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Anna Maria Tagliavini
      CONTOS

CARDO

BAGNA CAUDA ( ou “Fondue”do Piemonte )  passo a passo.    Encha o pote cerâmico de um  aparelho de fondue  com azeite, até quase metade.Coloque muuuuuuuuitos dentes de alho, em torno de uma cabeça por pessoa. Aqueça previamente na boca do fogão até que o alho comece a dourar, acrescentando em seguida anchovas   (uma por pessoa ) e 5 colheres de sopa de creme de leite.  Leve então o pote ao fogareiro (“réchaud” ) no centro da mesa .Espalhe, rodeando o recipiente, pratos com  quadrados de pimentão verde, amarelo e vermelho, outros ainda  com buquês de couve-flor, de brócolis, cebola em quadrados, aspargos, cogumelos, e cardo ( erva espinhosa da  família dos cactos, originária do Velho Mundo ) . Todas as verduras devem estar semi-cozidas na água e sal , “al dente” ou seja, quase cruas.  Pra finalizar, prepare também um prato com pão italiano cortado em cubos. Cada participante mergulha os vegetais um a um na gordura quente que a esta altura já terá sido impregnada com o aroma dos ingredientes. 

Dica – no dia seguinte, o amalgamado que sobrará no chão do recipiente poderá se transformar num magnífico molho para o talharim do almoço. Mmmmmmmmm... Mas, tudo al dente pelo amor de Deus, hein? Importante.

   

Pronto. Foi só Pierluigi bater os olhos na receita de Bagna Cauda ao folhear seu caderno de culinária, que pintou aquela saudade: da “terrinha” Torino, capital do Piemonte, uma das províncias da Itália, cidade bem planejada por ter nascido de acampamento militar romano , soldados heróicos que ajudaram Napoleão a ganhar boa parte de suas batalhas, do vinho Barolo, orgulho da região. Na fumaça esbranquiçada do cachimbo, olhos hipnotizados, visualizou    os pinheiros nevados, as arcadas das velhas construções sóbrias e elegantes,  sua avó tricotando meias para os soldados, mãe na cozinha preparando iguarias para a família.

 

Quando tinha 39 anos, seu pai, general de brigada, prevendo derrota da Itália na guerra, mandou Pierluigi para o Brasil antes que a tragédia tomasse maiores proporções. Aqui chegou em 1939, e pode-se dizer que durante seus longos primeiros anos sofreu um processo de adaptação ( desadaptação ? ) difícil  e penoso: problemas na comunicação por desconhecimento da língua, usos e costumes diferentíssimos, gastronomia ( como poderia um “cordon bleu” como ele , livro de cabeceira “Larousse Gastronomique”, habituar-se ao arroz-feijão ridículo de cada dia?), incapacidade de compreender a enorme   distância  social entre as várias classes, pobreza, violência e..........., ainda por cima, ausência do cardo. De todos os defeitos atribuidos à terra nova reputava a inexistência do cardo como o mais grave de todos. Em outras palavras , se não tem cardo não tem nem Bagna Cauda, pois não existe um sem o outro! Tal legume é imprescindível no fantástico prato típico. E aqui não tem cardo. Imperdoável. Absurdo ! Como pode ser uma coisa destas ? Como tinha ele vindo cair num  país que desconhece tal iguaria? Ninguém merece! Como é possível alguém ir pra frente na vida, desenvolver-se, tornar-se nação próspera sem cardo? Estaria o país fadado a permanecer subdesenvolvido para sempre? Bem, se sua primeira vontade ao ler querida receita foi pôr mãos à obra e preparar deliciosa bagna cauda pra matar a saudade, a segunda foi desistir. Afinal, como iria ficar comestível prato sem a erva? Impossível. Não fazia o menor sentido.  Desistiu. Voltou assim para sua costumeira  casmurrice contra tudo e contra todos. Mais se indispunha , mais sentia saudade da Itália e mais sonhava em um dia, voltar. Era sua grande esperança, quem sabe.

 

E......não é que o dia chegou? Surgiu de repente a oportunidade de voltar para rever a filha que lá tinha deixado, e que não via há mais de 20 anos. Sequer conhecia os netos! Sem pensar duas vezes lá se foi Pierluigi feliz, gravata de seda, terno de grife. Já no avião levou seu primeiro susto: os patrícios viajavam de jeans, camiseta, tênis. Que esculacho! Antigamente não era assim! Onde os ternos bem cortados? As calças de veludo? As bolsas feitas à mão? As blusas em palha de seda creme com seus laços estruturados? O lanche oferecido a bordo pela companhia de aviação italiana estava frio e americanizado. Horrível! Na alfândega foi destratado, pelas ruas não via mais gente chique, nas lojas era atendido com impaciência, já não suportava mais o calor artificial da calefação. No Brasil o calor era natural , não precisava de máquinas para gerá-lo. No entra e sai dos lugares... calor – frio – calor – frio – resfriado em cima de resfriado. Assustou-se com a fisionomia séria das pessoas: ninguém sorria. Dançavam, cantavam, aplaudiam orquestra sinfônica, tomavam sorvete, contavam piada, sempre com cara feia, como se estivessem indo para o cadafalso. Frieza no abraço ( já teve a sensação de abraçar um esqueleto? ), nos elogios, nos relacionamentos. Os brasileiros eram diferentes! Sempre dispostos e com sorriso nos lábios! Gente afável e acolhedora!  De repente sua culta Itália, bela Itália, civilizada Itália tinha se transformado num grande museu de cera onde os figurantes em forma de estátuas brincavam de viver, aos gritos, prepotências, deseducações. Que coisa! Não é que sentiu saudade do Brasil? Quem diria, hein? Os imigrantes muitas vezes congelam em suas memórias as fotografias estanques de seus  países de origem, mas, na realidade, tais países, vivos que são, continuam a se transformar à revelia,  afastando-se da imagem petrificada. Paralelamente o país adotado envolve-os de tal maneira que , seres humanos que são, vão, aos poucos, paulatinamente se modificando, se adaptando. A certo ponto sentem-se peixes fora d’água tanto lá quanto cá. É triste. Voltar, nem que seja a passeio, é saudável, pois coloca-os frente a uma realidade desmistificada. Real, atualizada, verdadeira. Paralelamente ao chamamento do seio materno, testemunham mudanças indesejadas.  Incrementa-se em seu emocional, um maior apego à terra adotada. Voltam mais agradecidos. Sua alma torna-se mais gentil,  brasileira, amaciada, e eles mesmos, mais felizes. Reconsideram a palavra a-dap-ta-ção  que talvez seja a mais bonita de qualquer dicionário.

 

Foi assim que Pierluigi , quem diria, “cordon-bleu”, livro de cabeceira “Larousse Gastronomique”, voltou pro velho arroz com feijão, desta vez conformado. Aceitou pela primeira vez encarar a Bagna Cauda sem cardo mesmo. Fazer o que? Não lhe pareceu tão ruim assim. Curtiu mas, claro, dissimulou. Fez literalmente a cara de quem comeu e não gostou e italianamente comentou : ....... “era buona, quaaaaaasi excellente , ma se avesse il cardo sarebbe perfetta”. (estava boa, quase excelente, mas se tivesse cardo estaria perfeita).

 

Dar o braço a torcer, jamais. Não fazia seu gênero.



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