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   > Uma visita a necropsia



Marlos Mello
      CONTOS

Uma visita a necropsia

Uma visita a necropsia 

Por Marlos Tadeu Bezerra de Mello

 

Neste texto compartilho um dos momentos mais marcantes da minha vida.  É possível que você se surpreenda com as minhas palavras, no entanto tentarei ser breve, mas ao mesmo tempo incisivo no que quero dizer. Também solicito que guardes uma frase que será retomada ao final deste texto: “é preciso menos que a morte para matar uma pessoa”.

            Em certa terça-feira do ano de 2007 acordei pensando que seria mais um dia tranquilo em minha vida. Lembro-me de estar sonhando com algo muito gostoso, contudo no relógio era 7h. Precisava levantar, pois começava, novamente, a me atrasar. Mas o sono era tão bom que queria ficar na cama. Entretanto, na cabeça os horários programados de mais uma manhã de atividades. Na cozinha não havia nada de comer porque eu não tinha ido ao mercado. A casa estava suja e pela janela percebia que iria chover, ou seja, esse não era o melhor dia na minha vida, nem tão pouco o pior. Era mais um dia de semana normal e comum.

             Na noite anterior o vento soprava forte e o frio causava a sensação de congelamento. Tudo dava a entender que ninguém deveria sair da cama naquela terça-feira, porém corajosamente, lá estava eu, em pé. Quem diria! Durante muito tempo fui conhecido por não ser um dos maiores frequentadores das salas de aula, porém naquele dia era um dos poucos a estar disposto a enfrentar a difícil jornada dos estudos.

            O caminho até a faculdade parecia muito longo, pois na rua não havia ninguém. Tudo era silêncio. Na parada do ônibus algumas pessoas conversavam sobre o inverno e a chuva que estava chegando. Ao meu lado estava um casal aproveitando para enamorar naquela fria manhã. Também havia uma senhora com um bebê no colo, ela falava com um rapaz mais jovem, uns 15 anos talvez, mas não dava para entender o que diziam.

            Subimos ao ônibus, cada um procurando espaço naquele veículo coletivo de pouco tamanho. Pra variar, fiquei em pé. Neste caminho até a faculdade fui envolvido em diversos pensamentos, por exemplo, “como as pessoas mudam no inverno, parece que lhe retiram uma parte da alegria”. Talvez você já tenha pensado a respeito disso, mas é muito interessante perceber que as pessoas mudam diante do frio. Não é apenas a expressão, mas também a emoção.

No meio do caminho o ônibus precisou parar. Era um acidente, um corpo estirado ao chão, ao lado havia uma moto e um carro. Algumas pessoas que estavam passando gritavam que o motorista do carro estava alcoolizado. “O carro estava muito rápido”, disse uma senhora aos prantos. “Daqui a pouco será só mais um caso para as estatísticas”, disse o rapaz de cabelo cumprido que logo desceu do ônibus. “Como é possível?”, perguntava o senhor sentado no primeiro banco. “Não há explicação, só Deus sabe”, respondeu a senhora do meu lado.   Naquele momento eu permanecia calado, jamais tinha visto um acidente de perto, nem mesmo havia imaginado uma situação como aquela. De fato, estava impressionado.

            O ônibus prosseguiu em frente. Eu desejei não ter saído de casa. Não queria ver nada daquilo. Para mim a morte é muito difícil e complexa. Abri a minha carteira e vi a foto dos meus avôs. Comecei a rezar a oração mais sincera da minha vida. Agradeci e pedi paz.

            Olhei ao relógio, era 9h e aula devia estar começando. Novamente atrasado, o que eu iria dizer ao professor? A verdade? Puxa vida, mas ele não vai acreditar. Mais uma história, de repente vai até me reprovar, pensava. No entanto, era tomado por um pensamento de tristeza por aquele homem que morreu de forma tão brutal, talvez indo para o trabalho, buscando uma melhor condição de vida, quem sabe.

            Naquele dia até a faculdade parecia diferente, o seu movimento intenso havia desaparecido. O porteiro, meu amigo, perguntou o motivo de ter ido à aula e não tive vergonha em responder: “é porque se faltar de novo vou ficar infrequente” ele olhou pra mim e deu risada. Sabia das minhas preferências e medicina legal não era uma delas.

            Finalmente cheguei à sala de aula. Tive um susto, apenas três colegas, nem mesmo o professor tinha chegado. Pensei comigo “mas como pude ser tão idiota, sair de casa num dia como hoje”. Cumprimentei as colegas e sentei para esperar o professor. As colegas começaram a perguntar se ele viria. Uma disse “vou ligar pra ele”, a outra respondeu “não precisa, já liguei e ele está chegando”.

            Quando o professor entrou a porta, foi como se todos tivessem um “insight”. Algo estava errado. O prof. Carlos. era um homem sério, mas alegre. Suas aulas eram interessantes, pois sua didática era boa. Sempre trouxe exemplos de seu trabalho. Atuava como legista do departamento médico legal há muitos anos.

            A cara de mistério do professor não deixava dúvidas que aquela seria uma aula diferente, pois nem chegou a sentar-se como de costume. O seu olhar era misterioso e essa troca de olhares aumentava nossa curiosidade em saber o que estava acontecendo.  Aquele instante lembrava-me uma cena de infância, quando minha mãe mostrou-me que um olhar pode ser mais angustiante que uma palmada. De fato, essa situação ocorreu nesta mesma sala. Há muitos anos atrás minha mãe ministrava aulas de música na Universidade e estas salas eram no bloco C, hoje pertencentes ao curso de direito.  

            Lembro-me dos pianos ao canto e do velho carpete verde. Na janela colocava meus brinquedos. Naquela época minha mãe não tinha com quem me deixar. Meu pai cantava neste mesmo coral. Na verdade, foi este coral que propiciou o primeiro contato entre meus genitores. E, talvez, graças ao coral estou aqui escrevendo a vocês.

            Aquele ambiente havia mudado muito. Eu era apenas uma criança de 4 ou 5 anos e já corria naqueles corredores em busca de aventuras. Hoje não acredito, mas talvez tenha vivido mais tempo dentro da universidade do que na minha própria casa. Chego a pensar que aquele espaço, mesmo tão simples, é importante para mim, pois estou ligado a ele, de tal forma, que um pouco de mim esta naquelas paredes e vice-versa.

            Das lembranças que eu tenho, grande parte, estão relacionadas à universidade. Dá para acreditar que depositamos nas instituições os melhores anos de nossa vida? Por certo, é nesse espaço de tempo que construímos as relações mais próximas. Confiamos e desconfiamos. Somos traídos em alguns momentos, mas em outros somos muito felizes.

            Os momentos ruins vão ficando pra trás, já não me lembro das coisas ruins e elas não me fazem falta. Outro dia estava a conversar com um amigo e colega de faculdade e percebemos que nos afastamos depois do término. Perguntei-lhe o motivo, mas nem ele sabia e me respondeu dizendo que seria um bom tema de pesquisa. Por que nos afastamos das pessoas que gostamos? Não seriam nossas relações apenas institucionais? Quando termina o institucional e começa o pessoal? Até que momento você deixa de viver a sua vida para viver, puramente, a instituição?

            Essas questões são complexas, tanto ou mais que a morte. Por isso não as compreendo e confesso que nesse momento nem as quero. Não há necessidade de darmos significado a tudo e isso não aprendi na faculdade, nem mesmo com a ciência, mas na convivência com os amigos.

            Finalmente o professor começou a falar e utilizarei aqui as mesmas palavras que ele usou naquela fatídica terça-feira. “Bom dia pessoal, é hoje, separem-se em duplas. Como eu disse, não tem hora para acontecer. Não é obrigado a ir. Hoje é o dia da “visita” a necropsia”.

            Naquele primeiro instante levei um susto. Olhávamos uns aos outros buscando uma resposta. O silêncio tomou todos os espaços, como se numa fração de segundo fosse possível parar o tempo. Um misto de receio e angustia tomou-nos e propagou-se entre os pensamentos de cada um.

            O professor saiu da sala, mas antes disse que voltaria daqui a pouco para irmos até o local. Não sabíamos onde aconteciam as necropsias. Tudo era novo nessa situação. Estávamos, praticamente, apavorados, mas também curiosos em saber como seria. Naqueles momentos eu me perguntava o porquê de estar ali. Eu cursava psicologia e não havia necessidade de estudar medicinal legal, no entanto minha razão sempre se deixou levar pela emoção. Antes de pensar novamente já estava dentro do carro para ir a essa “visita”. 

            Durante o trajeto o professor Carlos foi contando alguns fatos e pedindo que não nos assustássemos com a situação. Para ele era muito comum, pois há muito tempo já estava realizando esse serviço. O fato de a necropsia ser feita no próprio cemitério causou certo espanto e diante daquele portão de ferro tive uma sensação muito ruim, um vazio incessante. Diversos pensamentos tomaram conta da minha consciência, por exemplo, o sentido da necropsia, o fato de estarmos lidando com a história de alguém que, possivelmente, tem ou tinha uma família. Entretanto o olhar do professor nos transmitia uma sensação de paz, pois ele também já havia sentido medo e ansiedade diante daquela situação.

A nossa frente estava o corpo de alguém que há poucas horas tinha sangue correndo em suas artérias e veias. Possivelmente falava, cantava, brincava. Estava com olhos abertos, quem sabe. E a dor que não deve ter sentido? Reclamamos de tantas coisas e na hora da morte apenas sentimos.

            De fato, não sabemos o que acontece no espaço entre vida e morte. Não há quem afirme com certeza que a vida é isso ou aquilo e qual a verdadeira finalidade do existir. É possível que cada um de nós esteja deitado naquela mesa a espera de respostas. Porém onde ficam as nossas buscas? Cada um de nós percorre a vida com suas singularidades, características, vontades e desejos, porém naquele instante somos todos iguais, humanamente iguais.

            Ao poucos fomos conversando e a pessoa encarregada começou a contar um pouco da história da morte daquele homem. Era mais uma vitima de acidente de trânsito: um carro em alta velocidade conduzido por uma pessoa alcoolizada bateu na moto da vítima quando este voltava pra casa depois de uma noite de trabalho.  Situações como esta estão na mídia todos os dias. Em alguns casos, começamos a ler a notícia e já adivinhamos a sua continuação. Que sentido tem tudo isso? De que adianta tanto alarde? O problema não esta apenas na condução do veiculo ou na pessoa do condutor, é preciso entender que há toda uma estrutura que legitima e permite acidentes como este, relatado acima.

            A nossa frente um cadáver e ao seu lado um rapaz aparentando 25 anos, estatura média, cabelos e olhos castanhos com um bisturi na mão. Não dava para enxergar seu rosto, pois estava de máscara. O professor Carlos analisava com cuidado enquanto o rapaz com o bisturi “cortava” o corpo já sem vida. Nós observávamos em silêncio.

Na minha cabeça vários pensamentos passavam rapidamente, mistos de vontade de sair correndo de lá e muitas perguntas, por exemplo, o que estou fazendo da minha vida? Será que estou dando valor a ela? Será que a vida é só isso mesmo? Ao mesmo tempo outros questionamentos a respeito da pessoa que estava ali encarregada de cortar aquele corpo, será que ele consegue dormir a noite? Que tipo de pensamentos ele tem enquanto faz esse trabalho? O professor relatava esmiuçadamente os detalhes do que tinha ocorrido fisicamente e organicamente, buscando encontrar a causa da morte. Uma pessoa encarregada de anotar tudo que o professor Carlos relatava preenchia fichas intermináveis. O tempo não passava e o cheiro era cada vez mais forte. A cada detalhe, a cada fala do professor o ambiente ficava mais pesado.

Num lapso de momento observei no peito do professor uma cruz dourada. Naquele instante uma emoção tomou conta de mim. Foi como se eu visse aquela cruz brilhando em meio a toda aquela dor. Então tive certeza que a vida não pode acabar daquela maneira. Uma paz preencheu meu coração. Comecei a rezar por aquele homem, sem mesmo saber seu nome. Aquela cruz, naquele momento, simbolizava vida e não morte. Algo muito profundo aconteceu e nem mesmo eu sei explicar.

Ao sairmos daquele ambiente sentamos próximo dali a espera do professor. Estávamos em 4 pessoas que, certamente, modificamos a nossa forma de ver a vida. Não havia um barulho se quer. O silêncio tomou conta de tudo e apenas nos entreolhávamos até que começamos a nos abraçar e choramos, talvez, como nunca tivéssemos chorado.

Diante daquele velho portão enferrujado nenhum de nós poderia imaginar que uma experiência tão forte poderia acontecer. Ali todos os dias passam diferentes corpos, pessoas que por diferentes motivos tiveram um findar, muitas vezes, trágico. Em nome de que tudo isso? A história das nossas vidas não deve ser explicada, pois é vivendo que se aprende. As necropsias acontecem diariamente, nas mais diferentes localidades. A busca da causa da morte é uma incógnita, mas e os “acidentes” de trânsito? Bem, esses sim têm motivo, intensidade e frequência, então o que falta para tomarmos uma atitude que acabe de vez com esses crimes brutais?

Para finalizar quero trazer novamente a frase que pedi a vocês que lembrassem “é preciso menos que a morte para matar uma pessoa”. Com a necropsia aprendi que a morte não é o maior sofrimento, mais do que isso, não há como evitá-la. No entanto, há muitas pessoas que estão vivendo sentindo-se mortas e outras que vivem desejando a morte. Em certos momentos de nossas vidas precisamos de ajuda e não devemos ter medo de procurar auxilio, saber reconhecer esse momento é um presente e um pedido que a vida está fazendo. Não tenha medo, peça e busque ajuda, pois você pode encontrar.

  

                         

 

             

 

           

           



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