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   > NO TEMPO DO LOTAÇÃO



Adélia Maria Woellner
      CRôNICAS

NO TEMPO DO LOTAÇÃO

– Vamos fazer a meia-noite!?
Esse misto de convite-ordem de meu pai era praticamente a senha desencadeadora de um reboliço emocional. O coração de criança-menina palpitava em expectativas. Não importava identificar o que sentia. Bastava sentir e se entregar a esse sentimento.
Era domingo. Meu pai e eu termináramos o serviço de entrega de pães em torno do meio-dia. Chegada a hora de a caminhonete Ford-41, descansar, pois, afinal, estava funcionando desde as três e meia da madrugada.... Enquanto o motor esfriava, a comida fumegante era servida na mesa simples, retangular, que ficava na cozinha, ao lado do fogão a lenha. Não havia novidade. O almoço de domingo mantinha a tradição: macarrão, posta ensopada, às vezes recheada com toucinho, salada de batata com molho maionese caseiro. Minha mãe misturava as gemas de ovo (uma, cozida, bem amassada, com gema crua) e ia acrescentando o azeite aos pouquinhos, mexendo bem com o garfo, para não talhar. O colorido do molho acentuava e dava brilho à suave cor das batatas cortadas em rodelas. Depois, normalmente, a sobremesa: pudim Medeiros... Em dias especiais e muito raramente, uma gasosa Cini era o acompanhamento festejado.
Depois do almoço, necessário dormir um pouco, pois, era dia de “fazer a meia-noite”.
Final de tarde... O ronco do motor denunciava a chegada do lotação, para a troca do motorista.
Internacional... essa a marca. Conhecida, lá pelos idos da década de 50. Robusto, esse quase ônibus que meu pai comprara em sociedade com meu tio Altair Perri, fazia a linha “Praça Tiradentes-Capelinha”. Mais ágil que os bondes, o lotação causava incômodo apenas para os mais altos, quando precisavam viajar em pé, no corredor entre as duas fileiras de duplos bancos. A pouca altura da carroceria obrigava-os a dobrarem a cabeça ou o corpo, para se acomodarem à situação. Quando alguém descia, o suspiro de alívio era inevitável: um assento desocupara.
Parando nos pontos, para entrada ou saída de passageiros, a porta era aberta e fechada manualmente, através de manivela colocada junto ao painel. Esforço constante a desenvolver os músculos (mas apenas os do braço direito)!
O corredor era o meu lugar de trabalho. Com moedas de diversos valores, colocadas unidas, em forma de cilindro e em ordem decrescente, da palma da mão às falanges, ia eu até os passageiros, durante o trajeto e, com rápido e hábil movimento dos dedos, fazia tilintar as moedas, sinal conhecido para a cobrança da passagem.
Ida e volta; ida e volta... até à meia-noite. Era a última viagem... Não importava se havia ou não passageiros no ponto inicial, na Praça Tiradentes, ou nos intermediários, durante o trajeto: o itinerário tinha que ser completado. O sentido de responsabilidade pelo compromisso assumido era o único fiscal a exigir o cumprimento do roteiro até o ponto final, na Capelinha, situada na confluência das avenidas República Argentina e Água Verde.
Era hora do retorno. Passar em frente ao cemitério, naquele silencioso início de madrugada, vez ou outra ainda provocava algum arrepio. O cansaço e o sono, porém, eram mais fortes. O corpo de criança largado num dos assentos e saciada a vontade de desfilar por entre os bancos, o cansaço e o sono eram os companheiros da viagem de retorno à casa e à cama macia, acolhedora, com colchão de palha de milho desfiada, lençol cheirando a limpeza, travesseiro de paina e acolchoado de pena.
Talvez então pudesse sonhar com as verdadeiras emoções e reais motivos que levavam o coração a se agitar, empolgado, ansioso, irrequieto, sempre que o convite-ordem era manifestado: – “vamos fazer a meia-noite”...


Texto extraído do livro "Luzes no Espelho - memórias do corpo e da emoção" de Adélia Maria Woellner, que se encontra à venda neste site.

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