Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (638)  
  Contos (933)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (202)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2496)  
  Resenhas (129)  

 
 
Dança de Salão:...
Maristela Zamoner
R$ 29,80
(A Vista)



Os filhos di dora
Carlos Augusto Vieira
R$ 67,40
(A Vista)






   > Cãimbra do escrivão, a deficiência, o deficiente e a felicidade.



Maristela Zamoner
      ARTIGOS

Cãimbra do escrivão, a deficiência, o deficiente e a felicidade.

Como portadora da cãimbra do escrivão, entendo que, a partir do momento que compreendemos, mesmo que em linhas gerais, a natureza biológica do problema e a condição em que a Ciência se encontra diante dele, podemos nos posicionar com atitudes e pensamentos para descobrir formas de sermos felizes, o que, acredito, deveria ser o objetivo principal de cada ser humano. Para sermos felizes, precisamos ser produtivos, fazendo parte da sociedade de maneira contributiva.
Li muitos trabalhos científicos até entender bem o que é esta condição e as escolhas que temos diante dela. Talvez por ser bióloga, percebi logo, um ano antes do meu diagnóstico, em meados de 2001, que não era um problema ortopédico. Fui direto a um neurologista, que me encaminhou para outro e para outro até obter o diagnóstico. Quando soube o que tinha, tive muito medo de que esta distonia se espalhasse pelo corpo e me tornasse uma inválida. Um ano após o diagnóstico, eu já agregava, além da cãimbra do escrivão, uma distonia cervical que me aborrece mais do que a cãimbra do escrivão. Mas, depois de muita leitura, percebi algumas coisas importantes:
1 – Não tem cura – é difícil aceitar, mas, é a realidade de hoje. E as alternativas como botox, medicamentos, canetas diferentes, troca de dominância, fisioterapia, aprendizado de braile, além de não garantirem e nem trazerem o restabelecimento da função da escrita de forma estatisticamente aceitável, podem trazer mais problemas devido a seus efeitos colaterais;
2 – Vivemos num tempo em que a escrita manual pode ser totalmente substituída por outras formas de escrita – digitação, por exemplo. Estamos num momento da história em que a tecnologia nos favorece sobremaneira – celulares com os quais podemos anotar recados e fazer contas, palmtops, laptops, microcomputadores e cada dia surgem mais e mais recursos impressionantes que se tornam necessários para garantir confortavelmente nossa inclusão. Mesmo sem recursos financeiros, devemos buscar tais tecnologias como forma de adaptação.
Só com isto, já e possível ser feliz, desde que possamos entender que tentativas em direção a recuperar a escrita manual serão inúteis e frustrantes, pelo menos no ponto que a Ciência está.
Trata-se de um problema cerebral, de maneira simplificada e resumida, uma desordem envolvendo um neurotransmissor (acetilcolina), resultando em contração simultânea de músculos antagônicos (quando um se contrai, outro deveria relaxar e no nosso caso, ambos contraem, provocando incompetência na atividade e dor). Possivelmente, existe uma relação entre nossa patologia e Parkinson. Entretanto, ainda há muito que se conhecer para definir esta questão seguramente. Alguns tratamentos cirúrgicos experimentais vem galgando sucesso absoluto com Parkinson, talvez a solução futura de nosso problema, já esteja nesta mesma caminhada.
Ao longo deste tempo, também li inúmeros relatos e desabafos de portadores desta patologia, me correspondi com algumas dezenas deles e observei que cada um escolhe como se posicionar diante do problema. Inicialmente, todos nós nos desesperamos um pouco e temos medo de várias coisas, especialmente se temos um pouco mais de conhecimento. Mas, depois que passa esta fase, aparentemente igual para todos, surgem as diferenças de pessoa para pessoa. Observei, em geral, 4 grupos distintos.
1 - Muitos, apesar de se apropriarem dos saberes a cerca da patologia, passam suas vidas insistindo em escrever e tentando as mais variadas alternativas, canetas especiais, talas, fisioterapia, tratamentos psicológicos e/ou psiquiátricos, uso de medicamentos que causam ou não dependência, aplicações de botox, gastando horas e horas para aprender a escrever com a outra mão e se frustrando ao aparecer o problema nos dois membros, aprendendo braile, sem falar nos que buscam alternativas fora do campo formal do conhecimento humano. Neste grupo encontramos várias pessoas que, pela insistência acabaram tendo mais problemas, até mesmo como lesões provenientes do esforço exagerado e continuado na atividade da escrita manual, sobrecarregando além do limite suportável suas estruturas anatômicas, danificando-as permanentemente. Não podemos ver isto como uma persistência quixotesca envernizando de nobreza, porque suas conseqüências podem ser piores que a própria patologia, o que a meu ver, não parece nem ao menos inteligente. Quando houver cura para cãimbra do escrivão, estas pessoas continuarão com os problemas das lesões que adquiriram pela insistência cega na escrita manual. Deste grupo, não conheço nenhum que tenha encontrado algo satisfatório, nem mesmo alguma paz interior ou harmonia na convivência com a cãimbra do escrivão. Frustram-se a cada tentativa e conseguem mais problemas, porque a realidade é que, ainda, nada corrige satisfatoriamente este problema.
2 - Alguns, fazem destas tentativas poucas vezes, em certos casos até por orientação médica experimental, que deveria ser procedida apenas mediante consentimento informado e, depois, acabam por perceber o status quo da patologia e se adaptar a outras formas de escrita. Lamentavelmente, alguns destes, trazem para o resto das vidas as conseqüências das poucas tentativas, como lesões permanentes. Mas, de uma forma ou de outra, quando as lesões das tentativas não são incapacitantes, passam a conviver bem com a cãimbra do escrivão adaptando-se a outras formas de escrita.
3 – Poucos, desconhecem o assunto e não sentem nenhuma necessidade de conhecer. Não conseguem alcançar o caráter da cãimbra do escrivão e seguem cegamente orientações médicas, sofrendo toda sorte de intervenções experimentais, pagando o preço das escolhas feitas por seus médicos. Alguns destes tem a fortuna de receber orientações que permitem uma escolha consciente e galgam alguma felicidade.
4 - Outros, assimilam o fato de que ainda não existe cura e que todo e qualquer tratamento disponível atualmente tem um “preço” que pode ser mais caro que o de nenhum tratamento. Adotam uma postura plácida diante da realidade, cientes de que tentativas de voltar a escrever ainda não tem fundamento sólido, adaptam-se e aguardam a consagração de novidades, serenamente, sem nem saber se haverá tempo para eles mesmos se beneficiarem de uma possível cura, porque realmente não importa, já estão adaptados. Estes, se vêem como deficientes e se colocam na sociedade como tais, conseguindo adaptações para a plena participação da grande construção que a humanidade faz no planeta e isto é tão mais importante, que a cãimbra do escrivão fica relegada a uma mera característica individual. Este grupo de pessoas é o único que conheço que vive plenamente feliz e, quando muito, apenas cogita uma solução satisfatória e definitiva (cura ou tratamento eficiente sem efeitos colaterais relevantes) que a Ciência, também como produto humano, trará, cedo ou tarde. Estas pessoas não sentem dor, não destroem estruturas anatômicas forçando uma escrita que não têm mais e nem colecionam frustrações, porque assimilaram que não tem mais condições físicas de desempenhar esta função. Concentram suas energias nas outras funções para as quais tem total capacidade. Este grupo, talvez de fato meio “Poliana”, consegue ver que esta deficiência é uma das mais fáceis de conviver e que ainda pode trazer facilidades para a vida como um todo, como o sistema de cotas. Independente da opinião que tenhamos disto hoje, se é um sistema correto ou não, justo ou injusto, ele esta aí agora e pode beneficiar quem tem cãimbra do escrivão. Minha opção foi esta, depois de diagnosticada, publiquei 8 (oito) livros, fiz especialização, mestrado e passei em primeiro lugar no concurso público para o cargo que ocupo atualmente, de biólogo em Curitiba, que abriu apenas 2 vagas e teve cerca de 1500 concorrentes. De outra forma, ainda estaria concentrando meu tempo de vida e minha energia na insistência de escrever a mão e não em produzir e fazer parte da sociedade.
Entendo que, cada um de nós, sabedores do que é a cãimbra do escrivão e suas atuais possibilidades, deve decidir o que quer para si agora e no futuro, de acordo com sua natureza. Cada um de nós tem a escolha:
1 - Dedicar tempo insistindo em tentar escrever a mão, assumindo riscos de mais problemas físicos e frustrações, em certos casos, servindo de cobaia em procedimentos e tratamentos experimentais questionáveis;
2 - Dedicar tempo para, como um deficiente, escrever da forma que é possível, por exemplo, digitando, o que além de ter uma chance significativamente menor de trazer lesões e frustrações é a possibilidade de concentrar o tempo de vida produzindo, participando da sociedade, sendo feliz.
Vejo claramente que algumas pessoas “tem o problema” enquanto outras, “são o problema”, agarrando-se a uma necessidade psicológica de escrever a mão, quando isto, atualmente, não é mais indispensável além de não ser mais possível para nós. É o que faz toda diferença sobre viver bem ou não. Pois, a cãimbra do escrivão não é razão suficiente para fazer alguém infeliz e nem para que se aumente a dificuldade além dela mesma, então, a questão é a escolha que cada um faz quando se depara com esta realidade e isto é individual.
Enquanto isto, a Ciência segue seu rumo e talvez um dia solucione a nossa dificuldade, indistintamente. Até lá, a felicidade do portador da cãimbra do escrivão e a possibilidade de participação plena na sociedade, depende exclusivamente dele mesmo.


30 de janeiro de 2009



CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui