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   > TRADICIONES PERUANAS DE RICARDO PALMA



Tânia Gabrielli-Pohlmann
      RESENHAS

TRADICIONES PERUANAS DE RICARDO PALMA

Coordenada por Julio Ortega, a Edição Crítica de “Tradiciones Peruanas”, de Ricardo Palma, é o 23° Tomo da Coleção Arquivos, um dos mais arrojados projetos de conservação, divulgação e reavaliação da literatura hispano-americana do século XIX, viabilizado graças ao fomento da UNESCO PUBLISHING. (leia mais a respeito em “Coleção Arquivos – Tesouros Eternos da Literatura Ibero-Americana”)

Impressa na Espanha, esta primeira edição é de 1997 e conta com a coparticipação da Sociedad Estatal Quinto Centenario de Espana. O resultado de tal parceria é um tomo de 658 páginas esmeradamente encadernado, com ilustração de capa do pintor e escultor peruano Joaquín Roca-Rey, desenho do espanhol Manuel Ruiz-Ángeles e um dos mais minuciosos estudos sobre a vida e a obra do Autor peruano, considerado por muitos como o criador das Tradições, embora se encontrem menções anteriores ao estilo.

Alfredo Bryce-Echenique assina a Liminar “Para Volver a Palma”, na qual expressa seu pensamento a respeito da semelhança representativa de Ricardo Palma na literatura peruana (e atreve-se a dizer que “de certo modo, também para a literatura lationoamericana”) com a de Mark Twain na literatura norteamericana. Sua declaração baseia-se na observação de que “ambos escritores souberam ler os grandes narradores de suas respectivas pátrias-mães, mas ambos souberam também colocar um ponto final em uma literatura que, no caso do Peru, Riva Agüero havia classificado como 'de província da espanhola', ao passo que Ricardo Palma e Mark Twain optaram por abandonar o salão no qual se escrevia como em Madri ou Londres, entraram na taverna, como diria o (...) agudíssimo crítico e novelista Juan Benet, concentrando suas atenções ao que seus contemporâneos consideravam o depósito de lixo da linguagem popular, e terminaram escrevendo como se falava e se devia escrever...”

Os textos e as notas foram estabelecidos por Julio Ortega e Flor María Rodríguez-Arena. Seguindo o esquema padrão da Coleção Arquivos, Tradiciones Peruanas está dividido em sete partes principais, sendo a Introdução subdividida em três seções, constituídas de “Liminar: Para Volver a Palma”, de Alfredo Bryce-Echenique; “Para una Relectura Crítica de Palma”, de Julio Ortega e “Nota a la Edición”, também de Julio Ortega. A segunda parte, “El Texto”, traz as Tradiciones divididas em oito séries, além de “Cachivachería” e “Tradiciones en Salsa Verde”.

Consolación”, escrita em 1851, “El Hermano de Atahualpa”, de 1852 ambas publicadas respectivamente em 1866 e em 1864 na Revista de Buenos Aires, e “Lida”, cuja primeira versão foi escrita, também segundo o Autor, em 1853, e publicada em 1861 na Revista de Sud América, são as três primeiras Tradições de Ricardo Palma e encontram-se no Apêndice da Obra, com notas indicadoras das alterações ocorridas nos textos originais. A reconstrução textual foi realizada por Merlin D. Compton, que também apresenta “Las Tradiciones y las Génesis del Gênero”.

A quarta parte, “Historia del Texto”, é incorporada por “Historia Editorial y Literária”, de Flor María Rodríguez-Arenas, e “Las Tradiciones Peruanas y el Proceso Cultural del XIX Hispanoamericano”, de Julio Ortega. O Tomo conta, ainda, com as análises de Aníbal González, sob o título “Entre la Historia y el Periodismo”, Roy L. Tanner, em “Entre la Ironía y la Sátira” e Fernando Unzueta, em “Las Tradiciones y la Cuestión Nacional”.

A sexta parte da Obra apresenta resenhas e artigos de Luis Loayza, Alessandro Martinengo, Alberto Escobar, Bernard Lavallé, Henry Bonneville, Paul Alexandru Georgescu e José Miguel Oviedo. A última parte é dedicada a uma vasta bibiografia, organizada por Flor María Rodríguez-Arenas.

Lima, 1833. O general liberal Luis Orbegoso é eleito presidente. O México também elege um general – Antonio López de Santa Anna – presidente. Morre Fernando VII na Espanha, sua filha Isabel, então com três anos, o sucede no trono e a regência passa às mãos de María Cristina. Sob este cenário nasce, em Lima, Ricardo Palma, que ainda na juventude viria a se dedicar ao jornalismo e à literatura, com poemas, peças teatrais e sátiras políticas.. Aos 21 anos passa a prestar serviços contábeis no navio Rimac, que um ano mais tarde naufraga. Ricardo Palma sobrevive e, após caminhar por três e dias e três noites em busca de sobrevivência, chega ao povoado de Acarí:

“El naufragio del vapor de guerra Rimac ... no fue al principio gran catástrofe, pues de novecientos que éramos ... no excedieron de 12 los ahogados ... pero cuando congregados en la playa nos echamos a deliberar sobre la situación, y nos convencimos de que para llegar a poblado, necesitábamos emprender jornada larga, sin más guía que la Providencia, francamente que los pelos se nos pusieron de punta.”
“Orgulho de Cacique”


As lutas que Palma viria a enfrentar, não apenas por sua própria sobrevivência, como pela preservação da cultura de sua pátria, vão definindo seu estilo, inclinando-o à prosa, que passa a testemunhar não apenas os fatos históricos e aristocráticos peruanos. Para Palma a oralidade de seu povo é a principal intérprete de sua história, capaz de deixar o passado, feito “eco do fragmentário discurso latente que é a coletividade” (Julio Ortega), e apontar no presente a sobrevivência da essência de um Peru colonial, porém agregado ao ideal de uma identidade. O grande tradicionalista oferece uma das maiores contribuições na reconstrução do passado peruano, mesclando fatos históricos e descrições picarescas da sociedade que lhe constituía, sob a dialética realidade/fantasia, aproximando-lhe os extremos e desmistificando o aristocrático:



“(...) Concluía el año de 1550, y era alcalde de la villa (
Villa Imperial de Potosí) el licenciado don Diego de Esquivel, hombre atrabiliario y codicioso, de quien cuenta la fama que era capaz de poner en subasta la justicia, a trueque de barras de plata.
Su señoría era también guloso de la fruta del paraíso, y en la imperial villa se murmuraba mucho acerca de sus prapisondas mujeriegas. Como no se había puesto nunca en el trance de quel el cura de la parroquia le leyese la famosa epístola de San Pablo, don Diego de Esquivel hacía gala de pertenecer al gremio de los solterones, que tengo para mi constituyen, si no una plaga social, una amenaza contra la propiedad del prójimo. Hay quien afirma que los comunistas y los solterones son bípedos que se asimilan.”
“Las Orejas del Alcalde – Crónica de la época del segundo virrey del Perú”,
publicada pela primeira vez em 1873, no El Coreo del Perú.


A política constitui um de seus maiores interesses. Em 1859 participa da vitória do Peru na guerra contra o Equador e passa a combater a nova política de Castilla. Palma adere aos Liberais e em 1860 envolve-se em uma conspiração que culmina com o seqüestro do presidente Castilla. O complô é descoberto e Ricardo Palma segue em exílio para o Chile, onde permanece por dois anos, durante os quais escreve intensamente, mantendo, ainda, correspondência com Juan María Gutiérrez. Seu retorno ao Peru lhe vale nomeações influentes, como Cônsul do Peru no Pará, funcionário do Ministério de Guerra e senador por Loreto. Em suas viagens à Europa trava conhecimento com Ascasubi, Gonçalves Dias, Torres Caicedo e Lamartine. Escreve, ainda em 1859, “El Nazareno”, que é publicada um ano mais tarde na Revista de Lima. Nesta tradição, Palma escandaliza com sua linguagem crua e irônica, ao desnudar não apenas Don Diego de Arellano. O clero vê-se, igualmente, alvo da picardia de Palma:



“Tal era don Diego de Arellano, uno de los hombres que en la culta capital del virreinato daba, por sus excentricidades y escándalo, asunto a los corrillos de los desocupados. Y nótese que no lo llamamos el único proveedor de la crónica popular, porque existía otro personaje a quien llamaban el Nazareno, ser misterioso que, al contrario del capitán, representaba sobre la tierra la Providencia de los que sufren.”


Após salvar-se de um bombardeio na luta contra a esquadra espanhola na Torre La Merced, no qual Gálvez é fatalmente atingido, Palma segue a causa revolucionária de Balta contra o governo ditatorial de Prado, paralelamente assumindo a redação do jornal satírico e político “La Campana”, colaborando, também, com “El Correo del Perú” e “La Broma”. Ainda em 1867 publica “Congreso Constituyente” sob o pseudônimo “Un Companero”. Um ano mais tarde atinge o apogeu de seu prestígio político e pessoal como secretário particular do presidente Balta. Na literatura, porém, Palma continua registrando a história popular, confrontando o código cronológico no qual a história oficial se ordena, e o tempo mítico requerido pela história popular:



“Érase que se era y que el mal que se vaya y el bien se nos venga, que allá por los primeros años del pasado siglo existía, en pleno portal de Escribanos de las tres veces coronada ciudad de los Reyes del Perú, un cartulario de antiparras cabalgadas sobre nariz ciceroniana, pluma de ganso u otra ave de rapiña, tintero de cuerno, gregüescos de paño azul a media pierna, jubón de tiritaña y capa española de color parecido a Diosen lo incomprensible, y que le había llegado por legítima herencia pasando de padres a hijos durante tres generaciones.”
“Don Dimas de La Tijereta – Cuento de viejas que trata de cómo un escribano le ganó un pleito al diablo”,
pela primeira vez publicada em 1864, na Revista de Buenos Aires.


Abandona a política em 1875; seis anos mais tarde, luta na Batalha de Miraflores contra o Chile. Abatido pela derrota, pelo incêndio de sua casa e pela perda de sua biblioteca e de seus manuscritos nos quais havia trabalhado durante muitos anos, isola-se em Miraflores durante quase dez anos. Em 1883 assume a direção da Biblioteca Nacional, restaurando as coleções danificadas no saque sofrido por tropas inimigas, através de seu prestígio junto a instituições mundiais e literatos que lhe cedem as obras então destruídas. Este gesto o faz ficar conhecido, nesses meios, como o “Bibliotecário Mendigo”. Após quase trinta anos nesta função e de atividades literárias, volta a Miraflores, em busca de tranqüilidade que não encontra, pois prossegue escrevendo e combatendo o marasmo literário peruano. Aos 75 anos, apesar da proibição médica de escrever, não se deixa limitar à correspondência pessoal e literária. Publica, em 1910, “Apéndice a mis últimas tradiciones peruanas” e recusa sua coroação literária. Continua escrevendo, engajado na Biblioteca Nacional até sua morte, ocorrida a 6 de outubro de 1919, tendo recebido honras fúnebres correspondentes às de um Ministro de Estado.

Segundo Alfredo Bryce-Echenique, a obra de Ricardo Palma é muito mais do que Lima burlando-se de si mesma, entretendo-se e bocejando no sonhar desperto de uma interminável sesta colonial. E acrescenta: “Y se equivoca Sebastián Salazar Bondy cuando mete en un solo saco a Palma, Segura, y Pardo y Aliaga. Toda la cortesana hipocresía que emana de las páginas limeñas de Palma hace que sus Tradiciones puedan ser consideradas, en más de un aspecto, precursoras de esa Lima moralmente horrible que con lúcido desasosiego denunciara Salazar Bondy en sus breves ensayos sobre la capital. Yo no pudeo leer al Palma que escribió ayer sin pensar en el presente angustioso de mi país.”

Parece-me injusto classificar Ricardo Palma como o representante máximo do colonialismo, afinal não se pode afirmar que suas “Tradiciones” se deixam mistificar; Palma soube fazer sua obra sobreviver ao cenário incerto de seu país, exatamente por ter-lhe dado como guia e base a linguagem popular. O mesmo não se pode, no entanto, afirmar com relação às obras de outros colonialistas, a exemplo de Laville, que não lograram gozar tão intensa sobrevivência, vendo-se sufocar sob a mortalha de suas linguagens pesadas e acadêmicas. A partir desta constatação, o leitor mais atento certamente saberá interpretar o sorriso irônico provocado pelas Tradiciones Peruanas como tudo, menos como ingenuidade.

Obra: “RICARDO PALMA – TRADICIONES PERUANAS – Edición Crítica”, Coleção Arquivos, Tomo 23
Autor: Editores: UNESCO PUBLISHING e Sociedad Estatal Quinto Centenario de España
ISBN UNESCO: 84-88344-00-7
Primeira edição: 1993, Espanha, 658 páginas.
Site UNESCO PUBLISHING: www.unesco.org/publishing

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Tânia Gabrielli-Pohlmann é escritora, tradutora paulistana, radicada na Alemanha, onde produz e apresenta dois programas de rádio, dedicados à história, à cultura e à música brasileira e latino-americana: “Brasil com S” e “Revista Viva” (com Clemens Pohlmann). Professora de Língua Portuguesa na VHS, Osnabrück e região.
Contatos: a-casa-dos-taurinos@osnanet.de






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