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   > Um Autor a Serviço da Consciência



Airo Zamoner
      ENTREVISTAS

Um Autor a Serviço da Consciência

Entrevista a Tânia Gabrielli-Pohlmann© Versão alemã: Tânia Gabrielli-Pohlmann e Clemens Maria Pohlmann ©

Há pouco mais de dois anos, tive a felicidade de conhecer Airo Zamoner, através de amigo comum, o escritor Nelson Hoffmann. Foram centenas de idéias trocadas diariamente. O brilhantismo de Airo Zamoner ultrapassa os limites pessoais e se expande através de sua literatura. Uma obra extensa, que se propaga diariamente através de vários veículos de comunicação. Seu ritmo de produção é raro, já que não se pode dizer que disponha de tempo para tanto. O exercício de criação é parte de sua vida cotidiana, embora esta inclua tantas outras atividades. Airo Zamoner é diretor da Editora Protexto, em Curitiba.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Airo, conte um pouco a seu respeito. Quem foi Airo na infância, por exemplo...

Airo Zamoner: Tive uma infância tumultuada. A lembrança mais antiga beira aos dois anos, quando acompanhava minha irmã mais velha ao Colégio, em Joaçaba, Santa Catarina, cidade em que nasci. Era um Colégio de freiras. Lembro-me de ser muito bem tratado por lá, até paparicado . Quando voltava, passava sempre na cantina do "nono", meu avô. Ali, sempre tinha uma conversa, um doce, um carinho. Depois de algum tempo, mudamos para Londrina, no Paraná. Lá, vivi até os onze anos. Sempre tive um temperamento difícil e brigão. Fui sempre um inconformado com tudo, por isto arranjava briga muito fácil. Acabei sendo expulso da Escola Nossa Senhora do Carmo, uma escola particular. Fui parar num Grupo Escolar, como se denominavam na época as Escolas públicas de Primeiro grau. Como meu pai tinha fazenda no interior, situada entre Maringá e Paranavaí, havia pouca oportunidade de estudos para os meninos. Acredito que esta situação, e minhas dificuldades comportamentais acabaram por me levar para o Internato Paranaense, em Curitiba. Foi lá que ampliei o gosto pela leitura. Vivíamos numa espécie de dupla cidade, ou duplicidade. Havia a cidade legal, onde todas as regras eram cumpridas e todas as conversas seguiam os cânones, e havia a “nossa cidade”, com regras próprias, para serem cumpridas e quebradas. Em “nossa cidade” havia até violência e, por incrível que pareça, algumas “entidades” da cidade legal transitavam por “nossa cidade”. Foram anos duros, mas produtivos. Tínhamos aulas pela manhã e horários rígidos para estudos, à tarde. Na grade curricular, além do Português, estudávamos Latim, Inglês e Francês. Ficaram marcas de grandes mestres que tive.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Como se deu sua ligação com a literatura?

Airo Zamoner: Naquele tempo de Londrina e mesmo de Internato, a escola não obrigava o aluno a ler, mas tínhamos que ir à biblioteca uma vez por semana escolher um livro e levá-lo conosco. Lembro-me que o devorava no primeiro ou segundo dia e ficava ansioso a espera da nova visita às estantes de livros. No Internato Paranaense, em meu horário de estudos, descobri o Karl May, um autor alemão que me empolgou profundamente. Li os onze volumes de sua mais famosa coleção de aventuras, que se passavam nos mais diversos cantões do mundo. Personagens como Winnetou e Iron Man ficaram indeléveis na memória. Depois de Karl May, vieram outros autores, como Monteiro Lobato. Não me considero um lobatiano, mas ele fez parte de minha formação, tanto quanto os clássicos brasileiros e portugueses o fizeram. Tínhamos “leituras permitidas” e “leituras proibidas”. Os livros permitidos, líamos às claras. Os gibis que me fascinavam, não só pela arte dos quadrinhos mas pelas histórias empolgantes, tínhamos que ler às escondidas. Mesmo os mais inocentes eram terminantemente proibidos. Provável reminiscência do Index Librorum Proibitorum...

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Qual o seu critério, ao iniciar um conto, um livro, uma crônica?

Airo Zamoner: Para cada gênero, obrigo-me a adotar critérios diferentes. Como escrevo semanalmente para jornal, a crônica é a mais freqüente. Faço durante a semana anotações de temas interessantes para abordar. Muitas vezes, chegada a hora, não aceito nenhuma de minhas próprias sugestões. A crônica é inspirada sempre em fatos do cotidiano. A vida política tem sido uma tônica pela luta que exerço na busca por um mundo mais responsável e justo. O conto exige mais planejamento, embora os que escrevo sejam geralmente curtos. Há que se definir um esboço, criar e construir os personagens, mesmo que seja um só. Sua-se um pouco mais. Quanto ao romance, é trabalho de mais fôlego. É preciso que as unidades dramáticas se encaixem com lógica e verossimilhança. Planeja-se muito mais. Faço esboços e até fluxogramas para encadear adequadamente todos os fatos e pormenores. Só depois disto, começo a criação do texto.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Clarice Lispector disse, em entrevista, que jamais utilizara a literatura para desabafar. Em alguns de seus textos detecta-se sua indignação com relação ao cenário político brasileiro. Como você consegue manter o elemento poético, apesar do “desabafo”?

Airo Zamoner: A indignação é poética, Tânia. Sempre há poesia no desabafo. Por outro lado, não acredito naqueles que falam em arte pela arte na literatura. Sei que alguns se esforçam para isto, talvez com a intenção de passar aos leitores um sentido acima dos mortais. Conheço um autor de grande renome, que faz questão absoluta de afirmar que faz “apenas literatura” e não está interessado se ela muda ou não muda as pessoas. Bem, Tânia, não sei se decepciono alguns leitores, mas não pertenço a este time. Talvez pelo fato de escrever para jornal, tenho um feed-back mais intenso dos leitores. Recebo muitas ou poucas manifestações, dependendo de meu texto. A literatura é uma forma de comunicação e como tal, o autor “fala” com seus leitores. Obrigatoriamente passa indignação, tristeza, drama, revolta, poesia, lirismo, romance, valores e o que mais se queira listar. Em minha visão, é impossível não ser assim.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Em vários livros seus, como em “Bagunçando Brasília”, “Os Diabanjos” e o novíssimo “Contos de Curitiba”, há personagens e elementos “sobrenaturais”, legendários. Você se considera um homem místico?

Airo Zamoner: Absolutamente não! Sou o contrário. Estudei a vida toda em escolas particulares, salvo breve exceção que te contei há pouco, e todas elas eram religiosas. A religião católica fez parte de minha infância inteira e boa parte da adolescência. Mas sempre fui desconfiado da doutrina. Pequeno ainda, me revoltava quando via a riqueza das vestes e dos anéis do bispo, expostos desbragadamente para ser beijado pela fila de crianças. Como coroinha (que palavra antiga!) vi coisas que nem é bom contar. Sempre contestador, defeito do qual não consigo me livrar, incomodei muito meus professores. Era e ainda sou cheio de dúvidas. Coloquei sempre em cheque os dogmas, as crenças, o misticismo. Definitivamente, não sou um crente. Mergulhei na doutrina marxista. Vibrei com tantas utopias e me salvei delas, até descobrir que não há salvação fora da natureza humana, que não é pura bondade. Daí criei os diabanjos, um retrato do que somos. Ou seja, diabos e anjos simultaneamente, em doses que ora favorecem um ora outro. Assim, crio personagens que beiram a irrealidade apenas para trazer o leitor para a mais dura realidade. O caso que você citou dos “Contos de Curitiba”, por exemplo, foi bem curioso. Escrevi 10 contos ambientados em locais importantes da cidade. Para isto, caminhei muito por Curitiba, pesquisando, analisando e conversando com muita gente. Encontrei pessoas interessantíssimas. Elas inspiraram a construção de vários personagens. Foi uma experiência magnífica: partir da realidade para a ficção.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Semanalmente, você escreve textos para várias publicações. Neste ritmo de criação é possível o “mergulho nos sentidos” durante o ato da escrita?

Airo Zamoner: Acho que abro um hiato em minha vida, cada vez que me fecho no estúdio para escrever. Tudo desaparece e fico mergulhado num mundo irreal, mas ele se cria a partir da realidade, dos sentidos palpáveis. Eles é que vão me ligar à criação literária que está, quase sempre, “fora dos sentidos”.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: O que significa, para você, o ato de escrever?

Airo Zamoner: Essencialmente significa comunicação. Embora o ato de escrever seja um ato solitário, ele me faz entrar na mente e nos corações de muitos leitores. Como tenho o privilégio do retorno de muitos que me lêem, o ciclo da comunicação escritor-leitor, leitor-escritor se completa.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Quais os autores que você lê?

Airo Zamoner: Tenho leituras obrigatórias, por dever de ofício e as prazerosas. As obrigatórias passam por originais que chegam sem parar à Editora e os leio no curso do dia. Sofro com eles porque tenho que tomar uma decisão sobre o que dizer para o ansioso autor. Quase nunca tenho boas notícias. Vou te dizer os livros que ficam na cabeceira da cama. Estes, eu leio todos os dias antes de dormir. Terminei “Budapeste”, do Chico Buarque. Na programação, “O fotógrafo”, do Cristóvão Tezza que acaba de ser premiado pela Academia Brasileira de Letras como o melhor romance de 2004. Acho que nesta altura da vida, tenho mais relido que lido. Fustel de Coulanger e sua “Cidade Antiga”, por exemplo. Devo começar a re-leitura do imortal escritor espanhol, Miguel de Cervantes motivado pela passagem dos 400 anos da sua obra magna “Dom Quixote de la Mancha”. Na fila, Tocqueville!

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Como surgiu a idéia da Protexto? Existia antes do Portal?

Airo Zamoner: A Protexto é bem anterior ao portal. Foi fundada com o objetivo de editar material didático para o ensino de informática. Só no início de 1999 foi tomando o perfil de editora de meus textos literários. O portal chegou como uma exigência dos tempos. Não se sobrevive mais fora da Internet.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Alguns de seus livros foram adotados por escolas públicas no Estado do Paraná. Você mantém contato direto com escola e bibliotecas?

Airo Zamoner: Hoje menos que na minha primeira fase, porque você sabe que embora não tenha parado de publicar, parei de escrever por quase vinte anos, tendo voltado somente em 1999. Hoje, não tenho mais feito o corpo-a-corpo com estudantes. O contato é mais através da Editora. Mas tenho uma satisfação sempre renovada, vendo meus livros adotados, comentados, estudados, criticados. É isto que completa o autor e “explica” a tarefa de escrever.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Em seu livro “A Arte de Escrever – desvendando mistérios” (Protexto, 2004), você lança mão de uma linguagem simples e contagiante. Trata-se de um livro exclusivamente dedicado a jovens?

Airo Zamoner: Este livro surgiu de uma imposição. Com a abertura do Portal da Editora ampliou-se muito a comunicação com autores novos. Aqueles que ainda têm dúvidas se o que escrevem tem ou não algum valor e principalmente aqueles que estão ávidos por fazer literatura. Surgiu então um curso on-line que eu ministrava pessoalmente. Nesta tarefa, surgiram escritores que publicaram suas obras como o Maurício Cintrão, a Arlete Meggiolaro, o Ian Stein. A Arlete, inclusive está já em vias de publicar seu segundo livro. Acontece que não dei mais conta. Tomava muito tempo e eu sempre quis dar um atendimento pessoal a cada um. Este trabalho teve que ser interrompido, infelizmente. Foi aí que surgiu a idéia do livro, reunindo todas as aulas e exercícios. Respondendo a pergunta, o livro não é exclusivamente para os jovens de idade, não. É para todo aquele que deseja ter à mão um manual que o ajude na caminhada em direção à produção literária de qualidade.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Há espaço para o autor iniciante no Portal da Protexto? Qual o critério para a publicação?

Airo Zamoner: Há espaço, sim, mas, como você bem sabe, Tânia, temos privilegiado a qualidade. Quando alguém entrar em nosso Portal, terá a certeza que tudo que ler será de ótima qualidade. Para alcançar este objetivo, temos que ser um pouco rígidos, orientando os mais novos a estudarem mais, escreverem mais e buscar o aperfeiçoamento. Aí sim, estarão prontos para o Portal. E neste mister, se me permite Tânia, você tem tido um papel importante, examinando minuciosa e criteriosamente todos textos que entram no portal, sugerindo aperfeiçoamentos.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Você acredita na “morte” do livro, em função da internet?

Airo Zamoner: Muito se falou sobre isto. Falava-se também na morte do jornal impresso. E se a relação vale, os jornais têm suas versões pela Internet e a mídia impressa está aí, crescendo de vento em popa. Com o livro, é a mesma coisa. Não acredito de forma alguma na “morte” do livro no formato atual. Há diferenças cruciais entre o livro de papel e o e-book, ou os livros em pdf ou html. Estas diferenças residem no tipo de leitor que procura a Internet. Nela, ele quer rapidez. Textos curtos. Informações rápidas e precisas. O chamado e-book, mesmo com os aparelhinhos imitando livros, não deixam de ser um computador portátil, com todas suas desvantagens. O livro impresso tem algo mais, indefinível até. É possível que não morra nunca.

Tânia Gabrielli-Pohlmann: Airo, qual o papel social do escritor, especialmente no Brasil?

Airo Zamoner: Por mais que se negue, todo escritor quer provocar alguma reação com o que escreve. E mais que reação, quer provocar mudança. A palavra é uma arma silenciosa e poderosa. O livro é um verdadeiro arsenal bélico! É também arte e não deve perder nunca este escopo, mas ele é transformador. O escritor tem esta responsabilidade, mesmo que não queira, ou não deseje. Só não transforma a sociedade o livro que não é lido. Bom ou ruim, sempre provoca alguma coisa na mente dos leitores. A literatura não está ao acesso do povo por inteiro, porque o acesso à cidadania é conquistado muito lentamente. A própria democracia fica comprometida quando não temos um povo cidadão, ou seja, um povo consciente de seus direitos e deveres. Um indivíduo cidadão é aquele que exige o cumprimento de seus direitos porque os conhece, e cumpridor de seus deveres porque também os conhece. O livro pode desempenhar este papel fundamental, principalmente no Brasil. As bibliotecas devem se proliferar, oferecendo o livro por empréstimo gratuito para quem deseja ler. Em Curitiba, por exemplo, temos os Faróis do Saber, uma idéia fantástica que semeou bibliotecas, hoje informatizadas e abertas para a comunidade, nos bairros distantes da cidade. Inspirados no Farol de Alexandria e sua biblioteca fantástica, criminosamente extinta, os nossos Faróis do Saber estão equipados com cerca de 2.000 a 5.000 exemplares formando um acervo seleto e importante. É assim que vamos democratizar o acesso aos livros: criando bibliotecas e abarrotando as escolas de livros. Afinal, não foi por nada que Castro Alves deixou grafado em Espumas Flutuantes: “Oh! Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia... e manda o povo pensar! O livro caindo n’alma é germe que faz a palma. É chuva que faz o mar!”



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