Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (217)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2528)  
  Resenhas (129)  

 
 
Estátuas-02-161
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)



CLT Fácil de Entender
Aluisio Barbaru
R$ 41,30
(A Vista)






   > GUITA É DIFERENTE!



Airo Zamoner
      CRôNICAS

GUITA É DIFERENTE!

Guita não foi menina como as outras. Nem moça era como tantas. Quando mulher, sempre especial. Envelheceu e está sentada lá fora. Lê mais um romance. Seus óculos pendem sobre o nariz. Muito ladinos, porém, deixam a fresta superior para espiadas curiosas.
Adora o verão. Única época do ano que a convida para sua caminhada curta e o deleite da praça.
Uma olhadela furtiva. Um espanto. Uma garotinha encolhida. Lágrimas silenciosas. Rejeição violenta para as brincadeiras do grupo. Cai para trás, perdendo apoios.
– Sai pra lá! Você só atrapalha. A gente quer brincar...
Não há tempo para argumentos contra o desprezo. Não há lenitivo. Há dor. Há lágrimas escorrendo emudecidas pelos longos caminhos do seu presente, do seu futuro.
Guita observa aflita, angustiada, penalizada, espantada com a semelhança. A imagem, a menina, a violência, as lágrimas, o abandono. Tudo muito conhecido. Viveu muitas vezes a mesma cena. Um aperto grande no peito leva sua mão ao coração. Vontade de se aproximar. Explicar o sofrimento inexplicável. Misturar as lágrimas. Revelar o caminho duro que a espera. Suavizar os espinhos cruéis que por tanto tempo dilaceraram impiedosos sua alma de criança, de moça, de mulher. Contém-se diante de suas próprias limitações. Entristece os olhos. Intempestivamente, reage. Acena frenética. Primeiro com uma das mãos. Depois com as duas na esperança de que a visse e pudessem trocar consolos.
Inesperadamente, a pequerrucha limpa as líquidas cicatrizes. Ergue a cabecinha e se depara com Guita, alucinada, gesticulando. Ela ri descontraída, quase gargalha, lambendo restos de choro salgado, numa mistura desinibida de tristeza amarga e alegria doce.
Guita não pára. Aumenta os gestos quanto pode e abre sorrisos imensos. A pequena retribui. Ergue os pequenos braços, expondo as palmas gorduchas. Guita sincroniza os gestos, suavizando movimentos. Inicia uma dança ritmada. Para a esquerda, para a direita. A menina aumenta o riso e imita o ritmo com maestria. As coreografias se sucedem: ora é Guita que inova, ora é a pequerrucha que inventa.
Nenhuma palavra. Apenas gestos, ecoando mensagens densas pelos ares, suavizando corações em sintonia, quebrando aflições, abrindo brechas de paraíso. Efêmeras, é certo, mas brechas luminosas a afrontar, corajosas, a amargura insistente dos seus destinos.
As brincadeiras do grupo se interrompem. A praça paralisa a vida estúpida. Estupefatos, todos se fixam nas duas, enlouquecidas de prazer numa dança de braços, mãos, sorrisos, provocando as alegrias mais intensas a compensar agruras antigas e agruras do porvir.
Alguém bate suavemente no ombro de Guita. É hora de se recolher. Do outro lado da praça, a mãe da garotinha ergue-a do chão. Ajeita as pequenas muletas e volta ao treinamento. Guita, já de costas, gesticula um adeus, sumindo em sua cadeira de rodas.


Airo Zamoner é escritor
airo@protexto.com.br


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui