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   > MORDAÇAS CULTURAIS?



Tânia Gabrielli-Pohlmann
      RESENHAS

MORDAÇAS CULTURAIS?


“... A língua é minha pátria,
e eu não tenho pátria,
tenho mátria e quero frátria...”
“Língua”
Caetano Veloso



“Vossa Mercedes aceita uma chávena de chá?” – tradução: “Cê qué um chá?”


Pois é... Nossa belíssima Língua Portuguesa está sendo muito maltratada... Mas nos orgulhamos de nossa unicidade lingüística, apesar de nossos quase 8.600.000 Km². Oficialmente não há dialetos no Brasil. E nos orgulhamos disto. De uma mentira oficializada? De um massacre brutal, porém discreto?
Que tenhamos apenas uma língua oficial em todo o território brasileiro é de se aceitar e de causar orgulho. Especialmente quando se vê a dificuldade de comunicação entre os habitantes de um país territorialmente tão menor do que o Brasil. Aqui no norte da Alemanha, por exemplo, fala-se o “Hochdeutsch” – língua padrão da Alemanha, codificada após a tradução da Bíblia por Martinho Lutero. Mas os dialetos fazem parte ativa do cotidiano alemão; de forma, às vezes, caótica; outras vezes, como implemento cultural. Há dicionários de “Bairisch”, dialeto falado na Bavária, e de “Plattdeutsch”, que na realidade designa diversos dialetos alemães. O dialeto frísio voltou a ser disciplina obrigatória em algumas escolas da região correspondente. “A tradição lingüística precisa ser mantida”, comenta uma professora responsável pelo projeto. Em vários centros culturais são realizadas leituras em diversos dialetos. O Latim é matéria obrigatória em todos os colégios. E nós, o que fazemos por nossos dialetos? Não os temos? E o que dizer dos dialetos e das línguas indígenas? O que se tem feito para salvar este patrimônio, além dos cursos optativos de tupi-guarani oferecidos pela Universidade de São Paulo? Por que é que só se recorre a tais grupos lingüísticos quando se tem por objetivo possibilitar pesquisas científicas, por exemplo, que incluam orientação a respeito de ervas medicinais, cujo manuseio nos é tão desconhecido? E por que não se insere o Latim novamente em nossas escolas?
De acordo com estimativa dos organizadores do “ATLAS DE LAS LENGUAS DEL MUNDO EN PELIGRO DE DISAPARICIÓN” (UNESCO), atualmente existem entre 5.000 e 6.000 línguas faladas no mundo. E jamais houve um processo tão rápido de extinção como nos últimos trezentos anos. Apenas no Brasil foram detectadas 49 línguas entre extintas, moribundas, seriamente ameaçadas e ameaçadas. A Pataxó já está extinta. Dentre as moribundas, a Suriána, falada no extremo oeste do Amazonas; a Baré, na região do Rio Negro; a Máku, região central do Amazonas; Awakê, no norte do mesmo; Botocudo, entre o Espírito Santo e Sergipe; Xetá, no Paraná... Ao todo, dezesseis línguas já não possuem representantes que poderiam colaborar na catalogação e no ensino das mesmas. Tarde demais.
Dentre as línguas seriamente ameaçadas de extinção estão a Ofayê, no centro-oeste brasileiro; a Aweti, no Mato Grosso do Sul; a Shikuyana, na Ilha do Marajó. São, ao todo, 24. E sete estão ameaçadas. No mundo inteiro a estimativa é alarmante: pelo menos 3.000 das 5.000-6.000 faladas enquadram-se nos critérios que as caracterizam como ameaçadas, seriamente ameaçadas ou moribundas.
Mas, o que significa exatamente dizer que uma língua está “em perigo”? Segundo o “ATLAS DE LAS LENGUAS DEL MUNDO EN PELIGRO DE DISAPARICIÓN”, significa, de maneira geral, “qualquer idioma de uma comunidade que não se ensina mais às crianças ou, pelo menos, a uma grande parte dessas crianças (pelo menos 30%)”.
A ameaça de extinção é definida por fatores diversos, além do acima citado. Mesmo quando o idioma é ensinado e falado pelas crianças de uma comunidade, a migração e o conseqüente isolamento de falantes de uma dada língua também constitui um sério fator de risco.
A UNESCO, em parceria com o Comitê Internacional Permanente de Lingüistas (CIPL), com o Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (CIPSH) e com demais instituições espalhadas pelo mundo inteiro têm fomentado as pesquisas iniciadas por Stephen A. Wurm, professor e pesquisador da Research School of Pacific and Asian Studies, da The Australian National University, Canberra. Congressos e pesquisas in locum têm sido realizados, ainda, periodicamente e os resultados têm sido compilados em relatórios editados pela UNESCO e posteriormente inseridos nas edições subseqüentes do referido Atlas.
O “ATLAS DE LAS LENGUAS DEL MUNDO EN PELIGRO DE DISAPARICIÓN” foi editado em 1996, contendo quinze mapas detalhados e um panorama lingüístico mundial, além de um capítulo dedicado à história das línguas e do processo de desaparecimento de muitas delas em função, também, da história. A edição é da UNESCO PUBLISHING em parceria com a PACIFIC LINGUISTICS. (ISBN: 92-3-303255-8)
Em 2001 foi editada a versão inglesa “ATLAS OF THE WORLD’S LANGUAGES IN DANGER OF DISAPPEARING”, aumentada, revisada e atualizada, contendo, ainda, informações a respeito de participações e colaborações na continuidade dessas pesquisas. A UNESCO PUBLISHING é a responsável por esta edição. (ISBN: 92-3-103798-6).
Segundo Stephen A. Wurm, “cada idioma é o meio pelo qual se expressa o patrimônio cultural imaterial de um povo.” Se pensarmos em nossa história, bem como na história de toda a América Latina e no (in)conseqüente processo de “civilização” de tantos povos indígenas e a supressão de tantas línguas em tão pouco tempo, torna-se clara toda a problemática que envolve a questão de nossa identidade...


“Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer,
o que pode
esta língua?”
“Língua”
Caetano Veloso



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Tânia Gabrielli-Pohlmann é escritora, tradutora paulistana, radicada na Alemanha, onde produz e apresenta dois programas de rádio, dedicados à história, à cultura e à música brasileira. Contatos: a-casa-dos-taurinos@osnanet.de



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