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   > O olhar azul



Vicência Jaguaribe
      CONTOS

O olhar azul

       Quando o exame do líquido amniótico revelou que o feto era portador da Síndrome de Down, ele simplesmente deixou de visitá-la. Ela que cuidasse sozinha daquele fruto adulterado pela natureza. Os filhos que tivera com a esposa eram todos normais, inteligentes. Agora, vinha esse monstrinho de olhos puxados, que só dificultaria a sua vida.           

       Ela sentiu que ele não aceitara o filho doente desde o dia em que lhe mostrara o resultado do exame. Empalidecera ao ler o laudo médico e retirara-se sem nada lhe dizer. Ela entristecera, decepcionara-se, mas nem ao menos lhe telefonara. Desde o dia em que o médico, depois de uma ultrassonografia, lhe falara na possibilidade de ela estar gerando uma criança com algum problema genético, conscientizou-se de que o filho era só seu e de mais ninguém. Tinha condições financeiras de arcar com as despesas da educação e do tratamento médico do menino, por isso não pressionaria o pai e não usaria a criança para fazer chantagem com ele. 

           Quando se aproximara do Eduardo, tinha certeza de que ele jamais deixaria a esposa para ficar com ela. Sabia que não era mais uma jovenzinha e que nem ao menos era bonita. Não tinha nada que fizesse um homem apaixonar-se por ela. Mesmo assim, enfrentara a aventura, porque o amara desde o primeiro instante. Estava em uma fase de carência afetiva e queria alguém com quem pudesse conversar, sair; alguém que lhe fizesse um carinho de vez quando e que, pelo menos, aceitasse seu amor, que nem retribuição pedia. Não planejara aquela gravidez – isto é, pelo menos conscientemente, não. Sabia que uma gravidez na sua idade corria todos os ricos, mas não pensara em aborto. Quando o médico lhe deu a notícia, ficou triste, mas logo se alegrou. De qualquer maneira era um filho. E um filho é sempre uma bênção – dizia sua avó. Mesmo com Síndrome de Down, acrescentava ela mentalmente.           

          Durante os nove meses de espera, ele não deu notícia. E ela, magoada, não o procurou. Naquele momento, terminava de arrumar o quarto do Josué – dar-lhe-ia o nome de seu pai. Mandara pintar o teto de um azul muito suave e o decorara com a lua e as estrelas. As paredes, pintadas de um azul um pouco mais forte, contavam a história do Pequeno Polegar. Queria que a sua criança, que já iria enfrentar uma realidade cruel, tivesse, pelo menos em casa, um mundo encantado onde pudesse sonhar, sem que suas limitações lhe impusessem barreiras.           

        Acabava de dar os últimos retoques no cortinado do berço, quando sentiu uma forte pontada na barriga. Meu Deus! Marcara a cesariana para a semana seguinte. Será que o filho estava com pressa de chegar ao mundo? Passara aqueles nove meses tão quietinho em seu ventre que, se não fosse o tamanho da barriga, juraria que não estava esperando filho nenhum. Telefonou ao médico, que a mandou ir para o hospital. Chamou a cunhada, que a acompanhou, e perguntou se queria avisar ao pai. Ela balançou a cabeça negativamente, e uma lágrima rolou. A cunhada ficou sem saber o que provocara aquela lágrima: Uma contração mais forte? A emoção de saber que dentro de poucas horas teria o filho no braço? Ou a tristeza de não ter com ela o pai de seu filho naquele momento crucial?           

           Quando o médico colocou em seus braços aquele pedacinho de gente ainda sujo do parto, ela sentiu-se transportada a um lugar mágico, onde só os dois existiam. Não viu mais ninguém à sua volta. Apertou-o contra si e murmurou-lhe baixinho: Eu estou aqui, meu filho. Vamos estar sempre juntos, e você vai ser feliz. Quando a enfermeira o retirou de seus braços, ela fechou os olhos e pediu a Deus força, porque coragem não lhe faltava.           

          O menino era branquinho, sem nenhum cabelo e tinha aqueles olhos orientalizados, característicos das vítimas da Síndrome de Down – mas de um azul puríssimo. Os olhos do pai, concluiu. Tinha os membros perfeitos, os dedos na quantidade certa. Sua genitália era normal. Eram as constatações da mãe, quando o teve em cima da cama e pôde virar-se e tirar sua roupinha. Mas seu corpinho era mais molezinho do que o de outros bebês que ela já tivera nos braços. Não conseguia sustentar a cabeça – sinal de que apresentava hipotonia muscular e hiperflexibilidade articular. Examinou as orelhas e percebeu que eram muito pequenas e com um desenho diferente. Só o perfil não era tão achatado como ela vira em outras crianças com a síndrome. Parou por ali. Por mais preparada que estivesse, aquelas constatações haviam mexido com sua sensibilidade. Vestiu novamente a criança e chamou a enfermeira para pô-la no berço.           

         Quando a enfermeira saiu, ela encolheu-se na cama e cobriu-se, como se com aquele gesto pudesse mudar o destino do filho. Foi a única vez em que sofreu com a consciência da excepcionalidade do filho. Cochilou um pouco e sonhou com o seu menino rindo e beijando-a. Acordou mais confortada e, quando a enfermeira o trouxe para ela amamentá-lo, recebeu-o como receberia uma criança santa. Enquanto mamava, o filho fixou o olhar no seu rosto, como se já a reconhecesse. E ela surpreendeu-se com o azul de seus olhos. Era um azul claro – azul celeste – e doce, que a acompanharia por toda a vida.           

         Não, não fantasiava a situação do filho nem o trabalho que teria para criá-lo. Sabia que, muitas vezes, teria de sacrificar-se por ele. Teria que esquecer suas viagens, seus passeios, suas muitas horas de leitura, para dedicar-se a ele e a seu desenvolvimento. Isso a assustava um pouco. Mas estava disposta ao sacrifício. Sim, não era ingênua, sabia que seria um sacrifício, mas daria conta do recado.           

        Um mês depois da chegada do seu menino, o pai apareceu sem avisar. Conversou pouco com ela e aproximou-se do berço. A criança dormia, mas a mãe a acordou para que o ele pudesse conhecê-la. Ao tirá-lo do berço, quis colocá-lo em seus braços; porém ele recuou. Não tinha jeito com bebês. Mas, quando o filho abriu os olhos, e ele pôde perceber a semelhança com os seus próprios olhos, não se conteve e deixou cair algumas lágrimas. Logo, porém, recompôs-se e disse que providenciaria a certidão de nascimento da criança.           

          Saiu imediatamente do apartamento, sem olhar outra vez para o filho. A ela não disse nem prometeu nada. Ela também não lhe dirigiu a palavra. Por ela, ele estava livre para aceitar ou rejeitar a criança. Qualquer participação na vida do filho seria bem-vinda. Mas não pediria nada, não lhe exigiria nada. Sempre soubera que aquele menino seria seu. Somente seu. E estava feliz. 



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