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   > cár.ce.re [fragmento]



Gustavo Schaefer
      CONTOS

cár.ce.re [fragmento]

... Ao sair do trabalho, passando por uma rua qualquer, derrotado e infeliz - com a barba por fazer e cheirando a bebida - voltando para sua modesta, mal-cuidada e minúscula casa, ele presencia, em um beco sujo e largado, um assalto a uma mulher que havia acabado de sair do banco. Meio que despertado de seu marasmo pela violência da situação, ele olha o que está havendo e fica encarando a terrível cena de forma apática, como não se dando conta do ocorrido. O assaltante volta-se para John de forma ríspida, ameaçando-o com o mesmo revólver que apontava para a mulher, por estar ali, testemunhado o crime. A reação de John, ainda completamente indiferente a tudo, é categórica:

 

- Oh, mate-me. – Disse ele, acenando para frente com a mão esquerda. Fique à vontade... mas, sinceramente, acho que não valho nem mesmo a bala dessa pistola. – Parou John por alguns segundos - Nem ela vale - referindo-se à vítima, e nem você vale, referindo-se ao assaltante - Muito menos você... aliás, nada vale.

- O que?!? Você... seu... – Tentou dizer a mulher surpresa pela situação – Não fique aí parado, faça alguma coisa! Ajude-me!

- Calem a boca! – Retrucou o assaltante, estupefato.

 

John se virou e continuou andando - no mesmo preto e branco em que se encontrava antes – sem revelar qualquer preocupação, ou medo. 

 

         Instantes após, o assaltante, mesmo que ainda meio que pasmo pela rala filosofia e pela coragem – ou menosprezo – de John, percebeu a aproximação de dois policiais que cruzavam a rua conversando e que, de longe, não podiam vê-lo, ou sequer notavam o que se passava. Tratou então de arrancar num supetão a bolsa da mulher, empurrando-a e deixando-a caída sobre um monte de lixo e saiu correndo. Quando ela também notou finalmente os dois policiais, gritou com tudo o que pôde e um dos dois tiras correu para acudi-la, enquanto o outro, seguindo sua indicação, saiu em perseguição ao assaltante – bandido este que o policial sequer havia visto. Enquanto isso, na virada da esquina, John seguia para casa, ainda em estado de torpor. Ia atravessar uma movimentada rua quando o assaltante passou como uma flecha pela calçada, derrubando-o no meio da via e sumindo logo após, por dentro de uma ruela apertada. John, jogado em plena rua - com carros parando de supetão e desviando dele custosamente - levantou-se, numa reação contraditória à sua indiferença pela vida, porém compreensivamente instintiva e, num pulo, correu em meio aos veículos para se salvar. O policial, ao dobrar a esquina - e sem o assaltante à sua vista - tratou de seguir John, que viu correndo pela rua com o sinal aberto, e derrubou-o na outra calçada com violência. O policial apressou-se em algemar John, sem dar ouvidos as suas explicações e aguardou que seu companheiro chegasse com a vítima do assalto. A mulher logo se aproximou deles, e quando ela já estava prestes a soltar as primeiras palavras, a fim de explicar que não era aquele o ladrão, o policial, que revistava bruscamente John, disse:

        

         - Não há nada com ele.

         - Parece que ele se livrou da bolsa, senhora. Desculpe-nos, mas sendo assim, mesmo com o seu depoimento nós não poderemos fazer nada além de interrogá-lo e talvez detê-lo por algumas horas. Não há provas. – Disse o outro oficial, que estava junto a ela, achando saber o que havia acontecido.

 

         A mulher reconheceu prontamente John e ao ouvir o que disse o policial, relutou em dizer a verdade, visto que estava obviamente assustada ainda, mas também profundamente irritada com a atitude – a falta de atitude na verdade – daquele homem, segundos atrás e a poucos metros dali. Pensando mais um pouco, a mulher esboçou um sorriso quase vingativo e surpreendentemente disse:

 

         - Mas ele me roubou! Será que nem com o meu depoimento ele vai preso?

         - O quê? - Disse John, pasmo.

- Infelizmente não podemos prendê-lo sem provas, senhora. – Afirmou o policial, que na verdade não sabia o que realmente se passava. – Podemos ir até e Delegacia, a senhora presta queixa, faz o reconhecimento formal e ele será interrogado. Não se preocupe, tenho certeza que seus pertences serão encontrados logo. Ele vai falar.

 

         - Argh... falar o quê? Eu não fiz nada! Diga a eles! Diga a eles! – John falou com alguma fúria - um dos pouquíssimos, talvez único - sentimentos que lhe restava. 

 

         Após pensar por alguns breves segundos, a mulher chegou à conclusão de que não seria capaz de acusar aquele homem por algo que não havia feito. Ela não faria isso pura e simplesmente por raiva, por algumas palavras sem sentido que ele havia dito, ou ainda pelo mal grado que teve em não ajudá-la. Mas, talvez frustrada com a situação, resolveu mesmo assim levar aquilo adiante mais um pouco:

 

- Certamente, oficial. Vamos até a delegacia, vou prestar queixa. Quero que este homem seja interrogado. Se ele disser onde estão minhas coisas, eu retiro a acusação. – Disse, piscando para John como uma mãe brava dando uma lição ao filho, enquanto os dois policiais davam as costas carregando-o.

- O que?!? Isso é absurdo! Esta mulher está mentindo, eu não tenho culpa de nada! O cara passou correndo por mim...

- Ei, ei! Fica quieto, cara! – Retrucou o oficial, interrompendo-o em tom forte. - Você tem o direito de permanecer em silêncio. Use-o.

 

Percebendo a intenção da mulher em puni-lo, John renunciou sem demora às tentativas de se defender e cedeu. Até mesmo porque, a esta altura, nada que acontecesse seria capaz de resgatar-lhe alguma força, ou ímpeto – há tanto desaparecidos.

 

Chegando à delegacia, o oficial tratou logo de registrar a ocorrência. A mulher prestou depoimento e fez o reconhecimento do suspeito. John, sem esboçar qualquer reação, foi então colocado em uma sala no próprio departamento de polícia, para ser interrogado. Logo entrou um policial mal arrumado, vestindo jeans largados e uma camisa desbotada com um blazer jogado por cima; a barba por fazer e na mão um sanduíche gorduroso, embrulhado num papel.

 

- Meu irmão, o negócio é o seguinte. O dia tá cheio aqui hoje e eu tenho mais o que fazer... não vou ficar perdendo tempo com ladrãozinho de esquina, tá certo? – Disse o policial – mastigando num tom desinteressado.

- Eu não fiz nada! Sou inocente.

- E quem não é? Ninguém que vem parar aqui tem culpa de nada, certo? – Replicou o policial, manifestando impaciência.

- Olha aqui, eu estava passando pela rua quando vi o assaltante, o verdadeiro assaltante, e essa maluca aí fora foi gritando – Disse apontando para a sala ao lado. - A cena me chamou atenção e eu parei... não devia ter parado, devia ter seguido em frente e a essa hora já estaria bem longe daqui.

- Uhum, claro... mas que imaginação fértil hein rapaz? Indagou ironicamente o policial, ainda mastigando rudemente.

- Não fiz nada, não fiz nada. - Continuou John, em um semi-transe.

- Ah, me poupe desse papinho idiota!

 

Ciente de que o policial não tinha porque acreditar nele (e pelo jeito, mesmo que tivesse, provavelmente não o faria) John então só conseguiu abaixar a cabeça e gargalhar debochadamente – não podia imaginar que isto estava acontecendo com ele.

O policial emendou com rispidez: - Ah, então você acha isso engraçado? – Expeliu todo o ar dos pulmões com força - Eu também estou de bom humor, sorte a sua.  Vamos fazer o seguinte então, você abre logo o bico e diz onde foi que enfiou a bendita bolsa daquela senhora que eu te libero. Ao contrário, eu vou ter que “consertar” esse teu lindo sorrido. – Disse, socando a mesa com força.

 

John já não sabia se continuava enfurecido com a situação, ou se achava ainda mais graça de tudo aquilo. A verdade é que não parecia ter capacidade de sentir nada.

 

- Você não está ocupado com outras coisas mais importantes? Não foi você mesmo quem disse? Então, vai lá cuidar da tua vida e me esquece aqui.

 

De supetão o policial puxou John da cadeira pela camisa e disse:

 

- Olha aqui meu camarada, eu prometi para mim mesmo que ia não perder mais do que um minuto do meu almoço pra resolver isso. Pelo jeito já se passou mais tempo do que eu imaginava e eu perdi foi a minha paciência contigo. Arremessou-o contra a parede.

 

            John escorregou lentamente com as costas pela parede até cair sentado no chão. Nesse momento passou por sua cabeça um flash dos últimos momentos - A arma do verdadeiro assaltante apontada para ele, a mulher gritando enlouquecidamente, os carros brecando de repente no meio da rua, o “tira” lhe algemando. Sua cabeça era um turbilhão, ele já não raciocinava. John entrara num jogo de circunstâncias e estava ciente disto. Já não se interessava mais em provar que estava sendo injustiçado. Sua única vontade agora havia se tornado uma necessidade. Queria tomar uma atitude em relação a tudo aquilo ...



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