”, entre outros. O público-alvo costuma ser a juventude e a temática envolve problemas sociais e políticos. Em tom de leitura bem-humorada, cheia de mistérios, o leitor é levado a reflexões.

Assim acontece com “Os Egmons”. Este é uma aventura juvenil e o leitor é preso desde a primeira palavra: - Atenção aqui, pessoal! No segundo parágrafo, o leitor é hipnotizado: o professor, que exigira a atenção, sentara sobre a mesa, balançava uma perna e o pé do professor estava sendo iluminado por uma réstia de sol. Seus olhos (do herói) eram puxados, (...), para aquele pêndulo insistente. O leitor vai junto e percebe, no chão do estrado, logo abaixo do pé do professor, uma leve marca quadrada sob a mesa. Parecia uma tampa escondendo a entrada de um provável porão:- Por que esse alçapão dentro de uma sala de aula?

A questão está lançada, cabe ao herói desvendar o mistério. E começa a aventura.

A ação transcorre toda em ambiente escolar e é atual. Os personagens principais estão divididos em duas quadrilhas de jovens, tendo ambas os seus apoiadores externos. O enredo, como em toda boa aventura, é uma sucessão de obstáculos a serem vencidos, até a vitória final. No fim, o Bem vence o Mal. 

Tudo isso é banal, sim, eu sei. Parece mesmo, e seria, se não tivesse eu ficado preso desde a primeira palavra até o ponto final do livro. E olhe que eu peguei o livro com ânimo profissional, com a intenção de anotar-lhe a estrutura, ver-lhe o detalhamento das cenas, a construção dos personagens, enfim,  descobrir os truques do autor na confecção do relato. Curioso, curiosidade atiçada, esqueci-me, mergulhei na aventura e preocupei-me tão só em desvendar o mistério que se escondia sob aquele alçapão, naquela sala de aula.

Estas notas são de uma segunda leitura. Na primeira, eu terminei no mais puro reino da fantasia, em pleno sonho, imaginando-me a receber também um e-mail com a assinatura de Os Egmons. Em verdade, “Os Egmons” é uma lenta caminhada da cotidianidade das nossas vidas rotineiras para o mundo da total magia, magia que mora em cada um de nós e que nós, entorpecidos, esquecemos ou ignoramos. Eu fui absorvido pela magia.

Por que teria eu sido absorvido? Leitor veterano que sou, já li algum milhar de livros e comentei alguma centena deles? Por quê?  

         Na releitura eu notei alguma coisa. Observei que o texto foi excepcionalmente bem construído. Cada detalhe foi cuidadosamente pensado, o autor foi de uma meticulosidade à toda prova. Nada foi improvisado, nada é insignificante. Tudo tem seu valor. Um exemplo:

Quando a diretora da escola entra em cena, a apresentação é feita em minúcias. Várias características são destacadas e é salientado um fato bem interessante: a insistência que a diretora tem em não se separar de sua agenda preta. Ao cabo, já no arremate, é feita uma observação que parece despretensiosa: Quando alguém chegava perto (da diretora), sentia um cheiro horrível de cigarro, mas ninguém nunca a vira fumando. Talvez nem fosse cheiro de cigarro... E não é que o detalhe não era nem um pouco despretensioso, não?

Cada pormenor é importante, sempre complementa o anterior e sempre aponta para o seguinte. Isso mantém o leitor em contínua atenção e impede qualquer lampejo de suspensão da leitura.

         E há a linguagem, que é viva, ágil, elétrica. Não há grandes descrições, só rápidas pinceladas, fundamentais. Os diálogos predominam, caracterizando pessoas e dinamizando a ação. Além de mostrarem a vida em movimento, ainda sinalizam soluções pela troca das experiências vivenciadas. 

         “Os Egmons” é um texto escolar, jovem. Para todos. Os personagens são gente que nos cerca, que nós mesmos somos: alunos, professores, pais, amigos, inimigos, drogas, violência, tráfico, pesquisa científica, perseguição política, sonho, ilusão, desengano, saúde, educação, maldade, bondade... Veja-se a questão pedagógica que é lançada de cara, no primeiro parágrafo, quando o professor pede Atenção aqui, pessoal!. Na seqüência, o professor afirma:

- Fazer contas é trabalho que devemos entregar às máquinas e não aos nossos cérebros. A eles, vamos reservar tarefas mais nobres.

         Não é essa uma questão que preocupa escolas, professores, alunos e pedagogos: usar, ou não usar, a calculadora em sala de aula?

         Assim é o livro inteiro. Há uma infinidade de temas abordados, todos matéria para uma infinidade de debates. Aliás, essa é uma das grandes características do autor: escrever histórias que permitam várias leituras transversais. “Os Egmons” está nessa linha, em ponto alto, e proporciona mil e uma leituras diferentes, trazendo à baila problemas latentes em todos os momentos de nossas vidas.

         Mas, tudo isso, e mais, eu só considerei numa segunda leitura. Na primeira, eu simplesmente sumi do mundo e mergulhei, de corpo inteiro, por aquele alçapão adentro, naquela sala de aula. Quando voltei à tona, inspirei fundo, expirei devagar. Satisfeito, eu senti que respirava juventude, estava renovado, remoçara, era adolescente de novo. Eu tinha voltado aos bons tempos de uma leitura gostosa, tempos que eu achava que não voltavam mais.

         E que voltaram, agora. Com “Os Egmons”, de Airo Zamoner.

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Autor de Eu Vivo Só TernurasE-mail: n.hoffmann@via-rs.net  

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