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   > O Segredo de Todas as Coisas



Cesar Silva
      CONTOS

O Segredo de Todas as Coisas

Este texto faz parte da Coleção Contos Atlantes e está sendo divulgado em primeira mão aqui no site da Protexto:

Trovoadas rompiam o céu enquanto o célebre veleiro sobrevivia à força das ondas.

            No convés, uma senhora de cabelos acinzentados levantava uma pequena arca e proclamava um encantamento secreto.

            - Pelo Te Tra Gram Ma Ton eu conjuro os céus, a água, o fogo e o ar. Silfos do vento compareçam. Obreiros da terra fortifiquem meu cajado. Sereianos obedeçam-me. Salamandras que no fogo habitam ardam nas chamas. Pelo Pentagrama que carrego em minha destra: Fecha-te SÉ...

            Porém, ela interrompeu seu ritual mágico e aos brandos prosseguiu:

            Xcelssiuxs!

            Enquanto dizia a palavra de poder,uma bolha azulada saiu de sua boca e rapidamente a encapsulou.

            Uma explosão se ouviu no convés. Uma lança de fogo verde defletiu no campo de força que a envolvia e acertou o último dos sete mastros da embarcação, fazendo-o desabar.

            - Tola! – Disse um jovem pardo que vestia roupas de couro, de guerra. – Crê que sua bruxaria pode impedir que eu leve o segredo ao meu Senhor?

            - Tenho certeza disso, jovem mestre!

            - Pois está enganada. Eu tenho uma missão e vou cumpri-la custe o que custar.

            - Isto pode valer sua própria vida.– A senhora bateu seu bastão no piso e a grande esmeralda em sua ponta cintilou uma luz prateada, e depois continuou. – Guf et ignis!

            O chão debaixo do jovem ruiu e ele despencou.

            Ela retirou do bolso de suas vestes um anel. Nele havia uma pedra hexagonal de safira. Ligeiramente, encostou a jóia no trinco do misterioso baú que carregava e concluiu seu feitiço.

            SAMO!

            Treze pequenas serpes passaram a circundar a caixa. Elas tinham saído da própria madeira enegrecida que a constituía. Doze delas a lacraram com seu próprio corpo. A derradeira,entretanto, circundou o trinco e mordeu sua cauda. Suas presas brilharam por instantes, e depois, todas se fundiram à arca.

            - O segredo está lacrado com os quatro elementos da natureza.

            A bruxa sorria e a contemplava de braços erguidos os raios que a tempestade oferecia. Contudo, foi surpreendida pelo mantra de seu inimigo.

            PRRR-I-MUS!

            A caixa começou a tremer em suas mãos e se arremessou ao ar, caindo entre o mestre e a feiticeira.

            Ambos travaram uma disputa na corrida.

No caminho havia inúmeros corpos de marujos decepados ao chão. A velha escorregou no sangue que escorria de um deles. O mestre avançava saltando e apontando uma espada de fogo esverdeado contra seu alvo.

PI-E-TRROS! – Disse ela direcionando seu bastão atlante para o rapaz.

            O jovem, magicamente, ficou com os pés colados ao chão.

            - Você é apenas um comensal, um patético servidor. Este segredo não pertence a seu Mestre, Chronos me deu essa tarefa e você não irá estragá-la!

            - É o que veremos sua velha coroca. Libera!

            Um jato de fogo atingiu seus pés e eles se libertaram, porém, já era tarde. A bruxa havia furtado seu intento e corria saltitando os defuntos caídos.

            Enquanto fugia, ela pronunciava palavras mágicas e inaudíveis, até que sentiu novamente o baú tremendo como se estivesse vivo e largar, contra sua vontade, suas mãos.

            A arca voou pelos ares ao mesmo tempo em que uma onda gigantesca cobria o veleiro e tudo que nele havia.

            A senhora ainda viu quando o baú caiu nas águas tormentosas do ruidoso oceano e o jovem mestre acionando um cubo lúmen, que com sua luz fria e branca,transpassava todos os sólidos como se fossem feitos de cristal, enquanto a água banhada por ela ficara transparente como gel.

            Em seguida, atirou-se em busca da arca, mas antes de sumir na tormenta, a mulher ainda ouviu, de longe, sua ameaça final.

            - Vai morrer Pandora! Inercio!

            E o veleiro, simplesmente, partiu-se em dois. 



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